Vasta memória de papel e tinta

Imagens que fazem parte da obra A capa do livro brasileiro.

Livro. Book. Libro. Liber. Buch. Livre. Llibre. Em qualquer idioma, que objeto mais fascinante! E mais simples, quando comparado aos eletrônicos que nos rodeiam. Livro não precisa de bateria nem tomada, muito menos de manual técnico.

“Eu sempre imaginei que o paraíso seria um tipo de biblioteca”, disse um dos homens mais apaixonados por livros: o mestre dos espelhos, dos labirintos e das bibliotecas, Jorge Luis Borges.

Muito antes da web, muito antes da tevê e do cinema, muito antes do rádio, o livro já era a grande fábrica de sonhos lúcidos e inquietações sociais.
No século XVII, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha perdeu o juízo de tanto ler romances de cavalaria, cheios de gigantes e feiticeiras. Mais tarde, no século XIX, quem perderá o juízo será a entediada dona de casa Emma Bovary, de tanto ler romances sentimentais e fantasias românticas.

Livros são libertadores, são parte importantíssima de nossa memória externa, fora de nosso corpo biológico. “São como a radiação de um corpo negro apontando pra expansão do universo”, canta Caetano Veloso numa bela canção sua. Livros ampliam nossa inteligência e nossa humanidade. Também são perigosos, principalmente para os Estados opressores, que teimam em impedir sua livre circulação.

Desde a invenção, por volta de 1450, da prensa com tipos de metal móveis, de Johannes Gutenberg, que os livros começaram a se multiplicar e a se espalhar pelo mundo todo. Em 1500, dizem os especialistas, já havia milhões de livros circulando em diversos países, acompanhando o fluxo da modernidade nascente.

Com a graxa e a fumaceira da revolução industrial, o livro passou de artigo de luxo, objeto caríssimo que apenas reis e nobres podiam adquirir,
a artigo popular, vendido em bancas de jornal e sebos.

Tornou-se algo tão comum que, séculos após sua invenção, o escritor mexicano Gabriel Zaid, notando que no mundo há mais livros do que leitores, chegou a escrever uma obra intitulada Livros demais.

Escrever e publicar um livro equivale a ser consagrado, imortalizado? Parece que sim. Por isso há tantos escritores e tantos livros.

“A leitura de livros está crescendo aritmeticamente, a escrita de livros está crescendo exponencialmente. Se nossa paixão por escrever não for controlada, no futuro próximo haverá mais pessoas escrevendo livros do que lendo.” (Gabriel Zaid, em Livros demais)

A escrita, inventada há mais de cinco mil anos no Oriente Médio, encontrou na prensa de Gutenberg o parceiro perfeito. Escrita e livro, finalmente reunidos, implantaram na comunidade humana a esfera de conhecimento mais eficiente e democrática que existe.

Mas parece que atualmente o valor do objeto-livro é muito diferente para a geração de leitores que nasceu antes da informatização do planeta e para a geração que nasceu após o surgimento do computador pessoal, do ­smartphone, da web e das redes sociais.

Leitores apaixonados pelo objeto-livro, donos de grandes bibliotecas particulares, estão diminuindo. A leitura de ficção e não ficção continua intensa, mas agora o objeto-livro está dividindo a atenção com outros objetos-de-
-conhecimento. Hoje vivemos o iminente desaparecimento do livro impresso, anunciado todas as vezes que um novo e-book reader (leitor de livros digitais) é lançado no mercado. Será que no futuro o livro de papel impresso e encadernado será assunto apenas de excêntricos e esnobes colecionadores? Essa questão tem rendido debates acalorados.

Aventura na Terra Brasilis

O uso irrestrito dos meios de comunicação sempre representou um grande perigo para os Estados totalitários. Foi essa premissa nefasta que o escritor Ray Bradbury potencializou no célebre romance distópico Fahrenheit 451, sobre uma ditadura futurista que promove a queima de todos os livros existentes.

Para abafar ideias e ideais revolucionários, a Coroa portuguesa proibiu, até 1808, a instalação da imprensa no Brasil. Folhetos e livros começaram a ser produzidos regularmente em nosso território somente após a chegada da família real, que fugia das garras afiadas de Napoleão Bonaparte.
A boa notícia é que Dom João VI trouxe pra cá sessenta mil volumes
da Biblioteca Real de Portugal. Essa bela coleção de livros deu início à nossa Biblioteca Nacional, fundada em 1810.

Capas presentes na publicação A capa do livro brasileiro.

Durante muito tempo, o texto impresso numa folha de papel ou num livro representou o que o texto impresso numa tela de computador ou num smart­phone representa hoje: um canal eficaz de esclarecimento da população. Ou seja, uma eficiente arma política contra a opressão e o fascismo. Por isso, em pleno século XXI, nações não democráticas ainda censuram pesadamente sites, blogues e redes sociais, decidindo o que o cidadão pode ou não ler.

No outro extremo do eixo que vai da censura total até a ampla difusão, agora encontramos um momento muito propício para os livros que antes não eram escritos nem publicados. Graças à informatização e ao barateamento dos meios de produção editorial, que permitem tiragens mínimas de cem ou duzentos exemplares, e graças à crescente mudança de mentalidade social, as vozes estranguladas − autores indígenas, autores afrodescendentes, vozes da favela, vozes LGBTs − já conseguem se expressar e ser ouvidas sem intermediários. Finalmente!

Nas mãos de um romancista talentoso, os duzentos anos de história do livro no Brasil dariam no mínimo um romance cheio de peripécias e reviravoltas, protagonizado por escritores, ilustradores, capistas, empresários, tipógrafos, censores, contrabandistas, fabricantes de papel, bibliófilos, clubes e sociedades do livro, críticos odiados e, é claro, muitos piratas literários. Como começaria essa aventura?

“A história do livro no Brasil começa em 1747, quando o tipógrafo português Antônio Isidoro da Fonseca imprime no Rio de Janeiro a Relação da Entrada do bispo Dom Antônio do Desterro Malheiro na cidade. A obra de Luís Antônio Rosado da Cunha nem chega a ser um livro, apenas um folheto de vinte e duas páginas, laudatório e inócuo, sem qualquer conotação política, mas é interpretado como um sinal de alerta pelo governo da Metrópole. A arte da impressão viola a política lusa de estrangular qualquer tentativa de expressão do pensamento por parte dos brasileiros. A reação é imediata. No dia 10 de maio do mesmo ano, uma ordem régia determina o sequestro e o envio para o Reino das letras de imprensa de propriedade de Antônio ­Isidoro e a deportação do tipógrafo para a Metrópole.”

(Ubiratan Machado, em A capa do livro brasileiro: 1820-1950)

O primeiro personagem principal dessa aventura seria certamente esse atrevido impressor Antônio Isidoro da Fonseca, que teve a desfaçatez de desobedecer a uma ordem da Metrópole. Outros protagonistas seriam o livreiro-editor Paulo Martin e o frei Conceição Veloso, um dos primeiros editores da Imprensa Oficial. Também merecem participar desse romance heroico os desbravadores editores Silva Serva, Pierre Plancher, Junio Villeneuve,
Louis Mongie, Paula Brito, B. L. Garnier, os irmãos Laemmert, Francisco Alves, Monteiro Lobato, José Olympio e Ênio Silveira.

Esse romance épico ainda não foi escrito, mas os interessados na história do livro no Brasil encontram minuciosa prosa historiográfica em pelo menos cinco obras fascinantes:

A capa do livro brasileiro: 1820-1950, de Ubiratan Machado,  publicado pela Ateliê Editorial e pela SESI-SP Editora.

História da imprensa no Brasil,  de Ana Luiza Martins e Tania Regina de Luca, da editora Contexto.

História da imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré, lançado pela Edipuc-rs.

Livros e bibliotecas no Brasil colonial,  de Rubens Borba de Moraes, da editora Briquet de Lemos.

O livro no Brasil, de Laurence Hallewell, publicado pela Edusp.

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Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira é escritor e ensaísta, autor do romance Subsolo infinito, cujo narrador-protagonista, imitando Dante Alighieri, empreende uma fantástica expedição ao inferno.

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