Uma editora para um autor

por

Arlete Soares e Pierre Verger, Salvador (BA), 1988.


por Arlete Soares e Rina Angulo

 

É incrível a força que as coisas parecem ter
quando elas precisam acontecer.
Caetano Veloso

É incrível a força que as coisas parecem ter
quando elas precisam acontecer.

Caetano Veloso

 

Publicar livros sobre culturas negras no mercado editorial brasileiro na virada dos anos 1970/80 parecia no sense, mas aconteceu. Não por acaso, na Bahia. Foi assim: estava em Paris fazendo doutorado quando meu orientador Roger Bastide me recomendou a leitura da obra do etnólogo Pierre Verger, Flux et reflux. Comentei com Jorge Amado que o livro estava esgotado e ele me disse: “Verger está vindo da África, vamos tomar café da manhã, venha”. Fui. Verger, muito gentil, me prometeu que enviaria da ­Nigéria um exemplar.

Fiquei surpresa quando o livro chegou e, à medida que lia, me perguntava por que tinha que ser em francês, se tudo aquilo tão rico e tão detalhado era sobre nós? Como é que não tem esse livro em português? Era 1968, Paris fervilhava e meu interesse pela tese desvanecia em meio a sonhos, barricadas e a minha nova paixão: a fotografia.

Em 1972, estava de volta à Bahia e criei o ZAZ – um espaço dedicado à fotografia. Verger, que vivia na ponte Bahia-Nigéria passa a frequentar o ZAZ levando filmes para copiar no nosso laboratório. Ele se envolve com a equipe, Cida Nóbrega, Enéas Guerra e Arnaldo Grebler. Mas, em 1975, eu estava decidida a fazer a viagem para o Oriente. Fechamos o ZAZ. Cida e eu fomos para Paris preparar a viagem.

Nesse meio-tempo fomos à Nigéria visitar Verger. Foi nessa temporada em 1976, em sua casa em Ifé, que nos tornamos mais íntimos e ele nos mostrou seus livros de fotografia. Verger era extremamente sedutor. Ele nos levou às casas dos retornados, aos mercados, às aldeias e a todos os redutos de Orixá.

Arlete Soares e Pierre Verger, 1981, Salvador (BA).

A gente foi tomando conhecimento da grandeza da coisa. Minha admiração por sua obra e por ele como pessoa aumentava. Ele se queixou que seu acervo estava na cave da casa de seu antigo laboratorista em Paris e temia pelo estado dos negativos. Então lhe disse: “olhe, Verger, se você me der autorização, quando eu voltar da Índia, pego esse material e despacho para Salvador”. E fiz ainda uma outra promessa: procurar uma editora no Brasil para publicar Fluxo e refluxo.

A viagem de Paris a Catmandu durou dois anos, éramos quatro passageiras numa Kombi, Cida, Rina Angulo e Sara Silveira. Crazy girls.

Em 1979, Cida e eu estávamos de volta a Salvador. Entre as correspondências estava uma carta de Verger que dizia: “Estou voltando de-fi-ni-ti-va-men-te para a Bahia”. Hora de cumprir promessas.

Eu vinha do Oriente com toda aquela cultura de reverência aos velhos, aos sábios. Então trouxemos os negativos para o Brasil e tratamos de buscar meios de publicar Fluxo e refluxo. Mas traduzir um livro de quase 800 páginas era demorado. E a fotografia era o centro da minha atenção. Então sugeri fazermos um livro com fotografias da Bahia, enquanto providenciávamos a produção de Fluxo e refluxo. Para fazer Retratos da Bahia chamei de volta Arnaldo e Enéas. Cida e eu estávamos morando numa casa na Boca do Rio e começamos a trabalhar lá. Verger era de uma disponibilidade total.

Quando Verger começa a puxar aqueles pacotes de fotos, aqueles contatos 6×6, eu começo a ver a Bahia da minha infância, do tempo de meu pai. Reconhecendo pessoas que conheci, às vezes, me procurava. Olhe a feira de Água de Meninos, olhe a festa de Santo Antônio, olhe o terreiro de Mãe Senhora. Aquilo foi um impacto muito forte. O manuseio dessas fotos era um deslumbramento. Eu venho de uma família do povo, minha mãe assinava com a digital, meu pai tinha uma barraca de coco na feira de Água de Meninos.
Então era uma Bahia assim, de pedir bênção aos mais velhos. Ver tudo aquilo em imagens foi o rasgo de uma paixão fulminante.

A gente não sabia fazer livro, ficávamos dias e dias olhando aquelas fotos. Verger tinha mais de três mil fotos da Bahia. A primeira seleção foi de oitocentas fotos e a gente sofria para tirar uma que fosse. Nossa cumplicidade era total, foi um convívio muito intenso. Trabalhamos dia e noite, alucinados. Verger tinha muita noção de edição, o pai dele era gráfico, ele conhecia papel, sabia tipografia e dava todas as dicas. A boneca ficou linda.

Fui pra São Paulo e apresentei a vários editores, depois fui pro Rio e nada, ninguém se interessou, levava cartas de recomendação de Jorge Amado e Carybé, em vão.

Voltei arrasada. Meu drama era o que dizer a Verger. Eu tinha vergonha de contar que os editores achavam que um livro com fotos de negros não venderia. Então eu mentia: “a resposta ainda está pra sair, não se preocupe”.
A mentira era uma verdade antecipada. Tive então a ideia de criar uma editora, chamei Sara para nossa equipe e anunciamos a Verger que a Corrupio (nome da rua onde ele morava) publicaria sua obra. Ele bateu palmas.

Lançamos o livro com 256 fotos, três mil exemplares de capa de tecido, costurado à mão. Foi um tremendo sucesso. Carlos Drummond de Andrade escreveu um bilhete a Verger no Jornal do Brasil. “Saravá Mestre! Recebi Retratos da Bahia e agora não posso dizer mais que ‘nunca fui lá’. (…).
Se o professor Freud desembarcasse lá, sei não, mas a psicanálise seria outra ciência, ou talvez uma arte. Obrigado pelo presente, meu venerável oju obá, que tens o sagrado direito de agitar o xerê de Xangô. E saravá também para Arlete Soares, editora deste santo e festivo álbum”.

Logo depois chegaram as contas. A gente não tinha nenhuma experiência, gastamos demais. Vender um terreno foi a única saída. Até porque no dia seguinte ao lançamento, Verger vinha com outro livro, já com maquete pronta: Orixás. Arnaldo e Enéas saíram da editora. Cida e eu seguimos ao lado de Sara Silveira e Rina Angulo, companheiras na viagem ao Oriente.

Rina conta: “cheguei a Salvador fugida da ditadura salvadorenha. Foi no dia do lançamento de Retratos da Bahia, uma grande festa no Palácio do Rio Branco, baianas, comidas, atabaques”.

A Corrupio não era somente editora, era produtora de audiovisual; galeria; laboratório e livraria, que ficou sob minha responsabilidade. ­Verger sugeria títulos, todos sobre cultura negra. E tinha mandalas, sedas, caleidoscópios, brinquedos artesanais. Era um casarão com mangueira no pátio e tinha um café onde Verger ficava horas trabalhando e conversando com pessoas da comunidade negra que passaram a frequentar o bairro
da Barra.

A Corrupio virou um ponto de artistas, intelectuais, hippies. Os lançamentos ou aberturas de exposições eram performáticos, e a constante presença de percussionistas e dançarinos os transformavam em festas. Era realmente algo novo. O jornal francês ­Liberation fez uma matéria chamada ­L´aventure ­bahianaise.

Aos poucos me incorporei ao trabalho de edição. Sara foi para São Paulo fazer cinema. Ficamos Arlete, Cida e eu. Verger passou a nos chamar de “trio elétrico”. Foi o começo de uma forte amizade.

Verger era um erudito versátil. Conversávamos sobre livros, relógios, relações familiares e sobre candomblé. Fomos muitas vezes a Paris, onde conheci seu lado mais francês, e uma vez ao Benim, onde se comportava como um nagô, foi quando filmamos Atum padê, um documentário baseado em Fluxo e refluxo.

Um momento muito forte da nossa convivência aconteceu quando estávamos no Museu do Homem escolhendo o material da Exposição África – Bahia, que a Corrupio montou com Lina Bo Bardi, no Masp – a primeira exposição de arte africana do Brasil.

Um passo maior foi dado quando decidimos pela criação da Fundação Pierre Verger (FPV). Ele resistia à ideia, já tinha escolhido que Carybé herdaria sua coleção de arte; Tasso Gadzanis, sua biblioteca e Arlete e Arnaldo, seu arquivo fotográfico. Nós o convencemos e, em 1988, a FPV foi sacramentada, e já estávamos envolvidas na realização de uma grande exposição de Verger em Paris, na qual Cartier Bresson foi o primeiro a chegar.

A vida nos separou, deixamos a Fundação, foi difícil. Continuamos publicando Verger, outros autores nos seduziram. Nosso catálogo se ampliou. São emblemáticos os livros sobre as ialorixás da Bahia. Organicamente criamos uma editora especializada em culturas negras e seguimos resistindo, orgulhosas.


Arlete Soares e Rina Angulo.

Arlete Soares e Rina Angulo fundaram a Corrupio, uma lendária editora baiana, responsável por apresentar o trabalho foto-etnográfico de Pierre Verger, inaugurando o segmento culturas negras no mercado editorial brasileiro.

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