Um bom lugar para morar

As ilustrações desta matéria fazem parte do livro Infâncias: aqui e além-mar, publicado pela SESI-SP Editora.

Afinal, como criar histórias para crianças e jovens que sejam inesquecíveis e encantadoras? Essa é uma das principais perguntas que está escrita em um caderninho laranja que carrego para lá e para cá. Nele passei a anotar diversas questões que me surgem sobre o ofício da literatura infantojuvenil. Sou novato na área, começando a me deliciar com a ideia de ver os livros que escrevo nas mãos dos jovens e ávidos leitores. Por isso, ando cada vez mais interessado em descobrir como fazer livros saborosos para esse público. Sei bem que não chegaremos a uma resposta clara, trata-se de algo complexo. Ainda assim, aproveitei a chance para procurar alguns colegas que têm se dedicado a escrever para o público infantojuvenil e dividir essa e outras angústias e pensamentos com eles.
Claudio Fragata, autor de livros como Palmas para Picolina! e Histórias mal contadas (ambos da SESI-SP Editora), começa me dando um norte.
“O despertar do leitor é o despertar da vontade de ler”, explica. “Gerar a questão: por que eu não consigo viver sem ler? E entender que a literatura vai levar para um estado que não se consegue chegar de outra maneira.”
Foi inevitável eu não me conectar ao menino que fui. Rememorei o primeiro contato com os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, com oito ou nove anos, e logo depois, com uns dez, a surpresa com a história de Uma professora muito maluquinha, de Ziraldo. Revisitei o deslumbramento que Claudio comentou – um sentimento importante para se guardar.
José Roberto Torero também me confidenciou algo do tipo. O autor de Uma história de futebol e Chapeuzinhos coloridos lembrou do primeiro livro que o fez chorar, na adolescência. Era Os patins de prata e fazia parte de uma coleção que ganhara do avô, os Clássicos da Juventude. Numa tarde, em Santos, sua cidade natal, foi às lágrimas dentro do carro ao lado da mãe, que estava ao volante. Ela, lembra Torero, estranhou muito o acontecido. Ele, o menino leitor, também. “A primeira vez que você chora lendo um livro é um negócio…”, afirma, citando também outro título que o marcou, Beleza negra, em que o narrador era um cavalo. “Eu pensei: então é isso, o livro me faz entender como um cavalo pensa e me faz chorar? Vou acabar me apaixonando, né?”
Parei um instante para assimilar o que ouvi. Será que esse era um primeiro caminho que eu tinha encontrado para aquela minha questão? Como entender (ou redescobrir, ou reconectar-se) com as sensações que os livros nos provocam no tempo que estamos crescendo e descobrindo as coisas do mundo? Roberta Asse escreve e ilustra histórias. Esse também é um ponto de atenção para ela, que é autora da coleção Crianças Daqui, que conta histórias de pequenos moradores de diversos cantos do país. “Fui uma criança que imaginava o tempo todo, muitas vezes em busca de respostas aos acontecidos que vivi”, relata. “As explicações mágicas do mundo voltaram quando fui mãe e não parei mais de ler e escrever. Desejei conhecer mais crianças, saber quem são, aprender a contar tudo para elas”.
Mas será que é necessário estar em contato constante com crianças para acessar esse sentimento? Mãe de duas meninas, Roberta acha que ajuda, mas não é essencial. “Fundamental é reparar — no sentido que Saramago diz, ‘aquele depois de ver’ — a criança leitora e desvelar maneiras de falar com ela.” Torero conta seu caminho: “Eu escrevo imaginando eu mesmo como leitor, com certa idade. Em geral, penso: esse livro é para meu ‘eu’ de oito anos. Aí eu tento mirar e acertar, afinal, eu conheço bem esse cara.”
No meio dessa investigação, recorro à opinião de Pedro Bandeira, o escritor que mais vendeu livros do gênero no país, autor de clássicos como A droga da obediência e A marca de uma lágrima. “A literatura não depende de boas ideias para os enredos, e sim da presença no texto de sentimentos de quem vai lê-lo: seus medos, suas esperanças, suas raivas, suas paixões, seus amores, suas dúvidas, suas dificuldades de relacionamento, sua inclusão no mundo”, diz.
Dentro desse ínterim, abro um novo caminho para entender, então, como se dá o processo criativo deles. Aponto essa curiosidade, levando em consideração dois pontos da história da literatura infantojuvenil no Brasil: o fato de termos um fundador totalmente libertário como Monteiro Lobato e, ao mesmo tempo, trazermos uma herança de tempos em que obras para crianças foram amplamente vinculadas à educação, o que trouxe, muitas vezes, um viés didático, moralista e de “autoajuda” à nossa produção. Frente a frente com esses extremos, indago-me como esses criadores encaram o computador na hora de inventar suas histórias? Quais as questões que surgem?
“Mergulho no mundo da imaginação sem diretriz nem restrição”, me conta Silvana Salerno, que já publicou mais de vinte obras para as crianças – inclusive, está no prelo um novo título pela SESI-SP Editora.
Stella Maris Rezende é um nome que, nos últimos anos, virou sinônimo da melhor literatura juvenil produzida no Brasil. Já venceu os principais prêmios do gênero, como o Barco a Vapor e o João-de-Barro, além de ter quatro Jabutis. Sua obra é conhecida também por não fazer nenhuma concessão aos leitores. “Tenho um projeto estético. Meu principal objetivo é fazer literatura, prosa poética, independentemente do público-alvo. Faço questão da poesia”, revela. “Não subestimo a inteligência das crianças e dos jovens. Creio que o maior desafio na literatura infantojuvenil é fazer literatura de boa qualidade, pois muitos autores optam por facilitar demais as coisas. Por acaso a vida facilita? Por acaso a criança não convive com assuntos delicados e polêmicos? Ora, a condição humana é complexa e a literatura precisa conter essa complexidade de alguma forma.”
Diante da fala – e do trabalho – de Stella, coloco-me a pensar no quanto de ousadia e coragem é preciso ter para escrever algo realmente original para crianças, fugindo da premissa de que a literatura para elas é mais fácil de se fazer ou da classificação como algo menor. Claudio, que também ministra aulas de escrita criativa para jovens escritores que querem entrar na área, reafirma a necessidade de olhar além. “Quando você procura fazer uma literatura de vanguarda, arrojada, sem medo, sem camisa de força, você chega a algo novo e que pode ser realmente de interesse dessa juventude.”
Dentro desse contexto, recordo-me de um ponto citado por Torero, que volta a conectar à indagação inicial, sobre “os segredos do sucesso”. “Eu acho que um tanto [do sucesso] é a novidade”, analisa, citando alguns clássicos precursores a seu tempo. “Monteiro Lobato foi assim. O Marcelo, marmelo, martelo, da Ruth Rocha, talvez seja um dos primeiros a usar a metalinguagem, como é o Chapeuzinho amarelo, do Chico Buarque. Como O reizinho mandão, também da Ruth, é um pouco político e também não tinha.”
O fato é que, cada vez mais, se está entendendo qual o poder que a literatura para crianças e jovens possui. A mocinha do mercado central, livro para jovens de Stella Maris Rezende, foi o primeiro do gênero a vencer a categoria “livro do ano de ficção” do prêmio Jabuti, em 2012. “Foi um belo reconhecimento da importância da literatura infantojuvenil, afinal, ela é literatura e ponto”, conta a autora, refletindo, porém, como ainda não podemos considerar esse cenário completamente mudado: “Qualquer autor para adultos que tenha recebido um único Jabuti, mesmo que seja de terceiro lugar, é muito mais reverenciado pela mídia do que autores para crianças e jovens que tenham recebido quatro ou dez Jabutis! Isso ainda se deve a um olhar de desdém sobre os livros para crianças e jovens, o que é um paradoxo, pois é com eles que nasce o gosto pela leitura. Só aos poucos a literatura infantojuvenil vem crescendo em importância e reconhecimento.”
Do ponto de vista dos novos criadores, Claudio, que lida diretamente com eles em suas oficinas, conta que a maioria já chega “sabendo onde estão amarrando o burro” e com um profundo desejo de se dedicar a esse público. Não à toa, ele acredita que estamos vivendo o momento mais efervescente da literatura infantojuvenil brasileira desde os tempos de Lobato. “Muita gente nova despontando e escrevendo de uma maneira realmente inovadora. Mas, assim, com uma pegada realmente literária”, afirma. Roberta Asse, que foi aluna de Claudio, tem a mesma impressão, inclusive quando amplia a observação para o campo das ilustrações. “Tivemos uma revolução na ilustração e nas abordagens temáticas, principalmente nos últimos dez ou quinze anos, fruto da reflexão sobre uma linguagem brasileira, de identidade e liberdade”.
Eu bem desconfiava que minha pergunta inicial iria render muitos assuntos. Os caminhos foram surgindo e diversos temas entrando na conversa. Talvez fosse previsível (ou intencional). Ainda assim, faço uma última questão para meus companheiros: o que, então, um escritor para crianças precisa ter?
“Desejo de se divertir. Porque é divertido escrever para crianças”, afirma Torero. “É muito livre, você pode usar mais magias, deuses, personagens malucos. É bem bom.” Pedro Bandeira conclui: “Estudar a psicologia e a sociologia de crianças e jovens ajuda, mas não basta. Se bastasse, todo psicólogo seria um escritor. A partir daí entra algo chamado ‘de nascença’”.
Seja como for, é preciso continuar criando para esse público, entendendo a importância desse trabalho, a responsabilidade, respeitando nosso interlocutor e tendo, acima de tudo, liberdade para criar.
É por isso que também carrego na primeira página daquele meu caderninho laranja o seguinte pensamento: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar”. Esta é uma frase de Monteiro Lobato que peguei emprestada para me acompanhar. Suspeito que, quando me inquieto querendo saber como encantar e conectar leitores, na verdade estou querendo abrigá-los — seja numa tarde qualquer, numa noite de insônia ou na leitura compartilhada na escola. Para que depois, quando saírem dessa “casa”, voltem para o mundo real com outras perspectivas, entendendo seus sentimentos, as questões humanas e se sentindo menos só nessa imensidão que é a vida. Um tanto mais felizes, fortes e interessados na jornada que vem pela frente.

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Caio Tozzi

Caio Tozzi

Caio Tozzi é escritor, jornalista e roteirista. Para o público infantojuvenil, escreveu Tito Bang!, Boa sorte, Dante, Procura-se Zapata e O segredo do disco perdido. É também criador, roteirista e codiretor de documentários que falam sobre a importância da arte para as pessoas, como “A vida não basta” e “Ele era um menino feliz”.

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