Três oceanos culturais de infinitas correntes circulares

Como falar de oceanos? Mais precisamente, como falar de ­oceanos culturais? Mais precisamente ainda, como falar de oceanos culturais – no total, três – alimentados por infinitas correntes circulares?

Quase quatro bilhões de anos atrás, a vida surgiu nos oceanos. Somos seres de água. Seres culturais que hoje pensam sobre oceanos metafóricos, em que os peixes, as algas e os corais são articulações criativas – textos, imagens, música etc. – da nossa linguagem fluida e da nossa inteligência abstrata.

De que oceanos estamos falando?

Querida leitora, querido leitor, soltem o corpo na água e se deixem levar pela maré deste ensaio sinuoso, pelas ondas desta reflexão marítima, que vocês logo saberão.

Futuro presente

O historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens: uma breve história da humanidade e Homo Deus: uma breve história do amanhã, afirmou recentemente num podcast da revista Wired que a ficção científica é o gênero artístico e literário mais importante de nosso tempo.

Na opinião de Harari, somente a ficção científica está tratando das grandes questões do século XXI: inteligência artificial, engenharia genética, catástrofes ecológicas, nanotecnologia, drogas da inteligência, realidade virtual, conexão cérebro-computador etc.

É certo que essa afirmação nada convencional não agradou a crítica especializada. Que absurdo! De que maneira a ficção científica, um típico produto da cultura de massa, sem a profundidade e o refinamento da cultura erudita, teria se convertido – ou sonhado se converter – no gênero artístico e literário mais importante de nosso tempo?

Confesso que concordo totalmente com o historiador israelense, quando penso nos filmes mais inquietantes a que assisti recentemente – Ela, de Spike Jonze, e Ex_machina, de Alex Garland – e nos romances Favelost, de Fausto Fawcett, e Mnemomáquina, de Ronaldo Bressane.

Organizando organismos

Vivemos mergulhados numa hiper-realidade de informação, num vasto adensamento fluido de signos, sintagmas, verdades, falácias, combinações sensoriais, conceitos e preconceitos, mensagens ordenadas e desordenadas. Nossos sentidos mais atingidos são a visão e a audição, que não param de receber símbolos, desenhos e pinturas, ao lado de fotos, vídeos e filmes, colados em frases escritas, faladas e cantadas.

Coitado de nosso aparelho cognitivo tão saturado! A pressão é imensa. Haja meditação zen e concentração! Passamos a vida toda sendo bombardeados por estímulos comunicacionais de valores e intensidades diferentes, que muitas vezes nos confundem, gerando ansiedade e estresse.

Para não se perder nem enlouquecer nesse ilimitado emaranhado de notícias, estilos, modas, opiniões, idiomas, crenças, impressões pragmáticas ou estéticas, umas voláteis, outras violentas, nossa consciência procura organizar em grupos mais simples, de fácil reconhecimento, o fluxo incessante e diversificado das manifestações culturais.

Organizar significa classificar, separando as frutas dos legumes, os felinos das esmeraldas, os objetos triviais das obras de arte, o pensamento científico do pensamento religioso e assim por diante. É verdade que esse método acaba empobrecendo a realidade, mas sem ele não sobreviveríamos no mundo contemporâneo, açoitados pelos tsunamis de informação.

No campo dos estudos culturais, por exemplo, a divisão ternária continua sendo muito útil. A cultura popular, a cultura de massa e a cultura erudita são três famílias muito diferentes, quase sempre antagônicas, que surgem sem qualquer esforço quando dividimos em três fatias nosso vasto universo cultural.

Tempos modernos

Antes da Revolução Industrial e do surgimento dos meios de comunicação de massa, a cultura popular era a expressão genuína dos costumes e das tradições de um povo, enquanto a cultura erudita era fruto do pensamento mais crítico e sofisticado da elite política e econômica.

Então veio a Revolução Industrial e o sistema capitalista de produção. Esse casamento promoveu a economia de mercado, dando origem a uma terceira instância: a cultura de massa, inimiga mortal da cultura popular e da erudita, manifestação maior da sociedade de consumo.

Faz bastante tempo que até nossas expressões populares mais autênticas – estou pensando nas festas folclóricas, nas danças, no repente e na literatura de cordel, na arte naïf e na cantiga de viola – perderam espaço para as expressões pasteurizadas e homogeneizadas da cultura de massa, produzida em larga escala pela indústria do entretenimento, para um público amplo, mas pouco exigente.

Tudo isso foi dito a fim de chamar a atenção de vocês, curiosa leitora, curioso leitor, para o aspecto mais fascinante dessa divisão ternária. A cultura popular, a cultura de massa e a cultura erudita são oceanos distintos, porém permeáveis. São países contrastantes, mas em suas fronteiras não existe uma muralha armada e intransponível. O comércio e o contrabando de material artístico são frequentes.

A cultura erudita costuma se apropriar e reelaborar material da cultura popular e da cultura de massa desde sempre. Na literatura, mitos e lendas sagrados e profanos já foram transformados por grandes dramaturgos e escritores em peças de teatro, poemas, contos e romances importantes. Na música, quantas vezes os compositores eruditos não reelaboraram o estilo espontâneo de certas tradições folclóricas? Nas artes plásticas, quantas vezes os desenhistas, pintores, gravuristas e escultores não incorporaram a seu trabalho os temas e a expressão da arte de povos primitivos?

Quem é quem nesse vaivém

No auge do teatro grego, os mestres Ésquilo, Sófocles, Eurípides e ­Aristófanes apresentaram obras-primas da tragédia e da comédia, baseadas na popular mitologia grega: Prometeu acorrentado, Ájax, Filoctetes, Medeia, As troianas, Pluto…

O romance mais importante da língua espanhola – Dom Quixote, de ­Cervantes – é uma paródia tragicômica das populares novelas de cavalaria.

Uma popular lenda alemã, sobre um médico que faz um pacto com o demônio, inspirou Goethe a escrever sua obra-prima, o poema épico Fausto.

O popular mito bíblico de Salomé alimentou mais de uma dúzia de obras dos artistas e escritores simbolistas e decadentistas fascinados com a simbologia da mulher fatal.

No modernismo brasileiro, a rapsódia Macunaíma, de Mário de Andrade, e o poema Cobra Norato, de Raul Bopp, são dois exemplos, apenas dois, de um sem-número de obras que usaram como matéria-prima os populares mitos amazônicos, transformando-os em alta literatura.

No final de sua curta vida, Mozart se inspirou no popular conto de fadas Lulu ou A flauta mágica, de Christoph Wieland, para compor sua ópera mais famosa, um grande sucesso de público e crítica.

Um de meus compositores prediletos, o romântico Richard Wagner, fascinado pelas lendas e pelos mitos europeus, transformou a história sobrenatural do Holandês Voador na ópera O navio fantasma. Também levou para o palco operístico O anel do nibelungo, tetralogia baseada em narrativas da mitologia nórdica e no poema medieval A canção dos nibelungos.

É de Wagner, também, uma ópera recontando a história do cavaleiro Parsifal, pertencente ao popular ciclo arturiano, e uma adaptação belíssima da lenda medieval de Tristão e Isolda.

As três primeiras grandes obras do modernista Ígor Stravínski – compositor erudito que nunca disfarçou seu amor pelo jazz – foram os balés O pássaro de fogo, baseado nos contos populares russos sobre um pássaro fantástico, Petrushka, protagonizado por três bonecos que ganham vida, originários também da tradição popular, e o sensacional A sagração da primavera, cujo olhar mergulha na Rússia profunda, cheia de ritos primitivos, para trazer de lá os elementos pagãos que compõem o enredo dramático e sublime desse balé revolucionário.

Entre nós, muitos compositores também aderiram a essa tendência intercultural. O nacionalista Villa-Lobos, por exemplo, foi uma das criatividades mais produtivas a incorporar o violão e a música popular brasileira – a seresta, o choro, a cantiga de roda, o desafio caipira – em sua produção erudita. Quem negará que as nove Bachianas brasileiras – que incluem Lembrança do sertão e O trenzinho do caipira – são um grande clássico de nosso erudito popular?

Nas artes plásticas os exemplos surgem até mais numerosos. Muito importante para o cubismo foi a potência simbólica e plástica da arte africana, suas máscaras religiosas e esculturas rituais. Para o dadaísmo e o surrealismo, igualmente importante foi o lixo da cultura de massa – anúncios publicitários, fotografias sensacionalistas, enredos e fotogramas de filmes B –, usado em colagens e paródias.

Uma das pinturas mais fascinantes de nosso modernismo e da exuberante Tarsila do Amaral não é o primitivo Abaporu (em tupi: “homem que come gente”), figura-símbolo luminosa e selvagem, que deu origem ao Movimento Antropofágico brasileiro?

Importação-exportação-contrabando

Falei até agora do débito que a cultura erudita tem com a cultura popular. Pensa que me esqueci do débito que a cultura erudita tem com a cultura de massa?

A expressão indústria cultural (em alemão Kulturindustrie) foi criada em meados do século XX pelos pensadores alemães Theodor Adorno e Max ­Horkheimer, para determinar a nova condição (em sua opinião, perversa) da arte e da literatura na sociedade capitalista industrializada. Para os dois filósofos, a indústria da cultura, igual a qualquer indústria moderna, produz objetos de consumo fácil, muitas vezes disfarçados de obras de arte, tendo como principal objetivo o divertimento e o lucro.

Adorno e Horkheimer escreveram em A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas: “A violência da sociedade industrial atua sem piedade nos cidadãos. Os produtos da indústria cultural podem ser consumidos alegremente até mesmo pelas pessoas mais distraídas. Mas cada um desses produtos é um modelo da gigantesca máquina econômica que mantém tudo e todos sob pressão, no trabalho e no lazer, que é semelhante ao trabalho. Pode-se inferir de qualquer filme sonoro ou de qualquer programa de rádio um efeito que não se poderia atribuir a cada um em particular, mas apenas a todos agindo em conjunto na sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação única da indústria cultural reproduz as pessoas igual a tudo o que já foi produzido e reproduzido por toda a indústria cultural. Todos os seus agentes, desde o produtor até as associações de mulheres, são cuidadosamente vigiados, a fim de impedir que a simples reprodução do espírito não leve a qualquer expansão espiritual.”

Desde então, a massificação planejada da chamada indústria cultural – programas de rádio e TV, filmes comerciais, música pop, literatura de entretenimento, histórias em quadrinhos etc. – passou a ser demonizada principalmente pelos teóricos da alta cultura, que ainda hoje denunciam, nesses produtos, a qualidade duvidosa, a superficialidade e o sentimentalismo kitsch.

Foi o italiano Umberto Eco quem relativizou um pouco essa posição, em seu célebre livro Apocalípticos e integrados. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra – Eco argumentou. A rejeição de muitos teóricos (os apocalípticos elitistas) aos produtos da indústria cultural consumidos alegremente pela ampla multidão inculta (os integrados massificados) não significa que esses produtos não desempenhem um papel importante no trânsito dialético da vasta criatividade humana.

Umberto Eco foi um dos primeiros a refletir sobre um fenômeno que hoje todos nós notamos com relativa facilidade: no sistema fechado da dinâmica cultural, as três esferas – cultura popular, cultura de massa e cultura erudita – mantêm uma transação intensa. No comércio legal e ilegal de material artístico, até mesmo a famigerada cultura de massa cumpre uma importante função reguladora, importando e contrabandeando matéria-prima, em seguida reciclando e exportando produtos pasteurizados que poderão servir, por sua vez, de matéria-prima para outras culturas.

As melhores histórias em quadrinhos – haverá arte considerada menos nobre do que os quadrinhos? – confirmam a provocação de Umberto Eco de que a cultura de massa recebe e oferece muitas ideias de qualidade. Se não acreditam em mim, desconfiada leitora, desconfiado leitor, leiam V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd, O incal, de Alejandro Jodorowsky e Moebius, Blacksad, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, e outras obras de igual quilate.

Popular-massificado-erudito

O norte-americano Thomas Pynchon sempre foi considerado um ficcionista sofisticado da cultura erudita. Um de meus romances prediletos desse autor para lá de inventivo, o caudaloso Contra o dia, presta uma saborosa homenagem à literatura de entretenimento, ao emular cinco gêneros muito apreciados pela massa de leitores: aventura, faroeste, detetive, espionagem e ficção científica.

Mas foi a pop art que acelerou esse intercâmbio ao abrir todas as portas para os ícones da cultura industrializada, de caráter nitidamente comercial, transformando em objetos de apreciação estética a reprodução irônica de personagens de histórias em quadrinhos e a celebração antropofágica de estrelas do rock, do cinema e da televisão.

Outro fato que não pode ser ignorado, no que chamei há pouco de trânsito dialético da vasta criatividade humana, é a mobilidade estética. Na história da arte e da literatura, muitas obras produzidas originalmente para a diversão do grande público tempos depois ganharam o estatuto de obras-primas da cultura erudita.

Já citei aqui o Dom Quixote, de Cervantes, e A flauta mágica, de Mozart, mas é óbvio que não poderia deixar de fora Romeu e Julieta, a peça mais famosa de Shakespeare.

Poderia citar também meia dúzia de folhetins do século XVIII e XIX, entre eles Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e Os três mosqueteiros, de ­Alexandre Dumas. E as ilustrações de Gustave Doré para diversos clássicos literários, entre eles A divina comédia, de Dante.

E os filmes de Charles Chaplin – Em busca do ouro e Tempos modernos –, os quadrinhos Little Nemo, de Winsor McCay, e Krazy Kat, de George Herriman, e os romances policiais de Dashiell Hammett, principalmente O falcão maltês.

E os álbuns da maturidade dos Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e The white album – e do Pink Floyd – The dark side of the moon e The wall. Já perceberam, perplexa leitora, perplexo leitor, que a lista só faz crescer? Porque quando pensamos nesse intercâmbio as obras emergem espontaneamente à superfície do pensamento, não é preciso sequer pesquisar…

Três oceanos, uma constelação

Quando o historiador Yuval Noah Harari afirma que a ficção científica é o gênero artístico e literário mais importante de nosso tempo, ele está reconhecendo que nem sempre a cultura erudita, por mais refinada e sofisticada que seja, está 100% antenada com o momento presente.

Muitas vezes, a representação mais crítica e atrevida da realidade aparece primeiro nas camadas criativas – menos acadêmicas – da cultura popular ou da cultura de massa, antes de ser aproveitada pela cultura erudita.

Para apreciar intensamente a beleza criativa de nossa espécie, é preciso domar qualquer tipo de preconceito elitista.

Quem está atento às correntes marítimas que circulam os três oceanos culturais, pujantes e fecundas, percebe com facilidade a influência da música pop, de mangás, animes e séries de TV na obra de muitos artistas, músicos, escritores e cineastas eruditos contemporâneos, além da influência das obras-primas eruditas no trabalho de muitos quadrinistas, artistas, músicos, escritores e cineastas não eruditos.

E essa percepção modifica o desenho da realidade cultural. Se antes havia três oceanos, agora há uma imensa constelação com milhares de estrelas de cores diferentes, em constante movimento, numa fantástica dança gravitacional.

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Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira é escritor e ensaísta, autor do romance Subsolo infinito, cujo narrador-protagonista, imitando Dante Alighieri, empreende uma fantástica expedição ao inferno.

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