“Francamente, para que compor o que já foi feito?”

Foto de Camilla Maia (divulgação).

A compositora Jocy de Oliveira fala de música de invenção, de uma apatia que enxerga no público de hoje e de seu método de trabalho que combina rigor e liberdade.

O que faz alguém se dispor a apreciar um quadro de Pollock ou de Rothko, abrir-se aos estilos mais desafiadores das artes visuais e se afastar de experiência similar no campo da música? Música contemporânea, experimental, atonal, serialista, aleatória, minimalista, eletrônica, eletroacústica, de invenção. Para muita gente, todos esses gêneros musicais, alguns centenários, poderiam ser classificados só como “música esquisita”.

“Acontece que as artes plásticas produzem commodities, e a música, não” crava a compositora Jocy de Oliveira, a bordo de uma vasta produção com nove óperas, 22 discos, cinco livros e seis DVDs. “Vejo gente se vangloriando de não conhecer nada de música contemporânea. Mas teriam vergonha de não saber quem foi Picasso.”

Inquietude, franqueza e determinação são constantes na vida e na obra dessa curitibana de nascimento e carioca por adoção. Concertista precoce, foi apresentada à música contemporânea na segunda metade da década de 1950, em Tanglewood – festival de verão da Boston Symphony onde o marido, o regente Eleazar de Carvalho, dava aulas. A jovem pianista mudaria de rumo e se tornaria precursora da música eletroacústica no Brasil, parceira e colaboradora de nomes como Stravinsky, John Cage e Luciano Berio, detentora de prêmios internacionais, como Guggenheim e Rockfeller, e de um Jabuti pelo seu livro Diálogo com cartas (2014).

Jocy e Karlheinz Stockhausen na vinda do compositor ao Rio de Janeiro, em 1988.
Foto de Frederik Kirsebom.

Essa artista e sua permanente busca pelo novo são o tema de um livro, Leituras de Jocy. É a primeira coletânea de artigos e depoimentos reunidos sobre seu trabalho, capitaneada por Rodrigo Cicchelli, também compositor, e pelo musicólogo Manoel Corrêa do Lago. Os 25 textos estão divididos em duas seções: na primeira parte, vêm as expectativas dos colaboradores constantes de Jocy; a segunda traz artigos analíticos sobre obras ou discos singulares e referenciais – como
A música do século XX, de 1959, com canções de “anti-bossa-nova”, e Estórias, de 1981. E se aprofundam no exame de seus temas favoritos, na personalidade de Jocy como intérprete, na estrutura de suas óperas e no caráter das personagens que criou.

O livro abre com um texto curto de Fernanda Montenegro, que esteve em cena vivendo, em 1961, o papel principal da peça de teatro-música de Jocy em parceria com Luciano Berio – Apague meu spot light, primeira apresentação de música eletroacústica no Brasil.  Pioneirismo, rigor e confiança nos parceiros são pedras de toque dos depoimentos e artigos reunidos em Leituras de Jocy.

Vale abrir alas para a palavra da própria Jocy, em entrevista especial para a revista Ponto, e destacar com pequenos trechos do volume. Porque, como menciona Cicchelli em seu texto, Jocy é uma dessas pessoas que são como “cruzamento dos fenômenos do mundo”, capazes de “dar vazão a múltiplos talentos. (…) Ousadia e inovação, alguns dos valores mais caros à vida contemporânea”.

Música-museu x música de invençãoMúsica-museu é a memória, a tradição, a cultura – estou falando da cultura ocidental, claro, isso não quer dizer nada para as várias culturas do Oriente. Já a música de invenção é a arte criada hoje, que existe à procura de novos rumos. Nem todos encontram, mas é como a ciência: pesquisadores em todo o mundo trabalham um tema e, de repente, um chega lá. Estamos todos buscando. Fazendo contribuições para a arte da música, mesmo que sejam mínimas. Agora, compor aquilo que já foi composto? Francamente, por quê?

“A compositora mencionava hologramas, intérpretes suspensos ou na audiência, plataformas móveis no palco, espacialização sonora em 3D, processamento sonoro em tempo real e tantos outros usos
da tecnologia.”
(Rafael Valle, músico e PHD em inteligência artificial sonora na Califórnia)

Público participante x público passivo

O público de hoje está intoxicado, poluído. Ouve coisas demais, o dia inteiro. O silêncio se tornou o bem mais raro! Triste o papel desse público passivo, que está recebendo tudo homogeneizado, pasteurizado, e que ele mais ou menos assimila no meio do bombardeio constante. E sem a gestalt, sem ter realmente ideia do todo. É uma apatia! O cérebro humano não está preparado para tanta informação. Conseguir captar a atenção desse público apático, alienado, uma atenção ativa, não é fácil. Um público que mexe no celular no cinema, no teatro. Que não se dispõe a participar desse ritual da apresentação artística, com uma ligação entre as pessoas que estão ali, no palco, na plateia. Como um templo. Nada substitui isso.

“Depois de um mergulho de duas horas num universo sensorial totalmente inebriante e misterioso, saí do teatro sozinha vagando pelo centro da cidade como se estivesse sob o efeito de alguma droga alucinógena. Eu não sabia o que tinha acontecido, não podia nem dizer se havia gostado ou não da obra (Inori, à prostituta sagrada, de Jocy), mas sabia que eu havia sido impactada profundamente.  (…) Tenho uma forte sensação de retrocesso ao lembrar quantas temporadas fizemos com esse espetáculo (Illud Tempus, de 1992)
e pensar na dificuldade cada vez maior de viabilizar apresentações de outras obras mais recentes.”
(Gabriela Geluda, cantora e atriz)

Fragmentação x linearidade

Há décadas que a quebra da linearidade se fez, basta ver a Obra aberta de Umberto Eco, no início de 1960. Produzir algo como no período romântico não tem sentido, nós não vivemos nesse mundo linear. Nosso mundo é simultâneo e cibernético. Cabe a cada um pegar informações e, na sua imaginação, na sua subjetividade, no seu sonho, na sua viagem, criar um caminho.
É curioso, porém. Naquelas décadas de 1960 e 1970 dava-se muito mais crédito ao espectador, a certeza de que o/a ouvinte captaria esses impulsos fragmentados e processaria tudo. É uma questão de não usar só seu aparato racional, mas completar a obra com seu sonho. As pessoas ainda esperam um arco narrativo prontinho, a música que se espera ainda é isso; estão perdendo a capacidade de processar o novo. Realmente é uma chatice.

“Fragmentação e caos são características das óperas experimentais de Jocy. Daí a fragmentação de melodias e ações. Porque, como anotou a crítica Waltraud Schwab, do Die Tageszeitung, diante de uma apresentação de Illud Tempus em Berlim, no ano de 1995, ‘o caos é a força do feminino’. É essa ameaça ao ordenamento e à racionalização sobre os quais se sustenta o discurso e o poder masculinos que ouvimos e vemos (…) no trabalho singular de Jocy de Oliveira.”
(Arthur Dapieve, jornalista)

Cultura ocidental + culturas orientais + mitologias

Sempre fui fascinada pelos mitos, todos, egípcios, japoneses, gregos. Comecei a usar mitologia de forma consciente na minha obra primeiro pela atemporalidade desses mitos, e porque a integração da humanidade pelo simbólico é uma área fascinante. Você vê similaridade de rituais em todas as culturas. É um meio de encontrar a universalidade sem perder as raízes. Depois, porque me debrucei na questão do gênero, e nos mitos você encontra os verdadeiros valores do feminino. Fiz várias óperas por aí – a primeira foi Inori, a prostituta sagrada. Fiz uma pesquisa na Índia, fiquei três meses por lá e acabei encontrando material sobre essa figura no Nepal. A prostituta sagrada é um veículo de iniciação ao sagrado. Todos esses mitos foram deturpados pelo olhar judaico-cristão, que nos cortou as asas.

“(…) não há como não ver em sua obra uma consistente rebeldia esteticamente muito bem construída, envolvendo a figura feminina. Suas óperas, além de Kseni, (…) revelam claramente essa preocupação. Fata Morgana, de 1987 (sobre a história de uma druisa), Liturgia do Espaço, de 1988 (duas vozes femininas em destaque, em uma alegoria cósmica, com um realejo dando o tom das perdas infantis), Illud Tempus, de 1994 (sobre quando deus era mulher),
As Malibrans, de 2000 (La Malibran e La Stilla, personagem de Júlio Verne, analisadas como arquétipos femininos, em companhia de Desdêmona, Ofélia e Ifigênia) e Inori, à prostituta sagrada, de 2003 (sobre um rito de passagem feminino).”
(Maria Cecilia de Miranda Nogueira Coelho, professora de filosofia antiga na UFMG e doutora em letras clássicas pela USP)

Precisão + liberdade

Tem quem pense que na música contemporânea sempre é “aleatório”, não é assim. [John] Cage tinha horror ao aleatório, dizia “assim não tenho controle dos elementos”. Ele usava um procedimento de chance para criar a obra, como o I Ching, que ia dar as alturas das notas, o ritmo. Mas uma vez notada, a obra se perpetuava. O intérprete vai dar sua versão, é aí que mora a indeterminação possível. Algum intérprete pode entender, penetrar, fazer muito bem; outro, não. É diferente do que eu faço. Eu faço um mix, elementos determinados, claros, precisos, combinados com elementos que são mais abertos, janelas, escolhas. Mas nunca escolhas totais. São escolhas em que eu deixo de lado um parâmetro, por exemplo: anoto as alturas das notas, mas não determino o tempo.

“Improvisar em nossos instrumentos tendo parâmetros não musicais como a cenografia, multimeios, intervenções cênico-teatrais como elementos fundamentais (…), as partituras das obras de Jocy nos permitem essa abordagem participativa, portanto, corresponsável pelos rumos da criação.”
(Zito [Joaquim Abreu], percussionista)

Intérprete + artista cocriador

O nosso treinamento ocidental é o de ler, estudar e representar a partitura. Aqui estou falando de partir do inverso, dos instrumentistas escutarem uns aos outros, treinarem o ouvido. Trabalhamos com outra dimensão do tempo, o tempo intuitivo. É um exercício de percepção. E de criação. Claro que um grande artista sempre será um cocriador. O Bach de Glenn Gould…! No Barroco e na Renascença, criavam-se cadências com toda a liberdade. Depois é que entramos numa época mais fechada nesse sentido. E mais basicamente ainda, qualquer intérprete é cocriador na medida em que a música não existe sem ele.

“…observei que [a partitura] era um minucioso mapa criativo,
que lançava aos músicos ideias, algumas fragmentadas e outras bem consistentes, e nos levava a um estado misto de interpretação e improvisação, quase uma cocomposição (…) e ao mesmo tempo era bastante minuciosa. Ou seja, um verdadeiro enigma. Liberdade e rigor simultâneos.”
(Aloysio Neves, guitarrista)

Cultura + educação

Importantíssimo falar de política cultural, que antecede até mesmo a educação. Se não existe um plano, o que se pode esperar? Fica tudo à mercê do mercado de consumo. E os jovens? E as pessoas que não têm conhecimento? Perdidos. A única solução é expor crianças pequeninas, na pré-escola, à cultura. Trabalhar a percepção delas. Mas parece que ninguém está interessado nisso aqui no Brasil. É uma tristeza. E não se trata de ser Terceiro Mundo: estão aí a Índia, o México, o Uruguai.  Aqui é um desmonte total. Não existe mais espaço de discussão, debate, ninguém tem mais tempo nem interesse por nada.

“(…) atuei por algum tempo como professor visitante no Instituto
Villa-Lobos da UniRio. Lá ofereci um curso sobre composição musical e novas tecnologias, aberto à comunidade externa.
Para minha surpresa, quem se inscreveu na primeira turma? Jocy!

(…) jamais poderia imaginar que alguém como Jocy, que já estava há muito no auge de sua exitosa carreira, teria interesse em ouvir o que eu tinha a oferecer. (…) Jocy procurava se renovar tecnologicamente e encontrou num colega mais jovem a oportunidade de absorver o que ele tinha a oferecer, ajudando-a a consolidar sua transformação tecnológica em direção ao mundo digital.”
(Rodrigo Cicchelli, compositor, professor titular da Escola de Música da UFRJ, organizador da coletânea)

Última ópera

Filmagem de Liquid Voices, no teatro do Cassino da Urca, em 2017. Nos papeis principais: Luciano Botelho e Gabriela Geluda

Liquid Voices, minha última ópera, foi criada como obra multimídia para o teatro e como ópera cinemática. Última. Acabou.

“(…) até sua trajetória pessoal assume uma feição ainda mais ousada, conforme [Jocy] passa de pianista que interpreta obras de homens à compositora de óperas sobre mulheres. Não mais uma retransmissora, com toda a riqueza que a retransmissão implica, naturalmente, mas uma poderosa emissora. Não mais a fêmea-personagem à espera de uma punição, à espera conformada da ‘derrota’ da qual nos falava Catherine Clément, e sim a fêmea-protagonista, vitoriosa.”
(Arthur Dapieve, jornalista)

Stravinsky e Jocy.

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Luciana Medeiros

LUCIANA MEDEIROS é jornalista carioca, trabalhou em veículos como O Globo, Rádios JB e MEC e TV Manchete.
Escreveu três livros – dois deles com João Luiz Sampaio, as biografias de Antonio Meneses e Guiomar Novaes – e organizou
um quarto de crônicas. Tem produzido conteúdo para plataformas digitais e dirige o site especializado em música clássica e
ópera Tutti Clássicos. Escreve como colaboradora de música clássica em O Globo.

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