Traduzir: do sentido, da (in)fidelidade e outras histórias

Peter Bruegel. Torre de Babel, c. 1563.

Para falar de tradução, gostaria de começar mencionando um conto do escritor húngaro Dezsö Kosztolányi (1885-1936) intitulado “O tradutor cleptomaníaco”, publicado no Brasil em volume homônimo e traduzido por Ladislao Szabo. Já o seu título denota uma aventura. Poderíamos nos perguntar: o que o tradutor subtrai furtivamente? E por que a alusão à cleptomania? A cleptomania, sabe-se, é uma patologia compulsiva, irrefreável, uma tendência mórbida ao roubo. Para a psicanálise, é um mecanismo de compensação, uma atração fatal por determinados objetos, cujo valor muitas vezes é apenas relativo e pessoal. A própria construção da narrativa se desdobra em inúmeras ocasiões de sutil ironia sobre a tradução e o ofício de tradutor:

“(…) Por onde sua pena de tradutor passasse, sempre causava prejuízo aos personagens, mesmo que só se apresentassem naquele capítulo e, sem respeitar móvel ou imóvel, atropelava a quase indiscutível sacralidade da propriedade privada”1.

1 KOSZTOLÁNYI, D. O tradutor cleptomaníaco. Tradução de Ladislao Szabo. São Paulo: Editora 34, 1996, p. 10.

A imagem do tradutor cleptomaníaco remete ao velho e temido prejuízo ao texto e às personagens causado pela tradução. Está aí o antigo problema da tradução como mal necessário, o da impossibilidade da tradução, por não poder corresponder plenamente ao texto de partida. Só que… poucas vezes nos damos conta, mas boa parte da literatura que lemos é fruto de uma tradução. Até alguns anos, calculava-se que cerca de 70% da produção editorial brasileira compunha-se de livros traduzidos. Por que será então que não nos damos conta da existência do tradutor?

Tarefa ingrata é a do tradutor, e uma enorme responsabilidade, ou seja, permitir ao público a leitura de um autor estrangeiro que de outro modo ele não poderia ler. Se trabalhar direito, em geral haverá silêncio, mas, se ele trabalhar mal, todos os dedos estarão apontados em sua direção. Cabe lembrar, porém, que, se é verdade que o trabalho do tradutor é solitário, também é verdade que o livro, o produto final, é um trabalho de equipe. Por isso, para que uma boa tradução se torne um bom livro, também será necessária toda uma equipe editorial. Uma boa edição passa necessariamente pelo crivo de bons revisores e de um bom editor em seu caminho rumo a uma publicação competente.

Também é preciso dizer que, umas mais, outras menos, todas as tradições literárias são constituídas pela literatura do próprio país e pela literatura assimilada – em tradução. Dostoiévski, por exemplo, ou Goethe, ou Dante. Retrocedendo na história, sabe-se, por exemplo, o quanto era considerada importante, no século xviii, a tradução como formação para o escritor, pelo exercício de escrita que proporcionava. Ou, voltando mais um pouco no tempo, como o Renascimento baseou boa parte de sua cultura na releitura dos clássicos gregos e romanos e nas novas traduções dos humanistas.

A pergunta é: o autor, influenciado por escritores estrangeiros, os leu no original? E o leitor de hoje? E você? Que responsabilidade a do tradutor! Não paramos para pensar nisso, mas é óbvio que nossa literatura também se compôs sob a influência de obras estrangeiras que transitaram pelo país. Famoso, apenas para dar um exemplo, é o caso da influência dantesca em Machado de Assis.

Vamos dar um passo para trás e pensar no ofício tradutório. As más línguas dizem que se trata da segunda profissão mais antiga do mundo. Brincadeiras à parte, a Babilônia de Hamurabi, em 1700 a.C., era uma cidade poliglota, e muitas questões da vida civil e administrativa se resolviam graças a um grupo de escrivães que traduziam as leis nos diversos idiomas locais. Trinta séculos antes da era cristã, os egípcios já tinham um hieróglifo que significava “interpretando”, ou seja, traduzindo oralmente. O fato é que, desde a invenção da escrita, com as trocas de informações e mercadorias entre populações diferentes, a tradução escrita também se tornou uma atividade necessária. E complexa, extremamente complexa. Para começar, um só vocábulo – “tradução”, justamente – pode indicar tanto um processo como o resultado desse processo. E não se trata de um processo matemático, porque a linguagem, é notório, não é ciência exata. Devido àquele quinhão de subjetividade que toda expressão literária conserva, você não obtém uma tradução apropriada do Google tradutor, por exemplo. Por que não? Porque a operação que a mente humana faz subjetivamente, e que vai determinar qual, digamos, das opções possíveis (se é que todas estarão sugeridas ali) seria a tradução correta, a máquina ainda não consegue realizar. E isso numa frase comum. Imagine-se, então, como isso se dá com a linguagem literária, que, por sua própria natureza, talvez seja a expressão mais complexa de uma cultura.

Para explicar esse aspecto, gosto de lembrar do poeta Ezra Pound, que em seu ABC of reading, partindo das três dimensões aristotélicas do fazer poético, afirma que a alta literatura é “linguagem carregada de significado no grau máximo possível”. Dispomos, para tanto, de três meios principais: podemos suscitar o objeto, fixo ou em movimento, na imaginação visual (fanopeia); sugerir correlações emocionais a partir do som e do ritmo do texto (melopeia); incutir ambos esses efeitos estimulando as associações (intelectuais ou emocionais) presentes na consciência do receptor, relacionadas às palavras em si ou aos grupos de palavras empregados (logopeia). Segundo Pound, o poeta/escritor codifica o conteúdo daquilo que deseja expressar por meio dessa operação de condensação e dos recursos à sua disposição para tal. Ao tradutor, por sua vez, cabe decodificar e recodificar esse conteúdo na língua de chegada de sua tradução. Para tanto, também ele terá à sua disposição os mesmos meios de que se valeu o autor na língua de partida. Mas então qual a diferença entre escrita e tradução? Para ilustrar um dos aspectos cruciais dessa diferença, vou citar o caso do escritor italiano Antonio Tabucchi.

Além de escritor, Tabucchi também era professor de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Pisa. Ele foi o responsável pela penetração da poesia de Fernando Pessoa na Itália e foi o tradutor de Carlos Drummond de Andrade. Isso apenas para dizer que ele era fluente em português a ponto de ter escrito nessa língua um de seus romances, Réquiem. Pois bem, quando ele quis lançar o livro na Itália, pediu a um amigo tradutor que se encarregasse do trabalho de tradução. Por quê? Tabucchi disse textualmente que, se fosse fazer a tradução da própria obra, certamente acabaria escrevendo outro romance. Escrever um texto literário e traduzir

M. C. Escher. Drawing Hands, 1948.

são atividades diferentes. Um tradutor não parte, como o escritor, da própria imaginação à solta, mas é balizado pelo texto (e pelo autor) que está traduzindo e sabe se ater a ele.

O tradutor tem, sim, a possibilidade de recorrer aos três instrumentos mencionados por Pound, mas ninguém garante que a língua de partida e a língua de chegada disponham das mesmas figuras para simbolizar determinada imagem, som, ritmo ou ideia. Ele terá de buscar “correspondências”. Se tradução e texto tivessem os mesmos recursos, idênticos, a tradução seria desnecessária. E aí começam as dificuldades. O percurso de tradução é uma caminhada, e quem escolhe o(s) caminho(s) a tomar é precisamente o tradutor. Assim, a escolha de cada palavra por parte do tradutor será necessariamente um ato autoral.

Ora, não fossem os tradutores, estaríamos na velha danação da Torre de Babel. Sem tradução, cada qual com a própria língua, ninguém se entenderia. Cabe ao tradutor cumprir essa tarefa deslumbrante de permitir a leitura de um autor estrangeiro. E sua versão decorre, inevitavelmente, de sua leitura. No entanto, costuma-se acreditar que, quanto melhor for o trabalho tradutório, tanto menos se notará que o texto é traduzido. Costuma-se privilegiar a chamada “legibilidade”, almejar a “fluência da leitura” a ponto de, paradoxalmente, a tradução considerada de “boa qualidade” ser aquela que “nem parece tradução”. Mas o ato tradutório implica não a anulação da diferença, e sim o confronto constante com ela, com a alteridade. É dar espaço ao “outro” sem que nos confundamos com ele. A tradução é um encontro, uma aproximação gradual, um movimento de aproximação a uma terra estrangeira, ao estranho. Para realizar essa aproximação, para estar realmente presente nesse encontro, são três as condições de possibilidade (e de verdade): reconhecer a alteridade, marcar essa diferença e, finalmente, acolher em si a diferença. Talvez possamos definir a tradução como a tomada de consciência da distância.

Mas essa é uma discussão antiga. Considerada uma atividade de segunda ordem, justamente por ser a reprodução de uma criação, a tradução sempre foi, ao longo dos séculos, objeto de reflexão por parte de tradutores e teóricos. No fundo, nunca se abandonou a velha discussão sobre a qual caberia a primazia na obtenção de um bom resultado, se à tradução literal ou à tradução livre. George Steiner chega a afirmar que, em dois mil anos, toda a teoria da tradução se reduz a variações em torno do mesmo tema, ou seja, à oposição entre “letra” e “espírito”. Devemos traduzir “ao pé da letra” ou o que importa é, ao contrário, transmitir o “espírito” do texto? A mensagem em si ou o estilo da mensagem? Qual delas seria a mais correta? Ou qual a mais fiel?

A resposta é impossível. Nem sequer para a Bíblia (o texto mais traduzido do mundo) se chegou a algum consenso. Quando São Jerônimo, principal autor da Vulgata e depois padroeiro dos tradutores, fez a revisão das duas traduções existentes do Novo Testamento e traduziu a versão integral do Antigo Testamento a partir do aramaico e do hebraico (incumbido pelo Papa de fixar o texto canônico), seu trabalho foi muito criticado. Nem tanto por erros linguísticos, mas antes pelo afastamento de seu texto da tradição exegética até então consagrada. Famosa e acalorada é sua discussão com Santo Agostinho, que atribuía valor pedagógico às passagens obscuras das Escrituras, acreditando que a ordem (estranha) das palavras representasse um “mistério de fé”, e, por isso mesmo, não apreciou nem um pouco a clareza de estilo que São Jerônimo utilizara em sua versão, que buscava dar maior inteligibilidade ao texto. Ora, se nem sequer dois santos chegaram a algum consenso…

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Roberta Barni

Roberta Barni

Roberta Barni é docente de literatura italiana e tradução literária da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e dos programas de pós-graduação em língua, literatura e cultura italianas e de estudos da tradução. É também tradutora literária e, entre os cerca de cinquenta volumes traduzidos, figuram autores como Calvino, Tabucchi, Ripellino, Manganelli, Baricco, Svevo e Pirandello.

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