Lapa, as jabuticabas de Tarsila e um bom sujeito

Se depois de tanto tempo de conhecimento mútuo ainda sobra motivo para um abraço de verdade, é porque no mínimo um de nós é bom sujeito, e receio que esse um, exclusivo, seja precisamente você. Aliás, não tenho dúvida sobre isso: você é dos melhores sujeitos que conheci, e fico satisfeito quando um amigo comum me previne: “o Luís Martins está na terra”. Sei que não vamos ter grandes conversas sobre grandes assuntos, que provavelmente vamos até conversar pouco, mas sua presença é cordial, faz bem, lembra um terreno firme onde a gente pode pisar.

Carlos Drummond de Andrade

Numa ida recente ao Rio de Janeiro, encontrei-me com o jornalista e biógrafo Ruy Castro. Disse-lhe, na ocasião, que o cronista Luís Martins merecia uma biografia completíssima, como as que ele sempre produz. Seria justo com a extensa produção do escritor e sua interessantíssima trajetória. Ruy concordou com a observação. Já escrevera o prefácio de alguns livros de Luís e conhecia muito bem o seu épico itinerário. Contudo, naquele momento, já estava comprometido com outros projetos.

Saí do apartamento de Ruy com o telefone da filha do autor, a também escritora Ana Luísa Martins. E foi ela quem me mostrou o caminho das pedras para este breve relato.

Tarsila do Amaral e Luís Martins.

Se ficássemos apenas no detalhamento do livro Lapa, lançado por Luís Martins em 1936, já teríamos vários ensaios como este. Ou até mesmo um longa-metragem ou uma série de tevê. Luís costumava dizer que seu relato sobre o bairro boêmio do Rio de Janeiro surpreendeu muitas pessoas e chocou algumas. Houve quem o visse como um “livro de escândalo”, já que descrevia, com cores vivas, a prostituição carioca.

Luís Martins, Carmem Miranda e Berilo Neves, no Rio de Janeiro, em 1932.
(Arquivo Pedro Corrêa do Lago, fotógrafo desconhecido)

Em O Globo, o crítico literário Eloy Pontes fez grandes elogios à obra naquele ano: “cultura, vivacidade, bom gosto, instinto lírico, visão social, estilo nítido e pitoresco”, entre outros adjetivos. Mas, logo em seguida, lamentava que o autor tivesse estreado com aquele romance, uma vez que o palavrão “cru e decotado, não tem o que fazer na prosa literária”.

Tarsila do Amaral pintando o retrato de Luís Martins. (Arquivo Pedro Corrêa do Lago, fotógrafo desconhecido)

Em finais de 1936, Luís encontrou-se com Rubem Braga e este lhe confidenciou que estivera no Ministério da Educação e lá lhe contaram que “havia qualquer coisa” contra a publicação de Lapa. Rubem aconselhou o amigo a procurar o poeta Carlos Drummond de Andrade – que era chefe do gabinete do ministro Gustavo Capanema – para saber o que ocorria com mais detalhes.

Ao encontrar-se com Drummond no ministério, Luís soube que, de fato, houvera uma denúncia contra o livro. Ela vinha de um literato chamado Carlos Maul e fora enviada diretamente ao presidente Getúlio Vargas. O romance sobre meretrício era citado como “obra subversiva e o seu criador como um agente do comunismo internacional, interessado em implantar a revolução no Brasil”. O detalhe é que, naquele momento histórico, o comunismo era reprimido ferozmente pelo getulismo.

Não custou para que o episódio terminasse nos corredores da famigerada Delegacia de Ordem Política e Social. Luís descobriu, por terceiros, que haviam expedido um mandado de prisão contra ele e foi falar pessoalmente com o delegado Serafim Braga para obter mais informações. O delegado foi bastante cortês com o cronista, disse-lhe que, de fato, existia um mandado, mas que Israel Souto – titular do órgão – mandara cancelá-lo.

Sentindo-se aliviado, mas ainda deprimido e muito cansado por todos os sobressaltos vividos por aqueles dias, Luís aceitou os insistentes pedidos de sua companheira à época, a pintora Tarsila do Amaral, para sair do Rio e ficar com ela na fazenda Santa Teresa do Alto, em Itupeva, interior de São Paulo. Estava “enervado, meio sem saber que rumo tomar na vida”, mas impulsivamente decidiu despachar seus pertences e ir encontrar-se com a pintora no campo. Dois dias após sua chegada em Santa Teresa do Alto, foi acordado por tiras, às cinco horas da manhã, com uma ordem de prisão.

As jabuticabas de Tarsila

Luís conta, em texto autobiográfico, que a primeira coisa que Tarsila fez, “como boa dona-de-casa que era”, foi perguntar aos quatro policiais se queriam comer alguma coisa. Os tiras, famintos, aceitaram de pronto. Ela então mandou servir um lauto desjejum do qual todos participaram – inclusive o preso.

O cronista soube ali na mesa que estava sendo detido por ordem do delegado Israel Souto, do Rio de Janeiro. E que teria de viajar escoltado, na manhã seguinte, para a capital federal, de trem.

Tinha início o quiprocó. O que se sucedia, de fato, é que Israel Souto cancelara a prisão de Luís, mas esquecera-se de avisar a decisão à polícia de São Paulo. Apesar da contestação do escritor, os tiras lamentavam, mas era mister cumprir as ordens superiores. Nesse momento, Tarsila fez um corte analítico e propôs que todos fossem chupar jabuticabas-de-cipó no lindo pomar da fazenda. Algum tempo depois, ainda elogiando a doçura das jabuticabas da criadora do Abaporu, o delegado-chefe olhou para o relógio de pulso, agradeceu o carinho da anfitriã, e pediu a Luís que se vestisse pois estava preso.

Foram Luís, Tarsila, os dois delegados, o investigador e o motorista rumo à chefatura de polícia, pela antiga via Anhanguera, que ainda passava pela Serra dos Cristais. Após marchas e contramarchas, Tarsila conseguiu que um delegado conhecido seu, Durval Villalva, se comunicasse com Israel Souto e este telefonou para a Ordem Política e Social de São Paulo e Luís Martins foi finalmente solto.

A partir dali, não voltaria mais para o Rio, ficando entre São Paulo e a fazenda de Itupeva. Tarsila o apresentou à pintura moderna e ele se fez um renomado crítico de arte.

Carlos Drummond de Andrade resumiu a importância do surreal episódio da tentativa de prisão, em crônica de 1957, no Correio da Manhã, numa homenagem ao cinquentenário de Luís ­Martins:

“Em 1936, um escritor fascista nacional denunciava ao governo o romance em que você fixava certos aspectos da vida do Rio, e que se chamava Lapa. Como Picasso falando de Guernica, você poderia alegar que a Lapa não era invenção sua. O livro foi apreendido, os exemplares destruídos, você perdeu o emprego, e um dia a força policial, de arma em punho, resolveu caçá-lo de madrugada numa fazenda, como um sujeito perigosíssimo. Data deste episódio sua transplantação para São Paulo e a perda deplorável, para o Rio, de um dos cariocas mais genuínos. Conheci você por essa época, e me lembro de que a maldade burra lhe despertou pasmo, não ódio e nem sequer azedume.”

Panteão de cronistas

Luís Martins habita meu panteão de cronistas favoritos. Por “n” razões, uma delas – explicarei melhor mais adiante – foi que me tornei cronista indiretamente por sua causa.

E convenhamos: não era todo dia que o autor de “Claro Enigma” dedicava estas palavras – além das que estão espalhadas por este artigo – a um autor:

“O ‘humour’ de Luís dosa sabiamente essa exposição do que em nossa vida é perplexidade, tédio ou alegria miúda”.

O tal do “humour”, mencionado pelo poeta mineiro, é feito de observação aguda e uma discreta erudição. Coisa que nem todo plumitivo sabe usar adequadamente, o que não era o caso das sete mil crônicas que o autor publicou durante o período de 32 anos em que trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo.

Por essa época de Estadão, começo dos anos 1940, a rotina de Luís não tinha lá muito de comicidade. Estava recém-casado com Anna Maria do Amaral Andrada Coelho, prima de Tarsila em segundo grau, e 17 anos mais nova do que ele. Teve de enfrentar a discordância da família de Anna Maria, o estrago que Lapa impôs em sua vida e a dissolução de uma relação de 18 anos. O casal foi morar num quarto e sala em São Paulo. Em sua autobiografia, Luís conta sua rotina:

“Eu trabalhava feito um mouro. Como ganhava por crônica, escrevia duas diariamente. E tinha as minhas obrigações de inspetor de ensino a cumprir.

Mas a minha vida endureceu, além das duas crônicas que já fazia, passei a escrever uma terceira, que eu próprio lia perante as câmeras para o programa “O Estado de S. Paulo na TV”. Levantava-me cedo e corria para a máquina. Depois do almoço, descansava uma meia hora e ia, em seguida, para a redação do O Estado, a fim de preparar parte do noticiário.”

Curiosamente, ainda assim, Luís não se enxergava como escritor. Apesar de ser um dos primeiros jornalistas a assinar por extenso seu material – fato inédito na imprensa brasileira dos anos 1940, que só publicava crônica assinada com pseudônimo. Ele comentava, no final dos anos 1950, ao lançar seu livro Futebol na madrugada:

“É a primeira vez que, como cronista, me vejo metido em volume. Confesso que me sinto constrangido como se, numa reunião em que se exige traje de gala, eu aparecesse de pijama. Um pijama de tecido grosseiro que mais se assemelha a um rude macacão  –  roupa de trabalho cotidiano, trabalho rotineiro…”

Em 1986, cinco anos após a morte de Luís Martins, o jornal O Estado de S. Paulo promoveu uma grande renovação em seu caderno de Cultura. O editor Luís Fernando Emediato trouxe muitos outros cronistas para participar do novo suplemento batizado de Caderno 2.

Entre esses novos escritores estavam Caio Fernando Abreu, Xico Sá, Walcyr Carrasco, o próprio Emediato e este cronista, que escrevia na coluna Antena todas as sextas-feiras.

A nova linha editorial do Estadão, além de restaurar a crônica no jornalismo brasileiro, provocou uma produção bem diversa da de L. M. – foi com estas iniciais que ele assinou seu material durante 36 anos. Mas, para quem teve contato com sua escrita, o espaço nunca mais foi o mesmo. E acrescento: nem minha vida como colunista também. Naquela reformulação do Estadão estreei como cronista e depois segui – e sigo – por tantos outros órgãos de imprensa. Sem dúvida, essa minha jornada, e a de muitos outros colegas do Caderno 2, se deu muito por causa do legado deixado por aquele bom sujeito.

Send to Kindle
Carlos Castelo

Carlos Castelo

Carlos Castelo é escritor e letrista. Lançou onze livros, entre eles o romance policial Damas turcas (Global), a coletânea de crônicas Clássicos de mim mesmo (Matrix) e o volume de máximas e aforismos Orações insubordinadas (Ateliê Editorial). Também é colunista do jornal O Estado de São Paulo (Crônica por quilo) e escreve crônicas e resenhas sobre livros na revista Bravo!

Leia também

Matérias

Juó Bananére, o lustrissimu ridattore du Pirralhu

por

Lembro-me bem. Foi no ano de 1979, num sebo perto do viaduto do Chá. Eu estava com meu colega de […]

Memória e sociedade

Loucura e literatura – um (im)possível cânone para a prosa brasileira? por Ronaldo Bressane

por

Loucura e literatura podem ser uma rima, mas dificilmente uma solução. É um tema muito pouco praticado na literatura de […]