Os donos da rua

Graff1ti de Ricardo Akn, em fachada na Rua Harmonia, Vila Madalena.

A arte urbana encontrou em São paulo a sua capital mundial, e artistas paulistanos estão transformando a cidade

Normalmente associada à sociedade pós-industrial e frequentemente vista como pura expressão da consciência cosmopolita, a arte urbana na verdade tem uma natureza muito mais primitiva do que se pensa, e raízes diretamente associadas ao instinto de territorialidade inerente à nossa espécie desde os tempos em que habitávamos cavernas. Ela contém os mesmos caracteres do instinto de apropriação dos espaços que ainda nos faz deixar nossas marcas por onde quer que passemos.

A territorialidade é uma necessidade humana, direta e intrinsecamente associada à promoção da nossa identidade. Somos frutos do ambiente em que nos formamos, e um reflexo fiel dele – de maneira que faz parte da nossa identificação nos apropriarmos desse espaço. Assim, a origem da pintura rupestre feita pelo nosso ancestral mais antigo, ou do mais moderno graffiti, passando pelos rabiscos nas portas dos banheiros públicos em contraponto às iniciais gravadas nos troncos de árvores, é mais ou menos a mesma – pelo menos no que diz respeito à motivação psicológica.

O historiador francês Michel de Certeau (1925 – 1986) afirmava que “o ato de andar é para o sistema urbano o que o ato da fala é para a linguagem”. No contexto da era pós-industrial, contudo, a cidade perdeu a sua voz, cada vez mais transformada numa máquina de morar. Os espaços de uso comum foram transformados em corredores inóspitos e tumultuados, segregados do público por cercas e muros cada vez mais altos e hostis. E confinados num centro urbano que aglomera mas não aproxima, seus habitantes acabaram reduzidos a meras engrenagens de um sistema que causa distanciamento nas relações, solidão e perda de identidade.

O conceito subjetivo de habitação não se restringe ao plano da moradia, simplesmente, mas se estende por toda a cidade. Afinal, a partir da sua casa, o cidadão usa outros lugares que a complementam, como as ruas, os parques, as praças, os lugares de trabalho ou de lazer. Contudo, com a cidade inteiramente submetida ao valor de troca, o próprio espaço tornou-se mercadoria. A cidade passou a personificar a exclusão social na sua própria estrutura de distribuição do espaço, e o que resta para ser apropriado pelo público está limitado aos interstícios da propriedade privada: as ruas.

São inúmeros os meios usados nas tentativas de reapropriação desse espaço perdido, geralmente através de manifestações artísticas nos espaços públicos. Para Vera Pallamin, arquiteta e filósofa da Universidade de São Paulo, é justamente a arte urbana a prática social que permite os modos mais diferenciados de apropriação do espaço urbano, por meio de uma estética envolvida com os mais diversos significados sociais, culturais e políticos.

Uma arte que não se compra

A arte urbana trata da redescoberta da cidade e da arquitetura como símbolos culturais, transformando-os em manifestações artísticas, numa reflexão em torno da relação do homem com o espaço em que vive. É uma forma de manifestação artística que, justamente por se relacionar com o espaço público, é essencialmente impossível de ser apropriada e segregada da sua vocação de diálogo com o coletivo.

Fruto das manifestações artísticas em espaços públicos abertos que começaram já no final do século XIX, em especial as performances surrealistas e dadaístas, a arte urbana ganhou a consistência de movimento a partir do período pós II Guerra Mundial. Com a intensa urbanização que seguiu à arrancada da industrialização que ocorreu nessa época, era natural que as cidades se tornassem o tema e a tela dessa nova forma de arte. Uma nova concepção de monumento público passou a ganhar as ruas, como as criações dos artistas norte-americanos David Smith (1906 – 1965) e Richard Serra (1939), além do búlgaro Christo Javacheff (1935), que ganharam notoriedade não só pelas formas adotadas, mas também pelos materiais utilizados na sua concepção, considerados até então inéditos: aço, borracha, plástico, tecido ou refugos industriais.

“Salve” é a obra deixada pelo graf1te1ro Tché Ruggi nos muros da cidade.

O graf1te1ro Paulo Ito prepara um muro no Beco do Batman, na Vila Madalena.

Os conturbados anos da década de 1960 influenciariam para sempre a arte urbana. A luta pela igualdade racial nos Estados Unidos e o conflito ideológico entre capitalismo e comunismo, que alimentou a Guerra Fria no resto do mundo, transformaram os muros das cidades em suportes para manifestações de cunho político, feitas sobretudo por estudantes. E não tardou muito para que os rabiscos no muro aos poucos deixassem de ser puramente uma expressão do pensamento político e fossem assimilados como mais uma expressão artística.

Influenciadas pelas criações de artistas como o estadunidense James Rosenquist (1933), que trabalhava como pintor de anúncios publicitários, as mensagens nos muros foram adquirindo mais cor e subjetivismo. Seguindo o movimento da pop art, que já vinha fazendo uma releitura das maiores ícones do capitalismo e da sociedade de consumo, nascia talvez a mais icônica forma de arte urbana: o graffiti.

Na década de 1960, o Brasil vivia o auge das tensões da resistência à ditadura que seguiu o golpe militar de 1964. Como o que se viu em Paris durante o movimento de maio de 1968, por aqui também o espaço urbano passou a ser usado como suporte para manifestações de cunho político e ideológico, e esse apelo contestador e popular não demorou a encontrar eco na periferia das grandes metrópoles. Confinados em áreas pobres pelo surto de urbanização que caracterizou a demografia brasileira desse período, alguns jovens artistas encontraram no graffiti a voz que contestava a exclusão social e espacial que os rotulava.

Considerado um dos brasileiros pioneiros no graffiti, o artista plástico Alex Vallauri (1949 – 1987) via a sua arte como uma forma de comunicação que melhor atingia as massas, dentro de um ideário que prega a arte como manifestação social, não apropriável, não elitizada e igualitária. Difundindo a técnica do graffiti e do estêncil (o desenho reproduzido em série por meio da tinta aplicada sobre uma tela recortada), ele foi um dos maiores responsáveis pela transformação da paisagem urbana das grandes cidades – começando por São Paulo.

Mas por que São Paulo?

“Porque a cidade pede isso!”, argumenta, enfática, Mariana Martins, fundadora da galeria Choque Cultural e pioneira na promoção do graffiti uma forma de arte que vai muito além do seu conteúdo social e antropológico. Para ela, o cinza e a inospitalidade da cidade pedem essa humanização pela cor. “Além disso, a cultura do skate é muito forte em São Paulo. Os skatistas são verdadeiros bandeirantes da arte urbana. Eles transitam por partes da cidade que carros não chegam e os pedestres não vão, e transformam esses lugares quando se apropriam deles. É assim que as manifestações de arte urbana vão surgindo embaixo dos viadutos, nos túneis, nas paredes da cidade”.

Filha do consagrado artista plástico Aldemir Martins (1922 – 2006), Mariana – ou simplesmente Mari, como é conhecida – faz coro com os demais artistas ao atribuir a causa do fenômeno do graffiti como a grande expressão artística paulistana do século XXI tanto à diversidade cultural de São Paulo quanto à exclusão social, que faz o centro e a periferia da cidade serem dois mundos completamente distintos. Isso, aliado ao caos da educação pública que privou – ou, sob outro ponto de vista, preservou – os jovens artistas do contato com os dogmas da arte acadêmica, permitiu que o traço que se vê pela cidade se desenvolvesse de maneira mais livre e incondicionada.

Na última década, seguindo o crescente reconhecimento da crítica especializada, São Paulo vem adotando o graffiti como identidade visual da cidade, em contraponto a cidades da Europa ou dos Estados Unidos em que ele ora é confinado em determinados bairros, ora é simplesmente considerado ilegal. Cada vez mais painéis têm colorido a cidade, muitas vezes por iniciativa do próprio poder público ou a convite dos proprietários dos imóveis grafitados.

Aos poucos, uma arte que originalmente se desenvolveu de maneira marginal e clandestina, seguindo uma técnica para ser feita às pressas e à espreita da polícia, tem ganhado composições cada vez mais apuradas e dimensões ainda maiores.

A arte urbana vira arte brasileira – e paulistana

Ao mesmo tempo em que o graffiti florecia na periferia, uma outra forma de apropriação e identificação do espaço urbano também nascia: o pixo, um movimento totalmente autóctone e original da cidade de São Paulo. A grafia propositalmente diferente de “pichação” revela a distinção entre uma manifestação e outra: enquanto o primeiro designa os rabiscos com mensagens que se encontram pelos muros de qualquer cidade do mundo, o segundo diz respeito à manifestação primal, quase tribal, de apropriação da cidade por meio de uma tipografia toda peculiar geralmente vinculada à identificação de grupos distintos e frequentemente rivais.

O que nasceu com as marcas deixadas pela cidade para promover um canil que criava a raça fila no final da década de 1970 – o célebre “Cão Fila Km 26” –, acabou evoluindo para um movimento complexo, envolvendo centenas de jovens da periferia da cidade que, completamente alheios à controvérsia sobre o pixo ser arte ou vandalismo, competem entre si para deixar a sua marca cada vez mais alto, cada vez mais visível, cada vez maior. “O pixo paulistano tem uma série de características próprias e únicas, como uma tipologia pontiaguda que segue o contorno da paisagem da cidade, com seus prédios altos recortando o horizonte”, explica o artista plástico Tché. Além disso, ele é feito cuidadosamente distribuído pela parede pixada, para ocupar todo o espaço disponível e numa ordem que obedece um código de conduta observado por todas as facções de pixadores.

Mais do que o reconhecimento social ou a aclamação da crítica, os pixadores arriscam as suas vidas nas alturas da cidade em busca de uma notoriedade que, embora restrita ao seu grupo e a quem mais consiga decifrar os símbolos que utilizam, se contrapõe à massificação que lhe é imposta pela exclusão social. Atuam à noite, frequentemente em duplas ou em grupos, utilizando os materiais que tiverem à mão para deixar suas marcas. Seja com spray, rolo, pincel, giz de cera ou pincel atômico, o que importa é fazê-las visíveis como uma compensação ao anonimato imposto pela massificação urbana.

Considerado um movimento marginal, o pixo já entrou em confronto com a arte reconhecida pela sociedade do consumo. Em outubro de 2008, um grupo de 40 pixadores invadiu o prédio da Bienal de São Paulo e deixou suas marcas numa área destinada a ficar vazia, no terceiro pavimento. Esse ato, que visava conquistar à força a aceitação do pixo como expressão genuína de uma arte urbana popular e marginal, acabou rendendo a prisão de uma pixadora por mais de um mês por dano ao patrimônio privado. Mas também proporcionou uma discussão sobre o movimento que envolveu a imprensa e a crítica especializada, e chamou a atenção do mundo para o que vem acontecendo em São Paulo.

Alguns pixadores chegaram a ser convidados para eventos internacionais, o que culminou com uma performance bastante controversa na antiga Igreja de Santa Elizabeth-Kirche, durante a 7a Bienal de Berlim, em 2012. Convidados a demonstrar o pixo numa área delimitada do prédio histórico, os pixadores fizeram o que sabem fazer melhor: subverteram as regras, escalaram as paredes da igreja do século XIX e deixaram suas marcas onde não era permitido. A imprensa protestou, escandalizada, e o curador da mostra teve que vir a público pedir desculpas ao povo da cidade.

Arte, manifestação social ou puro vandalismo, a discussão continua.

E o resultado disso é que a Avenida 23 de Maio, o túnel sob a Rua da Consolação e os pilares sob a via elevada sobre a Avenida São João se tornam-se galerias a céu aberto e pontos turísticos. Mas nenhuma dessas se compara ao que se vê na Rua Gonçalo Afonso, na Vila Madalena, mais conhecida como o Beco do Batman.

Uma via estreita, que se esgueira entre os muros de contenção das enchentes do Rio Verde que ainda corre sob o pavimento, tornou-se a maior galeria a céu aberto de graffiti de São Paulo, a ponto de se tornar referência para diversas publicações internacionais. Ao estêncil do herói das histórias de quadrinhos que um dia foi pintado ali, batizando o lugar, seguiram obras dos mais consagrados grafiteiros da atualidade, num movimento que tem se espalhado pelas paredes de toda a vizinhança adjacente. A Vila Madalena hoje reúne diversas galerias dedicadas à arte urbana, além de lojas voltadas para a cultura do graffiti. Não é à toa que a comunidade local tem se mobilizado para conseguir que a área seja preservada pela Prefeitura como um parque linear, alcançando o objetivo de promover a inclusão social e a apropriação do espaço da cidade por meio da arte.

Vários artistas contribuem para fazer do Beco do Batman uma enorme galeria de graff1ti.

O traço do graffiti paulistano tem encontrado uma acolhida tão ampla e calorosa do público e da crítica internacionais que, aos poucos, a cidade vem se firmando como a capital mundial da arte urbana. Artistas como Chivitz, Silvana Melo, Nunca, OsGêmeos, Presto e Canindé, para citar apenas alguns, que já deixaram o seu traço por toda a cidade, estão sendo convidados para mostrar a sua arte em outros países. Intervenções como a d’OsGêmeos no castelo de Kelburn, na Escócia, têm despertado interesse cada vez maior da crítica internacional.

Extremamente criativa e dinâmica, a arte urbana abarca um grande número de manifestações diferentes. Em São Paulo, além do graffiti, as intervenções urbanas também têm transformado o cotidiano da cidade: literalmente, depois de ter se desenvolvido e amadurecido nas paredes, a arte urbana começou a ocupar o meio da rua.

Diferente da motivação de apropriação e identificação do espaço pelo autor do graffiti, as intervenções urbanas têm o seu foco no olhar do cidadão comum sobre a cidade em que vive. Por meio de propostas de novas formas de interação com um objeto urbano existente (um monumento, por exemplo) ou com um espaço público, o artista proporciona experiências estéticas – geralmente visuais – que revelam novas maneiras de percepção do cenário urbano, que permitem ao cidadão criar novas relações afetivas diferentes da objetividade funcional do seu dia a dia. Uma reflexão toda nova sobre o compartilhamento do espaço, subsistência sustentável e inclusão social é proposta, sinalizando uma relação diferente da que estamos acostumados com a cidade e com o ambiente que nos cerca.

De sucatas de carros abandonados que viram jardins a galinhas soltas em shopping centers, passando por aplicações que transformaram o MASP numa caixa de nuvens, há mais de uma década vários artistas paulistanos têm tomado de assalto a cidade. E ao longo desse tempo, como uma evolução natural, São Paulo aos poucos também foi se especializando como um dos maiores produtores de arte digital do mundo, tendo a sua paisagem urbana transformada por projeções que, pelo menos por uma noite, interferiram em ícones da arquitetura da cidade.

Era justo, portanto, que se criasse um espaço especialmente dedicado à arte digital, seguindo o movimento que já vem compondo a paisagem de Nova York, Londres, Paris e Berlim. Incorporando o conceito de Media Facades, a fachada peculiar do edifício-sede da Fiesp, de autoria do consagrado arquiteto Rino Levi (1901 – 1965), um dos símbolos da Avenida Paulista, transformou-se permanentemente em uma gigantesca galeria de arte digital a céu aberto. São 3.700 m2 de área, revestidos com 26.241 dispositivos contendo quatro lâmpadas de LED cada um. Controlados por computador, eles são capazes de compor imagens em até 4,3 bilhões de combinações de cores, com possibilidades praticamente ilimitadas de movimentos e formas.

A galeria de Arte Digital na fachada do edifício sede da Fiesp transformou a paisagem da Avenida Paulista.

Sob a curadoria de Marília Pasculli, da produtora brasileira Verve Cultural, e da alemã Susa Pop, da Public Art Lab (Alemanha), a galeria é inaugurada com a mostra SP–Urban Digital Festival. Todas as noites, das oito horas às seis da manhã, serão exibidas criações dos artistas paulistanos VJ Spetto, Coletivo Bijari e Goma Oficina, além do colombiano Esteban Gutierrez, o francês Antoine Schimitt e a dupla hispano-estoniana Mar Carnet & Varvara Guljajeva. A mostra foi inaugurada no último dia 3 de dezembro e seguirá até a noite de 31 de dezembro de 2012.

Em 2013, a Galeria de Arte Digital do SESI-SP passará a integrar o evento internacional Connecting Cities, em que obras de arte digital são apresentadas nas fachadas multimídia das várias cidades participantes: Berlim (Alemanha), Linz e Viena (Áustria), Bruxelas (Bélgica), Liverpool (Grã-Bretanha), Helsinki (Finlândia), Prado e Madri (Espanha), Riga (Letônia), Marselha (França), Istambul (Turquia), Zagreb (Croácia), Montreal (Canadá) e Aahrus (Dinamarca).

Após comemorar 120 anos de criação, e eleita pelos paulistanos em 1990 como o maior símbolo da cidade, a Avenida Paulista agora vai colocar São Paulo no mapa da arte digital mundial.

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Régis Godoy Rocha

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