O destino dos oceanos

Ocupação desordenada em Garopaba, Santa Catarina. (João Lara Mesquita)

Depois de vinte anos dirigindo a Rádio Eldorado, em 2002 os acionistas decidem que era chegada a hora dos Mesquitas abandonarem suas posições executivas no Grupo Estado. Aos 47 anos, tendo estudado música erudita, e com uma bagagem de vinte  anos de experiência em rádio, me vi na incômoda posição de não saber o que fazer da vida. Foram anos difíceis até que veio a ideia: eu já conhecia rádio, jornal e revistas. Escrevia para ambos. Faltava a televisão. Naquela época era comum assistir a documentários sobre os lugares mais exóticos da Terra. Mas e o mar e a zona costeira brasileira? Temas como estes eram raros, e eu os conhecia bem.

Navegava com meu pai, um fanático pescador, desde o final dos anos 1960.

Tive o privilégio de conhecer o litoral de São Paulo e Rio de Janeiro praticamente intocados. Bastou abrirem a estrada litorânea, BR 101, para, em pouquíssimo tempo, nossa “pegada” destruir a beleza cênica e grande parte dos ecossistemas. Mangues aterrados para a construção de hotéis e condomínios, costões rochosos cimentados para a construção de rampas para barcos, especulação imobiliária e muita poluição. Bingo! Era isso o que eu queria fazer.

Com o conhecimento de mais de quarenta anos navegando, não seria difícil alertar o público de que a ocupação desordenada do litoral estava ameaçando o mais importante ecossistema do planeta, sem o qual não haveria vida: os oceanos.

Em abril de 2005, levei meu veleiro, Mar Sem Fim, até o rio Oiapoque. Eu desceria a costa brasileira registrando tudo para a TV Cultura.

Dois anos depois, arrasado com o que vira, cheguei na fronteira sul, o arroio Chuí. Durante o período, produzi noventa documentários mostrando cada palmo do litoral brasileiro. Sucesso! Enquanto esteve no ar, a série “Mar Sem Fim” foi o programa de maior audiência da Cultura. Mas não foi só isso. Durante a viagem, entrevistei mais de quarenta especialistas da academia, centenas de nativos, prefeitos e secretários de meio ambiente das cidades costeiras. Professores que dedicaram sua vida a estudar mangues, dunas, corais, vida marinha, poluição etc. deram contundentes depoimentos. Meu conhecimento, antes empírico, agora era também teórico.

Mas a conclusão foi triste. Por ignorância em alguns casos, ganância e egoísmo em outros, estamos destruindo nosso mais importante ecossistema antes mesmo de conhecê-lo adequadamente.

Até hoje o homem explorou menos de 5% do oceano profundo e, mesmo assim, foram recenseadas mais de duzentas mil espécies. Cientistas acreditam que identificaram menos de 10% da totalidade dos seres marinhos. Os oceanos são um bem coletivo, pertencem à humanidade. Com a viagem do Mar Sem Fim, aprendi que temos de mudar rapidamente tanto nossa ação pessoal como as políticas públicas se não quisermos ser co-responsabilizados por mais um desastre. Navios trazem organismos exóticos que tomam o lugar dos nativos. De acordo com a International Maritime Organization (IMO), doze bilhões de toneladas de água de lastro, contendo algo como cinco a sete mil espécies animais e vegetais, são transportados de um ponto para outro. A cada nove semanas, uma nova espécie marinha invade algum ambiente do planeta.

No Brasil, não é diferente. Navios despejam água de lastro nos portos. Não há baía que não esteja contaminada. A introdução de espécies exóticas é a segunda maior causa de perda de biodiversidade, de acordo com a International Union for Conservation of Nature (IUCN). A primeira, o desaparecimento de habitats.

Apenas um exemplo de contaminação: o mexilhão-dourado, molusco vindo da Ásia, entrou na América do Sul pelo Prata, infestou o Guaíba e subiu até o rio São Francisco. Agora ameaça chegar na Amazônia. Em seu trajeto, o molusco foi responsável pelo entupimento de encanamentos da usina de Itaipu, gerando enormes prejuízos e causando desequilíbrio ambiental.

No Nordeste, a febre da carcinicultura, criação de camarões em cativeiro, extirpou enormes áreas de mangue, um importante berçário de vida marinha, que também tem a capacidade de limpar e melhorar a qualidade da água. Nos últimos 15 anos, o Brasil perdeu mais de 20% de sua área de manguezais, seja para a criação de camarões, seja para a construção de hotéis, condomínios ou casas de segunda residência. Na mesma região, falésias, antigas linhas da costa preservadas por lei por sua beleza cênica, são ocupadas impunemente.

Dunas funcionam como repositório de areia. Por serem extremamente porosas, absorvem água. No Ceará, são a principal fonte de água doce das comunidades nativas. Elas agem como proteção contra a força das marés, temporais, ressacas. Devem ficar livres de interferência porque interagem com o ambiente e suas areias circulam: caem no leito dos rios, são novamente trazidas para as águas do mar e de lá para as praias, num movimento constante e dinâmico. Mesmo sendo proibido ocupá-las, no país a interdição se restringe aos papéis oficiais. Enquanto isso, a erosão toma conta do litoral.

Corais são pisoteados por nativos e turistas. Barcos de pesca passam o arrastão, talvez a mais danosa espécie de pesca, na arrebentação, o que é proibido, sem qualquer fiscalização. E assim sucessivamente no sudeste e no sul. Caso você precise de mais evidências sobre a extraordinária capacidade do ser humano de destruir o planeta, considere isto: em 2050, os oceanos conterão mais plástico do que peixes, em peso (relatório da Ellen MacArthur Foundation apresentado no Fórum Econômico Mundial, Davos, 2016). Impressionado, passei a pesquisar sobre o estado dos oceanos na imprensa estrangeira que, ao contrário da nossa, ainda publica matérias a respeito; em sites especializados e em livros de especialistas.

Foi assim que conheci Sylvia Earle e seu A Terra é azul, agora editado no Brasil pela SESI-SP Editora. O livro se tornou minha “bíblia”. De tão bom, eu tinha dois exemplares: um em casa, outro no barco. Enquanto navegava e via a destruição sistemática que impomos à zona costeira, ficava estarrecido com as informações desta que é a maior referência mundial na questão dos oceanos. E, mais uma vez, confirmei que estava certo ao me decidir levantar esta bandeira. Criei um site (www.marsemfim.com.br) para colocar as informações, fotos e filmes que recolhi. Publiquei livros, como O Brasil visto do mar sem fim (editora Terceiro Nome), em dois grossos volumes, escancarando nossa ação. Fui duplamente recompensado. Em 2008, ele foi indicado ao prêmio Jabuti na categoria reportagem.

Ao ler Sylvia, descobri que ela pensava da mesma forma:

“Talvez o mais problemático seja a grande e difusa ignorância sobre o papel vital dos oceanos para a vida de todas as pessoas, de todos os lugares e épocas”.

“Hoje são comuns as manchetes sobre a preservação do ‘verde’, mas muita gente parece não saber que sem o ‘azul’ o ‘verde’ não existiria.” E prossegue: “Os oceanos regulam o clima, absorvem grande parte do dióxido de carbono da atmosfera, retêm 97% da água da Terra e abrigam 97% de sua biosfera”.

“O mar controla a química do planeta, lançando na atmosfera a mesma água que voltará para a terra e para o mar através da chuva, da neve e do granizo, restabelecendo continuamente rios, lagos e aquíferos subterrâneos.”

“A grande questão é: o que podemos fazer para cuidar do mundo azul que cuida de nós?”  Ela mesma responde: “Desenvolver uma rede global de áreas protegidas no oceano, os ‘pontos de esperança’, me pareceu um desejo relevante e capaz de ajudar na proteção e recuperação da saúde do oceano”.

Até recentemente (anos 2000), menos de 3% dos oceanos eram protegidos por meio da criação de reservas marinhas. No Brasil, o índice é pior: 1,5% de “proteção” até hoje. Entre aspas mesmo. Já explico por quê. Do início do século XXI até hoje, novas e imensas reservas marinhas de proteção integral, aquelas de onde não se pode tirar nenhum tipo de recurso, sejam vivos, leia-se vida marinha, ou não, minerais, foram criadas. Crédito para cientistas como Sylvia Earle. Por causa dela, a terceira viagem que fiz pela costa brasileira foi para conhecer e registrar as poucas unidades de conservação federais do bioma marinho costeiro. Elas começam no Chuí e terminam no Amapá, totalizando apenas 1,5% de proteção e ferindo acordos internacionais que o Brasil assinou no âmbito da ONU, que preveem que até 2020 todos os países com saída para o mar tenham separado até 10% de sua zona costeira, ou mar territorial em áreas de proteção, os pontos de esperança de que fala Sylvia Earle.

Mais uma vez fiquei mal-impressionado. Áreas imensas que foram transformadas em unidades de conservação não têm sequer um barco! Além de equipes mínimas. Em muitos casos, uma só pessoa toma conta de mais de 300 mil hectares “protegidos”. Como é possível fiscalizar a zona costeira sem barcos ou equipes? Entrevistando pescadores, ouvi um mantra que se repetiu de norte a sul: “o peixe acabou”. Os crustáceos seguem o mesmo destino. Foi este o motivo que me levou a procurar um grupo de ambientalistas e passar a lutar por mais áreas marinhas protegidas, desta vez  longe da costa e de nossa ação. Roberto Klabin (SOS Mata Atlântica), Fábio Feldmann, José Truda Palazzo Jr. (Instituto Baleia Jubarte) e Angela Kuczach (Rede Pro-UCs) foram alguns deles.

Nasceram os projetos para transformar os dois arquipélagos oceânicos, São Pedro e São Paulo, e Trindade e Martim Vaz, em áreas marinhas de proteção integral. O esforço deu resultados. No momento em que os projetos ficaram prontos, Sylvia desembarcou no Brasil para lançar seu livro. E imediatamente se engajou na campanha. Do lançamento, no início de março, na Fiesp, acompanhamos Sylvia numa audiência com o presidente Michel Temer. Ela entregou um exemplar autografado e, mais uma vez, explicou a necessidade da criação de áreas de proteção integral. Graças a esta feliz “conspiração de datas”, o projeto foi levado para o presidente Michel Temer, que o assinou. Saltamos de 1,5% de áreas marinhas protegidas para cerca de 25%.

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Da redação

Sylvia A. Earle foi apelidada pela revista New Yorker de “Vossa Profundeza”, e a Time a nomeou “Heroína do Planeta”. Essas são algumas das elogiosas referências que recebeu, condizentes com a dedicação dessa bióloga em desvendar e defender com extrema obstinação os oceanos. Para ela, a importância dos oceanos se dá não apenas por serem ambientes que abrigam ricos ecossistemas, mas pelo papel que desempenham na preservação da vida do planeta.

A terra é azul, que a SESI-SP Editora acaba de lançar no Brasil e que vendeu mais de 50 mil exemplares em língua inglesa e também já foi traduzido para o espanhol, japonês e chinês, tem como objetivo principal responder a uma questão levantada por Earle: o que podemos fazer para cuidar do mundo azul que cuida de nós?”.

Na publicação, ela faz uma radiografia da destruição da vida marinha e mostra a estreita relação entre o destino dos oceanos e o da humanidade. O trabalho é resultado das observações que recolheu em todos esses anos em que coordenou mais de cem expedições e somou mais de sete mil horas debaixo d’água. Retrata com detalhes o histórico da fúria extrativista com que os oceanos foram atacados, na crença de que seria uma fonte inesgotável de alimentos. O que vemos na publicação é que essa visão só levou ao extermínio de diversas espécies marinhas e muitas outras em via de extinção.

A obra conta com prefácio de Bill McKibben, ambientalista norte-americano  e autor dos best-sellers O fim da natureza, Deep Economy e Earth.

 

 

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João Lara Mesquita

João Lara Mesquita é músico de formação, jornalista e fotógrafo. Entre 1982 e 2003, foi diretor da Rádio e Estúdio Eldorado, pertencentes ao Grupo Estado. Membro fundador (e conselheiro) do Núcleo União Pró-Tietê, ligado à Fundação SOS Mata Atlântica, ONG que desde 1990 comanda a campanha pela despoluição do rio Tietê. Foi conselheiro do Greenpeace de 2001 a 2004. Capitão amador, acumula mais de 60 mil milhas navegadas. Mais informações no site: marsemfim.com.br/

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