Uma tarde em Havana

Dedicatória de Ernest Hemingway pendurada na parede do famoso bar de Havana, La Bodeguita del Medio.

PARA M.R.

Cuba em agosto arde e para proteger minha pele muito clara, que exposta ao tempo ganha uma coloração avermelhada, me lambuzo de protetor solar e me enfio numa camiseta de malha branca, mangas compridas. Havia desembarcado em Havana na sexta-feira à noite e no sábado de manhã atravessei o amplo saguão do Hotel Riviera, e, após titubear entre caminhar pela orla ou por dentro de El Vedado, deixei-me seduzir pelas ruas arborizadas do bairro. Mal venci três quadras, no entanto, me deparei com um homem de cerca de quarenta anos, que, abaixado, tosca enxadinha na mão, capinava o mato que crescia num canteiro desenhado na calçada. Ao me ver, num salto se pôs à minha frente, Are you american? Français? Italiano? Embora assustado, sorri, e disse, em espanhol, Sou brasileiro. Brasileiro?!, repetiu. Brasileiros e cubanos são irmãos, declamou, tentando ser agradável, para, em seguida, de súbito, indagar, O senhor não quer me dar essa camiseta de presente? Surpreso, olhei-o. Vestia uma gasta guayabera bege, uma bermuda puída e calçava algo que um dia foram chinelos de couro. Você quer minha camiseta?, insisti, incrédulo. Ele assentiu, olhando para os lados, aflito. Eu falei, Tudo bem, mas precisaria voltar ao hotel para trocar de roupa, não posso andar por aí sem nada. Ele disse, ansioso, Não tem problema, eu espero, mas o senhor volta, não volta? Respondi que sim e perguntei por que ele não me acompanhava. Balançando a cabeça com veemência, Não, senhor, não posso, não posso, verificou se estávamos sendo observados, Mas vou estar aqui, certo?, bem aqui! Atônito, regressei ao quarto, peguei uma muda idêntica, coloquei-a numa sacola de papel, e desci. Fui achá-lo no mesmo lugar, sentado no meio-fio, a enxadinha posta de lado, o olhar agoniado mirando a esquina por onde eu havia desaparecido. Correu ao meu encontro, tomou a sacola de minhas mãos, tirou a camiseta, cheirou-a, Que olor! Que olor!, e agradeceu, Obrigado, senhor, muito obrigado, empurrando-me para que me afastasse. Enquanto me distanciava, ainda ouvi sua voz, Nunca esquecerei, senhor, nunca esquecerei…

Refletia sobre esse episódio, empoleirado numa banqueta no bar do hotel, os braços apoiados no balcão de madeira, um desfile interminável de clipes de ritmos caribenhos na televisão a cabo, meu rosto estilhaçado nos espelhos que recobrem o fundo da prateleira colorida de garrafas de bebidas, quando o barman perguntou se desejava outro mojito. Havia andado sem pressa por quase duas horas, calor de trinta graus. Num terreno baldio parara para espiar um treino de beisebol, esporte que não compreendo regra alguma. Depois, entrei numa tienda para comprar água, do lado de fora alguns velhos, debruçados sobre uma mesa improvisada, jogavam uma partida de dominó e discutiam com entusiasmo sobre algo que não percebi. Mais à frente, cruzara com dois times de garotas praticando remo, as pás roçando harmônicas a lâmina esverdeada. Voltei ao quarto, fiz a barba, tomei banho, coloquei um traje leve, e só quando o barman, indicando a taça vazia, me perguntou se queria mais um mojito, é que me dei conta de que ela me olhava fixamente.

Ao meu lado, um americano, alto e corpulento, encharcava-se de daiquiri, e ouvia, grunhindo interjeições e exclamações, um mexicano, que, bebericando seu mojito, tagarelava, em spanglish, que vinha com frequência a Cuba e se hospedava sempre naquele hotel, Verdad?, Goyo, invocava o testemunho do garçom, que, risonho, adivinhando a generosa gorjeta ao final da carraspana, confirmava, Verdad!, compay. E que certa feita participara de uma recepção em que Fidel Castro também estava, não chegou a vê-lo, mas todos disseram que o Comandante comparecera, etc. etc. Na ponta oposta do balcão, um sujeito, magro e pálido, envergando flamejante terno amarelo, gravata listrada da mesma cor, examinava-nos, com desprezo ou complacência, sorvendo paciente seu copo de rum, envolvido na espessa fumaça de um Gran Corona. Do outro lado do vidro, duas mulheres de meia-idade, desbotadas, provavelmente europeias, maiôs enormes, elegantes chapéus de palha, imensos óculos escuros, conversavam animadamente, esticadas em espreguiçadeiras. Virei o rosto e atrás de mim, no salão repleto de mesas desocupadas, uma mulher sentada sozinha, trinta anos, poucos mais talvez, nem feia nem bonita, cabelos e olhos castanhos. Trocamos olhares, e ela esboçou um sorriso que me pareceu tímido, encabulado, quase pueril.

De natural reservado, em dois tragos engoli o segundo mojito e avancei até onde ela se encontrava. Perguntei se lhe podia fazer companhia. Espreitando à volta, ela falou, Claro. Puxei uma cadeira, sentei, ela indagou, Italiano? Brasileiro, respondi. Brasileiro!? Me encantam os brasileiros!, são tão simpáticos! Vamos beber alguma coisa?, propus. Ela disse que, se não fosse incomodar, tomaria uma Cristal. Sinalizei para o tal Goyo, ele se aproximou, pedi a cerveja para ela e um terceiro mojito para mim. Estendi a mão, declinei meu nome, ela a apertou, Nádia… Nádia?! É nome russo, não é?, puxei conversa, e ela, estimulada pela minha curiosidade, contou, Sou polovinka, mestiça, meu pai era russo… Médico… Viveu aqui alguns anos… Depois voltou para a terra dele… deixou minha mãe… eu era pequena… Ele se chamava… chama… Oleg… De repente, silenciou, alheada. Você tem biquíni?, perguntei, Podíamos ir para a beira da piscina… Ela retrucou, sem graça, que não, na verdade não podia frequentar a piscina… Por quê?, questionei, indignado. Goyo chegava com as bebidas, ela se calou.

Com vagar, depositou a garrafa, os copos e o cinzeiro sobre a mesa, e demorou-se, rodeando em desnecessária função, até ser convocado com estardalhaço pelo mexicano, que o queria como avalista de alguma nova história. Quando se distanciou, pensei em retomar o assunto da piscina, mas Nádia antecipou-se, Quer ver uma coisa?, e tirou da bolsa surrada, napa imitando couro, um saco plástico que envolvia, cuidadosamente, um pequeno álbum. Desembrulhou-o e me entregou. Abri e, para minha surpresa, surgiram sete ou oito fotografias, tamanho dez por quinze, pareciam reveladas há algum tempo, mostrando-a de calcinha e sutiã vermelhos em poses pretensamente eróticas, deitada numa toalha estendida no chão, abraçada a árvores, mirando lânguida a câmera… Imagens amadoras, desfocadas, nas quais Nádia forçava uma naturalidade impossível, denunciada por seu embaraço, pelas mãos trêmulas de quem as tirou, pelo abandono do cenário, um quintal de mato alto e entulhos ao fundo. Eu repassava as páginas do álbum, constrangido, quando ela, percebendo que Goyo retornava, arrancou-o da minha mão, embrulhou-o no saco plástico e devolveu-o rapidamente à bolsa surrada. O garçom, olhando-a de esguelha, perguntou-me se queria mais alguma coisa. Pedi que nos trouxesse uns tostones para picar. Ele assentiu, voltou a fitar Nádia e se foi, moroso. Ela falou, Meu sonho é ser modelo, por isso ando com essas fotos… Você acha que levo jeito? Eu a contemplei com carinho, Claro, Nádia, claro que sim. Seus olhos brilharam por instantes, mas em seguida embaciaram-se novamente, pois sabia que ambos mentíamos. Tomei outro mojito, ela mais uma cerveja, falamos sobre o Brasil, tema pelo qual ela demonstrou genuíno interesse, especulando sobre como as pessoas viviam, o que comiam, o que vestiam, como se divertiam, etc. Passava da uma hora, convidei-a para almoçar, ela disse, sempre sondando furtivamente Goyo, que não tinha apetite, mas que se eu gostasse poderia me guiar, conhecia bons paladares onde comer. Eu aceitei a sugestão, acrescentando que depois passearíamos pela cidade, e seu rosto corou de contentamento. Expliquei que antes precisava ir ao quarto, pegar boné, documentos, dinheiro, e cogitei que ela me seguisse. Nádia replicou, amedrontada, Não, não posso, Eles, e disse vagamente “eles” como algo intangível, invisível, todavia presente, concreto, me impediriam. Eu retruquei, Mas você está comigo… Então, em pânico, implorou, Não, por favor, não insista, por favor!

Logo que entramos no almendrón, um Chevrolet Bel Air 1956, azul, o falante taxista Reyes perguntou o que estava achando de Cuba. Respondi que era meu primeiro dia no país e que, embora tivesse vindo a trabalho, pretendia visitar alguns lugares, como, por exemplo, o Museu Hemingway. Quando disse Hemingway, ele demonstrou imensa satisfação, Sou fã de Hemingway, comentou, Li tudo dele! O senhor não pode deixar de conhecer La Bodeguita del Medio, onde ele se emborrachava de mojito, nem La Floridita, onde ele se emborrachava de daiquiri, completou, gracejando. Meu livro preferido é “O velho e o mar”, que se passa aqui, em Cuba… E o do senhor? “Por quem os sinos dobram”, revelei. Ah, então é obrigatório ir ao quarto dele no Hotel Ambos Mundos! Foi lá que ele escreveu esse romance! E, enquanto nos conduzia para Habana Vieja, o carro percorrendo lentamente o Malecón, o infindo mar azul-turquesa à nossa esquerda, Reyes discorria sobre personagens e tramas de Hemingway, intercalando exclamações, Grande escritor! Grande homem! Gostava de bebida e de mulheres, as melhores coisas da vida, disse, para em seguida corrigir, filosofando suspiroso, Na verdade, as únicas coisas boas da vida… Quando nos desembarcou, perto da Plaza de la Catedral, fez com que prometesse que iria contratá-lo para levar à Finca Vigía, onde se situa o museu. Me emociono todas as vezes que vou lá, confessou, ao nos despedirmos. Nádia permaneceu quieta durante todo o trajeto e quando seguíamos na direção do paladar, pela pequena rua sem saída que corre transversal à praça, me fez explicar quem era afinal a pessoa da qual falávamos com tanta consideração.

Fomos encaminhados ao único lugar disponível, no fundo do restaurante. Para tentar abrandar a sensação de calor, que os ventiladores não conseguiam, pedi uma cerveja Bucanero bem gelada, e Nádia uma TuKola, o refrigerante local. Com paciência, me ouviu recitar os pratos, poucos, presentes no cardápio, e, embora repisasse que não estava com fome, quando o garçom voltou com as bebidas ignorei sua teimosia e solicitei duas ropa vieja, espécie de carne de boi desfiada com molho de tomate, sobre o qual ela comentara com raro arrebatamento. Depois que ele se afastou, permanecemos calados, sufocados pela algazarra das vozes e o barulho dos talheres raspando na louça. Eu examinava as outras mesas, todas ocupadas por estrangeiros. Ela, contemplando, longínqua, os relógios de pêndulo que decoram as paredes, anelava uma mecha do cabelo com o dedo indicador da mão esquerda, enquanto a direita, unhas de esmalte vermelho descascadas, jazia desamparada sobre a toalha branca. De repente, virando-se para mim, Quantos anos você acha que eu tenho? Eu a encarei, Essa não é uma pergunta que se faça a um homem, Nádia! Quantos anos?, insistiu. Contrariado, falei, Vinte e oito, para contentá-la. Vinte e cinco, murmurou, sem demonstrar decepção, frustração, desagrado, mas amargura. Pensei em me retratar, mas irritei-me com o que soava como óbvia mentira. Desconversei, Você é daqui mesmo de Havana? Ela disse que sim. Nádia reparava num grupo de turistas que aguardava na porta. Então questionou, distraída, se era verdade que no Brasil havia índios. Respondi afirmativamente, e ela indagou se eu já tinha namorado alguma índia. Com má vontade, falei que não, e mergulhamos de novo no desconfortável silêncio. Após alguns minutos, ela disse, jovial, Sabe que quase casei com um brasileiro?!… O nome dele é Rafael… No ano passado, esteve aqui, ficou apaixonado por mim… Pegou meu endereço, falou que ia me escrever, nos casaríamos e ele ia me levar para viver no Brasil… Onde ele mora?, perguntei, burocrático. Em São Paulo. E o que ele faz? É advogado… Ela quedou pensativa. Nunca mais deu notícia… Deve ter perdido o endereço… Também, estava anotado num papelzinho tão pequenininho… É, é possível, concordei. Os brasileiros são simpáticos, repetiu. Os espanhóis também, mas eles e os italianos não tencionam casar, só querem jarana. Eu ignorava o significado da palavra, ela explicou, com gestos, algo que entendi como farra, bagunça. O garçom surgiu com a comida, pedi outra TuKola para Nádia. Durante o almoço permanecemos ensimesmados, embora, percebi, ela saboreasse com prazer cada garfada de ropa vieja. Depois, sem que precisasse convencê-la, aceitou a sobremesa, flan de piña. Paguei a conta e, assim que pusemos os pés na rua, ela, mudando de humor, me deu a mão, e, para demonstrar sua felicidade, beijou meu rosto, colegialmente, segredando, Você não é igual aos outros. Não sou? Não, não é… Você não tem vergonha de mim… Não perde a paciência comigo… Você é… sentimental… Eu ri e contrapus, Hemingway escreveu que os sentimentais estão sempre sendo traídos… Ela adiantou-se, barrando a minha frente, E você concorda com ele? Mirando o céu azulíssimo, sem nuvens, respondi, Sim, Nádia, acho que ele tem toda razão…

Enquanto me deleitava com a magnífica portada barroca da Catedral de campanários assimétricos, a camisa e o boné ensopados de suor, Nádia permaneceu distante. Depois, penetramos respeitosos a nave principal e estaquei suspenso no meio do edifício, absorvido pelas nuanças do conjunto arquitetônico. Percorri as capelas laterais, os pés deslizando suaves o mármore preto e branco do piso, admirei as grossas colunas de pedra, tentando localizar os corais usados no material de construção original. Finda a inspeção, busquei-a por entre as poucas pessoas que circulavam pela igreja àquela hora e fui descobri-la sentada no banco de madeira próximo ao altar principal. Sem que notasse, ajeitei-me duas fileiras atrás e observei que reverenciava, com sincera e insuspeitada devoção, a imagem da Purísima Concepción. Poderia jurar que seus olhos achavam-se marejados. Desta maneira se manteve, como em êxtase, por largos minutos, até que, repentinamente, levantou-se, procurando-me aflita. Acenei para ela, pus-me de pé, emparelhamos no corredor central e saímos, a luz intensa castigando a vista desacostumada. Seguimos sem pressa pela abarrotada rua San Ignácio, todo o tempo abordados por insistentes mas discretos vendedores de artigos os mais diversos, de charutos a cedês, de garrafas de rum a notas de pesos cubanos antigos com assinatura de Che Guevara quando presidente do Banco Central. No trajeto, indaguei, para fazer conversa, se ela era religiosa, mas ao invés de responder, devolveu a pergunta. Eu disse que me considerava um católico não praticante, com influência pascalina. Nádia não me pareceu interessada em destrinchar o “católico não praticante com influência pascalina”, mas eu, no afã talvez de impressioná-la, argumentei: Se eu pratico o bem e Deus existe, minha alma está salva. Se eu pratico o bem e Deus não existe, pelo menos fui um homem bom. Ela continuou ausente, até que, de forma inesperada, encarou-me, estática, e não disse nada.

Durante o passeio pela feira de antiguidades da Plaza de Armas, Nádia mostrou-se descontraída. Havana inteira exala um aroma de fumo, eu disse. Lembra minha infância. Ela, aspirando o ar quente, falou, alegre, Com o tempo a gente se acostuma, mas é bom mesmo… E entrelaçando nossos braços, encostou a cabeça no meu ombro. Andamos assim, à sombra das árvores, até que perguntou se eu era casado. Respondi, Viúvo. Viúvo?!, e aninhou-se mais ao meu corpo, emotiva. Sim, me casei seis vezes e seis vezes fiquei viúvo. Assustada, Nádia se desprendeu de mim. Você ficou viúvo seis vezes?! É… Todas as minhas esposas morreram de maneira estranha… como se tivessem sido envenenadas… Ela teve um acesso de riso, murmurou, dengosa, Tonto! E agarrou-me de novo. Você é mulherengo? Não, acho que não… O que me atrai nas mulheres é a forma. A forma? Sim, a beleza do corpo feminino. Emudeceu, meditativa. E você me considera… bonita? Sim, muito! Continuamos circulando por entre as inúmeras barracas. Comprei dois títulos de Alejo Carpentier, “La ciudad de las Columnas” e “El siglo de las luces”, e um bottom para ela, o ursinho Misha, símbolo das Olimpíadas de Moscou. Também descobri, contente, uma edição de “Hemingway en Cuba”, de Norberto Fuentes. Você quer saber mais sobre Hemingway? E entreguei-lhe o grosso volume, quase quatrocentas páginas. Ela o sopesou, folheou, e, talvez convencida pelo caderno interno de fotografias, respondeu, Quero. Mas, no momento mesmo em que pagava o preço exorbitante pedido pelo vendedor, intuí que ela não o leria jamais.

Consultei o relógio, passava das seis horas, embora o sol ainda alto e o calor insuportável. Eu atentava curioso para uma coleção de moedas raras, quando Nádia perguntou, de chofre, Quer casar comigo? Respondi, jocoso, E o… como é mesmo o nome dele? De quem? Do seu pretendente brasileiro… Sinceramente ofendida, afastou-se. Cabisbaixa, conservou-se ao largo, me aguardando. Ainda bisbilhotei duas ou três bancas de livros velhos, antes de me juntar a ela. O que fazemos agora?, perguntei, enfastiado. Nádia disse, Vamos pegar um táxi. Eu a segui, tomamos um almendrón, ela anunciou um endereço, o carro alcançou o Malecón, no sentido oposto ao do hotel, para em seguida desviar para um bairro de casas humildes e uma infinidade de gente nas ruas. Ela manteve-se todo o tempo apartada, encerrada num paiol de silêncio. O motorista aumentou o som do rádio e acompanhou, em voz alta, cada uma das salsas que tocaram durante os quase quinze minutos do trajeto. Próximo a um enorme terreno baldio, Nádia mandou que estacionasse e desceu de imediato. Ansioso, acertei o valor combinado. Ela disse, Não ande junto comigo, mas atrás e a certa distância. Por quê?, perguntei. Respondeu, ríspida, Faça deste jeito, para não me criar problema… Prosseguimos por uns cinco minutos. Chegando em frente a uma porta, bateu, surgiu uma cabeça que olhou na minha direção, e ambas entraram. Eu fiquei parado, sem saber como agir. Cumprimentei desconhecidos, amarrei e desamarrei o cadarço do mocassim, analisei com denodo as características das folhas, dos frutos, da casca e dos galhos de uma pequena árvore sob a qual havia me recolhido, repassei impaciente as páginas dos livros que trazia dependurados numa sacola plástica, até notar alguém me fazendo sinais. Precipitei-me agoniado, o coração aos coices. Introduzi-me na modesta casa, úmida e escura. Na sala, um homem grisalho, alto e forte, suava sentado sem camisa vendo uma velhíssima televisão preto e branco. Imaginei se devia cumprimentá-lo, mas a mulher, uma bonita mulata meio gorda, me impeliu, pouco simpática, indicando o final do corredor estreito, de paredes mofadas. À esquerda, um quarto desarrumado, um banheiro cheirando a urina, outro quarto, a porta cerrada. Entreabri a cortina de miçangas e me deparei com um cômodo pequeno, guarda-roupa e cama de casal, e, sob um lençol amarelado, Nádia. Vem, sussurrou, a voz ridiculamente rouca. Não consigo assim, falei, imaginando o homem e a mulher postados a poucos passos de nós. Ela, canhestros bocas e olhares de sedução, descobriu-se, Vem… Um irritante galo cacarejava no quintal, atrás da janela fechada, e em algum lugar um velho, doente, tossia, tossia, tossia. Eu não consigo, repeti. Nádia ergueu-se nua, enlaçou-me, tentando beijar minha boca, as mãos desabotoando minha camisa, mas eu a afastei, Para com isso… Ela jogou-se sobre o colchão, esticando-se pretensamente lasciva, a pele magoada, marcas vermelhas e roxas de outros encontros. Enfiei a mão no bolso, tirei todo o dinheiro da carteira, contei, Tenho aqui cento e trinta e cinco CUCs, está bom? Nádia enrolou-se no lençol, e, voltada para a parede, murmurou, É muito… Deixei as notas sobre o criado-mudo, debaixo do exemplar de “Hemingway en Cuba”, e, antes de transpor a cortina de miçangas, escutei-a lastimar-se, Isso é o que restou de mim… Atravessei o corredor, tornei à sala, o homem sem camisa interceptou-me, mas lá de dentro Nádia gritou, Está bem, Jesús! Ele, sem me olhar, cedeu a passagem.

Assim que me vi na calçada, ocorreu que não tinha ideia de onde me encontrava e não possuía sequer um centavo para sair dali. Exausto, frustrado, furioso, não lembro como cheguei à orla e nem quanto tempo levei caminhando pelo Malecón, mas sei que, à medida em que andava, a luz do sol esmaecia. Ainda agora ouço o barulho das ondas explodindo nas pedras, a noite dissolvendo suavemente a paisagem em treva. Recordo também que, mergulhado na penumbra, percebi uma mulher vir ao meu encontro e, de repente, sacar algo da bolsa, e eu quedar, em pânico, paralisado, enquanto ela oferecia, Amendoins, senhor? Amendoins torrados? Nesse momento, aliviado, enxerguei, cem metros à frente, a fachada do hotel. Cruzei depressa o saguão, entrei no bar, descobri uma rara mesa disponível, depositei a sacola plástica com os livros sobre a toalha, puxei uma cadeira, sentei e solicitei um mojito. Ajeitando-me, peguei “La ciudad de las Columnas” para folhear, mas, antes de abri-lo, rastreei desatento o entorno, quando divisei todos os lugares ocupados por casais ou grupos de amigos, só eu sozinho. Então, pouco a pouco, o burburinho engolfou meu corpo, puxando-o para profundezas abissais. Quando, sem fôlego, voltei à tona, era apenas destroços, um homem que avançava célere para os sessenta anos e sabia que, naquele exato instante, não ocupava o pensamento de nenhuma pessoa em lugar algum do mundo. Que quando voltasse para casa não haveria ninguém me aguardando, nem mulher, nem filhos, nem parentes, nem sequer um gato ou um cachorro. Que, caso morresse ali, agora, ninguém lamentaria minha ausência. E que, irredutível, a velhice afagava o tempo malbaratado. O garçom depositou o mojito no tampo, agradeci, bebi um gole com sofreguidão, e pensei que necessitava urgentemente tomar um banho, um longo banho para me livrar daquela crosta grossa que se acumulava sobre minha pele.

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Luiz Ruffato

Luiz Ruffato

Autor de Eles eram muitos cavalos (2001, Prêmio APCA e Prêmio Machado de Assis), De mim já nem se lembra (2006), Estive em Lisboa e lembrei de você (2009) e da série Inferno Provisório, composta por cinco volumes: Mamma, son tanto felice (2005, Prêmio APCA), O mundo inimigo (2005, Prêmio APCA), Vista parcial da noite (2006, Prêmio Jabuti), O livro das impossibilidades(2008) e Domingos sem Deus (Prêmio Casa de las Américas). Seus livros estão publicados na França, Itália, Portugal, Alemanha, Argentina, Colômbia, México e Cuba.

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