O teatro de revista brasileiro – A memória do esplendor

A vedete Mara Rúbia (1918-1991), rainha das escadarias, um dos maiores símbolos sexuais da época. Fez oito espetáculos com Walter Pinto.

Há 60 anos, os espetáculos de teatro de revista eram programa obrigatório para o público das maiores cidades do Brasil. Multidões se maravilhavam com suas apoteoses, que lançavam ao estrelato os cantores e vedetes mais importantes da época. Eles repercutiam na imprensa e também na política, ditavam modismos e influenciavam a cultura popular, desempenhando um papel importantíssimo e decisivo para a divulgação de uma linguagem verdadeiramente nacional, uma música autêntica e a cultura popular brasileira, livres das influências da indústria cultural estrangeira. A revista ajudou a inventar o Brasil que conhecemos hoje.

O teatro de revista chegou ao Brasil vindo de Portugal em 1859, mas a sua história remonta até a Grécia antiga. Gênero de teatro ligeiro, cômico e feito para o povo, ele chegou até o século XX depois de uma longa trajetória, que atravessou o Império Romano, passou pelos teatros de feira dos tempos medievais, pelo circo e pela Commedia dell’Arte italiana e até pelos autos do poeta português Gil Vicente (1465-1536).

Originada no teatro de rua, encenada no meio do povo em uma linguagem simples que favorecia a identificação com a realidade da época, a revista tem como um de seus principais objetivos a aproximação do público com a cena, estabelecendo uma interação cúmplice com os atores.

Boa parte dessa cumplicidade do público com a ação no palco se deve à improvisação, que é um dos elementos mais importantes do teatro de revista. Foi fundamentado no improviso que, desde a sua origem, a revista de senvolveu uma dramaturgia toda específica, com características bem distintas das composições eruditas do teatro clássico. Nela, uma figura importante era o compére (do francês, compadre): um ator constantemente em cena, que fazia o papel de mestre de cerimônias e interligava com seus improvisos os diversos quadros do espetáculo, por vezes comentando as cenas sob o mesmo ponto de vista da plateia.

Tendo como pano de fundo os principais acontecimentos do ano anterior, o teatro de revista ganhou esse nome ao fazer uma revisão crítica dos principais personagens e notícias da época. Em uma sucessão de cenas curtas e bem-humoradas, recheadas com música e dança, a plateia se divertia envolvida por uma linguagem que lhe era muito familiar, em um discurso livre de qualquer pretensão além do mero entretenimento.

Talvez por isso a revista, junto a outros gêneros célebres como o vaudeville, a opereta e a opera-buffa, tenha enfrentado tanto preconceito por parte dos puristas do teatro tradicional, este sim considerado uma arte elevada. Sendo um gênero popular, no sentido de que era feito para o povo e não pelo povo, e dotado de um discurso político frequentemente pouco simpático às elites, a revista nunca foi vista com bons olhos por aqueles que se viam representados no palco. Contudo, desconsiderar o seu valor cultural é uma grande injustiça. Afinal, embora feito para o povo, o teatro de revista não foge da riqueza cultural inerente ao próprio teatro – e nunca é demais lembrar que as tragédias gregas, consagradas como o mais significativo berço do teatro clássico, também eram feitas dessa maneira.

Talvez por isso a revista, junto a outros gêneros célebres como o vaudeville, a opereta e a opera-buffa, tenha enfrentado tanto preconceito por parte dos puristas do teatro tradicional, este sim considerado uma arte elevada.

Em Portugal, ele encontrou um terreno particularmente fértil para se desenvolver, em muito devido à longa tradição dos autos vicentinos que comentavam feitos do presente sob uma ótica crítica, passando em desfile as figuras e os personagens mais típicos da sociedade lusitana do século XVI. Sem sombra de dúvida, Gil Vicente foi o primeiro revisteiro da língua portuguesa.

O teatro de revista estreou em Portugal com a peça Lisboa em 1850, de Francisco Palha (1826-1890) e Latino Coelho (1825-1891), que imediatamente foi bem recebida pelo público. De Lisboa para o Rio de Janeiro, contudo, não foi muito fácil: em 1859 estreava em terras cariocas a peça As surpresas do Senhor José da Piedade, que, apesar de não ter sido um sucesso, assinalou o início dos cem anos de trajetória deste gênero teatral que lançou ao estrelato nomes da magnitude de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Oscarito (1906-1970), Carmen Miranda (1909-1955), Grande Otelo (1915-1993) e Dercy Gonçalves (1907-2008).

À esquerda, Dercy Gonçalves, nome que nasceu no teatro de revista e se tornou grande. À direita, Oscarito, perfeito como O malandro.

Nesses primeiros anos, as companhias teatrais portuguesas foram responsáveis pelas principais investidas do teatro de revista no Brasil. E com a publicação em Portugal da Lei de Lopo Vaz, em 1883, que proibiu a caricatura pessoal e as alusões políticas nos palcos, os artistas lusitanos intensificaram a migração para os palcos brasileiros em busca da liberdade de expressão que ainda não havia sido de todo banida por aqui. O Rio de Janeiro foi se tornando o grande centro teatral da América do Sul, e grandes nomes da dramaturgia nacional, como Arthur Azevedo (1855-1908), Goulart de Andrade (1881-1936), Moreira Sampaio (1851-1901) e Raimundo Magalhães Junior (1907-1981) foram sendo atraídos pela intensa produção do gênero que começou a tomar vulto no país.

O teatro de revista brasileiro começava a ganhar contornos próprios. Desenvolveu regras e padrões de produção peculiares, que aboliram a tradicional figura do compère, e estabeleceu o estreitamento com a música popular que transformou a revista na grande promotora de sucessos da época.

O grande impulso para a revista no Brasil veio com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A Europa em guerra e os portos fechados tornaram as travessias transatlânticas extremamente arriscadas, e por isso várias companhias teatrais estrangeiras que excursionavam pelo país ficaram por aqui durante os anos do conflito. Isolado das influências estrangeiras, o teatro de revista voltou-se ainda mais para a essência brasileira. Mergulhou no folclore nacional, nas nossas paisagens, ritmos, variedades de usos e costumes, sem esquecer a realidade política da época.

O teatro de revista brasileiro começava a ganhar contornos próprios. Desenvolveu regras e padrões de produção peculiares, que aboliram a tradicional figura do compère, e estabeleceu o estreitamento com a música popular que transformou a revista na grande promotora de sucessos da época.

Seu apogeu, contudo, só aconteceria no começo da década de 1940, no histórico Teatro Recreio. Fundado no Rio de Janeiro em 1877, e palco da proclamação da República em 1889, o Recreio já era respeitado como um dos principais palcos do teatro de revista desde os anos 1920, sob o comando de Manoel Pinto. Em 1938, quando ele morreu, o teatro passou às mãos do seu filho mais velho, Álvaro, que logo também faleceu num desastre de avião. Restou ao filho mais novo, Walter Pinto (1913-1994), assumir o comando da casa. E, embora fosse ainda muito jovem, revelou-se um grande homem de negócios, que soube levar o velho teatro ao seu esplendor máximo.

Luxuoso e confortável, o Recreio passou a exibir espetáculos suntuosos, de um apuro técnico jamais visto até então. Tinha uma orquestra bem equipada, figurinos elaborados, e contava com uma série de efeitos especiais que incluía até cascatas de água no palco. A plateia assistia a apresentações com mais de 40 coristas no palco, rigorosamente coreografadas, que a cada apresentação desciam graciosamente uma enorme escadaria que entrou para o folclore da revista brasileira. Conta-se que Walter Pinto fazia com que suas vedetes ensaiassem descer esses degraus mais de trinta vezes por dia, até que conseguissem fazê-lo com graciosidade e de cabeças erguidas, como o público espera de uma estrela.

Luxuoso e confortável, o Recreio passou a exibir espetáculos suntuosos, de um apuro técnico jamais visto até então. Tinha uma orquestra bem equipada, figurinos elaborados, e contava com uma série de efeitos especiais que incluía até cascatas de água no palco.

A partir do Teatro Recreio, a revista no Brasil se profissionalizou e adquiriu contornos de uma indústria. Walter Pinto mantinha uma equipe de apoio que contava com diretor de cenografia, diretor de carpintaria, diretor musical, coreógrafo, professores de dança, canto e postura, luminotécnicos, além de um elenco regular numeroso, que contava com vedetes que se celebrizaram nas capas dos principais periódicos da época, como a revista O Cruzeiro: Virgínia Lane, Araci Cortes (1904-1985) e Mara Rúbia (1909-1991) arrastavam legiões de fãs e eram conhecidas no país todo. A sua companhia fez várias excursões internacionais e, de quebra, também ajudou a impulsionar o mais brasileiro dos gêneros de cinema: as chanchadas, musicais cômicos que se tornaram grandes sucessos dos estúdios Cinédia e Atlântida nos anos 1940 e 1950.

Capas de programas da Companhia Walter Pinto.

Com a popularização da televisão e do cinema estrangeiro, contudo, os espetáculos começaram a perder seu público. Em uma tentativa de atrair plateias mais populares, as peças passaram a recorrer cada vez mais a repetições mecânicas de fórmulas e esquemas preconcebidos, além da temática de mau gosto e frequentemente obscena, que só serviu para afugentar de vez a classe média e acelerar o processo de derrocada do teatro de revista no Brasil. Por fim, a pesada censura imposta pelo governo militar que se instalou no país a partir de 1964 lhe serviu como um golpe de misericórdia. Os escombros do Teatro Recreio, demolido em 1963, serviram de túmulo para a era de ouro das vedetes.

Nos trinta anos que se seguiram, a revista pareceu ter sido esquecida completamente. Apenas alguns poucos saudosistas lembravam os frenéticos anos das décadas de 1940 e 1950, e muitos achavam que essa memória não tinha lugar em meio à modernidade dos anos 1970 e 1980. O gênero teatral tão popular outrora estava fadado a ser uma página virada na cultura brasileira, que a academia não estava disposta a reler porque estava muito ocupada estudando a sisudez do teatro clássico.

Esse ocaso só começou a ser revertido quando, em 1989, a atriz e diretora de teatro Neyde Veneziano obteve o título de mestre em Artes na Universidade de São Paulo defendendo a dissertação O Teatro de Revista no Brasil, publicada em 1991 pela Editora da Unicamp, edição hoje esgotada.

A opção pelo teatro de revista não foi por acaso. Embora a sua trajetória já tivesse se encerrado quando Neyde ainda era uma criança, as histórias de seu sogro, que na juventude fez parte da Companhia de Revistas Lyson Gaster, foram mais que suficientes para despertar a sua curiosidade sobre esse tema tão pouco estudado – e por que não dizer, negligenciado – na dramaturgia brasileira.

Com a popularização da televisão e do cinema estrangeiro, contudo, os espetáculos começaram a perder seu público. Em uma tentativa de atrair plateias mais populares, as peças passaram a recorrer cada vez mais a repetições mecânicas de fórmulas e esquemas preconcebidos, além da temática de mau gosto e frequentemente obscena, que só serviu para afugentar de vez a classe média e acelerar o processo de derrocada do teatro de revista no Brasil.

A SESI-SP Editora lançará uma nova edição de O Teatro de Revista no Brasil, cuidadosamente revisada e ampliada com as mais recentes pesquisas da autora. Além do texto revisto, novas e raras imagens ilustrarão o livro. A intenção de um trabalho tão minucioso é levar ao leitor o máximo do encantamento e da riqueza do período áureo desse gênero teatral.

Apesar de ter sido tão popular e contribuído tanto para o teatro brasileiro, Neyde Veneziano não acredita em um retorno do teatro de revista aos nossos dias. Mas, quem sabe, a exemplo da sempre viva Commedia dell’ Arte italiana, ele talvez possa ser reinventado para trazer de volta a exuberância da alegria brasileira para os nossos palcos. Essa ideia nos faz sonhar.

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Régis Godoy Rocha

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