Juó Bananére, o lustrissimu ridattore du Pirralhu

Lembro-me bem. Foi no ano de 1979, num sebo perto do viaduto do Chá. Eu estava com meu colega de faculdade de jornalismo, Cassiano Roda, dávamos uma de flâneurs ali pelo centro velho. Já tínhamos percorrido muitos dos alfarrabistas pelas beiradas das Arcadas e agora estávamos numa das mais paleolíticas lojas dos arrebaldes – com livros muito raros e antigos enfileirados até nos degraus da escadaria.

Por essa época, eu tinha uma meta na vida. Devorar integralmente os textos mencionados em Tudo que você precisa ler sem ser um rato de biblioteca, do Luiz Carlos Lisboa. Por meio do miniguia literário foi que tomei contato com o pensamento de escritores bem inusuais para um sujeito da minha idade, do naipe de Beckett, Gombrowicz, Chesterton e Joyce.

Quando o Roda me cutucou com um livrinho de capa branca nas mãos, eu estava, feito um tatu, tentando puxar de uma fresta de prateleira um exemplar de Martin Eden, de Jack London. A brochura era considerada “obrigatória” pelo Lisboa, portanto eu acabara de desenterrar um pequeno tesouro cultural, jogado entre aqueles carros-chefes de livrarias de usados, como Lin Yutang e Barbara Cartland.

A obra, agora quase chacoalhada em minha cara, chamava-se La divina increnca. O autor, certo Juó Bananére. Como o sobrenome Roda do colega é de origem italiana, imaginei que o livreto pudesse ser da lavra de algum poeta conterrâneo de Dante ou Marinetti. Contudo, pelo escracho da ilustração e o ex-líbris avacalhado, concluí que se tratava de uma criação de humor, talvez até brasileira. Só não me ocorreu que pudesse ser tão paulistana quanto o viaduto do Chá, a poucos passos dali.

O livro que eu tinha nas mãos era uma improvável paródia de 1915 de A Divina comédia, de Dante. Nas primeiras páginas, Juó Bananére intitulava-se “Gandidato á Gademia Baolista de Letras” e, em sua minibiografia, havia apenas três palavras: “Poéte, barbiére i giurnaliste”.

Lembro-me de ter batido o livreto contra a perna para retirar a poeira e, em seguida, aberto aleatoriamente numa das páginas amarelecidas. Dei com a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, naquele maravilhoso dialeto da rua Três Rios. O contato com os versos do poeta satírico pré-modernista foi como um corisco em meus neurônios:

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.
A abobora celestia tambê,
Che tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.
Os rios lá sô maise grandi
Dus rios di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.
Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na migna terra tê o Vap’relli,
Chi só anda di gartolla.

Mas quem foi afinal Juó Bananére? Desenhado pela primeira vez pelo caricaturista Voltolino, em 1909, era uma versão italianada do João Bananeiro, o vendedor de bananas que circulava pelo centro de São Paulo. E acabou sendo o pseudônimo escolhido por Alexandre Ribeiro ­Marcondes Machado, naquela época aluno na Escola Politécnica. ­Alexandre passou a usá-lo, a partir de 1911, quando colaborava com o jornal O Pirralho, cujo editor era Oswald de Andrade.

Como escritor, ele teve uma estreia absolutamente acidental. Seu editor inventou de escrever de modo macarrônico com o pseudônimo Annibale Scipione, arremedando a fala dos imigrantes italianos que viviam nos bairros operários do Brás e do Bom Retiro. Só que, em 1912, Oswald viaja para a Europa e deixa o estudante Alexandre em seu lugar. Este então cria seu alter ego numa coluna do periódico chamada As Cartas D’Abaxo’o Pigues. Em suas memórias, Oswald relata o acontecimento deste modo:

Eu iniciara em dialeto ítalo-paulista as As Cartas D’Abaxo’o Pigues que encontram um sucessor em Juó Bananére. Parecia ele um moço tímido e quase burro, mas seu êxito foi enorme quando tomou conta da página da revista intitulada O Rigalejo. Chamava-se Alexandre Marcondes…

De fato, mesmo mais tarde tendo virado nome de rua no bairro do Butantã, a partir dali, Alexandre ficaria totalmente obscurecido para que o João Bananeiro carcamano alçasse voos maiores e virasse o cronista mais popular da cidade de São Paulo.

De melhor cronista de São Paulo a “raté” modernista

Será que – e aqui vai uma hipótese só minha – todo aquele sucesso de Juó Bananére, iniciado em 1912, tenha levado o temperamental Oswald de Andrade a cunhar seu lugar-tenente no O Pirralho, anos mais tarde, de “raté” (fracassado)?

O registro do entrevero, ocorrido em 1916, está no artigo “Juó Bananére: o raté do modernismo paulista?”, publicado em 1997, na Revista de História,
n. 137, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). É assinado por Elias Thomé Saliba, estudioso da obra de Alexandre Marcondes Machado.

Reproduzo aqui um trecho editado do texto:

Mon Coeur Balance e Leur âme marcaram o início da carreira de Oswald de Andrade e Guilherme de Almeida em 1916. A primeira era uma comédia em 4 atos e a segunda um drama em 3 atos e quatro quadros, ambas escritas em francês […]. Com um chá oferecido aos autores, a peça Leur âme teve leitura concorrida no Consulado de Portugal […] Guilherme de Almeida e Oswald de Andrade […] dedicaram esta estreia a Washington Luís: Monsieur le Docteur Washington Luís Pereira de Sousa, Préfet de la Ville de São Paulo.

A voz discordante foi Juó Bananére que […] atacou a obra, ressaltando o cabotinismo da peça Mon Coeur Balance. […]

Banarére começa por ironizar o fato de a peça ter sido escrita em francês, dizendo ter quase certeza que “se os autores tivessem escrito a sua peça em português, teriam passado inteiramente despercebidos do público e da imprensa, e somente alguns amigos teriam sabido dos seus esforços e da sua produção”. Contudo, depois de lembrar que a “brio nacional anda de rojo pelas sarjetas”, já que a “etiqueta estrangeira vale 50 por cento mais que a nacional”, Bananére exclama, num desabafo:

Oh! Que bom seria se Deus, num largo gesto de misericórdia e piedade, desabasse contra nós um cataclysma que, fundindo o Brasil, de norte a sul, absorvesse estes vinte milhões de vencidos, que no meio de uma natureza exuberante e pródiga, rastejam e se rojam pela lama do cabotinismo, ou então que nos mandasse, como há poucos dias me dizia um amigo, um novo Pedro Álvares Cabral, para recomeçarmos a vida. (O Queixoso, 1916, p. 2)

Oswald de Andrade devolveu a coisa, num desaforado bilhete […]:

“Bananére, antes de tudo uma banana por saudação natural. De certo na notícia preciosamente escrita e colossalmente raciocinada que deu O Queixoso sobre Mon Coeur Balance, esqueceste este tópico: “Enfim, dos males o menor – antes ser cabotino do que raté”.

Desmobilizador, anárquico, lírico e antiprogramático

A pecha de raté vai acompanhar Alexandre Ribeiro Marcondes Machado até o final de sua trajetória como “poéte, barbiére i soldato”. Contudo, para ­Benedito Nunes, autor do livro Juó Bananére: as Cartas d’Abax’o Pigues, a obra de Alexandre rediscute o próprio modernismo. Na opinião do estudioso, a produção estética do período pré-modernista talvez tenha ficado um pouco obscurecida pelo marketing da vanguarda modernista.

Assevera Benedito Nunes:

Quase tudo o que vingou imediatamente depois de 22 foi a novidade superficial de uma cultura que talvez já estivesse em seus estertores. Isso teria sido suficiente, no entanto para impedir a manifestação de outras tendências, obrigadas a hibernar pelo menos dez anos para florescerem na chamada “fase madura” do modernismo, quando o modismo linguístico passou a interessar menos enquanto tal.

E pontua:

É possível que Juó Bananére tenha ficado fora do modernismo por tê-lo achado inadequado à sua visão de mundo, como aconteceu com Lobato, Lima Barreto e outros. Apenas a superfície de seu macarrônico despertou interesse nos homens de 22. Mas a sua linguagem atingia níveis mais profundos do que o efeito engraçado da imitação do linguajar do imigrante italiano ou dos poetas parnasianos que lhe valeu, como principal reconhecimento histórico, a condição de precursos de Alcântara Machado e do Modernismo.

Mas é ainda Elias Thomé Saliba quem faz, a meu ver, a reflexão mais justa sobre o episódio Oswald de Andrade versus Juó Bananére:

[…] ao contrário do modernismo paulista, cuja tônica acabou sendo idealista, nativista, nacionalista e militante, o humor de Bananére era desmobilizador, anárquico, lírico e antiprogramático […]. Talvez, por isto, ele tenha sido – alterando um pouco a pecha lançada pelo jovem Oswald de Andrade – um autêntico raté do modernismo paulista. Foi um raté talvez porque tenha mantido, até o final, seu apego à modernidade enviesada e canhestra da belle époque brasileira. Mas ficou à margem, sobretudo porque não queria nada e não pretendia ensinar nada: com suas paródias e sátiras, talvez tenha sido apenas um corte inoportuno no tempo, uma epifania da emoção, abrindo apenas uma brecha – aquela pequena vereda anárquica na narrativa de uma cultura triunfante que, nós, como historiadores, nos esforçamos sempre por reencontrar.

Por essas e outras é que guardo comigo, há quase 40 anos, aquela velha edição de La divina increnca adquirida no sebo das cercanias do viaduto do Chá. A verve absurda e sem peias do bardo do Zan Baolo me inspira até hoje. Mesmo sendo de uma geração de humoristas bem distante cronologicamente da belle époque, também sei qual é o preço que se paga por ser independente e antiprogramático no mundo da comédia. Infelizmente, tal aberração não mudou nos últimos 100 anos e, é provável, não se alterará nos próximos.

Como disse, devo minha entrada no mundo bananeriano ao Cassiano Roda. O amigo provavelmente o lera por vir de uma família de italianos radicados em São Paulo. Sendo natural do Piauí, acho que nunca procuraria esse poeta-barbeiro-jornalista na estante de um alfarrábio, nem leria estes “versos”:

Ficas n’un ganto da sala
P’ra fingi chi non mi vê,
E io no ôtro ganto
Stô fingino tambê.
Ma vucê di veiz in veiz
Mi dá una brutta spiada,
E io tambê ti spio
Ma finjo chi non vi nada.
Cunversas co Bascualino
P’ra mi afazê a gelosia,
Ma io p’ra mi vingá
Cunverso tambê c’oa Maria.
Tu spia intó p’ra Maria
Con ar di querê dá n’ella;
P’ra evitá quarquére asnêra
Si afasto i vô p’ra gianella.
O firmamento stá scuro
I na rua os surdato apita,
Inguanto nu ganto da sala
Tu fica afazéno “fita”.
Marietta non segia troxa,
Non faccia fita p’ra gente,
Perchê vucê quêra ô non quêra
Io ti quero internamente.

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Carlos Castelo

Carlos Castelo

Carlos Castelo é escritor e letrista. Lançou onze livros, entre eles o romance policial Damas turcas (Global), a coletânea de crônicas Clássicos de mim mesmo (Matrix) e o volume de máximas e aforismos Orações insubordinadas (Ateliê Editorial). Também é colunista do jornal O Estado de São Paulo (Crônica por quilo) e escreve crônicas e resenhas sobre livros na revista Bravo!

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