Loucura e literatura – um (im)possível cânone para a prosa brasileira? por Ronaldo Bressane

Loucura e literatura podem ser uma rima, mas dificilmente uma solução. É um tema muito pouco praticado na literatura de ficção, e igualmente pouco estudado na crítica. Afecções psíquicas não são assunto regular na prosa, e este recorte não é visto com olhos muito atentos pela academia. Embora transtornos mentais não sejam escassos na população brasileira – estima-se que 3% dos brasileiros sofram de alguma afecção psíquica persistente –, ansiedade, depressão, esquizofrenia, psicose, síndrome do pânico, transtorno bipolar, síndrome de abstinência de drogas, entre outros, são temas tão pouco comentados quanto o maior dos tabus: o suicídio.

Raros escritores citam o assunto em suas ficções, e a encruzilhada entre criatividade e afecções psíquicas é raramente frequentada por críticos, pesquisadores e acadêmicos. Ainda assim, é possível estabelecer uma linha de estudo que vai de grandes autores como Qorpo Santo a Lourenço Mutarelli, passando por Lima Barreto, Maura Lopes Cançado, José Agrippino de Paula e Hilda Hilst. Perguntei ao psicanalista e filósofo Christian Dunker: seria possível criar um cânone alternativo na literatura brasileira, aproximando autores que tiveram algum tipo de problema psíquico? “A tentativa de fazer isso de modo sistemático e não apenas ilustrativo ainda não foi feita com a devida extensão e profundidade”, reflete o autor de Reinvenção da intimidade (Ubu). “Poderia pensar em relações como: Lima Barreto e o delírio alcoólico, ­Graciliano Ramos e a angústia de separação, Hilda Hist e a neurose obsessiva feminina, Ana Cristina César e a depressão, Álvares de Azevedo e a melancolia, Bernardo ­Carvalho e a experiência borderline, Marçal Aquino e a perversão, Roberto Piva e a esquizofrenia, Machado de Assis e o delírio de ciúmes (Dom ­­Casmurro), João Paulo Cuenca e a síndrome dissociativa, Nuno Ramos e a compulsão sexual, João Cabral de Melo Neto e a esquizoidia, Nelson ­Rodrigues e a neurose obsessiva, Guimarães Rosa e os neologismos, Renata Belmonte e a histeria…”, enumera o pensador (entrevista no boxe).

Talvez o exemplar mais conhecido de loucura na literatura brasileira seja O alienista, noveleta de Machado de Assis. A obra-prima guarda um fundo moral, como muita coisa que Machado escreveu. O psiquiatra Simão ­Bacamarte, homem ressentido pelo fato de sua mulher não lhe dar um herdeiro, mergulha no trabalho. Logo produz teses que o fazem enxergar a loucura no mínimo gesto. Pretende engaiolar em sua clínica Casa Verde todas as pessoas a quem considera loucas, até chegar a 75% da população da cidade. Assustado com o número, repensa suas teorias e, entendendo que a normalidade esconde a verdadeira loucura, resolve prender os outros 25%. Ao perceber que não havia personalidade perfeita, a não ser a sua própria, Bacamarte tranca-se no hospício e joga fora a chave. Guimarães Rosa ecoará, anos depois, a fábula humorística de Machado, na famosa blague em Grande Sertão: Veredas: “Ninguém é louco. Ou então, todos”.

No entanto, o enlace loucura e literatura havia acontecido antes do alienista machadiano, com um contemporâneo muito menos conhecido, e ainda hoje bastante ignorado pela academia – quem sabe justamente por ter sofrido o preconceito da loucura na própria pele. O gaúcho José Joaquim dos Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo (1829-1883), aos 32 anos, em um surto de criatividade, começa a extensa Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade. O surto criativo é visto por parentes e amigos por transtornos psíquicos – rotulados então sob o diagnóstico de monomania –, o que rendeu a Qorpo Santo a perda do emprego de professor e uma interdição a pedido da própria esposa e filhos, sob a alegação de “monomania” e “superexcitação de atividade cerebral”, sobretudo na compulsão de “tudo escrever”. Só em maio de 1866 o gaúcho de Triunfo escreveu oito peças teatrais. Mesmo recorrendo ao médico pessoal do imperador Dom Pedro II, que o considerou “gozar de boa saúde mental”, a interdição permaneceu.

O estigma da loucura estava posto sobre Qorpo Santo, e o autor se viu cada vez mais isolado. Mas não parou de escrever obsessivamente peças de teatro – que só veriam a luz dos palcos cem anos depois. Há alguns anos, a Companhia São Jorge de Variedades, de São Paulo, montou a peça Um credor na Fazenda Nacional, dirigida pela grande atriz Georgette Fadel. “A encenação reproduzia o clima surrealista que perpassa a dramaturgia de ­Qorpo Santo, num espetáculo com diferentes cenários – diferentes salas de uma repartição pública –, pelas quais o público é conduzido, sempre na companhia do protagonista, que tenta em vão receber um dinheiro que lhe é devido”, conta João André Brito Garboggini, na tese de doutorado Qorpo Santo: lanterna de fogo.

Foram necessários mais de cem anos para colocar Qorpo Santo no cânone do teatro do absurdo, de que teria sido um dos precursores mundiais.

Lima, Maura e Bispo: a vida no hospício

Depois de Machado, outro autor negro debruçou-se sobre o tema da clínica psiquiátrica – no entanto, não da perspectiva do médico, mas sim do paciente. Trata-se de Lima Barreto, que, em seu autobiográfico O cemitério dos vivos, narra a sua experiência como interno da colônia Pinel, no Rio de Janeiro (a bela edição da Cosac Naify contém o Diário do hospício). O autor de Triste fim de Policarpo Quaresma tinha um histórico de transtornos mentais, a começar pelo próprio pai, um tipógrafo dado a delírios violentos. Em uma das mais melancólicas biografias de um mito brasileiro (só comparável à biografia de Garrincha), Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, lemos o infortúnio do autor carioca, que, penando entre os ataques do pai, a falta de dinheiro para colocar comida na barriga do filho, a burocracia do funcionalismo e o desprezo de seus pares intelectuais e o racismo, mergulhou no alcoolismo.

“Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um ser estranho. Não será bem isso, pois vejo bem que são meus semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre sombras – mas que sombras, que espíritos?! As que cercavam Dante tinham em comum o estoque de ideias indispensável para compreendê-lo; estas não têm mais um para me compreender, parecendo que têm um outro diferente, se tiverem algum (…).
No começo, eu gritava, gesticulava, insultava, descompunha; dessa forma, vi coisas fantásticas familiarmente, como a coisa mais natural do mundo. Só a minha agitação, uma frase ou outra desconexa, um gesto sem explicação denunciava que eu não estava na minha razão.
O que há em mim, meu Deus? Loucura? Quem sabe lá?”

No Brasil, nenhum autor foi mais longe no flerte entre literatura e loucura do que a mineira Maura Lopes Cançado – uma dessas vidas tão extraordinárias que anseiam por um grande filme. Nascida em uma rica família proprietária de terras, foi uma das primeiras mulheres a tirar brevê de avião no país. Casou-se e engravidou cedo, e cedo separou-se; três anos depois do nascimento do filho, internou-se em uma clínica de Belo Horizonte para tentar curar-se das crises epilépticas. Seria o início de um longo histórico de internações – e, depois, de detenções. Belo Horizonte era muito provinciana para os hábitos sofisticados de Maura, que, embora baixinha, espezinhava os homens que seduzia e via-se como uma rainha – não por acaso o filho se chamava Cesarion, o filho de Cleópatra com Julio Cesar. Brigada com a família depois de torrar a herança do pai, foi para o Rio de Janeiro, onde caiu nas graças de Reynaldo Jardim, editor de cultura no Jornal do Brasil. Despertou paixão e fascínio em homens como Carlos Heitor Cony e Ferreira ­Gullar, e causou espécie ao publicar Hospício é Deus, autoficção que narrava de maneira detalhista e metafísica suas internações psiquiátricas.

“O que me assombra na loucura é a distância – os loucos parecem eternos. Nem as pirâmides do Egito, as múmias milenares, o mausoléu mais gigantesco e antigo possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura. Diante da morte não sabia para onde voltar-se: inelutável, decisiva. Hoje, junto dos loucos, sinto certo descaso pela morte: cava, subterrânea, desintegração, fim. Que mais? Morrer é imundo e humilhante. O morto é náuseo, e, se observado, acusa alto a falta do que o distinguiu. A morta anarquiza com toda dignidade do homem. Morrer é ser exposto aos cães covardemente. Conquanto nos dois estados encontro ponto de contato – o principal é a distância.”

Maura publicaria somente a coleção de contos O sofredor do ver (ambos os livros foram reunidos em uma excelente edição da Autêntica) antes de prosseguir em sua triste história psiquiátrica – que incluiu sessões de eletrochoque, abusos por parte de médicos e funcionários e internações em solitárias, culminando no assassinato de uma colega de clínica, durante um surto psicótico. Foi detida em prisão comum, até que a justiça a considerou inimputável, diagnosticada como esquizofrênica. Libertada, vagou de hotel em hotel até morrer de problemas respiratórios.

Maura Lopes Cançado.

As semelhanças entre as vidas de Maura e Lima chamaram a atenção da pesquisadora Francine Cardoso, que escreveu uma tese de doutorado comparando as autoficções de ambos os escritores. Ela pede cuidados na aproximação entre vida, obra e diagnósticos. “Ainda que o saber médico/psiquiátrico ou o saber psicanalítico ou jurídico nos fizessem conhecedores desses diagnósticos associados a cada um desses autores, a crítica literária estabeleceria diálogo com tais diagnósticos a partir de quais critérios e segundo quais usos?”, pergunta-se. “Como a reflexão crítica e a leitura desses autores deve se relacionar com esses diagnósticos? Este problema nos impõe diversas questões, algumas de natureza ética. Na História da loucura, Foucault pensa o par loucura/obra evocando as obras de Artaud, Nietzsche, Nerval, ­Hölderlin. Também Deleuze diz que a literatura é uma saúde. Tanto Deleuze quanto ­Foucault veem o escritor como um sintomatologista, alguém com as antenas bem sintonizadas para sacar os sintomas de sua época. Mas isso não quer dizer que ele adoece: isso quer dizer que ele cria uma obra!”, reflete.

Em Literatura da urgência, Luciana Hidalgo aproxima Lima Barreto de outro criador, um artista visual que também lidou com palavras, e que passou grande parte de sua vida interno em clínicas: Arthur Bispo do ­Rosário.
“Na retidão da cela, Bispo desfiou o uniforme azul do manicômio para reaproveitar os fios que cerziriam seus bordados. Do emaranhado de linhas, despontou, em forma de arte, a sua biografia – uma parte autêntica, outra forjada. Compunha-se de uma mistura de escrita de si (anotações pessoais) e ficção de si. Era uma fabulação em torno do eu que prenunciava a sua grande utopia – a criação de um mundo novo: ‘No meu reino tudo será feito de ouro e prata, brilhante’. Bispo entrelaçou vida e obra como elementos indissociáveis, mesmo quando, além dos dados reais, acrescentou autoficções aos bordados, estandartes, assemblages e objetos. Pode-se pensar que todo esse trabalho cotidiano, meticuloso, recheado de palavras, nomes e extratos poéticos, funcionou como uma escrita plástica, de sobrevivência ao hospício, assim como o diário exerceu esta função para Lima Barreto. No caso de Bispo, a obra, além da motivação claramente religiosa, pode ter surgido e se fortalecido como mecanismo de alforria de um eu partido, de um pensamento cindido – para novamente usar expressão próxima à etimologia da esquizofrenia”, escreve a premiada autora de O senhor do labirinto.

Arthur Bispo do Rosário.

O desbunde dos anos 1970

Esquizofrenia foi o diagnóstico dado a um escritor revolucionário para a cultura brasileira, que terminou seus dias isolado e muito distante da cena que ajudou a conceber: José Agrippino de Paula. O autor de Lugar público e PanAmérica, livros cabais para a Tropicália, depois de viver todo o desbunde dos anos 1970 começou a ter seguidos surtos e delírios e, recebido o diagnóstico de esquizofrenia, recolheu-se em uma ampla casa na cidade de Embu das Artes, subúrbio paulistano, onde, até sua morte, em 2007, escreveu dezenas de cadernos que dariam origem a um monumental romance chamado Os desfavorecidos de madame estereofônica – até hoje não estudado (seu perfil foi publicado na revista Ponto 14). Ao contrário de Maura Lopes Cançado e de Lima Barreto, Agrippino jamais tematizou episódios de transtornos em suas ficções; no entanto, a recusa à psicologia e o apego a personagens arquetípicos, simbólicos ou estereotipados já foram lidos como um traço de afecção mental.

Miriam Chnaiderman, que conviveu com Agrippino para a realização do filme Passeios no recanto selvagem, em que retrata suas tentativas de voltar a filmar e a escrever, refuta a aproximação entre escrita e afecção psíquica. “Acho muito ruim quando se busca estabelecer essa relação entre criatividade e doença mental. Desde Freud que os limites entre o que é o normal e o que é o patológico ficaram apagados”, afirma a psicanalista.

“Isso de pensar a doença mental tem a ver com o confinamento da loucura a um território estranho a todos nós. Aliás, a necessidade de confinar o louco tem a ver com a dificuldade em aceitar o que em nós é louco. Na entrevista que deu a Pedro Bial, quando do lançamento da segunda edição do ­PanAmérica, Agrippino foi brilhante quando respondeu à pergunta que lhe foi feita sobre a sua esquizofrenia: ‘Em um mundo onde se ganha trinta sanduíches pela capa de um livro, a única saída é a esquizofrenia’. De fato, a esquizofrenia foi o jeito que a família encontrou para receber uma pensão do Estado que ajudasse a custear a sobrevivência de José Agrippino. Caetano Veloso faz uma leitura mais lúcida: ‘Esse eu de Agrippino não é um eu no sentido em que o século XIX se entendia esse termo. Fragmentário e não subjetivo, ele boia lúcido e sem afeto num mundo rico de variedade e intensidade, mas desprovido de sentido’. Fragmentário, desprovido de sentido, é preciso mergulhar nesse universo. Que é nosso também”, diz.

Muito antes do desbunde dos anos 1970, porém, outro personagem fragmentado havia sido tema de uma narrativa: O louco do Cati, de Dyonélio Machado – um dos livros favoritos de Guimarães Rosa. Quinze anos antes de Jack Kerouac lançar On the Road, referência da geração beat, o gaúcho Machado publicou, em 1942, em plena ditadura Vargas, o relato de uma viagem psicodélica pelo Brasil. O personagem emite poucas frases no decorrer do romance. Quase sempre sabemos dele por meio de outros personagens.

O percurso de ida e retorno dura quase um ano, com trechos feitos em ônibus, navio, automóvel, caminhão, trem, avião e a pé. O maluco não tem nome. Apelidam-no de “louco do Cati” ou Cati, por causa do pavor que ele tem de uma mítica prisão que teria funcionado como órgão feudal do terror no limite oriental do Rio Grande. A obra teve má acolhida no lançamento: público e crítica não entenderam o estilo marcado por indefinições e referências simbólicas. Hoje o romance estaria vinculado a outra linhagem rara na literatura brasileira: a dos road novels, romances de estrada. A viagem externa é uma viagem interna.

A fragmentação do eu

É possível lidar com a loucura com humor. Dois autores do Rio de Janeiro demonstram esta possibilidade, em variados graus. Em livros como Armadilha para Lamartine (Companhia das Letras) e O autor mente muito (­Dantes), Carlos Sussekind tematizou suas internações em clínicas psiquiátricas mantendo um humor surpreendente. Um rapaz de 21 anos cuja crise existencial desemboca na internação em um hospício, instituição que se revela opressora e capaz de destruir alguém por meio do seu “tratamento” é o tema de Armadilha para Lamartine, de 1976, assinado por Carlos & Carlos Sussekind – fazendo justiça ao pai, cujo diário íntimo seria, segundo Carlos ­Sussekind de Mendonça Filho, a principal base da criação ficcional. A escrita a dois, ou melhor, a quatro – uma vez que Sussekind usa diferentes pseudônimos dentro de seu corpus autoficcional, elevando ao cubo a estratégia do “narrador não confiável” – é recriada em uma chave ainda mais criativa em O autor mente muito (2001). Nele, Sussekind traz ao centro da narrativa os depoimentos de seu próprio psicanalista, Francisco Daudt da Veiga. Deste modo, além de observar a si mesmo através do olhar do pai, no passado dos diários, e através dos olhares de seus personagens heterônimos, Sussekind atrai à ribalta da escrita o olhar de seu médico:

“Dado como incapaz de distinguir entre ficção e realidade, para que não se desperdiçasse o caudal terapêutico no consultório do doutor Daudt, resolveu a dupla associar-se numa aventura literária – desistindo da cura em favor da diversão – cujo desfecho é este romance escrito em coautoria, que sem dúvida há de inviabilizar definitivamente, para Carlos Sussekind, aquela distinção que ele nunca aprendeu a fazer.”

Pelo viés da metaficção, Sussekind foi objeto de estudo do pesquisador Eloésio Paulo em Literatura e loucura: o escritor no hospício em três romances dos anos 70, em que seu Lamartine foi confrontado com os romances Quatro-olhos, de Renato Pompeu, e Confissões de Ralfo, de Sérgio Sant’Anna. “A consideração trágica da loucura resulta numa recusa do hospício e ao mesmo tempo numa escolha desse espaço como lugar privilegiado para observar as engrenagens da sociedade brasileira contemporânea em seu trabalho de triturar a individualidade, cerne do fenômeno humano”, descreve Paulo. “A tragédia se torna metalinguagem na medida em que os romances têm como protagonistas escritores, heróis (ou anti-heróis) cujo desempenho se liga justamente à opção pela criação literária num mundo em tudo a ela adverso, a não ser que o escritor se coloque a serviço dos interesses da razão instrumentalizada pelo capital e coadjuvada pelo aparato policialesco da instituição psiquiátrica.”

O outro exemplar de autoficção que transita por um caminho sutilmente bem-humorado ao lidar com a manicomialização, ainda que tinto com a mais negra das melancolias, é o de Rodrigo de Souza Leão. Poeta, prosador e jornalista, o prolífico Leão conviveu com uma depressão severa e a bipolaridade durante toda a sua curta vida, abreviada aos 44 anos. “Tudo é pequeno/A fama/A lama/O lince hipnotizando a iguana/O que é grande/É a arte/Há vida em Marte.” Já aos 17 anos Leão havia sido diagnosticado com esquizofrenia paranoide, agravada por transtorno obsessivo-compulsivo. Tratando-se com neurolépticos, conseguiu se formar em jornalismo e arranjar emprego numa chatíssima ocupação, decalcada no livro de estreia, Carbono pautado: memórias de um auxiliar de escritório (Record).

Seu romance mais ambicioso, Me roubaram uns dias contados, é um labirinto de espelhos, um parque de diversões frequentado apenas por RSL e o leitor. Inicia com uma engraçadíssima seção focada em um sujeito chamado ­Weimar, que jamais sai do apartamento, onde tem dez telefones – os “gozofones” –, usados para sexo a distância. Weimar atrai a seu covil onanista as garotas Vegetal, Mental e Vertigem. Interrompe a suruba para ler um livro de seiscentas páginas – ficção envolvendo Nietzsche, Allan Kardec e Daniel Boone –, e tem início a segunda seção, em que o narrador detalha, na terceira pessoa, a rotina repetitiva de um certo Rodrigo e da mulher por quem ele está apaixonado. O hipnótico texto tem toques de paradoxal poesia – “Ninguém se conhece tanto a ponto de abrir a porta para um estranho sem saber que este estranho é ele mesmo” – e presságios tragicômicos: “Alguma coisa acontece no meu coração. Será um infarto do miocárdio?”.

Em teoria e prática, um dos autores contemporâneos mais versados em afecções psíquicas – que mergulhou no inferno e voltou para contar a história – é Lourenço Mutarelli. O escritor, cartunista e ator já encontrou assunto para suas narrativas nas páginas do DSM (Manual de estatística e diagnóstico de transtornos mentais), e fez do próprio corpo um campo de testes para substâncias de uso controlado mais variadas – desde que teve surtos por volta dos 20 anos e usou por muito tempo psicotrópicos. Em O natimorto, seu segundo romance, conta a história de um agente e produtor cultural impotente que se apaixona por uma cantora que perdeu a voz. O agente foge de seu casamento e se tranca num quarto de hotel com a cantora. Claramente ali desenvolvem a chamada follie à deux, um transtorno comum entre casais ou duplas de pessoas que vivem isoladas em ambientes fechados: um dos dois cria uma ficção e acaba por contaminar o outro. Ambientes fechados e relacionamentos abusivos são marcas da prosa de Mutarelli.

Em um de seus melhores livros, A arte de fazer efeito sem causa, ele acompanha os dias finais de Júnior, um sujeito que volta para a opressiva casa do pai depois de descobrir que a esposa o traiu com o amigo de seu próprio filho. Em uma prosa labiríntica, que flerta com a influência de William S. ­Burroughs, a obsessão com o lado escuro do cristianismo e o fascínio por invasores alienígenas, Mutarelli cola-se à mente fragmentada de Júnior, vítima de uma doença neurodegenerativa causada por um parasita. O tema parasitário – em que um ser vivo se alimenta de outro – e a invasão alienígena – em que seres de outro planeta invadem o nosso – confundem-se na mente esponjosa de Júnior, que não dissocia o interior do exterior.

A passagem entre dentro e fora é justamente o território onde tais alucinantes prosas fincaram suas bandeiras. Em um trecho famoso de seu História da loucura, Foucault vê o “louco” como um ser que não encontrou uma saída para sua linguagem. “Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem.” Nossos loucos escritores podem ter entrado pelo cano em suas vidas, mas encontraram na literatura a libertação de sua linguagem. Resta agora a tarefa, talvez insana, de compreender suas incríveis nuances e complexidades em um cânone que dê conta da irreprimível força de confrontar tudo o que se entende pela estranha noção de normalidade.

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Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane é escritor e jornalista. Publicou, entre outros, Metafísica Prática (Oito e Meio) e Sandiliche (Cosac Naify).

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