O lado (ainda) desconhecido dos contos de fadas

As ilustrações deste ensaio fazem parte do livro A bela adormecida, de Arthur Rackham, publicado em 2015, pela SESI-SP Editora.

Os contos de fadas são parte importante do imaginário ocidental. Quase todos os leitores, quando adultos, têm referências de um repertório básico composto por duas ou três dezenas de histórias deste cânone que, formado a partir de textos, recebeu, ao longo dos últimos dois séculos e meio, um sem-número de leituras pelas artes plásticas, pela música e, sobretudo, pelo audiovisual. Ítalo Calvino falou-nos do repertório de destinos humanos que subjaz do conjunto de contos. Angela Carter percebeu a multiplicidade de narrativas como um sem fim de histórias anônimas, passíveis de reelaboração constante por parte de quem as conta e que têm feito parte do divertimento de grande parte da população mundial através dos tempos.

Mas, da dimensão exclusivamente oral à fixação escrita e à apropriação desse tipo de narrativas para servirem à educação infantil, houve um
longo caminho.

Como resultado, em termos de livros, vemos uma repetição com poucas variações de um cânone que, estejamos em São Paulo ou em Paris, em ­Buenos Aires ou em Nova York, se repete nas estantes de livrarias, bibliotecas e acervos domésticos.

Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão, Branca de Neve, Cinderela, O gato de botas, A bela adormecida são traduzidos das publicações de Perrault, dos Grimm, de Jacobs ou recontados e parodiados à exaustão, sem que o público jamais se canse da leitura de novas edições. Mas será que esse repertório possui um “lado B”? Se possui, o que estaria nele? Há alguns anos investigo as narrativas literárias construídas tanto por recolha oral quanto por elaboração a partir das estruturas do conto de fadas e venho colecionando contos capazes de surpreender e de nos fazer questionar tanto os papeis tradicionalmente atribuídos às personagens típicas desse tipo de conto quanto os modos de perceber e estar no mundo.

As donzelas em torres e precisando ser salvas são, por exemplo, uma constante que ultrapassa o caso de Rapunzel, estando presentes em vários contos ao redor do mundo, especialmente os criados ou coletados no continente europeu.

Mas e rapazes em torres, presos e precisando de salvação, será que nossos antepassados contaram e escreveram histórias assim também?

Estar prisioneiro num corpo monstruoso, como a Fera de A bela e a fera ou o sapo de O príncipe sapo, necessitando, para o desencantamento,  ser profundamente amado ou beijado. Seria essa terrível circunstância uma exclusividade de personagens do sexo masculino?

Em busca de responder a questões como esta, tenho buscado repertórios pouco visitados pelas publicações. É o caso da obra da siciliana Laura Gonzenbach (Itália, 1842-1878). No conto “Sorfarina”, que traduzi e adaptei para ser apresentado como um dos contos transcritos pela avó em O caderno da avó Clara (SESI-SP Editora, 2016), temos uma protagonista bem mais ativa do que as donzelas que habitam os contos de fadas mais conhecidos. Sorfarina é inteligente, enérgica, apaixonada e, por ter rivalizado com o futuro marido (aliás, príncipe) nos tempos de escola, é submetida a duras provas depois de casada com ele, sendo condenada, inclusive, a viver num poço até que lhe peça desculpas por um ato cometido na longínqua infância!

No entanto, com esperteza e excelente disposição física, essa protagonista constrói uma relação de amor e sedução com o autoritário e ressentido marido, numa história repleta de aventura, humor, suspense e uma boa dose de violência.

Pensando em revelar um pouco mais deste (ainda) desconhecido lado B, onde, sim, donzelas salvam rapazes presos em torres e podem ser vítimas de encantamentos, apresento agora uma tradução literal de outro conto de Laura Gonzenbach, “A cobra que testemunhou para uma donzela” que, como “Sorfarina”, faz parte de seus Contos sicilianos, publicados na Alemanha da segunda metade do século XIX.

Estamos aqui diante de uma história inusitada em que a protagonista luta pelo que parece a ela ser “o final feliz”. Vejamos:

A cobra que testemunhou para uma donzela

Era uma vez uma pobre mulher, tão pobre que tinha que viver numa região muito selvagem e desolada.  Ela havia tido apenas uma filha, que era mais bela que o sol. A mãe colhia ervas e as levava à cidade, onde as vendia enquanto a filha geralmente ficava em casa e ali cozinhava e lavava.

Um dia, quando a mãe tinha ido novamente à cidade com suas ervas, a filha ficou completamente só em casa e aconteceu de o filho do rei estar naquelas paragens. Ele estava caçando e acabou por se separar dos demais membros de sua comitiva.

Quando ele avistou a pequena choupana, bateu na porta e pediu um copo de água porque tinha muita sede. A donzela não abriu a porta, mas, em vez disso, abriu a janela e estendeu através dela um copo de água.

Assim que ele viu como ela era linda, ele foi tomado por um desejo sombrio e impetuosamente mandou que ela abrisse a porta para ele.

Ela se recusou, mas ele estava tomado de selvageria e colocou a porta abaixo. Ele invadiu a casa e subjugou a donzela. Ela gritou e chorou, mas ninguém a ouviu.

Quando ela estava olhando em volta para ver se conseguia alguma ajuda, ela notou uma cobra que se esgueirava por ali.

— Já que ninguém pode me ouvir em minha necessidade — ela disse — Eu te chamo, ó cobra, para minha testemunha: príncipe, que você nunca possa se casar com mais ninguém a não ser comigo! Assim que ela disse isso, se viu subjugada pela vontade do príncipe.

Depois ele deixou a choupana e ela nunca disse para sua mãe nada do que tinha acontecido ali.

Não muito depois desse evento, correu um rumor noticiando que o príncipe estava para se casar com uma bela princesa. Um dia, quando a mãe retornou de sua ida à cidade para vender ervas, a donzela perguntou:

— Diga-me, mãezinha, o que há de novo na cidade?

— Oh, minha criança — a mãe respondeu — escutei uma história tão estranha que ninguém acreditaria. Imagine você que o príncipe está com uma cobra enrolada no pescoço e ninguém consegue tirá-la de lá. A cada um que se aproxima, ela aperta a garganta do príncipe um pouco mais e ele está quase morrendo estrangulado!

Quando a filha escutou isso, ela soube muito bem qual era a cobra e, assim, se arrumou na manhã seguinte e partiu para a cidade sem nada dizer para sua mãe. Uma vez ali, foi diretamente ao castelo.

Quando os guardas a viram e perguntaram-lhe o que queria, ela disse:

— Anunciem-me para o rei. Eu tenho uma maneira de livrar o príncipe da cobra que se enrolou em volta do pescoço dele.

Os guardas começaram a rir e disseram:

— Muitos médicos e sábios já tentaram e nenhum deles conseguiu. Agora você quer tentar!

Mas ela respondeu:

—  Apenas me anunciem para o rei.

Quando o rei escutou o barulho que havia na porta, perguntou o que estava acon­tecendo:

— Há uma jovem lá embaixo — contaram-lhe seus servos. — Ela garante que pode libertar o príncipe da cobra.

— Bem, deixem-na subir — disse o rei. — Mesmo que ela não tenha como fazer isso, não custa nada deixarmos que ela tente.

Então a linda donzela foi levada à presença do rei, que a conduziu até o quarto do filho e deixou-a lá sozinha com ele.

Ela caminhou em direção a ele e disse:

— Olhe para mim. Você me reconhece?

— Não — respondeu o príncipe.

Mas assim que ele disse isso, a cobra se apertou um pouco mais ao redor do pescoço dele.

— O quê? — ela continuou. — Você esqueceu como abordou a minha casa e me forçou a fazer sua vontade? Você não se lembra que chamei a cobra para ser minha testemunha e assim você não pudesse se casar com ninguém além de mim?

Ele gostaria bem de responder “não” novamente, mas a cobra apertou-se mais um pouco em torno do pescoço dele, até que ele finalmente dissesse “sim”. Só então a cobra afrouxou um pouco o laço.

—  E agora, você quer casar com a princesa e me abandonar? — perguntou a donzela.

— Sim — ele respondeu.

Tão logo ele disse essas palavras, a cobra apertou mais seu abraço em torno do pescoço dele e prosseguiu estreitando o aperto até que ele finalmente prometeu que não se casaria com a princesa.

— Agora jure-me que se casará comigo — disse a donzela.

O príncipe jurou e, assim que o fez, a cobra se desenrolou do pescoço dele e desapareceu rapidamente.

O príncipe correu para o rei e disse:

— Querido pai, mande minha noiva de volta para seu pai. Esta donzela me libertou da malvada cobra, e ela e apenas ela será minha noiva.

O príncipe casou-se com a linda donzela e ela trouxe sua mãe para viver no castelo. Eles viveram felizes e contentes, e nós aqui sem dinheiro nem para o aluguel!


A leitura de um conto como este, em que a protagonista deseja se unir a seu agressor, sendo a união considerada a culminação da existência “feliz”, pode ser um desafio.

Neste “lado B”, que merece ser mais conhecido, temos, entre outros elementos, doses grandes de violência, presença de jogos de poder, fugas espetaculares (muitas delas conduzidas por mulheres) e  variedade na descrição de modos de sentir e estar no mundo.

Para leitores críticos, pode ser uma oportunidade interessante de perceber que há mais nos contos de fadas do que se percebeu até hoje e que a “história dos contos de fadas” tem sido, no mais das vezes, a “história das edições de um mesmo conjunto contos”, contos esses que constituem uma pequena parte de um enorme e ainda pouco desconhecido acervo.

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Susana Ventura

Susana Ventura

Susana Ventura é doutora em letras pela USP, pesquisadora, escritora e tem vinte livros publicados. Ganhou o 3º lugar no prêmio Jabuti 2017 com o romance juvenil O caderno da avó Clara, publicado pela SESI-SP Editora. Estuda contos de fadas de autoria feminina e as representações artísticas realizadas por mulheres em torno do tema.

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