Origens do Carnaval Paulista

Estas imagens fazem parte do livro Carne Vale - O imaginário carnavalesco na cultura brasileira, da SESI-SP Editora. Da esquerda para a direita: todas do artista Arthur Omar.

Um feito para aguçar um pouco mais a rixa Rio-São Paulo. Pela primeira vez, que se tem conhecimento ou desde que é feita a medição, o Carnaval Paulista superou o da capital carioca em número de participantes. Os dados estimados apontam que 9,1 milhões de foliões curtiram os blocos de rua em São Paulo, no período de 3 a 13 de fevereiro deste ano, contra 6 milhões no Rio de Janeiro. Nada que chegue perto das cerca de 15 milhões de pessoas que pularam atrás dos trios elétricos em Salvador, mas São Paulo teve o maior número de blocos de rua inscritos do país, 491. Mas, afinal, como começou o carnaval paulista e de que maneira a cidade se transformou para chegar até aqui?

O carnaval em São Paulo passou por marcos importantes, como a forte presença negra no bairro da baixada do Glicério e Liberdade com o cortejo de foliões que se autointitulavam “Zoavos” no ano de 1857. No entanto, o grande símbolo do carnaval paulista ocorre no ano de 1914 com a fundação do grupo carnavalesco Barra Funda, por Dionísio Barbosa, grande referência do samba da Pauliceia.

As manifestações aconteciam pelas ruas da Barra Funda, onde o grupo cantava músicas próprias; mas, antes de entrarmos na história desse
gru­po é importante falar sobre o Batuque de São Paulo, matriz africana composta por sotaques, demandas, tambores, danças e dialetos encarnando os sentidos profundos de tais manifestações. Essa formação genética cultural se encontraria posteriormente com a pajelança dos índios guaranis e tupis do estado de São Paulo.

São diversas as vertentes que ajudam a formar esta célula cultural que chamamos de samba paulista ou samba rural paulista, entre elas temos o tambu e a umbigada, comum em Capivari, Tietê e Piracicaba, o samba de bumbo ou campineiro, em Pirapora do Bom Jesus, e ainda o futebol de várzea nas regiões periféricas da cidade.

Os cordões carnavalescos em São Paulo anteciparam as escolas de samba. A nova modalidade de manifestação intitulada de grupo carnavalesco surge em 12 de março de 1914, fundado pelo Dionísio Barbosa aliado ao seu irmão Luiz Barbosa, e seu cunhado, Cornélio Ayres, e este grupo mais tarde receberia o apelido “Camisa Verde”, nome pelo qual se tornaria conhecido.

No cortejo tríduo de carnaval, o grupo levava uma formação instrumental para as ruas, composta de sopros e cordas com músicos de grande estirpe. Destaco entre eles Silvano do Saxofone, Capistrano do Trombone, Sebastiãozinho do violão, Augusto dos Santos no violão, Márcio e Dionísio Barbosa no pandeiro, Mario Jandiro e Vitor no cavaquinho. O estandarte do grupo, bandeira ricamente bordada com temas que representam a entidade, era carregado pelas mãos de Torquato, irmão de criação de Dionísio. No entanto, em 1923, os estandartes passam a ser carregados por mulheres influenciados pelo Neco, do cordão “Os desprezados”; precursor da novidade na época; desta maneira Dionísio e outros o acompanharam na iniciativa.

Os cordões deveriam ter em suas formações a presença de personagens que compunham a corte: rei, rainha, duque, duquesa, príncipe, princesa e outros integrantes. Com relação à formação do desfile, havia porta-estandarte, rumbeiros, marinheiros, pastoras, cabrochas, caiapós e as “amadoras”, mocinhas agrupadas que saíam nos cordões. Nesta composição existiam também os balizas, figuras importantes que faziam malabarismos com bastões de madeira e dançavam em frente ao cortejo com a finalidade de defender o estandarte, também conhecidos como “balizas de pau”.

O grupo carnavalesco Barra Funda teve importantes balizas em sua história, entre eles: Bagico, Cara-torta, Oscar, Hernani e Vitor, este último considerado como um dos melhores balizas do grupo. Nessa primeira fase, uma das características diferenciais do grupo era a cantoria de músicas autorais, todo ano fazia-se uma marcha para o carnaval, ao contrário de outras agremiações que cantavam músicas já populares.

Dionísio Barbosa, fundador do primeiro cordão carnavalesco paulista.

“Na Barra Funda existe um grupo sem rival, salve o Camisa Verde nestes dias de carnaval.”

É importante frisar que na década de 1930 se inicia o enxame dos cordões carnavalescos na capital paulista, cito alguns que se propagaram nesta época: Campos Elíseos, Flor de Maio e Geraldinos nos Campos Elíseos; na Pompéia, “Esmeraldinos”; na Casa Verde, “As Caprichosas”; em Pinheiros, o “Caveira de Ouro”; na Liberdade, o “Mocidade da Lavapés”, no Cambuci, “Marujos Paulistas”; no Bixiga, “Vai Vai”, além de outros, como “Termiarno”, “Metalúrgica  Mar Rugerone”, “Victória Paulista”, “Nacionalistas”, “Irmãos Patriotas”, “Diamante Negro” e as “Baianas Teimosas na Baixada do Glicério”, onde participava a lendária Madrinha Eunice, fundadora da escola de samba “Lavapés”, criada em 1937.

O carnaval paulistano, suas transformações e compositores

A alteração da estrutura do carnaval e tensões causadas pelo avanço do capitalismo voraz foram determinantes para uma drástica mudança na dinâmica de manifestação popular. No final da década de 1960, mais precisamente no ano de 1968, começou a oficialização dos desfiles carnavalescos promovidos por órgãos públicos municipais, adquirindo assim subvenção financeira que contribuiria com uma boa parcela dos custos das agremiações. Essa oficialização acontece no ano de 1967 e tem participação ativa de alguns representantes destas entidades, entre eles Inocêncio Tobias (Camisa Verde e Branco), Pé Rachado (Vai Vai), Seu Nenê (Nenê da Vila Matilde), Seu Carlão (Unidos do Peruche), Madrinha Eunice (Lavapés) e Xangô (Vila Maria).

Esse processo contou também com a presença dos radialistas Moraes Sarnento, Evaristo de Carvalho, Vicente Leporace e Ramon Gomes Portão. Desse encontro surge então a comissão que levaria a proposta para o prefeito da época, José Vicente Faria Lima. O prefeito realizou um encontro com a comissão de sambistas e radialistas para organizar os desfiles carnavalescos no estado de São Paulo, e após esta ação enviou para a Câmara Municipal a lei nº 7.100 de 29 de dezembro de 1967, na qual a prefeitura ficava autorizada a promover as festas de carnaval e financiá-las por meio de verbas orçamentárias públicas. Este apoio financeiro por meio da lei e decretos complementares exigia que as escolas e os cordões fundassem uma federação ou confederação de cunho jurídico afim de receber os incentivos da Secretaria de Turismo e Fomento. Dessa forma, foi reativada a Federação das Escolas de Samba e Cordões Carnavalescos, fundada em 1958, que se encontrava sem nenhuma atribuição.

A partir desse momento as escolas de samba ganham força no cenário da terra da garoa em detrimento da presença dos cordões carnavalescos, até então a grande referência da cultura popular paulista. Esse processo antropofágico alavancado pela força do capital e interesses políticos leva ao fim os cordões do início da década de 1970, assim como o carnaval espontâneo sairia de cena, sendo substituído pela disputa das escolas de samba, as quais patrocinariam os desfiles de carnaval.

Cordão do Camisa Verde e Branco criado por Dionísio Barbosa.
(USP Imagens)

A transformação do formato dessa manifestação cultural, além de ter contado com o apoio do poder público, fez-se presente neste processo os veículos de comunicação midiáticos, revelando posteriormente profundas alterações que atingiriam de forma frontal seus griôs e sambistas litúrgicos. Um dos atores mais atingidos foram os compositores, que tiveram de se adequar a regras e enquadramentos burocráticos vigentes a partir do novo contexto.

A presença financeira nas escolas de samba induzira a ala de compositores a participar de concursos entre seus componentes, criando um clima de competitividade entre os membros nas disputas dos sambas de enredo. A partir desse momento, todas as idealizações advindas das escolas possuíam um viés de competição direcionado aos desfiles, e essa lógica exercida pelo capitalismo levou os indivíduos a partilharem dessa dinâmica.

Dentro deste contexto é relevante observar que, ainda nas primeiras décadas dessas mudanças, mais precisamente 1970 e 1980, a poética exercida pelos compositores não foi corrompida, haja vista os grandes sambas que entraram na história do carnaval paulista destacando grandes nomes que se imortalizaram com suas obras nestes pavilhões: Ideval e Talismã (Camisa Verde e Branco), Paulistinha (Nenê de Vila Matilde), Zé Di (Vai Vai),  B. Lobo e Pinheirão (Peruche), Zeca da Casa Verde (Morro da Casa Verde, Rosas de Ouro), Geraldo Filme (Peruche, Paulistano da Glória, Vai Vai). Entre a riqueza poética dos inúmeros poetas da Pauliceia, escolho falar sobre dois compositores simbólicos do carnaval paulistano: Geraldo Filme e Ideval Ancelmo.

Poetas em destaque

A verve poética carrega em si as suas reflexões e africanismo na cultura do samba, e é nessa toada de versos que começo a falar de Geraldo Filme, ativista cultural e profundo conhecedor da história de seu povo.

Geraldo Filme afirmava que havia nascido na capital em 1927, embora registrado na cidade de São João da Boa Vista, no interior do estado, em 1928. Essa curiosidade se deve ao fato de manter-se a tradição de registrar os filhos como nascidos na terra natal dos pais, um costume comum entre a população negra mais antiga. Inicia sua vivência no carnaval desfilando no Camisa Verde. Nesses primeiros passos, ainda na infância, apresenta-se como baliza e, posteriormente passaria a desfilar no Campos Elíseos.

A poesia e os questionamentos de Geraldo Filme começam a manifestar em sua pré-adolescência quando compôs o samba “Eu vou Mostrar” em resposta imediata ao seu pai, quando o questionara sobre a existência do samba na cidade paulista.

“Eu vou mostrar, eu vou mostrar
Que o povo paulista também sabe sambar
Eu sou paulista, gosto de samba
Na Barra Funda também tem gente bamba
Somos paulistas e sambamos para cachorro
Pra ser sambista não precisa ser do morro”

A presença do poeta nas festas de Pirapora do Bom Jesus desde criança imprimiu marcas em sua trajetória, inspirando-o a compor dois sambas memoráveis sobre este tema: “Batuque de Pirapora” e “Tradições e Festas de Pirapora”, este último apresentado como samba enredo da Unidos do Peruche em 1971. Essa veia crítica de autoafirmação em sua luta pelos valores africanistas aparece em outras obras “Vai Cuidar de sua Vida” e “Reencarnação”, gravadas em seu álbum solo de 1980, e “Tebas”, no álbum “Nas Quebradas do Mundaréu”. Em 1976 emplaca o samba-enredo da escola de samba Vai Vai com o tema sobre o poeta e artista plástico Solano Trindade.

Geraldo Filme, implacável ativista cultural, deixa sua marca em dois álbuns antológicos produzidos pelo dramaturgo e escritor Plínio Marcos: “Balbina de Iansã” (1971) e “Nas Quebradas do Mundaréu” (1974). Este último álbum conta com a presença de outros dois ícones da cultura do samba paulista: Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde.

A africanidade inerente ao seu ser não parava por aí e, em 1982, grava o álbum “Canto dos Escravos”, ao lado de Tia Doca e Clementina de Jesus, interpretando cantigas ancestrais dos negros oriundos de benguela, na cidade de São João da Chapada, em Diamantina, estado de Minas Gerais. Esse repertório integra a pesquisa de Aires da Mata Machado Filho e foi gerado a partir do recolhimento de cantigas do fim do século XX dando origem à coletânea “Memória Eldorado”. É de suma importância ressaltar que Geraldo Filme teve sua primeira obra gravada pelo catedrático do samba ­Germano Mathias, com o samba “Baiano Capoeira” em parceria com o alagoano erradicado em São Paulo Jorge Costa, compositor renomado na época.

Geraldo Filme é a representação mais voraz no tocante ao elo vivo africano no estado de São Paulo.

“Quero ser sambista
Ao renascer de novo
Pra cantar a alegria
E desventura de meu povo

Quero ter muitos amigos
Como tenho atualmente
Cantar samba na avenida
E nascer negro novamente”

Dentro do universo dos sambas-enredo das escolas de São Paulo, Ideval Anselmo é a maior referência neste rico cenário. Nascido em 18 de setembro de 1940, em Catanduva, interior de São Paulo, ingressa em 1969 na agremiação Camisa Verde e Branco, época em que tal entidade levaria para o carnaval um tema antológico “Samba através dos tempos”, também conhecido como “Biografia do Samba”, de autoria de Talismã e Tabu. Posteriormente essa música se tornaria o hino oficial da “Embaixada do Samba Paulistano”.

Em sua primeira aparição como compositor na agremiação, emplaca o samba “Literatura de Cordel” em 1972. Tal episódio se tornaria corriqueiro em sua trajetória de sambista, ganhando muitos outros carnavais. Entre os sambas-enredo vencedores, um deles viraria um marco: “Narainã, ­Alvorada dos Pássaros”, parceria com Zelão e Jordão, em 1977. Apresentado pela escola de samba Camisa Verde e Branco, a música foi considerada o samba do século.

Esta fotografia de Pierre Verger, tirada em 1947, no Recife, faz parte da obra da SESI-SP Editora, Carne Vale – O imaginário carnavalesco na cultura brasileira.

“Era de manhã
Narainã ali chegou
No reino encantado
Oh sinfonia a patativa
Que cantou

A índia tão bonita
Prometida ao pajé
Amava outro moço, com calor e muita fé
Iara mãe d’água
No pé do ipê
Quem faz a morada
É o saci pererê

Mulher te viro bicho
No feitiço
Pajé falou
Calou a sua voz
Ela em ave transformou
Guerreiro
Moço valente chorava
Até a lua prateada
Implorou ôô
Das lágrimas de um curandeiro
Virou alado o guerreiro
E voou ôôô”

Grupo de crianças do Camisa Verde e Branco, em 1925.
(USP Imagens)

Suas obras também foram gravadas por intérpretes como Jamelão, Fabiana Cozza, Eliana de Lima, Leandro e Leonardo, entre outros. Ideval, com sua poesia africanista carregada de sensibilidade, marcava seu grito de libertação nas músicas “Tesouro Africano” e “Mutação*”, esta última  um grito inflamado de denúncia contra o racismo que sua filha teria sofrido na escola. As duas músicas pertencem à coleção “Memória do Samba Paulista”, gravada em 2012, com produção em parceria dos selos musicais Kolombolo Diá Piratininga e Sambatá.

Ideval Anselmo, além de ser um ícone da escola de samba Camisa Verde Branco, é atualmente integrante da velha guarda musical. Teve seus sambas cantados no carnaval por outras agremiações, entre elas: Unidos do Peruche, Rosas de Ouro, Colorado do Brás e Tom Maior, na qual é um dos fundadores.

“Sou negro sim, valor em mim, o negro tem histórias para contar”

Referências Bibliográficas

MORAIS, Wilson Rodrigues. Escolas de Samba de São Paulo: Capital. São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978.
BARONETTI, Bruno Sanches. Transformações na avenida: história das escolas de samba da cidade de São Paulo (1968 – 1996). São Paulo: LiberArs, 2015.
SOUZA, Geraldo Filme de. Geraldo Filme de Souza: depoimento [mai. 1981]. Entrevistadores: Olga R. Moares Von Simson e Ciro Ferreira Faro. São Paulo: Museu de Imagem e Som (MIS), 1981. Apostila. Entrevista concedida ao Projeto “Memória do Carnaval Paulistano: cordões e escolas de samba.

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Renato Dias

Renato Dias é músico, compositor e produtor cultural. Fundador do grêmio de resistência cultural “Kolombolo Diá Piratininga”, do cordão carnavalesco “Corpo Fechado” e do “Kuringa movimento cultural Afro Bantu paulista”. Como músico, foi fundador e integrante do grupo de rap Sinhô Preto Velho. Como sambista, lançou o álbum “Samba Rural Urbano”, em parceria com o músico T. Kaçula (2007) e em 2015 lançou o álbum solo “Antropofagia – O ritual samba-antropofágico do mestre de cerimônia”.

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