Mediação de leitura: o convite ao mundo dos livros e suas diversas formas

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Crianças observam a contação de história durante o lançamento do livro Dois gatos fazendo hora, da SESI-SP Editora.

Contação de histórias, leituras públicas, saraus, recitais ou um simples papo motivacional. Não há formato padrão a ser seguido quando se quer formar novos leitores.

No imaginário popular, o ato de ler para uma criança está, muitas vezes, ligado à tentativa de fazer com que ela finalmente acalme-se ou adormeça. Mas, diferentemente do que se pensa, se bem planejada e, principalmente, feita com dedicação e paixão, essa é uma atividade que pode despertar nos pequenos um desejo que tem o poder de transformar suas vidas: o de explorar o mundo por meio dos livros. Esse é o papel do mediador, pessoa que tem a missão de incentivar crianças, jovens e até mesmo adultos a se aproximarem das palavras escritas e, assim, adquirirem o hábito da leitura.

Se o ambiente de casa ainda é o local mais apropriado para que isso aconteça, com a ajuda dos pais, tios ou pessoas próximas – que, segundo especialistas, deveriam ser os primeiros e mais importantes mediadores de um potencial leitor -, fora dele também surgem novos atores para abraçar essa causa. E eles não se restringem a educadores, professores, bibliotecários, pedagogos ou diretores de escola. Os contadores de história profissionais, leitores públicos, atores de saraus, recitais e peças teatrais também exercem a função de apresentar histórias de livros com o objetivo de convidar as pessoas a lerem sempre mais.

“Independentemente do ‘rótulo’, o mediador tem como principal incumbência mostrar que ler é muito legal, e que a leitura pode fazer parte do cotidiano das pessoas, em qualquer lugar onde estejam”, explica a atriz e cantora Élida Marques, que é mediadora há dez anos e se intitula leitora pública.

Segundo ela, a leitura pública diferencia-se da contação de histórias porque geralmente é realizada para um público maior, entre 60 a 80 pessoas, e traz elementos teatrais que exigem, entre outras habilidades, boa impostação de voz e postura corporal.

No Brasil, é possível participar de cursos, oficinas e até mesmo doutorado em mediação de leitura para desenvolver as técnicas e aptidões necessárias a um mediador. “Os cursos são muito importantes para o aprimoramento dessas competências, mas um bom mediador de leitura precisa ir além desse aprendizado, desenvolvendo suas próprias técnicas de acordo com o público e com o acervo de títulos que tem em mãos”, comenta Élida. “Um bibliotecário que conhece bem os frequentadores de sua biblioteca, por exemplo, já sabe o tipo de leitura que pode interessar a cada um deles. A partir daí, pode desenvolver sua própria abordagem e a melhor maneira de convencê-los a se aventurar por novas obras”, explica.

Élida começou como moderadora de leitura participando de saraus e, desde então, não parou mais. Criou, em 2003, o “Ler é uma viagem”, projeto de incentivo à leitura baseado no formato de “leitura pública”, que já realizou mais de 500 apresentações pelo Brasil para mais de 25 mil pessoas em cinco estados. Além de sessões de leituras em escolas e bibliotecas, o programa realiza oficinas para educadores, eventos lítero-musicais, performances poéticas e shows de música brasileira.

Criaturas teve lançamento com show musical da Palhaça Rubra.

Elenco do projeto “ Ler é uma viagem” apresenta “ Reinações”, na qual são relatados capítulos do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Público é convidado a participar da leitura.

A apresentação da oficina “Leitura e Mediação: reflexões e práticas na formação de leitores”, promovida este ano pelo “Ler é uma viagem” sintetiza o conceito-base do projeto: “Ninguém nasce leitor. Assim como aprendemos a caminhar, a andar de bicicleta, a nadar e a escrever, também nos tornamos leitores. O sujeito não leitor, não importa a idade, só precisa ser acordado, assim como a bela adormecida, por meio do encanto e do prazer que a leitura proporciona”.

O projeto, sediado na cidade de Itu, no interior paulista, busca abranger todas as possibilidades de estímulo à leitura, incluindo dicas para pais e parentes próximos de potenciais leitores: “Naquele almoço de família, eles podem pedir que alguém relembre uma história muito interessante que ouvia quando criança, relacionando-a a alguma outra história, editada, que possa ser lida ou buscada na internet”, orienta.

Élida cita ainda uma frase de um de seus escritores favoritos, Rubem Braga, para reforçar a importância do envolvimento emocional no ato da leitura. “Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê.”

Adolescentes e jovens

A contação de histórias, em seus diversos formatos, pode ser um ótimo ponto de partida para fazer desabrochar nas crianças a curiosidade pela leitura. Já para adolescentes e jovens, um público que – pressupõe-se – já teve algum tipo de contato com livros, existem ferramentas de convencimento mais sofisticadas. E o projeto educacional “Academia de Alta Tecnologia para Anti-heróis” faz uso delas para atrair o interesse deles.

O programa tem por objetivo trabalhar informações inerentes ao dia a dia dos jovens de forma não convencional, e convida seu público-alvo a escrever seus próprios livros. “Por meio de exercícios dinâmicos, fazemos com que experimentem a sensação de se tornarem autores de livros”, explica uma das idealizadoras do projeto e escritora de livros infantojuvenis Lu Lopes.

Ela acredita que a proximidade com os autores pode ser um fator determinante para inserir o público-alvo no mundo dos livros. Pensando nisso, desenvolveu um programa por meio do qual vai até escolas para contar as histórias de suas publicações. “É um trabalho de campo, e acredito muito em sua efetividade, pois fortalece ainda mais o elo do potencial leitor com o conteúdo do livro”, comenta.

A autora defende o professor como um dos principais mediadores de leituras dos estudantes, “desde que haja a capacitação desses profissionais no sentido de torná-los aptos a fazer a conexão afetuosa e a comunicação integrativa entre os alunos e os livros”.

No lançamento de seu último título, Criaturas, publicado recentemente pela SESI-SP Editora, Lu Lopes colocou em prática mais um de seus talentos para atrair a atenção da garotada para a literatura: personificou a Palhaça Rubra, personagem que criou há anos e por meio da qual faz shows em teatros e eventos. No livro, ela apresenta para os pequenos leitores a riqueza da diversidade no mundo.

Filha de uma educadora e “de um ótimo contador de causos”, Lu Lopes tem hoje companhia familiar na missão de disseminar a paixão pela leitura: sua irmã, Silvia Lopes, é contadora de histórias. “O ambiente doméstico propício contribuiu completamente para os rumos que tomamos”, comenta Silvia.

Formada em pedagogia, ela começou a contar histórias há 13 anos – já fez diversos cursos na área – e criou a Carrapeta Produções, que além de produzir apresentações circenses, teatrais e de dança, tem projetos de contação de histórias. “Acredito muito que para estimular as pessoas a fazer qualquer coisa, não apenas a ler, é preciso realizar um trabalho atrativo, interativo e alegre”, comenta. “No caso da literatura, a escolha de um bom texto, conhecido a fundo pelo mediador, também é essencial.”

“Por meio de exercícios dinâmicos, fazemos com que experimentem a sensação de se tornarem autores de livros”, explica a escritora de livros infantojuvenis Lu Lopes.

Para Silvia, a contação de histórias é uma das principais portas de entrada para o mundo dos livros. “Por essa razão, fazemos questão de mostrar, ao final de nossas contações, o livro que traz a história original na qual nos inspiramos. Principalmente porque nosso trabalho não é literal.”

E não há limites para o trabalho de mediação de leituras quando se quer conquistar um número cada vez maior de leitores. “Fazemos nosso trabalho onde nos chamam: em eventos corporativos, bibliotecas, escolas, centros culturais e festas infantis”, conta a pedagoga.

O grupo Malas Portam, criado em 2007, viaja pelo Brasil contando suas histórias, baseadas no conteúdo de cinco “malas” inventadas pelos integrantes. Cada uma traz objetos a partir dos quais surgem inúmeras narrativas musicadas. A assistente social Rita de Cássia Araújo, participante dessa turma, conta o que mais a atrai nessa missão: “O que torna mais fascinante o trabalho de um contador de história é a possibilidade de improvisar a partir das interferências realizadas pelas crianças durante a contação. É, também, a parte mais desafiadora”. O Malas Portam lançará em breve, pelo selo audiovisual, da SESI-SP Editora, seu primeiro DVD. “É um projeto que vai reunir algumas de nossas melhores apresentações”, comenta.

Para Élida Marques, é muito difícil avaliar com precisão a efetividade da mediação de leitura na vida dos potenciais leitores. “Isso acontece porque o hábito da leitura depende de muitos fatores e, na minha opinião, nenhum tem tanta eficácia como o incentivo que a pessoa recebe em casa”, explica.

Ela comenta que no Brasil existe ainda o desafio de vencer o preconceito de que a leitura está associada à elitização. “Nos projetos de contação de história que realizamos na EJA (Educação de Jovens e Adultos), isso é claramente percebido. Essas pessoas, que pouco contato tiveram com livros, se sentem muito valorizadas quando são finalmente apresentadas à leitura”, comenta. A EJA é uma modalidade da educação básica destinada a jovens e adultos que não concluíram os ensinos médio e fundamental.

O grupo Malas Portam viaja pelo Brasil contando suas histórias inventadas pelos integrantes.

“É preciso deixar de lado qualquer tipo de tabu em relação à leitura, pois ela pode acontecer em qualquer momento de vida de toda pessoa que sabe ler”, afirma. Cabe aos mediadores – responsáveis por “acordar” as pessoas para os benefícios proporcionados pela leitura – mostrar quais são os melhores caminhos para que ela aconteça e, como pudemos notar, não faltam alternativas.

Cursos de contação de histórias

São inúmeras as opções de cursos de contação de histórias – forma mais popular de mediação de leitura – encontradas atualmente. Grande parte deles é voltada para profissionais da educação, mas também há alternativas para pessoas que não trabalham na área e têm o desejo de desenvolver ou aprimorar técnicas necessárias para atuar como contadores e conquistar o interesse de seus espectadores.

Por essa razão, os formatos vão desde oficinas e workshops com duração de algumas horas até curso de pós-graduação lato sensu, como “A Arte de Contar Histórias”, realizado por meio de uma parceria entre o Sead (Serviços Educacionais a Distância), a Associação Viva e Deixe Viver e o INSEP (Instituto Superior de Ensino do Paraná), que faz a gestão pedagógica e legitima o curso junto ao Ministério da Educação (MEC).

Mas, afinal de contas, quais são as disciplinas encontradas nesses cursos? São muitas e bem variadas, de acordo com a proposta de cada um.

“O que torna mais fascinante o trabalho de um contador de história é a possibilidade de improvisar a partir das interferências realizadas pelas crianças durante a contação. É, também, a parte mais desafiadora”, conta Rita de Cássia Araújo, do grupo Malas Portam.

“Nós, contadores de histórias, nos preocupamos muito com a interpretação do texto, o desenvolvimento do personagem, a voz e o corpo. Porém, há um detalhe importantíssimo que muitas vezes é esquecido: as transições no decorrer da narrativa enquanto vai sendo contada”, explica Letícia Liesenfeld, coordenadora da oficina Leitura de Corpo Inteiro, durante a apresentação do conteúdo.

Este curso, especificamente, é oferecido pelo grupo As Meninas do Conto, de São Paulo, que nasceu da ideia de trabalhar com as linguagens do teatro e da narração de histórias, por meio de contação de histórias e apresentações em teatros, centros culturais, bibliotecas e escolas. Outros grupos de São Paulo, como Casa Redonda e Teatro Escola Brincante, também desenvolvem cursos que usam técnicas diferenciadas para explorar e aprimorar diferentes aspectos da contação de histórias.

Já o curso de pós-graduação, realizado na capital paulista, traz entre suas disciplinas “Jogos Teatrais: o Jogo Cênico como Fundamento Perfomático”, “Contos Populares” e “Fundamentos da Arte de Contar Histórias”, esta última ministrada pelo coordenador do curso, Giuliano Tierno de Siqueira.

Prefeituras de capitais de todo o país também desenvolvem seus próprios programas com foco no incentivo à leitura e na formação de contadores de histórias. A da cidade de São Paulo, por exemplo, promove, todo ano, o festival “A Arte de Contar Histórias”, que está em sua nona edição e é realizado em outubro, mês em que se comemora o dia das crianças.

O projeto é realizado em bibliotecas públicas, pontos de leitura e roteiros dos chamados ônibus-biblioteca. Além da contação de histórias para a população, traz workshops, debates e palestras voltadas para a contação de histórias, como a oficina realizada este ano e liderada pela cantora e musicista Anita Deixler, “Cante para Contar Melhor suas Histórias”, entre outras.

Literatura Viva: autor e sua obra cativando os leitores

Para o SESI-SP, o acesso aos livros é uma forma de inclusão social e a leitura é ferramenta poderosa na formação do indivíduo. Pensando nisso, nasceu o Literatura Viva, em 2011, projeto que propõe interação entre leitor, autor e sua obra.

Neste ano, foram diversas as iniciativas com o objetivo de promover o contato com o livro, priorizar a leitura gratificante e conquistar leitores para toda a vida adulta. Dividido em quatro módulos, distribuídos ao longo de 2013 — literatura infantil e juvenil, elementos da cultura popular na literatura, artes gráficas e narração de história —, este último ocorreu durante todo o mês de outubro e proporcionou o encontro entre os protagonistas da leitura: autor e leitor, por meio de ações diferenciadas, lúdicas e interativas.

Destinado a alunos e docentes da Rede SESI de ensino, escolas públicas, comunidade em geral que frequenta os CATs e profissionais que atuam com mediação de leitura, o SESI-SP estima que, neste ano, o público atingido com o Literatura Viva foi de cerca de 80 mil pessoas.

O módulo de narração de histórias, do projeto Literatura Viva, realizado no CAT de Araraquara, do SESI-SP.

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