Literatura para tempos líquidos e incertos

EKO. http://eko-aforismos.blogspot.mx/.

Não há povo que não tenha cultivado algum tipo de expressão sintética e afiada. São infinitos exemplos. O provérbio é um legado dos hebreus; a sentença vem do latim; o refrán do hispânico. O aforismo, já desde a sua etimologia, aponta para uma concepção particular do mundo: a da Grécia antiga, a do logos.  Provém de aphorízein (φορίζν), propriamente “definição”, derivado por sua vez de: “eu separo, defino”.

A tradição considera Hipócrates o criador dessa expressão que nos primórdios deveria ser aplicada à prevenção ou tratamento de sintomas e doenças.

Minha história com esses enunciados começou quando ainda era bem jovem. Descobri, ao acaso, um exemplar empoeirado do Almanhaque, do Barão de Itararé, num sebo. Não demorou para que me encantasse. Aqueles períodos, tão diminutos, conseguiam, além de fazer rir, matutar. Alguns não somavam nem meia dúzia de palavras, era o cúmulo da síntese. Dei para memorizá-los, pegar o ritmo próprio de cada um e a almejar produzir meu próprio material um dia.

Mais tarde veio o período O Pasquim. Abandonei a leitura do Barão porque soube que Millôr Fernandes – minha nova inspiração – não ia lá muito com o estilo dele. O guru do Méier chegou mesmo a declarar em entrevista que o venerando Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly havia feito “uns trocadilhos bons e meia dúzia de trocadilhos imbecis”.

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Passei a procurar outras fontes nos anos de chumbo. No próprio
O Pasquim, na seção “Picles”, conheci Dirceu Ferreira. Admirado por Ziraldo, Millôr e Henfil, seus ditos sobre o cotidiano brasileiro vinham sempre recheados de um humor sutil, às vezes bastante ácido. Para mim, só um outro cronista da realidade chegava naquele patamar: o gaúcho Fraga – criador de Punidos venceremos (coletânea de textos publicados na imprensa de 1972 a 1980). Hoje presença contumaz no ­Twitter, ele pode ser visto diariamente subindo o sarrafo das redes sociais com sua perspicácia no perfil ­@F_R_A_G_A.

Um pouco mais tarde veio o achamento de Don Rossé Cavaca (1924 – 1965), pai do clássico do frasismo de humor brasileiro, Um riso em decúbito. A obra trazia pílulas, piadas curtas e Don Rossé desde sempre foi considerado um luminar por artistas e jornalistas. Infelizmente teve o trabalho quase esquecido após um trágico acidente de trânsito numa Vespa.

Continuei revirando o mundo das máximas, sentenças, adágios, apotegmas. Termos que estão aí para descrever um dos mais argutos gêneros literários: o aforismo. A frase curta, a tirada de espírito, cheia de agudeza e ironia. Dos epigramas de Marcial, na Antiguidade latina, às reflexões do “Oráculo Manual” do barroco Baltazar Gracián ou dos moralistas franceses Pascal,  La Bruyère, Chamfort. E, claro, de nomes obrigatórios como os de Elias Canetti, Karl Kraus, Emil Cioran, Franz Kafka, só para ficar em alguns.

Mas o que havia de comum em tais orações para que pudéssemos chamá-las de aforismos? Muito pouco. Talvez o seu pensamento fragmentado. Pode-se ainda dizer que são reflexões criativas, meio poéticas e céticas. Um livro de aforismos é sempre meio lotérico. E modesto. Porque sem isto, ele viraria uma máxima definitiva e não há nada pior para um aforismo do que tornar-se um lugar comum.

Se hoje muitas das frases de Abraham Lincoln, Voltaire e Plauto prestam-se a mostrar uma requentada erudição e suposta intelectualidade, os melhores aforistas são ainda os que optam pela  tirada sarcástica em cima do fato, a sacada sobre situações do dia a dia, expondo o nosso ridículo e nossa pequenez.

Numa tentativa quase impossível, pelo imenso território que o gênero abrange, vou selecionar alguns dos aforistas que me acompanham.

Georg Christoph Lichtenberg (1742 – 1799)

Foi toda a vida hipocondríaco em último grau. As numerosas doenças que supunha ter ocupam importante lugar em seu livro Aforismos. Era professor titular de Física da Universidade de Göttingen e manteve estreitos laços com a família real britânica e os meios científicos ingleses.

Curiosamente acabou escrevendo suas anotações sem pensar em publicá-las. Talvez por isso tenham saído tão impecáveis.  O humor de Lichtenberg  é por vezes melancólico Alguns exemplos:

“Quantas pessoas, comentadores, impressores e encadernadores não terá a Bíblia alimentado?”

“O amor é cego, mas o casamento restaura a visão.”

“Os santos esculpidos exerceram mais influência no mundo do que os santos vivos.”

Mesmo sendo um hipocondríaco de carteirinha, Lichtenberg morreu de uma doença que não previu, talvez tuberculose.

Ramón Gómez De La Serna (1888-1963)

Escritor espanhol que abalou a literatura de sua época. Durante a Guerra Civil Espanhola exilou-se em Buenos Aires, onde permaneceu até o fim da vida. Gómez de la Serna foi um dos mais ativos participantes da vanguarda europeia e artista muito ligado a Marinetti. Inventou as greguerías, metáforas acrescidas de humor.  Folheando seu livro Total de greguerías pinça-se centenas de verdadeiras pérolas:

“O pêndulo do relógio nina as horas.”

“O sabão é o peixe mais difícil de pegar na água.”

“A Natureza é triste. Já viu alguém rir para uma árvore?”

Apesar de definições assim tão aforísticas, Ramón não se via como parte integrante do clube.  “Eu não sou um aforista. A aforística é enfática e ditadora. E as greguerías não são reflexões ou têm algo a ver com elas. Humildes e travessas por natureza estão a anos-luz das máximas.”

Stanislaw Jerzy Lec (1909-1966)

Pode-se dizer tudo de Stanislaw Jerzy Lec, menos que não era astuto.

Durante a II Guerra Mundial foi internado num campo de concentração e conseguiu fugir vestido com um uniforme alemão.

Autor do célebre Das groβe Buch der unfrisierten Gedanken (O grande livro dos pensamentos desarranjados), esse polonês também foi *persona non grata* no regime stalinista. Esse detalhe o tornou ainda mais rebelde, crítico e subversivo. Dono de um senso de humor tipicamente judeu, dizia-se a favor da guerra. Da guerra contra a estupidez e contra a barbárie. Contra a mediocridade.

“Eu sou a favor da tirania: todos devem ser forçados a pensar.”

Bruno Maron, 2017.

Evandro Affonso Ferreira (1945)

O colunista da Ponto é também aforista de ofício. Inclusive, seu recente livro Não tive nenhum prazer em conhecê-los é considerado singular por mesclar fragmentos poéticos curtos à narrativa. Para Evandro, o gênero é “um conjunto minúsculo de humor, filosofia e psicanálise – tudo numa única frase”. E cita a máxima do poeta português Mário-Sá Carneiro: “Onde estou, se eu não estou em mim?”.

O escritor acredita que os aforistas são tão raros na atualidade porque o mundo está descambando para o rasteiro. “Tudo tem a profundidade de um pires. Demos adeus ao *multum in parvo* do epigrama, sim, o muito em pouco. Vivemos o século daquilo que meus amigos da boêmia costumavam dizer: muita abelha e pouco mel. Somos, modo geral, idiotas em vários assuntos.”

Seus modelos de frasistas são Millôr Fernandes (“aquele que disse que a vida seria melhor se não fosse diária”) e o mineiro Paulo Mendes Campos (“viver dá azar”).

Um aforismo favorito de sua autoria?

“Ku-Klux-Klan: poema-concreto-abjeto.”

Adolfo Montejo Navas (1954)

Montejo é um poeta, crítico e curador independente espanhol que mora no Brasil há 20 anos.

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Tem vários livros onde os aforismos imperam e também é um estudioso do tema. Para ele, o maior perigo para um dito é virar citação, frase de sociedade, cair no palato fútil. “Um aforismo que se preze guarda certo veneno para não cair nisso, não negocia com o lugar comum, esse paraíso da obviedade.” A nosso pedido escolheu alguns pensamentos soltos – do De Caosmocrise (2016-2017) – que “revelam o diapasão amargo da crise brasileira”:

“A corrupção reproduz o canto das sereias.”

“Querem que o sofrimento cotize mais em bolsa.”

“Gente sentada nas estruturas como retretes.”

“Quando o arrependimento faz parte do negócio é delação.”

“Os mansos estão mais satisfeitos que os mortos.”

“O vício dos políticos é nosso entretenimento.”

“O merchandising tem substituído ao logos.”

Millôr Fernandes (1923 -2012)

Entra na categoria hors-concours. E, por isso, fecha este texto com uma de suas flechas incendiárias, sempre muitíssimo flamejantes:

“Certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis.”

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Carlos Castelo

Carlos Castelo

Carlos Castelo é escritor e letrista. Lançou onze livros, entre eles o romance policial Damas turcas (Global), a coletânea de crônicas Clássicos de mim mesmo (Matrix) e o volume de máximas e aforismos Orações insubordinadas (Ateliê Editorial). Também é colunista do jornal O Estado de São Paulo (Crônica por quilo) e escreve crônicas e resenhas sobre livros na revista Bravo!

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