Tintim, Spirou e Asterix – os três pilares dos quadrinhos franco-belgas

Tintim, Spirou e Asterix, séries clássicas das histórias em quadrinhos franco-belgas, têm em comum dois elementos centrais: a aventura e o humor. Os três célebres personagens foram escritos e desenhados por gênios da nona arte e as revistas com as quais estão associados serviram de celeiro para diversos artistas e séries.

TINTIM – O repórter do Petit Vingtième

Em 1929, o jovem Hergé – pseudônimo de Georges Remi – criou o repórter Tintim no suplemento juvenil Le Petit Vingtième, distribuído com o jornal belga Le Vingtième Siècle.

Hergé era escoteiro e trabalhava, no início de carreira, como ilustrador em um jornal. Tintim, o jornalista aventureiro, é um claro reflexo de seu criador e do contexto em que ele vivia.

A primeira aventura da série, chamada Tintim no país dos sovietes, foi um grande sucesso entre os leitores belgas, particularmente por seu teor agressivamente anticomunista. Anos mais tarde, Hergé se declarou constrangido pela baixa qualidade dessa primeira história. Ele a considerava uma transgressão de sua juventude. No ocidente, o álbum só voltou a ser considerado “socialmente aceitável” na década de 1980, durante a Guerra Fria.

A primeira aventura de tintim: Tintim no país dos sovietes.

Quadrinho extraído do álbum Tintim na África.

Tintim na África, por sua vez, é provavelmente o volume mais controverso do personagem. A HQ foi escrita na década de 1930, quando a Bélgica ainda possuía domínios coloniais no continente africano, como o antigo Congo Belga (a atual Democrática República do Congo), e tem forte influência de todo esse contexto sociorracial, hoje considerado inaceitável.

Junto com Tintim, surgiu o estilo Linha Clara de desenho, muito influente e popular, cujo maior expoente foi justamente Hergé. As histórias desse estilo se caracterizam pelo humor pastelão, pela inspiração em comédias do cinema mudo, de Charlie Chaplin e Buster Keaton, e pela ótima representação dos ambientes em que elas transcorrem.

Muitas das ideias dos primeiros álbuns foram baseadas nos seriados cinematográficos da década de 1920, como os Perigos de Paulina. O gorila de A Ilha Negra é uma homenagem a King Kong. Já o visual do Dr. Müller, um inimigo de Tintim, foi inspirado na interpretação de Charles Laughton como Dr. Moreau no filme A Ilha das Almas Selvagens, uma adaptação de 1933 do romance A Ilha do Dr. Moreau.

Em suas primeiras aventuras, Tintim vinha acompanhado apenas por Milu, seu cãozinho Terrier branco. O marinheiro Capitão Haddock só apareceu em 1941, logo se tornando um dos pontos fortes da série. Outros personagens importantes são os detetives Dupond e Dupont, o amalucado professor Trifólio Girassol, o mordomo Nestor, a cantora de ópera Bianca Castafiore e o garoto Tchang Chong-Chen.

A relação de Tintim e Tchang, aliás, se baseia na amizade de Hergé com Chang Chong-Jen, um jovem chinês que passara uma temporada estudando artes na Bélgica. Os dois se conheceram em 1934, quando Hergé desenhava as páginas de O Lótus Azul, aventura esta que se passa na China, durante a invasão japonesa da Manchúria.

Chang voltou para a sua terra natal ainda na década de 1930 e os dois amigos perderam contato até se reencontrarem em 18 de março de 1981, quarenta e sete anos depois de terem se conhecido.

Nos quadrinhos, Tintim e Tchang se tornam amigos em O Lótus Azul e, assim como na vida de Hergé, os dois só se reencontrariam em Tintim no Tibet, álbum lançado em 1958.

O constante eco de Hergé na história de Tintim é justamente uma das grandes qualidades dessas HQs. Existe humanidade nos personagens, que são falhos, mas possuem bom coração, como é o caso do Capitão Haddock, sempre bebendo e pronto para uma confusão, mas cuja amizade com Tintim é inquestionável.

Outro aspecto interessante é o fato de que esse material, destinado originalmente ao público infantojuvenil, possui enredo com temáticas ousadas. Tintim enfrenta traficantes de cocaína, falsários, sabotadores de gasolina, revolucionários fascistas e sociedades secretas. A galeria de vilões é vasta, repleta de tipos inesquecíveis como o inescrupuloso Rastapopoulos, Dr. Müller, Mitsuhirato, coronel Sponsz, os irmãos Pardal e a múmia de Rascar Capac.

Além disso, os personagens não se limitam ao que hoje é considerado politicamente correto. No universo de Tintim existem fumantes, usuários de ópio e alcoólatras. O Capitão Haddock, por exemplo, transformou o xingamento numa verdadeira arte (usando um vasto vocabulário com palavras como australopiteco, lepidóptero, mameluco etc.) e é uma das grandes fontes de humor dos álbuns. Seus xingamentos foram, inclusive, transformados em livro: o Dicionário de xingamentos do Capitão Haddock.

Entre os anos de 1944 e 1945, Hergé foi forçado a cancelar Tintim e só voltou a publicá-lo em 1946, com a criação do Le Journal de Tintin. Esse jornalzinho – que depois viraria uma revista – tornou-se um veículo importante para as HQs e levou Tintim a um sucesso ainda maior.

Foi nele que surgiram séries como Blake e Mortimer, a dupla de detetives de Edgar P. Jacobs; o aventureiro Alix, de Jacques Martin; e o piloto de corridas Michel Vaillant, de Jean Graton.

No total, Tintim tem 24 álbuns publicados, que já foram traduzidos para mais de uma centena de línguas e dialetos – até mesmo para o wolof (do Senegal) e o papiamento (das Antilhas Holandesas) – e teve mais de 230 milhões de HQs vendidas.

SPIROU – O mensageiro do Hotel Moustic

Spirou foi criado pelo artista francês Rob-Vel – pseudônimo de Robert Velter –, em 21 de abril de 1938, como a estrela do Journal de Spirou da editora Dupuis.

O personagem era ascensorista do Hotel Moustic – embora ele atue mais como mensageiro –, cujo nome é uma referência à revista Le Moustique, principal publicação da editora naquela época.

O esquilo Spip.

Muito associado ao seu país de origem, a Bélgica, Spirou tem dois significados em valão (a língua falada na região da Valônia, no sul do país): esquilo e brincalhão. Coincidentemente, o primeiro personagem coadjuvante de Spirou é o esquilo Spip, que surgiu em 1939.

O traço impressionante de Franquin em
Spirou e os herdeiros, recém-lançado pela
SESI-SP Editora.

Diferentemente de Tintim ou Asterix, a Dupuis comprou os direitos do personagem em 1943, um fato bastante atípico para o período. Foi assim que Spirou passou a ser ilustrado por nomes importantes da HQ franco-belga. Entre esses artistas, dois deles merecem destaque: Jijé (pseudônimo de Joseph Gillain) e André Franquin.

Jijé foi quem estabeleceu o visual definitivo de Fantasio, personagem companheiro de Spirou que surgiu em 1942 como uma criação do editor Jean Doisy. Franquin é um dos maiores desenhistas da HQ franco-belga, mas poucos leitores conhecem seu trabalho, pois a maior parte de sua obra é inédita no Brasil. Para se ter uma ideia de sua importância, Hergé, em resposta a uma comparação de seu trabalho com o de Franquin, chegou até mesmo a dizer: “Como pode nos comparar? Ele é um grande artista e, ao seu lado, eu não passo de um mero desenhista”. Albert Uderzo, um dos criadores de Asterix, também considerava Franquin o maior artista das HQs: “Um fenômeno como ele surge apenas uma vez a cada século”.

Quadrinho extraído de O roubo do marsupilami, também lançado pela SESI-SP Editora.

Além de ser o principal desenhista da série Spirou, Franquin criou Zantafio, o primo maléfico de Fantasio; a jornalista Seccotine; e o animal fantástico conhecido como marsupilami.

O marsupilami.

Ele também é o artista (junto com Jidéhem) do clássico álbum Z de Zorglub e ilustrou a primeira história longa de Spirou, Um feiticeiro em Champignac – lançada no Brasil recentemente pela SESI-SP Editora, a qual pretende lançar, até o fim do ano, mais nove álbuns da série. Outras de suas criações são Gaston Lagaffe e Ideias negras.

Jijé e Franquin são os dois grandes nomes da Escola de Marcinelle, rótulo pelo qual são conhecidos os artistas que trabalharam na revista Spirou, cuja sede fica na região de Marcinelle, em Charleroi, Bélgica. O traço desses artistas é chamado de Estilo Atômico, em contraste direto com os artistas da Linha Clara.

Também fazem parte dessa escola: Will (de Tif e Tondu), Morris (de Lucky Luke), Jean Roba (de Boulle e Bill) e Maurice Tillieux (de Gil Jourdain).

O Estilo Atômico é caracterizado pelo desenho caricatural, com personagens narigudos e balões mais arredondados, diversamente do trabalho desenvolvido pela trupe da Linha Clara.

Sempre existiu uma rivalidade amistosa entre as revistas de Tintim e Spirou, que representavam dois estilos diferentes de HQs. Apesar disso, havia muito respeito e cordialidade entre os principais desenhistas de ambos os títulos.

Com a saída de Franquin do título, em 1969, outros nomes passaram pela revista Spirou, como Jean-Claude Fornier, Nic Broca, Yves Chaland, Tome e Janry etc.

Na última década, a Dupuis lançou a coleção Spirou de…, escrita e ilustrada por grandes artistas da atualidade como Fabien Vehlmann e Yoann, Frank Le Gall, Yann e Fabrice Tarrin, Émile Bravo, Olivier Schwartz e Yann, Lewis Trondheim e Fabrice Parme e Makyo, Toldac e Téhem. Destes, a SESI-SP Editora já está no prelo com O diário de um ingênuo, de Émile Bravo; e O mensageiro Verde-Cinza e A Mulher Leopardo, ambos de Schwartz e Yann.

Versão em francês de O mensageiro Verde-Cinza, que será lançado pela SESI-SP Editora.

As HQs de Spirou, particularmente no período de Franquin, são marcadas por uma explosão de criatividade, com cenários modernos, um visual que incluía grandes invenções e automóveis com design arrojado. Existe um frenesi nesses desenhos que agita tanto os personagens quanto os leitores, e é impossível imaginar as HQs franco-belgas sem a existência de Spirou e sua revista.

Na década de 1960, um grupo de artistas belgas, liderado por Franquin, costumava se encontrar regularmente com Uderzo e outros artistas franceses da revista Pilote. Juntavam-se em um restaurante que ficava a meia distância de Bruxelas e Paris. A rivalidade era deixada de lado e o que importava eram a arte, o riso e a amizade entre eles.

ASTERIX – O personagem mais importante das HQs francesas

Asterix, o gaulês, é o personagem mais popular das HQs franco-belgas e um grande sucesso comercial mundial, com mais de 350 milhões de exemplares vendidos.

Asterix, o gaulês: primeiro álbum da série.

Ele surgiu em 29 de outubro de 1959 nas páginas da revista Pilote nº. 1.

Junto de seu cãozinho Ideiafix, seu amigo Obelix e o druida Panoramix, os irredutíveis gauleses não se rendem a César e ao exército romano.

A série é uma grande viagem cultural com muito humor e boas doses de pastelão, na qual os autores brincam com os fatos históricos da conquista da Gália.

À primeira vista, parece apenas mais uma HQ destinada ao público infantojuvenil, mas essa descrição não faz justiça ao trabalho. Existe um grande refinamento do texto e dos desenhos, repletos de sutilezas que podem ser encontradas tanto nos diálogos dos personagens ­quanto na produção visual dos álbuns.

Os responsáveis são dois gênios do humor, um dos roteiros e outro dos desenhos: René Goscinny e Albert Uderzo.

Goscinny é um dos mais aclamados autores de humor da França. Seu talento não se limitava apenas ao trabalho com os gauleses. Ele também criou: Iznogoud, com Jean Tabary, sobre um vizir que tentava assumir o lugar de seu califa; O pequeno Nicolau, com arte de Jean-Jacques Sempé; Oumpah-pah, com Uderzo, sobre as aventuras de um indiozinho; Jehan Pistolet, outra HQ em parceria com Uderzo; Strapontin, com desenhos de Berck; e Pistolin, com arte de Victor Hubinon.

Além disso, ele também escreveu muitos roteiros para Lucky Luke, sempre com desenhos de Morris, e Modeste et Pompon, uma criação de Franquin.

Uma das predileções de Goscinny e Uderzo é o uso de dezenas de caricaturas de personalidades, como Sean Connery, Elizabeth Taylor, Lino Ventura, Stan Laurel, Oliver Hardy, Kirk Douglas a até os Beatles.

Embora o humor de Asterix seja universal, existe uma camada mais profunda destinada ao riso de leitores com conhecimento da história e da cultura franco-belga.

O álbum Uma volta pela Gália, por exemplo, é uma grande paródia da famosa competição de ciclismo, o Tour de France, no qual os autores brincam com a corrida e aproveitam para mostrar a gastronomia regional, com os vinhos de Reims, o presunto de Paris, as linguiças de Toulouse, a salada niçoise, a castanha da Bretanha etc.

Em Asterix Legionário existem referências ao filme A Grande Escapada, com Asterix e Obelix vestidos como romanos e imitando os atores Bourvil e Louis de Funès, que na película são franceses disfarçados como soldados alemães durante a Segunda Guerra.

Asterix entre os belgas, o último álbum escrito por Goscinny, é uma paródia da batalha de Waterloo, quando Napoleão foi derrotado.

A dupla também brincava com obras de arte, parodiando diversas delas na série. Alguns exemplos são: A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632), de Rembrandt; O Casamento dos Camponeses (1567), de Pieter Bruegel, o Velho; e A Balsa da Medusa (1818–1819), de Théodore Géricault.

Nada disso, no entanto, impede que o leitor comum reconheça uma biga romana inspirada numa Ferrari italiana ou ria de anacronismos como um relógio de sol usado como relógio de pulso.

O original e a paródia de A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt.

Em 1961, poucos anos após o seu surgimento, a revista Pilote alcançou a marca dos 300 mil exemplares vendidos por semana. Curiosamente, Asterix, o gaulês – o primeiro álbum da série, uma reimpressão da HQ publicada no mesmo ano – vendeu apenas 6 mil exemplares.

Para se ter uma ideia do sucesso do herói, o primeiro satélite francês, lançado em 26 de novembro de 1965, se chama Asterix.

Goscinny escreveu 24 aventuras de Asterix até sua morte, em 1977. Apesar disso, seu último álbum, Asterix entre os belgas, só saiu em 1979. Depois de Goscinny, os roteiros e desenhos da série ficaram ao cargo de Uderzo, que produziu mais dez livros. Em 2015, Uderzo passou a bola para o escritor Jean-Yves Ferri e para o desenhista Didier Conrad, que já produziram dois novos volumes.

No total, Asterix conta com 36 álbuns e mais alguns volumes especiais que não fazem parte oficial da série.

A Pilote também tem uma enorme importância para as HQs. Foi nela que surgiram A Feira dos Imortais, de Enki Bilal; Blueberry, de Jean-Michel Charlier e Gir (um dos vários pseudônimos de Jean Giroud); Barba Ruiva (série que inspirou o bando de piratas satirizado nas aventuras de Asterix), de Charlier e Victor Hubinon; Tanguy e Laverdure, de Charlier e Uderzo; e Valérian, de Jean-Claude Mézières e Pierre Christin.

Embora muitas dessas HQs de inspiração franco-belga tenham sido lançadas em Portugal, para a tristeza dos leitores brasileiros apenas Tintim, Asterix e Lucky Luke foram publicados regularmente no Brasil. As aventuras de Spirou e Fantasio eram praticamente inéditas no país até o lançamento das primeiras histórias desses personagens, pela SESI-SP Editora, que agora pretende lançar toda a série.

As HQS europeias

O interesse do leitor brasileiro pelas HQs europeias é grande não apenas pelo ineditismo do material, mas também pela sua qualidade e variedade temática.

Atualmente, aproximadamente 5 mil títulos são lançados por ano no mercado franco-belga, dos quais 60% correspondem à produção local inédita e original.

Apenas uma fração insignificante desse número é traduzida e publicada no Brasil. A despeito do potencial dessas obras, esse buraco editorial apenas cresceu com o passar das décadas.

Apesar disso, não é qualquer material inédito europeu que será aceito pelos leitores, pois, independentemente da qualidade da HQ, ela terá de competir em preço e acabamento com outros gêneros bastante populares e que dominam as vendas brasileiras, como a Turma da Mônica, os mangás ou os super-heróis. Mas isso é tema para uma outra matéria da revista Ponto.

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Sérgio Codespoti

Sérgio Codespoti, 48 anos, publicou HQs nos álbuns Quebra-Queixo – Technorama vols. 2 e 3 e Fim do mundo em quadrinhos; é um dos editores do site Universo HQ; foi vencedor do troféu HQ Mix em 2010, na categoria jornalista de quadrinhos; é autor dos livros Star Wars, da coleção 100 Respostas, O universo de Star Wars e Universo HQ entrevista; escreveu para as revistas Wizard, Herói, Kaboom, Hype e A Saga do Anel; traduziu dezenas de HQs, incluindo Sandman, Coração do império e A última noite de Casanova.

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