O tempo e o vinho

Vinum laetificat cor hominis: O vinho alegra o coração do homem (Salmos, 103, 16).

O “Sermão” que se lê em seguida consta de preciosa e mui rara plaqueta recém-adquirida pela Biblioteca Vinária Reppucci. Trata-se de literatura de colportage, iniciada já no século XV e que equivale aos nossos cordéis. Os colporteurs são considerados os agentes dos primeiros impressores, encarregados de divulgar as novas publicações pelas feiras da Europa . Mais tarde essa atividade passou a ser o ganha-pão de cegos e mendigos, que vendiam impressos de gosto popular e, em fase posterior, planfletos de caráter religioso. O texto é tradução nossa do original de 16 páginas impresso no século XVIII, sem indicação de data nem de impressor, e intitula-se Sermon de Bacchus en Faveur des Buveurs. As ilustrações são do impresso; a com o dístico “Donec totum impleat” é emblema da Ordem da bebida, célebre sociedade báquica de Avignon, na França.

Parece-me, caros ouvintes, ouvir a voz de alguns críticos bebedores d’água, de semblante contraído, olhar severo, dizer-me com ênfase: — Vinum et mulieres faciunt apostatare sapientes (Eclesiastes, 9, 2): O vinho e as mulheres são a peste do corpo, o veneno dos sentidos e a perdição da alma.

De minha parte, respondo-lhes com vivos argumentos, que se tivessem mente suficientemente esclarecida, esclarecimento assaz inteligente, far-lhes-ia logo compreender o sentido dessa passagem, revelando-lhes que é esse tipo de má mulher que o demônio deixou que perseguisse Jó, e desse vinho de punição que Deus deu a beber aos inimigos de seu povo, do qual se fala no Deuteronômio (32; 32; 33): Que os grãos de suas uvas assemelham- e a grãos de fel, e seu vinho ao fel dos dragões, de que fala a Escritura.

De fato, existe algo pior do que uma mulher má, algo pior do que submeter a paciência de um sábio a tão rude prova como a de um vinho ruim? Mas, senhores, se existe um vinho capaz de enfurecer o sábio, é o vinho da maldição, o vinho de Brétigny, mas não o vinho encantador, esse licor adorável, que o fecundo calor do sol produz em nossas colinas, e que Deus oferece a beber aos justos de seu povo: Praeparabo illis vinum deliciosum: Dar-lhes-ei vinho delicioso (Provérbios, IX, 5).

Deixemos, pois, murmurarem os críticos, sem dar atenção a suas surpresas sofistas. Que os raios e os anátemas caiam sobre essas raças ímpias, que não querem participar da recompensa celeste, isto é, beber do vinho encantador que o céu nos promete e nos envia para alegrar-nos os corações: Vinum laetificat cor hominis: O vinho alegra o coração do homem. Se estas palavras vos assustam, recorrei ao mesmo vinho. Enquanto ides cantar um hino em louvor do deus Baco, vou fazer a minha parte:

Deus, protetor do tonel,
Sempre que entoo
Um canto em tua honra
Jamais a tristeza perturba
A alegria de meu coração.

Osmen e Achemet, assaz versados nas terríveis ciências, têm afirmado que deixar de beber é tornar-se miserável, dar-se um gosto antecipado da morte e tornar esta vida um inferno. De fato, existe algo mais natural ao homem 65 do que beber vinho? Bonum vinum laetificat cor hominis: O bom vinho é o amigo do coração e sustento da vida; é justamente isso que destacou Bruno em sua segunda: Vinum mortem pellit: o vinho combate a morte. E Caromollon, cujo mérito nos é bem conhecido, exorta-nos a refletir sobre a vida do mísero Maomé, que proíbe o vinho a seus seguidores e o rotula de tortor animarum, praeda infernorum, instrumentum diabolicum.

Esse ímpio bem sabia que in vino veritas… que no mesmo instante em que esses miseráveis provassem do delicioso licor teriam os olhos abertos e diriam com os verdadeiros filhos de Baco: O quam bonum et jucundum bibere fratres in unum!: Que imenso prazer ver os irmãos bebendo unidos! A excelência do vinho, sua necessidade e o bom uso que dele se deve fazer são as três coisas que pautarão meu discurso e darão seriedade à matéria.

Atenção
Primeiro Ponto

A excelência de uma coisa decorre normalmente de dois princípios: primeiro de sua causa; segundo, de seus efeitos. O mesmo se dá com o vinho, quer olhemos sua causa: omnis arbor bonus bonos fructus facit: toda boa árvore dá bons frutos; quer olhemos seus efeitos, nós o encontraremos igualmente excelente, sob qualquer aspecto. Teria havido em algum tempo planta mais recomendável do que a vinha, à qual o Senhor, após comparar a boa mulher a ela — Uxor tua sicut vitis abundans: mulher assemelha-se a uma vinha abundante (Salmos 27, 3) —, escolheu identificá-la consigo mesmo: Ego sum vitis et vos palmites: Eu sou a vinha e vós os sarmentos (João, 15, 5)? E também, como diz Mateus: Numquid colligunt de spinis uvas? Mateus, 7, 16): Não são as sarças nem os espinhos que produzem uvas.

Uma das maiores virtudes da mulher forte é economizar para plantar a vinha. Et de fructu manuum suarum plantavit vineam (Provérbios, 30, 17): E com o fruto de suas mãos ela plantará a vinha.

Noé tornou seu nome muito mais conhecido para a posteridade pela cultura da vinha do que pela construção da arca. Esse bem-aventurado pai encontrou a pedra filosofal que nossos químicos procuram tão inutilmente, quando nos revelou a adega miraculosa do vinho delicioso, que sabemos admirável e sobrenaturalmente excelente em sua causa e origem.

Falemos, porém, de seus efeitos, e nos convenceremos dessa mesma verdade. Laetificat cor hominis: Ele alegra o pobre coração abatido do homem, é-lhe consolo em suas aflições. Dá-lhe forças, é-lhe conforto em suas misérias. Salomão nos ensina nos Provérbios (3, 6), que é remédio para as chagas, como diz também Lucas (10, 34): Infundens oleum et vinum alligavit vulnera: Misturando um pouco de azeite com vinho, fez um unguento e um preparado para suas feridas. O vinho é inimigo da corrupção, é ele que produz virgens – vinum germinans virgines (Zacarias, 9, 17) – e tendo em si fecundo calor possui o princípio de nossa vida; é com ele que se descobre a verdade: in vinum veritas (Plínio).

Nele encontraram nossos ancestrais seu entusiasmo. Dele nossos adivinhos obtiveram seus pendores premonitórios. E o que escolheram para representar o néctar, a ambrosia? Nada a não ser os excelentes vinhos de Frontignan, das Canárias, os Ciotat da Espanha e de Málaga. Que ouço dizer nas Escrituras? Que ele é bebido até no céu, como se lá não existisse a felicidade perfeita sem o vinho.

Mas que necessidade tenho de buscar razões de retórica se tenho em mãos a experiência para convencer-vos com mais força. Eu vos intimo todos a renová-la, e é pelo apelo dessa renovação que encerro o primeiro ponto, entornando esta taça de vinho.

Segundo Ponto

A necessidade de uma coisa se extrai principalmente da finalidade para a qual ela foi criada; claro que se deve concluir daí que o vinho é absolutamente necessário. Ele é necessário, senhores, na religião; é necessário para o sustento das nações. É nesse licor que nossos soldados tomam coragem, é o que os faz combater com tanta audácia. Tomaram desse suco? Pois, seu natural de galinha converte-se no de leão; os mais frouxos nele encontram a generosidade, e é a ele que, bem a propósito, nossos poetas deram o epíteto de vinum generosum: vinho generoso, que nos faz sobrepujar com intrepidez tudo quanto se opõe à nossa glória; é por sua virtude que nossos franceses não apenas conservam suas fronteiras, mas as ampliam todos os dias. No tocante às famílias e aos particulares, sua necessidade é facilmente explicada, pois eu já disse que ele nos faz suportar e resistir às agressões e malignidades do ar, restaura-nos as forças e produz mil outros efeitos dos quais temos provas diárias. Mas avanço mais e venho de estabelecer-vos sua necessidade mediante duas fortes considerações.

A primeira, porque sua abundância foi sempre uma recompensa, uma bênção para os justos. A segunda, pelo oposto disso: a escassez foi sempre uma maldição contra o pecador. Busquemos os exemplos da primeira consideração: encontraremos que na passagem do povo de Israel do Egito para a terra prometida, Deus transportou a videira: Vineam de Aegypto transtulisti, ejecisti gentes, et plantasti eam, diz Davi (Salmos, 79, 9): Transportastes a vinha do Egito, expulsastes as nações, e a plantastes. Descobrimos também que o primeiro sinal que o Senhor quis dar ao seu povo da bondade da terra para onde os conduzia, foi fazê-los encontrar um cacho de uvas que dois homens mal podiam carregar. Feliz clima! Mais ainda, felizes seus habitantes.

Na nova lei, Ele não quis que faltasse vinho nas bodas de Caná. E as famosas adegas de São Martinho e de São Bernardo, que Ele tão maravilhosamente abasteceu, em consideração a seus santos eremitas, devem acabar de persuadir-vos.

O Antigo Testamento abre-nos primeiro os olhos: Percussit vineas eorum (Salmos, 104, 33): atingiu os vinhedos deles. Et occidit in grandine vineas eorum (Salmos, 77, 47): Destrói as suas vinhas com o granizo. Escutai a ameaça que Ele faz aos maus: Non erit gérmen in vineis (Habacuc, 3, 17): Não haverá frutos nas vinhas.

O que falta, pois, para convencer-vos da necessidade do vinho, a não ser fazer-vos ver o espanto em que se encontraram os banquetes de bodas e os bons religiosos de Claraval e de Marmoutier, quando se viram sem vinho e, entreolhando-se, disseram com os Apóstolos (Mateus, 6, 3): Quid bibemus: O que haveremos de beber? O mesmo espanto em que vos encontraríeis agora, se não tivésseis uma taça de vinho para ajudar-vos a ter a paciência de escutar-me, e a mim para prosseguir neste discurso.

Terceiro ponto

Seguir a vontade de Deus é empregar as coisas segundo o fim ao qual se destinam. Sendo o vinho feito para beber-se, seria opor-se aos desígnios do céu não bebê-lo. Si sitit potum da illi, diz São Paulo (Romanos, 12, 20): Se ele tem sede, dá-lhe de beber, mas que seja do melhor, porque as melhores coisas são para os escolhidos: Omnia propter electos (Timóteo, 10, 12), em especial o bom vinho. Produxit foenum jumentis, et vinum ut laetificat cor hominis (Salmos, 104, 14): O Senhor produziu o feno para os animais e o vinho para alegrar o coração do homem.

Aproximai-vos, caras pálidas; vinde bebedores de água. Tendes ainda a ousadia de persistir em vosso infeliz erro? Acabo de mostrar a excelência do vinho com base em autoridades irretorquíveis, em razões convincentes e provas infalíveis. Demonstrei-vos sua necessidade através de bons argumentos irrefutáveis; ainda assim vós o condenais? Deus o bebeu e vós não quereis bebê-lo! O próprio Senhor embriagou a terra: Visitasti terram et inebriasti eam – diz o profeta-rei (Salmos 64, 9): Visitastes a terra e a embriagastes. A figura dos ébrios também merece respeito, pois Deus amaldiçoou a Cã por ter caçoado de seu pai bêbado.

Aprendei, infelizes, que vossas caras pálidas são a marca de vossa reprovação, e as bochechas sadias e vermelhas, sinal de visível e verdadeira elevação: a alegria desenhada em suas fisionomias revela a serenidade de suas consciências, enquanto vossas caras pálidas testemunham corações atormentados. Adversum me machinabantur qui sedebant et me psallebant qui bibebant vinum (Salmos, 69, 13): Os que se sentavam à soleira de suas portas maquinavam inultimente contra mim, e os que bebiam vinho cantavam-me louvores, diz o salmista.

Vamos, confrades da garrafa, bebamos todos, sem nos embriagar; tudo nos convida a isso: a excelência do vinho, sua necessidade e a vontade de Deus, que está acima de todas as coisas. Continuemos a plantar cada vez mais vinhas, a fim de que possamos dizer com os filhos de Deus: Seminaverunt agros plantaverunt vineas et benedixit eos (Salmos, 79, 15): Semearam trigo, plantaram vinhas, por isso Deus os abençoou. E dirigindo-Lhe a prece contida no Salmo 79, 15: Deus virtutum vineam quam plantavit dextera: Senhor das virtudes, olhai e vede, visitai e aperfeiçoai esta vinha que minhas mãos vos plantaram – Aquele que jamais abandonou seus servidores quando necessitados, encherá vossos celeiros.

Então, do fundo de nossos corações, bebendo em goles vermelhos, abençoaremos seu santo nome: Me psallebant qui bibebant vinum.

Convido-vos, pois, a todos a usarem esta bebida deliciosa, que é excelente e necessária. É o que desejo pregar-vos pela palavra e pelo exemplo, tomando esta taça de vinho. Levo manus meas ad coelum et juro bibere in aeternum: Ergo minhas mãos ao céu e prometo beber por toda a minha vida. Fazei o mesmo e encontrareis sempre a alegria neste mundo e o descanso no outro – é o que vos desejo. Boa noite!

Fim

Send to Kindle
Claudio Giordano

Claudio Giordano

Cláudio Giordano é tradutor e fundador da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes. Pela SESI-SP Editora publicou Apontamentos de leitura.

Leia também

Matérias

Juó Bananére, o lustrissimu ridattore du Pirralhu

por

Lembro-me bem. Foi no ano de 1979, num sebo perto do viaduto do Chá. Eu estava com meu colega de […]

Memória e sociedade

Loucura e literatura – um (im)possível cânone para a prosa brasileira? por Ronaldo Bressane

por

Loucura e literatura podem ser uma rima, mas dificilmente uma solução. É um tema muito pouco praticado na literatura de […]