Metamorfoses do real

Quero que você, querido leitor, se apaixone. Esse é o objetivo deste artigo. Na juventude, ligado mais aos quadrinhos, à TV e ao cinema, eu não era nem a sombra do leitor que me tornaria na idade adulta. Nessa época de descobertas, os livros ainda habitavam um universo distante. Mas, seguindo a dica de um professor, li um conto curto de Lygia Fagundes Telles que me arrebatou. Foi no sétimo ano, no coração do ensino médio. O conto intitula-se A caçada e tem apenas seis páginas.

Numa loja de antiguidades, um homem está fascinado − praticamente hipnotizado − por uma tapeçaria quase se desfazendo de tão velha. A cena representada pelo tapeceiro é de uma caçada: um arqueiro de arco retesado, apontando para uma touceira, seguido de outro caçador em segundo plano.

Conversando com a velha proprietária da loja, o protagonista comenta que a tapeçaria parece cada vez mais nova, mais nítida. O homem sente mal-estar, delira com a cena, devaneia, imaginando uma suposta conexão misteriosa entre sua essência e a da tapeçaria.

Ele sai da loja, mas a obsessão não sai dele. Em casa, tem um pesadelo. No dia seguinte, volta à loja, que se transforma, vira um bosque, surgem os caçadores e ele − o protagonista da história − é flechado.

Esse resumo condensa o enredo do conto, mas não faz justiça ao talento poético da grande ficcionista, sem o qual esse enredo não teria tanta força. Lygia é mestre na linguagem literária. Toda a sua obra é um enlace perfeito entre enredos surpreendentes e linguagem refinada.

No dia em que li A caçada, a grande literatura começou a acontecer também para mim. Nesse dia fiquei fã da autora e decidi conhecer devagar, sem pressa, tudo o que Lygia já havia publicado. Seus romances são ótimos, mas seus contos são sensacionais. É na ficção curta que Lygia realiza todo o seu potencial inventivo. Outro conto que me arrebatou foi As formigas, de apenas sete páginas.

Nele, duas primas universitárias, uma de direito (a narradora) e a outra de medicina, alugam o sótão de um velho sobrado. O inquilino anterior também era estudante de medicina e deixou um caixotinho com ossinhos humanos, “no ângulo em que o teto quase encontra com o assoalho”. A estudante de medicina logo percebe que é o esqueleto de um anão.

De madrugada, surge uma fila de formigas, cruzando todo o piso e entrando num buraco do caixotinho. As primas dizimam as formigas. Porém, no dia seguinte, a estudante de medicina nota que o esqueleto está sendo montado misteriosamente. Mais um dia se passa, as formigas voltam e o esqueleto já está quase todo montado. Nessa madrugada, assustadas, sem pensar duas vezes, as primas fazem as malas e vão embora.

Virginia Herrera. Julio Cortázar, s.d.

Minha paixão pela ficção fantástica começou com esses e outros contos de Lygia Fagundes Telles − Seminário dos ratos, O noivo e A fuga, por exemplo −, em que somos conduzidos para uma realidade a princípio familiar, que logo descamba para o insólito. Os contos fantásticos de Lygia abriram as portas de um salão assombroso, cheio de autores fascinantes: Juan Rulfo, Borges, Cortázar, Virginia Woolf, André Carneiro, García Márquez, Murilo Rubião, José J. Veiga, Hilda Hilst, Victor Giudice, Lygia Bojunga, Jorge Miguel Marinho…

Incluindo, é claro, o todo-poderoso mestre dos mestres: Kafka.

Inseto pioneiro

Foi numa entrevista de Lygia Fagundes Telles que li pela primeira vez o nome de Kafka. Mas demorei certo tempo pra correr atrás de seus livros, talvez temendo um encontro terrível. Na verdade, penso que foi a nuvem negra de Kafka quem me procurou e seduziu, não o contrário. Seu livro mais conhecido, A metamorfose, é um romance bem curto, de apenas oitenta páginas, mas potente feito uma bomba atômica.

Certa manhã, o caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda metamorfoseado num monstruoso inseto e revoluciona a literatura universal. Que tipo de inseto? O narrador não diz exatamente. Mas, de acordo com a descrição apresentada nas primeiras páginas do romance, Vladimir Nabokov, escritor e entomologista, estudioso de insetos, afirma que Gregor se transformou num besouro gigante.

Além de ótima leitura, A metamorfose é uma saborosa aula sobre ficção fantástica. Aliás, quase toda a obra de Kafka é um catálogo de exemplos realmente exemplares. Com o feiticeiro tcheco, nós aprendemos que a ficção fantástica apresenta ao menos dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam esse gênero dos demais gêneros literários: a subversão das leis da natureza e a inflexão filosófica.

No mundo oferecido pela ficção fantástica a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano funcionam total ou parcialmente de modo estranho. Tudo o que se comporta de determinada maneira em nosso mundo, tudo o que nos é familiar, no mundo da ficção fantástica comporta-se de modo excêntrico, não familiar.

A segunda característica fundamental da ficção fantástica − a inflexão filosófica − é importante pra diferenciá-la de suas irmãs: a ficção sobrenatural e a ficção científica. Num conto, numa novela ou num romance fantásticos, tudo gira em torno da mais pura reflexão ontológica, existencial, não contaminada por argumentos teológicos ou científicos.

Se o leitor reparar bem, verá que em A metamorfose a transformação em si, de homem em inseto, não é o foco da narrativa. A questão central do romance de Kafka é a fragilidade do indivíduo e do equilíbrio doméstico em nossa sociedade competitiva e, por isso, estratificada. Nem mística nem científica, mas uma questão social, filosófica.

Quando percebe que deixou de ser uma pessoa, Gregor não gasta um minuto sequer meditando sobre como isso foi possível. Sua primeira e única preocupação é com a má situação financeira da família. Ele teme perder o emprego, pois sua demissão seria terrível principalmente para as pessoas que dependem do seu esforço: o pai e a mãe idosos, e a irmã adolescente.

Aos olhos de todos − personagens e leitor −, a metamorfose de Gregor é análoga a um acidente incapacitante, mas possível no mundo em que vivemos. Para a família Samsa, o filho antes provedor tornou-se um estorvo com o qual todos precisam aprender a lidar.

O inseto atrapalha, faz sujeira, não ajuda em nada, assusta as pessoas… Dois meses depois, após uma grande desavença, Gregor finalmente morre. A partir desse momento, a narrativa ganha cores mais otimistas. Afinal, o estorvo acabou. Do ponto de vista da família, é até possível dizer que a história tem um final feliz.

Latinos

Conhecida também por realismo mágico ou realismo maravilhoso, nos anos 1960 e 1970 a ficção fantástica de língua espanhola conquistou o mundo todo. A partir dessa época, o universo onírico e fabuloso de Juan Rulfo, Borges, Cortázar e García Márquez começou a ser traduzido para dezenas de idiomas.

Na realidade impressionante oferecida por esses ficcionistas, pessoas voam ou atravessam paredes, conversam com espíritos, vivem dezenas de séculos, viajam no tempo, transformam-se em animais ou objetos, visitam as matrizes do espaço-tempo, tudo isso sem muito alarde, corriqueiramente. O fato é que não existem certezas naturais e perenes nessa literatura.

Do mesmo modo que na obra de Kafka, a inflexão filosófica ocorre também na obra desses autores justamente porque a subversão das leis da natureza não pede nem recebe qualquer tipo de explicação ou justificativa mística ou científica. (Lembre-se, caro leitor: se houvesse uma explicação místico-religiosa, seria ficção sobrenatural. Se houvesse uma explicação científico-tecnológica, seria ficção científica.)

Juan Rulfo deu vida a uma cidade-fantasma alimentada por rancores e arrependimentos em Pedro Páramo. Borges desenhou esquemas ilusórios

Erik Desmazieres. The Library of Babel, 2000.

baseados na noção de infinito em A biblioteca de babel, Funes, o memorioso, O aleph e tantos outros diamantes imaginários. García Márquez redimensionou a cultura rural, arcaica, em Um senhor muito velho com umas asas enormes, O afogado mais bonito do mundo e Cem anos de solidão.

Um dos contos mais fascinantes de toda a ficção fantástica sul-americana é Carta a uma senhorita em Paris, de Cortázar, talvez o autor mais urbano e cosmopolita de todos.

Numa carta deixada à amiga Andrée, o narrador-protagonista de nome não revelado confessa que de tempos em tempos vomita um coelhinho. Andrée foi para Paris e emprestou seu apartamento por quatro meses ao narrador. Porém, bastou ele se mudar pra lá, os coelhinhos começaram a surgir com incômoda frequência.

Já são dez coelhinhos, enquanto o desafortunado protagonista escreve a carta. A maior dificuldade é escondê-los da governanta. O final da carta mostra o desespero do narrador quando surge o décimo primeiro coelhinho. Os animaizinhos estão destruindo os móveis e os livros, e a sua paz interior. A solução do problema é atirá-los da sacada do apartamento e em seguida se jogar, pondo fim à tortura.

Entre os inúmeros admiradores desse conto de Cortázar está o brasileiro Jorge Miguel Marinho, que homenageou o mestre argentino escrevendo uma afetuosa paródia da Carta a uma senhorita em Paris.

No conto de Jorge, intitulado No quarto com duas pequenas notáveis, uma mulher, cujo nome não ficamos conhecendo, grava uma fita de despedida que será deixada para quando sua amiga Manu voltar de Londres. A narradora conta duas situações.

Primeiro o reaparecimento de Carmen Miranda e Elis Regina, que alugaram o apartamento da frente e estão decididas a voltar a gravar disco. Depois um fato íntimo e antigo, ligado a seu período menstrual: ela finalmente revela à amiga que, desde a adolescência, a cada vinte e oito dias seu corpo libera flores vermelhas.

Mas esse intervalo vem diminuindo rapidamente, o apartamento vai transbordando de flores vermelhas, e, mesmo com a ajuda das pequenas notáveis, a mulher já não consegue mais disfarçar sua inconveniente condição.

Precursores brasucas

Infelizmente, a ficção fantástica brasileira − ou qualquer ficção brasileira − não participou do chamado boom da literatura latino-americana das décadas de 1960 e 1970. Apesar da inquestionável qualidade, livros escritos em português demoraram para ser conhecidos e bem recebidos nas feiras internacionais, onde os dados de ouro são lançados, decidindo o sucesso e o fracasso no mundo editorial.

Foi por esse motivo − o preconceito contra a língua portuguesa − que o insuperável Murilo Rubião, talvez o nome mais forte de nossa ficção fantástica, ainda não fez sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Um dos primeiros a aderir à insólita poética de Kafka, nosso Murilo foi o grande precursor do fantástico no Brasil. Sua obra ficcional − apenas trinta e três contos curtos − iluminou o caminho para sua geração e as seguintes.

Ao longo de sua carreira, Rubião nos encantou com ao menos uma dúzia de obras- -primas da imaginação literária, entre elas O edifício, A casa do girassol vermelho, Bárbara, O pirotécnico Zacarias, Os dragões e Os três nomes de Godofredo, meus contos preferidos desse autor magnífico.

Sua ficção mais conhecida é Teleco, o coelhinho, em que acompanhamos o drama de uma criatura sem forma definida, que se metamorfoseia em coelho, cavalo, leão, pulga, canguru etc. Para o narrador-protagonista, o surto de metamorfoses de Teleco se deve à simples vontade de agradar às pessoas. O maior desejo dessa criatura inconstante, porém, é se transformar definitivamente num ser humano. Depois de muito atrito com o narrador, Teleco inicia um turbilhão caótico de metamorfoses e finalmente se transforma numa criança. Mas numa criança morta.

Parceiro de Rubião, na fundação da ficção fantástica tupiniquim, foi o magistral José J. Veiga. Muito idiossincrático na linguagem, na temática e na cosmovisão, Rubião e Veiga habitavam territórios antípodas. As ficções do primeiro são sempre melancólicas e pessimistas, as do segundo são em geral afetuosas e nostálgicas.

Das maquinações de Veiga, eu aprecio bastante o conto Quando a Terra era redonda. Escrito em forma de ensaio (à maneira de Borges), o texto comenta a tese defendida por dois cientistas − doutor Sorensen e professor Santiago − de que a Terra não é ou nem sempre foi chata, mas redonda.

A primeira parte resenha o livro do doutor Sorensen, publicado postumamente por sua viúva, cheio de evidências que comprovam a tese de que a Terra era redonda, mas sofreu um lento processo de achatamento. A segunda parte resenha o longo artigo do professor Santiago, que propõe que a Terra nunca deixou de ser redonda, mas nós fomos condicionados a aceitar o dogma de que vivemos numa Terra chata.

Duas leituras

Todas essas narrativas subversivas podem ser lidas de duas formas: figurada ou literal. Não existem uma forma certa e uma errada, ambas são corretas. A leitura figurada verá nessas histórias insólitas uma alegoria da condição humana, uma recriação moderna de mitos antigos, cheia de símbolos.

A leitura literal, por sua vez, verá as histórias reais de pessoas reais, porém de uma realidade muito mais fascinante que a nossa. De uma realidade paralela, ou de um mundo futuro, pré ou pós-apocalíptico, em que as leis da natureza são outras e os fenômenos fantásticos acontecem o tempo todo.

Uma leitura é espelho mítico, a outra é janela diáfana. Confesso que minha paixão por esse gênero literário se deve muito mais a essa saborosa leitura literal.

Dois autores brasucas menos conhecidos, mas igualmente talentosos, são André Carneiro e Victor Giudice. É com eles que encerro este breve artigo, cujo objetivo é compartilhar minha paixão antiga pela ficção fantástica e estimular sua leitura em larga escala, em nossa amada Pindorama.

De André Carneiro, que também escrevia ótima ficção científica, eu recomendo enfaticamente A escuridão, considerado pelos especialistas seu conto mais importante.

Nessa narrativa, um fenômeno sem explicação rouba vagarosamente a luminosidade do sol e das estrelas, e de qualquer coisa que emita luz, fagulha e calor luminoso. Nosso planeta fica às escuras. O fogo e a eletricidade deixam de aquecer a água e os alimentos. O protagonista, Wladas, e os habitantes de uma grande metrópole passam três semanas sem enxergar nada. O caos se instala. Muitos morrem, principalmente de fome.

Wladas e seus vizinhos (um casal e duas crianças) são salvos por Vasco, um cego de nascença, que os leva ao Instituto dos Cegos, primeiro, e em seguida para a Chácara Modelo. No final da terceira semana de escuridão, a escassez de alimento chega ao limite. Quando já não há mais esperança de que as pessoas voltarão a enxergar, a escuridão começa a ceder e tudo volta ao que era antes.

De Victor Giudice eu recomendo o brevíssimo O arquivo, de apenas três páginas. Esse conto é não apenas um dos melhores da ficção fantástica brasileira, mas um dos melhores contos de toda a nossa literatura.

joão − assim mesmo, com inicial minúscula − é o funcionário exemplar de uma empresa. No primeiro ano, em reconhecimento ao seu valor, joão recebe uma redução salarial de quinze por cento. Dois anos mais tarde, outra recompensa: novo corte salarial, agora de dezessete por cento. Quatro anos depois, nova redução salarial, agora de dezesseis por cento, e um rebaixamento de cargo.

De tempos em tempos, a qualidade de vida vai caindo. joão mora cada vez mais longe do trabalho, dorme mal, alimenta-se mal, veste-se mal etc. Aos sessenta anos, ao ter seu salário eliminado, joão pede a aposentadoria e sofre uma súbita metamorfose: transforma-se num arquivo de metal.

Da mesma maneira que A caçada de Lygia Fagundes Telles fez comigo, muito tempo atrás, com este artigo eu espero ter despertado em você, querido leitor, o interesse por esse gênero tão fascinante. Despeço-me, deixando em tuas mãos apaixonadas − assim espero − um mapa precioso de leituras, com as obras que mais fortemente me impressionaram.

Leituras recomendadas

KAFKA
A metamorfose

F. SCOTT FITZGERALD
O curioso caso de Benjamin Button

VIRGINIA WOOLF
Orlando: uma biografia

BORGES
A biblioteca de Babel

JUAN RULFO
Pedro Páramo

CORTÁZAR
Carta a uma senhorita em Paris

ANDRÉ CARNEIRO
A escuridão

GARCÍA MÁRQUEZ
Um senhor muito velho com umas asas enormes

ITALO CALVINO
O visconde partido ao meio

LYGIA FAGUNDES TELLES
A caçada
As formigas

JOSÉ J. VEIGA
Quando a Terra era redonda

MÁRIO DE ANDRADE
Macunaíma

ÉRICO VERÍSSIMO
Incidente em Antares

MURILO RUBIÃO
Teleco, o coelhinho

VICTOR GIUDICE
O arquivo

LYGIA BOJUNGA
O abraço

JORGE MIGUEL MARINHO
No quarto com duas pequenas notáveis

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Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira

Nelson de Oliveira é escritor e ensaísta, autor do romance Subsolo infinito, cujo narrador-protagonista, imitando Dante Alighieri, empreende uma fantástica expedição ao inferno.

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