Na trilha dos saberes

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O ano de 2013 começou como uma grande janela aberta para o futuro, para a menina Sara Kaly Santiago de Lima. Recém-admitida em um curso do SENAI, ela comemorou sua aprovação com um olho no futuro e outro no passado. À frente, ela vê a possibilidade de seguir adiante, ter uma profissão, conseguir se graduar, viajar pelo mundo como sempre sonhou. Atrás, Sara enxerga uma trajetória de auto-superação, marcada por dificuldades de aprendizagem progressivamente superadas a partir do momento em que entrou no Programa SESI-SP Na Trilha dos Saberes, que o SESI-SP realiza na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, desde 2007.

Foi neste projeto do SESI-SP que Sara reencontrou o prazer de aprender, a curiosidade natural das crianças e a confiança de que era capaz de avançar nos estudos. Tornou-se um – entre centenas de exemplos – de crianças e adolescentes que ganharam novas perspectivas de futuro passando pelas salas de aula que o SESI mantém em cada um dos Centros da Criança e do Adolescente (CCA) da região, oferecendo novas oportunidades de aprendizagem no contra-turno do ensino regular. “Quando não aprendi em minha escola, fiquei pensando que o problema era meu e não de quem não soube me ensinar”, lembra a garota. Ela não está sozinha nesse sentimento.

A diferença entre ler e não ler, saber e não saber, pode parecer uma simples questão de conteúdos e conhecimentos. Esse é um grande engano, que muitas vezes surge na visão leiga da educação. Entre o aprender e o não aprender, há um mundo de exclusão, destruição de autoestima, limitação de expectativas de progresso – definição de destinos.

Programa SESI-SP Na Trilha dos Saberes, que o SESI-SP realiza na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, desde 2007.

Atuar nesse vazio que existe entre o ensino regular e as reais possibilidades de aprendizagem de crianças e adolescentes foi justamente o espaço de atuação escolhido pelo SESI-SP. Não se trata de reforço escolar, nem de atividades livres. Antes, é um projeto educativo de educação não-formal que oferece aos alunos a possibilidade de pesquisar, investigar, desenvolver conhecimentos aplicados a situações reais e, principalmente, ligadas à vida da comunidade. Em projetos anuais, envolvendo especialmente a área de Linguagem e Matemática, os alunos realizam uma viagem pelo conhecimento – daí o nome Trilhas dos Saberes.

Em 2012, por exemplo, os alunos trabalharam sobre o tema Mídia, o que permitiu abordagens sobre as diferentes linguagens da comunicação – gibis, TV, livros, desenho música – e uma compreensão mais ampla sobre o ambiente cultural em que todos vivemos no mundo contemporâneo. Divididos em grupo, crianças e jovens produziram propagandas, testaram produtos, criaram jingles, falaram, escreveram, fizeram operações matemáticas, produziram conhecimento.

Partindo sempre dos conhecimentos prévios dos alunos, as atividades desenvolvidas no âmbito dos projetos interdisciplinares confere sentido e significado para conteúdos típicos do currículo escolar que precisam ser, muitas vezes, reconstruídos – como, por exemplo, a linguagem escrita da norma culta ou as operações matemáticas.

O mais importante é que tudo acontece em um ambiente de aposta na capacidade dos alunos. “Eu acho que esse é a principal transformação trazida pelo projeto: o fortalecimento da autoestima dos alunos e do reconhecimento da capacidade que todos têm de aprender”, diz a coordenadora Carla Govêa.

História

Quem anda hoje pelas 9 unidades dos CCA’s, estruturas municipais ali geridas pela organização social União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco (UNAS), observa uma rotina tranquila e planejada. As aulas sob responsabilidade do SESI-SP se inserem na matriz de cada CCA, que inclui atividades diversas de esportes, artes, teatro, entre outras possibilidades. Há grande integração entre as professoras do SESI-SP, e as educadoras sociais, gestores e coordenadores pedagógicos que constituem a equipe da UNAS.

Mas, por trás desse modelo que vem se consagrando e segue em aperfeiçoamento, há uma trajetória de implantação de uma tecnologia social de grande sensibilidade.

Tudo começou com a aproximação entre o SESI-SP e a UNAS, promovida pela educadora e voluntária em Heliópolis, Regina Barros, em 2007. Do lado de Heliópolis, havia uma convicção já formada de que a educação era a saída para uma comunidade que sofria com a violência do tráfico e as lacunas deixadas pelo poder pública; pelo SESI-SP, havia a consciência de que era possível colocar o peso de uma instituição erigida sob o valor do conhecimento a serviço de um projeto de longo prazo. Imediatamente encampada pela diretoria, na figura do presidente Paulo Skaf e de Walter Vicioni Gonçalves, então Diretor de Operações e atual Superintendente do SESI-SP, o projeto teve um start veloz, marcado por uma série de reuniões objetivas. O projeto decolou.

“A comunidade ouvia falar da qualidade do SESI, mas não acreditava que um dia isso poderia vir a fazer parte da vida deles. Para esse povo, que se sentia abandonado, saber que o SESI vinha para a comunidade era um sinal de que instituições importantes estavam lhes dando importância”, lembra a fundadora da UNAS, Genésia Ferreira da Silva Miranda.

A implantação da proposta pedagógica coube à gerente de Educação Básica, Maria José Zanardi Dias Castaldi. Não se pensa em metodologias fechadas e aplicadas de cima para baixo. Trilhas dos saberes foi uma construção feita em diálogo, a partir dos princípios pedagógicos propostos pelo SESI – uma educação baseada na valorização da autonomia, na interdisciplinaridade e no desenvolvimento das competências básicas em Língua Portuguesa e Matemática, principalmente. “Não podemos esquecer que era uma experiência nova para o SESI-SP também, e por isso esse projeto foi uma produção coletiva, que foi se ajustando às necessidades da comunidade”, lembra Maria José.

O programa foi desenhado no segundo semestre de 2007 e começou a ser implantado em 2008, inicialmente em uma unidade com 120 alunos, e depois estendido para, aproximadamente, mil crianças e adolescentes.

Hoje, o projeto atende crianças de 6 a 10 anos e adolescentes de 11 a 14 anos, divididas em turmas de 15 alunos e com aulas diárias de 1h30. Quando chegam ao CCA, os alunos passam por uma avaliação diagnóstica, que permite a organização dos grupos e, principalmente, oferecem aos professores um olhar integral do aluno, inclusive nos aspectos sócio-emocionais. Afinal, o olhar individualizado é uma das fortalezas do programa.

Não há notas ou avaliações formais – e nada mesmo que lembre o cotidiano da escola regular. As professoras do SESI buscam atrair os alunos para o prazer da aprendizagem, tornando-se muito próximas e construindo vínculos que duram muito além do período em que as crianças e jovens passam no CCAs.

 

Na rotina de trabalho em sala, as estratégias também diferem das classicamente adotadas nas escolas. Os alunos fazem muitas pesquisas, rodas de leitura, dramatização, fórum de debates, artes, jogos pedagógicos e sempre se busca a mobilização dos conhecimentos em atividades reais e ligadas ao exercício da cidadania no contexto em que vivem.

Os alunos fazem também saídas pedagógicas, como a visita à exposições de arte, apresentações teatrais e outros espetáculos, ampliando seu repertório cultural.

Os resultados são palpáveis e podem ser ilustrados pelas dezenas de histórias de crescimento e transformação. É o caso de Jéssica Vizacre de Lira, que não sabia ler até 2011, quando chegou ao CCA Sacomã. Sentia-se excluída e desvalorizada, até mesmo no ambiente familiar. “Eu me sentia muito mal. Escrevia tudo errado. Eu chorava. Nem meus irmãos ligavam pra mim”, lembra. Hoje, vive de livro na mão e avança com segurança em sua escolaridade regular.

Foi com a professora do SESI-SP, Luana Etelvina de Abreu, que Jéssica começou a se soltar e acreditar em si. Agora, sonha em ser policial e médica: policial para prender aqueles que cometem crimes; médica para salvar pessoas.

Os professores têm consciência de seu papel e sabem que vai muito além das questões pedagógicas. “Essas crianças e jovens se ressentem muito da impessoalidade com que são tratados, dos professores que não conhecem o nome. Ficam muito felizes quando a gente sabe o nome deles e demonstram isso”, reflete Luana. Para a pedagoga Rosélia Maria Pereira Vioto, a equipe do SESI-SP é formada por educadores experientes, que entendem as especificidades do trabalho social. “Esse que é o ponto fundamental: como é trabalhar com as crianças que vivem essa vulnerabilidade.

Não se trata só do aprendizado, mas com todas as condições sociais e psicológicas envolvidas”, lembra. Por isso, há uma troca intensa de informações e um olhar global para o desenvolvimento.

“Eu não sei se o SESI-SP tem ideia do quanto contribuiu para o desenvolvimento de Heliópolis”, avalia a atual diretora da UNAS, Antônia Cleyde Alves. “As crianças estão melhorando muito. A aprendizagem nos projetos avança. Há agora uma cultura de escuta das crianças”, resume.

Heliópolis: um bairro educador

No início da década de 1970, 150 famílias foram transferidas da Vila Prudente para uma área então pertencente ao INSS. Era para ser provisório, mas em um ambiente econômico marcado pela desigualdade e pela pobreza, por grandes contingentes populacionais que migravam para a capital, rapidamente Heliópolis se tornou uma grande favela – com todas as características de comunidades sem acessos a direitos básicos: violência extrema, tráfico de drogas, ausência de escolas, postos de saúde, falta de condições mínimas para o exercício da cidadania.

Ainda hoje Heliópolis carrega esse estigma – mas cada vez mais injustamente. A comunidade tem agora quase 200 mil moradores, em uma área de 1 milhão de metros quadrados. Com a maior parte das ruas asfaltadas, casas de alvenaria, Heliópolis pouco lembra aquele espaço conflagrado de duas décadas atrás – embora ainda a violência persista, bem como bolsões de miséria.

A principal marca da comunidade, entanto, agora é outra: tornou-se uma comunidade voltada para a educação, com inúmeras iniciativas sociais com foco no desenvolvimento de crianças e jovens – e assim vem atraindo a atenção da mídia, inclusive de outros países.

Como bairro educador, Heliópolis hoje trabalha pela qualidade de ensino para todas as crianças e jovens. “Nós pagamos impostos que sustentam universidades como a USP. É natural que nossos meninos e meninas possam sonhar em um dia estudar lá”, ambiciona o líder comunitário João Miranda. O caminho está traçado.

Crianças durante atividade no Programa SESI-SP Na Trilha dos Saberes

Projeto tem história contada em livro

A experiência do SESI-SP em Heliópolis será contada no livro Na trilha dos saberes – Uma possibilidade de educação para além do reforço escolar editado pela SESI-SP Editora, com análise do Prof. Walter Vicioni Gonçalves, superintendente da instituição, co-idealizador e grande incentivador do projeto.

A publicação descreve os cinco primeiros anos da implantação do projeto, em um exercício de reflexão que subsidiará outras iniciativas em curso. Com depoimentos de alunos, professores, pais, líderes comunitários, entre outros, a obra permite uma visão abrangente de como o projeto se desenvolveu, como forma de compartilhar a experiência com a sociedade. O trabalho foi ilustrado com belas imagens do fotógrafo Marcelo Soubhia, que retratam o cotidiano das crianças e adolescentes no projeto.

Em uma linguagem acessível, Na trilha dos saberes é destinado não apenas a educadores, mas a todos os que se interessam pelo trabalho do SESI-SP, por experiências de inovação pedagógica e pelo desenvolvimento de vivências urbanas, como a da comunidade de Heliópolis.

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