Sonhar com palavras o sonho de todos

Ilustração do livro Infâncias: aqui e além mar, da SESI-SP Editora.

“A vida é sonho”
De Calderón

Fabular é preciso, fabular faz parte da natureza humana, fabular é um modo de ser que acorda em cada um de nós o apelo ao sonho, à necessidade da fantasia, à vivência da imaginação. Ninguém consegue viver sem conviver com momentos de fabulação que na arte literária acontece do feliz casamento do sonho com o real. E é nesse jogo de contar e imaginar a vida surpreendida pelo poder encantatório e inventivo da ficção que o ato de fabular revela como o mundo é e como o mundo poderia ser.

Por isso mesmo a fabulação humaniza, não só por estar sempre voltada para a condição humana, mas também e talvez sobretudo por atender à carência de fantasia como contraponto da razão extremada que faz da realidade um território árido e carente de imaginação, centrado no reduto da objetivação e da inteligência lógica. Para viver e sobreviver, é preciso sonhar e sonhar com palavras é um modo de reinventar a vida e fazer da existência um lugar de descobertas e de revelações.

São muitas as formas de fabulação como prosa ou poesia: o conto, a novela, a peça de teatro, a história em quadrinhos, a canção, a anedota, o causo e tantas outras. Todas elas ganham forma e cor por força do imaginário que faz parte da natureza humana e, no universo literário, é sempre experiência criativa no gesto de quem escreve, na expectativa de quem lê.

Existe uma historieta, “A fábula do oleiro”, que identifica o traço lúdico de quem fabula como aquele que brinca, que se diverte, que subverte as normas, que reinventa a vida e sonha nas palavras o sonho de todos. Sugerindo mais do que afirmando, o fabulador diz:

Uma criança se aproxima de um oleiro que molda bonecos no barro e pendura as estatuetas num varal para secar. Chega perto, admira os seres enfileirados, fica fascinada com a perfeição daquelas pequenas criaturas que se multiplicam nos movimentos exatos das mãos do escultor. Mesmo assim, pergunta:
– Por que você está fazendo tantos bonecos, se o mundo já está cheio de gente?
E o oleiro, sem tirar os olhos e as mãos do trabalho, responde:
– É para preencher os vazios da vida, e não faz mal nenhum equilibrar as criaturas de barro com os homens reais.1

Esta breve narrativa, que se afasta da fábula de ensinamento e se oferece como matéria de indagação, mostra como a fabulação presente na arte literária joga a favor da vida e extrai do sonho e da fantasia um modo de corrigir o real. O ato de fabular ou recriar o universo busca preencher o que o mundo tem de faltoso ou de carência, anunciando de forma muito expressiva um mundo onde todos devem inventar e reinventar criaturas para “preencher os vazios, as brechas da realidade” com o exercício da fabulação, como clama com ênfase Fernando Pessoa:

“A literatura como toda arte é uma confissão de que a vida não basta.”

E Leyla Perrone-Moisés vai além pontuando o sentido faltoso da literatura e da própria linguagem que se quer como expressão literária:

A linguagem nasce de uma dupla falta: uma falta sentida no mundo, que se pretende suprir pela linguagem ela própria sentida e seguida com falta. A primeira falta é experimentada por todos do mundo físico a que chamamos real. O mundo em que vivemos, o mundo em que tropeçamos diariamente não é satisfatório – essa é uma constatação a que se chega bem cedo, na existência /…/ Esse descontentamento primário que nos traz o estar no mundo só faz acentuar-se pela vida afora, à medida que a simples sensação da falta se acrescentam as especulações racionais sob como as coisas deveriam ser e não são.2

É aqui que a literatura entra como um direito de todos e um componente essencial para uma vida motivada pelo equilíbrio harmonioso entre porções do real e porções da fantasia.  Sem o sonho de fato ou o sonho presente no espaço da fabulação, seria impossível viver.

O professor Antonio Candido identifica o ato de sonhar como enseada necessária para a existência do ser:

Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar vinte e quatro horas sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. /…/ E durante a vigília a criação ficcional ou poética /…/ está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito, como anedota, causo, história em quadrinhos…3

Muitos escritores e estudiosos reconhecem que a fabulação pulsa nas camadas mais profundas do homem e ele precisa transitar o universo da fabulação para viver a experiência lúdica da literatura, sonhar sonhos possíveis e impossíveis, fazer o trajeto da fantasia para existir. É bom lembrar alguns:

“Fabular é uma questão de saúde”, diz Deleuze.

“Quanto é melhor quando há bruma/ Esperar por Dom Sebastião quer ele venha ou não”, insiste Fernando Pessoa.

“Invente uma canção de roda para que o povo cante, principalmente as crianças”, confirma Thiago de Mello.

“O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre”, celebra William Shakespeare.

“Sonhe com aquilo que você quer ser/ Porque você possui apenas uma vida”, clama Clarice Lispector.

Apenas uma palavra final: a fabulação sempre se anuncia como uma voz coletiva que oferece palavras e cores acolhedoras e revela “um mundo onde todos sonham”.

Por essa existência tão presente do imaginário na arte, fazemos confidências com Capitu, sonhamos silenciosamente com Fabiano, atravessamos o espelho com Alice, guardamos o segredo de Batman, sapateamos nas estrelas com Ginger Rogers e Fred Astaire, cobrimos a morte de Romeu e Julieta celebrando o sono de todos os amantes, mentimos com Pinóquio como forma de defesa e de preservação das diferenças na experiência de ser e existir.

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1 Fábula popular recriada por mim, presente no livro A maldição do olhar, Editora Biruta, São Paulo, p. 112.
2 Leyla Perrone-Moisés. Flores da Escrivaninha – Ensaios. Companhia Das Letras: São Paulo, p. 103.
3 CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”. In: Vários Escritos. São Paulo/Rio de Janeiro. Duas Cidades, 2004, pp. 169, 174/75.

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Jorge Miguel Marinho

Jorge Miguel Marinho

Jorge Miguel Marinho é professor de literatura brasileira, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor de vários livros, entre eles Te dou a lua amanhã (Prêmio Jabuti), Lis no peito - um livro que pede perdão (Prêmio Jabuti), Na curva das emoções (Prêmio APCA). Pela SESI-SP Editora publicou: Blue e outras cores do meu voo, Na gravidade das coisas miúdas (Prêmio FNLIJ) e Lá longe no chora menino.

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