Na medida do impossível, otimista só de raiva

Foto de Daryan Dornelles (divulgação).

A multipremiada cantora-compositora-escritora Fernanda Takai nasceu em 1971, em Serra do Navio, Amapá. Mas todo mundo acha que ela é mineira de Belo Horizonte, pois vive na capital de Minas Gerais há bastante tempo. Fernanda ficou nacionalmente conhecida com a banda Pato Fu, formada em 1992. O nome da banda foi inspirado numa tirinha do Garfield, em que o felino gorducho lutava gato fu contra o carteiro. Pato Fu é, desse modo, uma arte marcial cheia de penas e nadadeiras, meio aquática, do tipo ocidental-oriental. Resumindo, é o divertido kung fu dos anatídeos.

Já na escolha do nome fica evidente a linha conceitual do grupo: inteligência, bom humor, suavidade, nonsense e metalinguagem. A banda lançou até o momento doze álbuns, e os meus prediletos são Gol de quem? (1995), Televisão de cachorro (1998), Toda cura para todo mal (2005) e os dois volumes de Música de brinquedo (2010 e 2017).

Em 2007, Fernanda lançou o primeiro disco solo, Onde brilhem os olhos seus, cantando parte do repertório de Nara Leão. Essa estreia individual aplaudidíssima foi seguida de Luz negra (um registro ao vivo da turnê do primeiro disco, 2010), Fundamental (idealizado com Andy Summers, ­ex-guitarrista do The Police, 2012), Na medida do impossível (reunindo um repertório variado, de inéditas e regravações, 2014) e O Tom da Takai (2018), cantando composições do início da carreira do grande Tom Jobim.

Em 2005, Fernanda começou a publicar crônicas e contos nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. Esse material literário já rendou também duas coletâneas: Nunca subestime uma mulherzinha (2007) e A mulher que não queria acreditar (2011). Mais recentemente, a ­cantora-compositora-escritora publicou dois saborosos livros pra crianças, A gueixa e o panda-vermelho (com ilustrações de Thereza Rowe, 2013) e
O cabelo da menina (com ilustrações de Ina Carolina, 2016), premiado com um Jabuti na categoria Infantil Digital.

Conversei com Fernanda Takai por e-mail, eu em São Paulo e ela em Belo Horizonte. Poderia ter sido por telefone ou Skype, mas confesso que gosto de receber respostas por escrito, da mesma maneira que prefiro responder por escrito. Sinto que o controle sobre o que falamos é bem maior assim.

Revisitar o oásis emocional que são os discos do Pato Fu, conhecer melhor o trabalho solo da Fernanda, seus álbuns e livros, seu blogue, suas entrevistas, tudo isso me salvou momentaneamente da insanidade social − de tragicomédia ou de ópera-bufa − que tomou conta da Terra Brasilis, tudo isso também me protegeu por algum tempo da esquizofrenia paranoica bipolar das redes sociais.

Fernanda, lembro que minha filha tinha uns sete ou oito anos quando comprei meu primeiro CD do Pato Fu. Logo que coloquei pra tocar, percebi que a irreverência da banda contagiava também as crianças que estavam em casa. Creio que essa é uma característica do teu trabalho musical e literário: o amplo espectro afetivo, que atrai ao mesmo tempo crianças, jovens e adultos. É isso mesmo?

Sim, você percebeu certo. Desde o início do Pato Fu, seja através dos videoclipes ou das capas de disco, seja pelos barulhinhos das músicas, seja pela marca da banda, muitas crianças também se conectaram com a gente. Acho que a minha tentativa na literatura foi sempre a de usar o cotidiano e a simplicidade pra me aproximar de públicos diversos. Mesmo que as paisagens sejam um pouco diferentes, os sentimentos humanos se repetem.

Uma arte adulta que se conecta também com as crianças eu costumo separar e guardar entre minhas coisas mais preciosas, porque é uma arte rara. Aconteceu a mesma coisa com umas ficções do Luis Fernando Verissimo e da Lygia Fagundes Telles. Muitos contos curtos que esses autores escreveram para o público adulto eu encontrei em coletâneas escolares, endereçadas a crianças e jovens. Isso me faz lembrar do velho preconceito que considera canções, filmes e livros infanto-juvenis uma arte menor. Você já sofreu ou sente que está sofrendo esse preconceito?

Acho que tenho tanta convicção de que a arte não tem limites de idade pra ser acolhida, que isso nem de longe me incomoda.  Um livro ou disco infanto-­
-juvenil é feito com a mesma dedicação e cuidado que uma peça para adultos. Pelo menos o que eu acho mais legal é trazer tudo junto, cada pessoa de uma família achar algo ali que represente um sentimento seu.

Parece que vivemos num país mais audiovisual do que literário, em que a tevê, o cinema e a música atraem um público muitíssimo maior do que a literatura. O que fazer para formar mais leitores? Será que a literatura precisaria dialogar mais com as artes concorrentes, em vez de tentar competir com elas?

Essa é uma luta antiga e vai demorar. Formar mais leitores está diretamente ligado à importância que tem a educação, desde a primeira infância, em nosso país. Não vejo uma competição entre as artes, acho que se retroalimentam, inclusive. Ao longo de minha carreira, tenho usado cada vez mais artes diferentes para me comunicar com as pessoas.

A comunicação de ideias e afetos parece ser um dos maiores desafios de nossa espécie. Teu trabalho mais recente é o disco O Tom da Takai, com treze composições de Tom Jobim regravadas por você. Tempos atrás você já regravara canções do repertório de Nara Leão, no disco Onde brilhem os olhos seus. Então há a Fernanda Takai bossa nova, a tropicalista, a pop, a intérprete solo e a vocalista de banda, a cronista e a escritora de livros para crianças e jovens. Você sente que tem sido compreendida, que a comunicação de ideias e afetos de fato está acontecendo? Ou já experimentou um pouco da frustração de ter sido mal interpretada?

Posso dizer que depois de tanto tempo de carreira consigo perceber que nem todo mundo vai gostar do que faço, seja escrevendo, seja cantando, seja vestindo… Hoje tenho mais certeza de que venho construindo uma carreira ao mesmo tempo diversa e sem pressa. O longo prazo me interessa mais. A comunicação mais assertiva é cada vez mais complicada porque parece que ninguém quer parar pra prestar atenção realmente. O mundo se comunica através de trailers…

Tuas crônicas, e também os contos, os livros infantis e as canções desenham um mundo em que a leveza, o humor, a empatia e o otimismo venceram. É dessa expressão favorável que nós mais estamos precisando neste momento tão tenebroso, no Brasil e no mundo. Você sempre teve consciência do alto valor social dessa postura criativa?

Eu tenho uma camiseta preta com a bandeira do Brasil estilizada, criada pelo meu querido amigo Ronaldo Fraga, que diz: “OTIMISTA SÓ DE RAIVA”. Eu sou sempre assim. Está tudo péssimo, mas acho que podemos e devemos lutar por um país melhor. Eu não quero sair daqui, não quero pedir outra cidadania, nem colocar arame farpado nos meus muros… Todo dia quero tentar fazer algo que valha a pena pro coletivo.

Adorei o lema da bandeira do Ronaldo Fraga. Acredito que o humor e a irreverência um dia salvarão o planeta da intolerância e dos arames farpados. Olha a responsabilidade… Humor é mesmo coisa séria. Pensando também nos dois discos gravados para e com as crianças − Música de brinquedo 1 e 2 − e comparando-os com outros discos produzidos para esse público − Os saltimbancos, do Chico Buarque, A arca de Noé, a partir dos poemas do Vinicius de Moraes, Quero passear, do grupo Rumo, Canções curiosas, de Paulo Tatit e Sandra Peres −, percebo que o trabalho do Pato Fu tem uma camada a mais: uma camada de ironia musical. Estou pensando no uso dos instrumentos de brinquedo, como se fosse uma performance experimental (a versão de Live and let die, por exemplo, é muito engraçada). Por favor, me corrija se eu estiver delirando…

Temos em casa todos esses discos que você citou! Há um pouquinho mais de veneno na escolha do repertório principalmente do Música de brinquedo 2. Muitas músicas ali são politicamente incorretas para crianças, tem um duplo sentido, né? Que bom! Pois o que mais temos hoje é música de sentido único e ruim, entre as mais tocadas do país. Eu diria que há uma diversão imensa quando descobrimos que sons engraçados podem emular perfeitamente uma melodia, um solo muito conhecido. Daí usamos sem ter medo, sem fazer reverências. O Pato Fu é uma banda que tem álibi e disposição pra feitos improváveis!

Por exemplo, O cabelo da menina, teu livro mais recente, trata com bastante delicadeza da questão (complicadíssima) da liberdade individual. A menina propõe a beleza do cabelo livre, em desacordo com a convenção social. Os colegas da escola a criticam, mas a professora apoia sua iniciativa, promovendo a mudança na opinião pública. Nossas crianças e nossa sociedade estão precisando de mais ideias e cabelos malucos? É possível enfrentar o conservadorismo, sem usar a violência em algum nível?

Quis muito falar sobre essa questão porque começou com uma situação em minha casa e na época não validei a atitude de minha filha. Isso ficou comigo por muitos anos até que consegui, através de um texto, mudar o final de uma história que acontece a todo o momento, em diferentes esferas. O fato da professora ter sido sensível e apoiar a ideia da aluna nos mostra como é importante uma ação assim para a autoestima, para a formação de uma personalidade. Quanto mais cedo tivermos consciência das nossas diferenças, mais teremos respeito ao próximo e entendimento de mundo.

Estamos vivendo um ótimo momento pra denunciar e anular antigos preconceitos patriarcais, machistas, racistas, fascistas, religiosos… Preconceitos que raramente eram expostos com tanta força e transparência na arte e na literatura. Quais outros temas problemáticos você gostaria de tratar na música ou na literatura?

Tenho alguns em mente, como a descoberta da sexualidade, a vocação (que não necessariamente é aquele tipo de carreira que as pessoas acham que tem futuro), a compra de bichos de estimação, velhice… são muitos. Mas não costumo muito contar sobre o que não fiz ainda… melhor parar. O Pato Fu está envolvido numa produção audiovisual bem bacana que não demorará a ser lançada. Daí a gente conversa mais.

Nas crônicas e nos contos curtos, você está criando e reunindo uma grande família de personagens tocados pelas pequenas epifanias da vida cotidiana: o varredor apaixonado, a mulher que não queria acreditar, o rapaz que mora dentro de um urso (amo esse texto!), o moço do tempo, a pequena florista, o homem que foi pra guerra, e tantos outros. Sem mencionar teu eu lírico, que protagoniza muitas narrativas. Dá pra dizer que cada personagem é uma diminuta expressão de uma sensibilidade maior, de um grande mosaico coletivo chamado Fernanda Takai?

Eu tenho certeza de que cada um deles também mora em mim. A minha forma de perceber o mundo às vezes não se mostra à primeira vista, então através de um personagem ou uma história eu me posiciono psicologicamente de um jeito mais livre. Ninguém vai apontar o dedo pra mim. É como um minipoder, quase um álibi.
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Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira é escritor e ensaísta, autor do romance Subsolo infinito, cujo narrador-protagonista, imitando Dante Alighieri, empreende uma fantástica expedição ao inferno.

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