O pop do clássico & o clássico do pop

Era uma vez um órfão

Uma das razões do enorme sucesso da literatura pop, especialmente entre leitores jovens, é o legado que seus escritores tomam como referência. O pop é o descendente e o herdeiro da literatura clássica. Vejamos…

Um garoto órfão, maltratado pela família que o adotara, parecendo incapaz de sobreviver ao bullying que o cerca. No entanto, a história dá uma reviravolta. Algo é revelado sobre o seu passado, que o encaminha para se tornar alguém muito especial.

Qualquer adolescente sabe que esse é início de Harry Potter, da J.K. Rowling. Mas essa trama foi testada e aprovada por um sucesso da literatura inglesa de 1837 – Oliver Twist, de Charles Dickens: um clássico.

Já acusaram Rowling de ter plagiado Oliver Twist. Entretanto, dificilmente Dickens terá sido o primeiro a bolar histórias em que o leitor é ganho, no primeiro capítulo, ao ser levado a se compadecer de um personagem (criança) sofredor.

Convém ainda evitar a especulação de que ambas as obras derivam de um mesmo arquétipo. O conceito de arquétipo implica noções complexas de inconsciente coletivo, algo que, grosso modo, é replicado inadvertidamente. No que nos distraímos, o cabalístico arquétipo nos possui.

Pelo contrário, trata-se, sim, de um processo deliberado, e exigente, de transmissão de legados literários.

Linhagens literárias

Para rastrear a linhagem da literatura pop – que circula, hoje, em gêneros como policial, fantasia, aventura, terror, amor, suspense e mistério, humor e paródia, entre outros –, a primeira noção proposta é de que nada na literatura nasce de chocadeira.

Antes de alguém de se tornar um escritor, foi (e provavelmente continuará sendo) um leitor. É no mundo dos livros que desenvolve seu gosto pelo que vai escrever um dia. Daí, temos obras que conquistam leitores, alguns dos quais se transformarão em escritores que vão escrever obras que conquistarão outros leitores. As referências passam para o futuro escritor (que geralmente nem sabe ainda que será esse seu ofício) na medida em que elege suas obras e escritores favoritos, vinculando-se, assim, a uma linhagem.

Não se trata, portanto, nem de copy-paste, nem de um vírus residente em nosso subconsciente. É um processo cultural, material, entre pessoas e livros. Quem quiser ler um relato de como leitores se transformam em escritores, vá a Como e por que sou romancista, de José de Alencar, que cita suas referências: Walter Scott (Ivanhoé), Fenimore Cooper (O último dos moicanos), Alexandre Dumas (Os três mosqueteiros) e outros. E daí imagine como e por que surgiu O Guarani.

Não existe escritor que não tenha vindo da própria literatura. A não ser em casos quase extraterrestres. Todo escritor tem seus ascendentes. E, se sua obra torna-se referência, deixa um legado – gera descendentes.

Foi assim que o pop nasceu do clássico.

Nhaca de pirata não é moderno

É difícil definir o que é literatura pop. Existem diversas caracterizações e juízos de valor. Mas, ao defini-la como a que mais consistentemente explora a referência dos clássicos, aponta-se sua diferença em relação a toda uma literatura igualmente difícil de delimitar, que já se chamou de vanguarda, moderna (ou modernista) e erudita, mais ou menos produzida entre as décadas 1920 e 1960, embora cultuada até hoje.1

1 Falta neste artigo, por praticidade, uma tentativa de definição do que é um clássico, assunto muito controverso. A carência fica em parte suprida pela citação de obras. Já a oposição entre a chamada Literatura Popular e a Erudita, está em Luiz Braz, Alexandre Dumas e a Guerra dos Livros, em Ponto 5 – Março 2014.

Há vários momentos em que o Modernismo repudia os autores que o antecederam. Um deles é a crítica desdenhosa que a requintada romancista Virginia Woolf e seu grupo disparavam contra Robert Louis Stevenson. Os modernos, com amplo espaço nos jornais literários da época, aproveitavam toda oportunidade para desqualificá-lo.

Por quê? Bem… Toda sucessão de movimentos literários é conflituosa. No entanto, crucial era o fato de que os modernos praticavam uma prosa-poética

Marco Battaglini. Good Artists Copy; Great Artisits Steal, s.d.

que, entre outros aspectos, ousava enredos e personagens tão pouco densos, como se existissem apenas em meio à bruma sobre o Tâmisa, e prontos a se evaporar no que alguém se aproximasse. Como uma literatura dessas iria conviver com as narrativas eletrizantes de Stevenson e, especialmente, com um Long John Silver (ancestral muito mais manhoso e carismático de Jack Sparrow) que, mal surge, em A ilha do tesouro, e já é como se escutássemos sua voz enganosa e farejássemos seu hálito de bebida, quando não sua nhaca de pirata, de poucos banhos por ano e roupas sem troca? Orlando (1928), de Woolf, é um belíssimo personagem, mas de natureza diferente.

Literal e literariamente falando, incompatibilidade de gênios.

No início, houve Homero

Se a Vanguarda, ou os Modernistas, pretendiam apresentar uma literatura diferente de tudo o que já se havia produzido, de propor textos que conferissem ao leitor a consciência de que estava tendo uma experiência estética e não participando da cena… e uma certa distância, ou estranhamento (essa expressão era muito usada) em relação ao que lia… os Clássicos e, no legado destes, os Pops, buscam justamente o contrário: o envolvimento do leitor.

Cormoran Stryke não é Oliver Twist, nem Harry Potter, mas se trata de um genuíno maior abandonado. O chamado do Cuco (2013), policial assinado por Robert Galbraith – pseudônimo de Rowling, a mesma de Harry Potter –, apresenta Stryke como um alcoólatra, mutilado da guerra do Afeganistão – perdeu uma perna e usa uma prótese, com a qual convive pessimamente –, maltratado pela vida e por si mesmo, falido, recém-saído de um relacionamento pirante, e ainda por cima incapaz de reconciliar-se com seu passado – o pai é um astro do rock, teve uma noite com uma fã (uma groupie), ela ficou grávida, e ele não tomou conhecimento do filho; a jovem morre de overdose, quando Cormoran e uma irmã ainda eram crianças. Enfim, de cara, não dá para acreditar que ele seja um herói; muito menos, capaz de resolver algum caso que um cliente incauto lhe entregue.

Mas tudo faz parte do truque. Em seu caos, Cormoran surpreende, mostrando- se um detetive e tanto. Seria inimaginável. A não ser para quem tenha a referência de um outro detetive… Que se mantém afetivamente imune às pessoas. Que ignora que a Terra seja redonda, já que não acredita que isso afete suas investigações. Que é um excelente violinista, embora só toque para si mesmo. Um doidão que, para apreender a determinar se uma vítima foi assassinada a porretadas, ou espancada depois de morta, o que deixaria pistas falsas, vira noites no necrotério – um de seus habitats mais naturais –, surrando cadáveres e observando os efeitos disso na pele morta. E que, quando não tem um caso para resolver, se entrega à melancolia e ao ópio.

Esse é Sherlock Holmes. O excêntrico dos excêntricos. Na técnica folhetinesca em que Conan Doyle (a primeira novela, Um estudo em vermelho, saiu em 1847) escreve, somos, aos poucos e cada vez mais intrigados, inoculados por suas peculiaridades. Quando vemos, é tarde, caímos na arapuca, e o personagem nos conquistou.

A composição da personalidade, do espírito, do emaranhado mental de Holmes, ou seja do que chamemos essa coisa esquisita que ele tem dentro de si, é fundamental para acompanharmos a investigação. Outro personagem daria outra história. Entretanto, se suas estranhezas nos cativam, suas falhas insinuam que corra algum risco, e nos vemos torcendo pelo seu bem. Holmes morre numa das histórias de Doyle. Contra a vontade do autor, os fãs forçam-no a ressuscitá-lo, anos depois.

Nada mais pop do que fãs interferindo no destino de personagens, incapazes de suportar sua perda; e personagens tão amados, tão importantes na vida de seus leitores. Sem estranhamentos.

Noutro viés, há personagens-detetives que parecem quase humanos. Sua peculiaridade é tratar dúvidas e fraquezas como assunto privado. Que não são da conta nem do mundo, nem do leitor. O que nos resta é temer que, submetida a cenas extremadas, a blindagem se esfarele. E aí está, por exemplo, Sam Spade, de O falcão maltês (Dashiel Hamett, 1929).

Marco Battaglini. Ma dove cazzo sono?, s.d.

Enfim… Pode ser um pouco de invencionice afirmar que o Calcanhar de Aquiles seja ancestral da kryptonita. No entanto, essa manobra, típica nos clássicos e nos pops, de temperar o poder do herói com fragilidades, agrega empatia ao personagem e estimula as expectativas do leitor em relação ao destino dele.

Nisso o pop Cormoran Stryke é um descendente legítimo do hoje clássico (mas na época pop à beça) Holmes, que por sua vez é um ancestral de Hercule Poirot, de Agatha Christie, e de Will Baskerville, o monge investigador de O nome da rosa (1980), um best-seller planetário, transposto para o cinema com Sean Connery no papel principal. O romance, de Umberto Eco, liberou a senha para levarem a sério (como literatura) as novelas policiais. O nome do protagonista é uma citação a O cão dos Baskervilles, caso investigado por Holmes.

São, portanto, excêntricos; se fossem realistas (isso existe: uma realidade literária?), não teriam se tornado tão populares.

Já no que toca aos ardis da trama…

… Ninguém estranha hoje em dia ver uma cena correr solta, sem um autor invasivo a lhe ditar um tom monocórdio, como numa ladainha. Ou que a ação conte a história, num prodígio de imitação, como o chamou Aristóteles. Ninguém se espanta ao dar com diálogos numa cena. Que os personagens briguem, se amem e se emaranhem em seus conflitos interiores, ou com o mundo. Devemos tudo isso a Homero, o gênio inovador que há cerca de três milênios, pelo que se estima, dotou a literatura (antes, somente hinos de louvor aos deuses) de capacidade de envolvimento/encantamento.

E, no âmbito do terror, de nos fazer sentir terror, Homero é o primeiro, o fundador!

No canto xi de Odisseia, Ulisses (em grego, Odisseu) desce ao Hades para obter a profecia do falecido adivinho Tirésias, que permitirá ao herói retornar a sua ilha de Ítaca. O Hades não é o inferno cristão. É pior. Não se reserva aos pecadores, mas traga os bons e os maus. Lá, espectros vagam nas trevas eternas, gemendo, privados da memória da vida que tiveram. Para os gregos, que tanto adoravam Apolo, deus do Sol, e imersos numa cultura em que o conhecimento e a arte provinham da memória (Mnemosine, a mãe das Musas), nada poderia ser mais antigrego (como antimatéria) do que o Hades. O terror mais profundo dos gregos era o Hades. Pois é onde Homero os lançará, cercados de espectros ávidos de sangue (único meio de recuperarem a memória) – ancestrais evidentes de todos os vampiros e zumbis.

O terror mais profundo… Deixar o leitor imerso, desamparado, no seu horror primordial… Esta é uma das marcas resgatadas dos clássicos pelo terror do século xix, o gótico, o auge do gênero. Drácula, de Bram Stoker, parido naquela cena de Homero, é um velocirraptor, um predador de humanos, e ao mesmo tempo tão sensual, que alguns desejam suas dentadas, como se ele fosse, digamos, um Edward Cullen, de Crepúsculo. E desde Homero até Stephenie Meyer que a nossa dificuldade de aceitar a mortalidade é tema proeminente do terror. Tanto que há sempre uma Bella, topando tornar-se uma morta-viva para permanecer jovem e linda para sempre… no caso, ao lado de seu vampiro vegetariano, usuário de filtro solar.

E não se pode esquecer Stephen King, grande estrela da literatura pop desde Carrie, a estranha (1974). Seu vampiro de Salem’s Lot é o melhor chupa-jugulares fora de Stoker. King, professor de literatura, descendente confesso também de Poe e Henry James, deve ter lido autores como William Faulkner, sem falar nos beatniks e em O apanhador no campo de centeio (1951), de Sallinger, tão mais próximos dele, temporalmente, e que influenciaram muito sua geração. Entretanto não são essas as suas referências literárias. Ele escolheu outra linhagem. Seu recente Doutor Sono, continuação vinte anos depois de O iluminado – que, aliás, poderia se intitular O escritor e o monstro –, traz criaturas derivadas da praga vampiresca, que obtém a imortalidade à custa da prática de atrocidades.

Tudo pela história!

Quem bebe uma fórmula descoberta ao acaso e assim se transforma num monstro? Fácil… Mr. Hyde, em O médico e o monstro, de Stevenson. Mas estará tão distante do cientista que leva uma descarga acidental de raios gama e vira um gigante verde, conhecido como Hulk?

Um e outro liberam a brutalidade que mais os aterroriza… aquela que pressente dentro deles mesmos. O dr. Jekyll e Bruce Banner são assombrados por seus mistérios íntimos. Não se transformam em outra pessoa… perdem controle sobre o demônio que os habita, que é parte inseparável deles mesmos… e que talvez habite todos nós.

Essa é a ameaça do terror gótico/pop… Cada qual com seu Hades.

Nessa mesma linha, Odisseia, épico ponteado de naufrágios e monstros marinhos, deixou legados para a criação de Robinson Crusoé (Daniel Defoe, 1719; sendo que Crusoé é ancestral do Perdido em Marte, filme de 2015), de Gulliver (Jonathan Swift, 1726), Moby Dick (Hermann Melville, 1851) e outros. Transferindo a exploração do desconhecido, do oceano (que então já não opunha desafios tão turvos) para o cosmos, transforma-se em 2001 – Uma odisseia no espaço (Arthur Clark, 1968). No seriado e nos longas Jornada nas estrelas. E na série que praticamente descobriu o Planeta Nerd e seus milhões de devotos habitantes: Guerra nas estrelas.

E Percy Jackson não foi o único a ser incubado na mitologia grega. Temos também Neil Gaiman, em seu monumento pop, Deuses americanos (2002), thriller em que divindades de inúmeras mitologias se disfarçam em prosaicos cidadãos dos EUA. Elencar deuses egípcios, por exemplo, por sua afinidade com processos de mumificação, como donos de uma funerária, foi somente uma das gracinhas de Gaiman em honra de suas fontes.

Em suma… A literatura pop, consoante com a literatura clássica, não é focada no autor, nem no seu virtuosismo nem em suas crenças, mas no leitor. É assim que dialoga conosco sobre o que torna a literatura importante para nós: do medo do fracasso aos terrores inconfessos, do amor e da paixão, da esperança e da depressão nossa de cada dia. Para tanto, prefere o texto funcional, que conta (e não dificulta) a narrativa; oferece-nos personagens por quem a gente torce (contra ou a favor), de quem a gente ri e com quem chora; e constrói enredos que nos pegam na veia.

Por força de seu DNA, não tem compromissos com a mesmice cotidiana. Não aposta em moral da história, nem em explicações lógicas. Só não admite perder o leitor. É sedenta por cativá-lo, desde a primeira linha, para, a partir daí, fazê-lo sofrer e/ou sonhar. Por vezes, só para convencê-lo de que está seguro (Santa ilusão, Batman!), em um ambiente familiar. Mas, nisso, o transporta para onde nenhum homem jamais foi… Uma operação que exige deliberar o efeito de todo elemento posto em jogo.

E vale tudo para o leitor vivenciar o que lê.

Afinal, quem não desejaria ser aluno na Escola de Magias e Bruxarias de Hogwarts?

Referências bibliográficas

AGUIAR, Luiz Antonio. Homero, aventura mitológica. Rio de Janeiro, Galera, 2014.
CHRISTIE, Agatha. O misterioso caso de Styles – primeiro mistério de Poirot. São Paulo, Globo Livros, 2014.
CONAN DOYLE, Arthur. Um estudo em vermelho. São Paulo, FTD, 2006.
ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.
GAIMAN, Neil. Deuses americanos. São Paulo, Conrad, 2011.
GALBRAITH, Robert (J.K. Rowling). O chamado do cuco. Rio de Janeiro, Rocco, 2013.
STOKER, Bram. Drácula;
SHELLEY, Mary. Frankenstein.
STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.

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Luiz Antonio Aguiar

Luiz Antonio Aguiar

Luiz Antonio Aguiar é escritor com mais de 150 títulos publicados, prêmios no exterior e no Brasil - incluindo dois Jabutis em literatura para jovens. Mestre em literatura, palestrante e professor de literatura em cursos para formação de professores. Pela SESI-SP Editora lançou, Conexão Nova York, e sua continuação, O investigante. Mantém um blog (luizantonioaguiar.blogspot.com.br), com debate permanente sobre literatura, e um site (luizantonioaguiar.com.br).

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