Os olvidados

Roberto Clemente. Giant insect, 2014. (bit.ly/2sHWTA7)

Minha ideia de literatura sempre esteve ligada a descobrir autores que os outros não liam. Não por exclusivismo ou esnobismo intelectual, mas porque não via graça em perder tempo com aquilo que todos já estavam perdendo.

Quando ler James Joyce era quase uma obrigatoriedade social, feito tomar vacina contra poliomielite, eu consumia o apolíneo Guy de Maupassant. Na época em que se enjoou dos modernistas, dei para fazer imersões em William Faulkner. E assim fui surfando em minha onda pessoal.

O fenômeno agravou-se em função de minha amizade com o escritor João Antônio. Ela durou apenas um ano − o último da vida dele − mas rendeu muitas missivas, onde os puxões de orelha do mestre no aprendiz foram inúmeros.

J. A. acabou acentuando minhas inclinações literárias, pois também não apreciava o “mainstream”. Tinha lá suas sensibilidades particulares a autores, temas, e ficava aborrecido quando determinados modismos faziam estardalhaço na lista dos mais vendidos da Veja. Chamava aquilo de “ignorantismo” − o fato estreitou ainda mais nossa fraternidade epistolar.

Devo à antipatia ao pensamento único, turbinada pelo contato com o autor de Perus, malagueta e bacanaço, ao menos um benefício: ter ciência de obras notáveis que poucos percebiam, mesmo que estivessem numa estante a um palmo de seus narizes. O contato com o texto do, até hoje pouco lembrado, Victor Giudice (1934-1997) ocorreu justamente por isso.

O niteroiense, além de estilista do verbo, era um grande conhecedor de música erudita e compositor de canções populares. Funcionário do Banco do Brasil, tornou-se, depois da aposentadoria, crítico de música. Mas, desde o lançamento do primeiro livro em 1972, sua ligação com a música já o caracterizava como alguém que levava a rítmica ao grau máximo de irresistibilidade.

Giudice publicou quatro livros de contos: Necrológio (1972), Os banheiros (1979), Salvador janta nos Lamas (1989), O museu Darbot e outros mistérios (1994), e dois romances, Bolero (1985) e O sétimo punhal (1995). Ficou inacabado o romance Do catálogo das flores.

Aplaudido pela crítica desde o primeiro trabalho, no qual está o conto brasileiro, até o momento, mais traduzido no exterior − “O arquivo” −, Giudice nunca deixou de ter leitores, mas só encontrou o reconhecimento dois anos antes de falecer. Foi quando recebeu o Prêmio Jabuti pela coletânea de contos “O Museu Darbot”.
Giudice jamais pertenceu a igrejinhas, revistas, movimentos. Pode-se dizer que foi um escritor à margem de tudo, menos da Tijuca e de São Cristovão − os palcos por onde suas narrativas e personagens moviam-se entre o surreal e o prosaico. Disse a ensaísta, crítica literária e professora Nelly Novaes Coelho sobre o lugar de Victor Giudice na literatura brasileira: “Sua obra é das que aguardam, do futuro, o reconhecimento de seu lugar no acervo da ficção brasileira do século XX”.

Meu contato inicial deu-se com O arquivo. Versa sobre a desumanização de um trabalhador chamado joão − com letras minúsculas. Eis aqui um pequeno fragmento:

“No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe. No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição. Dois anos mais tarde, veio outra recompensa. O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial. Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança. Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.”

Após passar por vários rebaixamentos de cargo e salário na empresa em que labuta, perto de se aposentar, joão se transforma num arquivo de metal corporativo. Com toda certeza é uma das narrativas mais próximas de Franz Kafka já concebidas em língua portuguesa. E ainda traz nas entrelinhas pitadas de Borges, Cortázar e, por que não dizer, Buñuel. Nada mau para quem só é encontrado pelos arquivos das prateleiras mais ignotas do país.

Meses atrás, uma acadêmica e estudiosa de Victor Giudice avisou-me que O necrológio − livro mais experimental do autor − seria relançado por uma grande editora. Liguei imediatamente para a empresa a fim de obter detalhes. Ficaram de me chamar de volta, mas já lá se vão semanas sem resposta alguma. Quando um autor cai na categoria “olvidado”, não há saída: editores e distribuidores parecem ficar desmemoriados em relação à sua obra.

O lírico brutal

Abraçado ao esquecimento de Victor Giudice também encontramos Wander Piroli (1931-2006). Chamado de “João Antônio mineiro” foi um dos escritores que o mestre J. A., em suas “cartas sociais” e em conversas no restaurante O Consulado Mineiro, me estimulou a conhecer.

Piroli ganhou corpo naquela suposta abertura política de 1974 − leia-se Ernesto Geisel. Por essa época, vários escritores, que produziam na moita, lograram lançar no mercado trabalhos inovadores em relação à literatura vigente no país. Eram textos realistas, quase documentais, que subvertiam o gênero e a forma reinantes. João Antônio, Wander Piroli, Ignácio de Loyola Brandão e muitos outros eram parte desse primeiro comboio que conseguiu furar o bloqueio criativo daquele momento.

Apesar de terem aparecido no mesmo momento, os estilos de Giudice e Piroli são bem diversos. Giudice cantou as dissimulações e anomalias da sociedade contemporânea. Ou, segundo um crítico dos anos 1970, “o leitor tinha diante de si um bizarro logogrifo literário, sério, circense, dramático, histrião; da mais intensa atualidade e permanência enquanto a história for a pré-história do Grande Circo burguês”.

Piroli seria o lírico brutal. Nunca poderia se afirmar que engendrou charadas verbais. Se o estilo de Giudice é um passeio pelo bosque, parando para ver abelhas, trevos de quatro folhas e musgos, o modus operandi de seu colega é uma marcha que segue célere em direção à crueza da vida real. Como pode-se atestar numa célula do conto “Crítica da razão pura”:

“Ouvi primeiro o ruído de cascos pisando a grama, mas continuei deitado de bruços na esteira que havia estendido ao lado da barraca. Senti nitidamente o cheiro acre, muito próximo. Virei-me devagar, abri os olhos. O cavalo erguia-se interminável à minha frente. Em cima dele havia uma espingarda apontada para mim e atrás da espingarda um velhinho de chapéu de palha, que disse logo o seguinte:
— Filhos de uma puta.
Pois não — tentei eu, ainda entorpecido pela bebida do almoço. O velho encaminhou o cavalo até o fogão, abaixou-se na sela e inspecionou o que restava na lenha.
— Filhos de uma puta.
Os moirões — pensei, pondo-me de pé. E andando de costas, sem tirar os olhos do velho, fui até a entrada da barraca e chamei pelo Dr. Fontes.
— Fale, querida — disse ele lá de dentro.
— Depressa, doutor — pedi.
— Filhos de uma puta — repetiu o velho emputecido, agora examinando a cerca destruída.
— São os moirões — expliquei para o dr. Fontes, que saía da barraca com os óculos tortos na cara amarrotada, os cabelos em desordem.
— Calma — ponderou Dr. Fontes.
— Filhos de uma puta — insistiu o velho de pele vermelha curtida, ossudo.
Cainca apareceu fora da barraca, nu, com o calção na mão:
— Mas que porra é essa?
— Chega pra lá — ameaçou o velho lá de cima do cavalo.
Cainca enfiou o calção.
— Bem — disse eu — se é por causa dos moirões.
— E o senhor tem dúvida? Olha lá o que vocês fizeram com a cerca. Será que algum filho da puta ainda tem alguma dúvida?
— Filho da puta, não senhor — disse Cainca.”

 

A última menção que li a respeito de Wander Piroli é de 2011 e foi curiosamente levantada pelo ex-senador, do Partido Democratas, Demóstenes Torres. Disse o político, em discurso na Câmara Alta, que a obra É proibido comer a grama, adotada pelo MEC na rede pública, era “sexista, machista e fascista”. Foi cassado semanas após essa exposição oral por quebra de decoro parlamentar. Não cabe citar aqui as verdadeiras razões de seu afastamento, mas Wander Piroli e João Antônio devem ter dado boas gargalhadas lá em cima.

O Pynchon de Picinguaba

Um outro niteroiense (sempre eles?), de 81 anos, desde 1962 produz com a pujança de um garoto recém-entrado no mundo das letras. Eduardo Alves da Costa reside na bucólica praia de Picinguaba, em Ubatuba, litoral paulista. Até o momento, seus poemas, contos, peças de teatro, textos infantojuvenis, crônicas e romances engendraram 24 obras. Coleciona prêmios relevantes e, por alguma dessas coincidências cósmicas, é mais lembrado quando alguém posta estas estrofes de seu poema mais conhecido, “No Caminho com Maiakóvski”, em alguma rede social da vida:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada

O paradoxo, que nem a física quântica nem a profecia explicam, permanece imperturbável há mais de 50 anos. O escritor Roberto Freire, na epígrafe de um de seus livros, imputou ao poeta russo Wladimir Maiakóvski a propriedade dos versos e iniciou a interminável confusão. A “barriga” foi revisada mais tarde, mas a falsa autoria pegou.

No “Caminho com Maikóvski” virou pôster de líderes estudantis que combateram a ditadura militar, nos anos 1970; apareceu nas camisetas da campanha pelas Diretas Já, nos anos 1980. E, traduzido para um sem-número de idiomas, virou mania na internet, nos anos 1990. Pior: o criador daquelas estrofes já não era nem Eduardo nem Maiakóvski, mas Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht, Wilhelm Reich, Léopold Senghor…

O derradeiro golpe veio em 2003: na telenovela “Mulheres Apaixonadas”, exibida pela Rede Globo, a atriz Christiane Torloni leu um trecho do poema, dando o crédito correto, mas colocando mais uma vez Alves da Costa apenas como um bardo das causas sociais.

O escritor resigna-se com o fato, atribuindo-o a seu reconhecimento como, pelo menos, um poeta de peso. Contudo, é justo, mesmo que tardiamente, reconhecer suas outras virtudes. Em especial a do prosador de A sala do jogo e Cem gramas de Buda. Ou ainda do romance Chongas, que Antonio Houaiss classificou como “diabalmente aliciante”. Toda sua escrita é, de fato, magnética − flerta com o fantástico usando os efeitos expressivos dos que dominam o metiê de se equilibrar por sobre palavras.

Como cronista admito ter ficado especialmente curioso por conhecer Uma lebre na moita do destino, crônicas publicadas no jornal Diário de São Paulo. Busquei o suposto volume em livrarias físicas, prateleiras virtuais, depois em sebos empoeirados e até nos alfarrabistas mais obscuros. Nada sobre nada.

Não seria hora de desviar-se um pouco da senda de Maiakóvski e editar, em grande estilo, o Eduardo cronista? Ofereço-me para preparar o prefácio prometendo não trocar o nome de nosso talentoso artista pelo de Bertolt Brecht ou García Márquez.

Como disse antes, minha ideia de literatura sempre esteve ligada a encontrar escritores que os outros não liam. É claro: Eduardo Alves da Costa − juntamente com as obsessões antigas por Giudice e Piroli − agora virou mais uma ideia fixa para mim.

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Carlos Castelo

Carlos Castelo

Carlos Castelo é escritor e letrista. Lançou onze livros, entre eles o romance policial Damas turcas (Global), a coletânea de crônicas Clássicos de mim mesmo (Matrix) e o volume de máximas e aforismos Orações insubordinadas (Ateliê Editorial). Também é colunista do jornal O Estado de São Paulo (Crônica por quilo) e escreve crônicas e resenhas sobre livros na revista Bravo!

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