Ler: um modo de ser feliz

Quinho. Antonio Candido, 2014.

Como sempre afirmou Mário de Andrade e foi conivente com a afirmação que sempre me esclareceu no que se refere às questões políticas e estéticas da arte da palavra literária:

“A literatura, mesmo a mais pessimista, é sempre uma proposição de felicidade e a felicidade não pertence a ninguém, é de todos.”[1]

Na sua dimensão utópica, entusiasmada e marcadamente sugestiva pela sua própria natureza lúdica e recriadora da realidade, ao mesmo tempo em que a arte literária denuncia as mazelas mais absurdas e mesmo mais cruéis da existência humana, simultaneamente ela, ao menos, anuncia sempre um mundo, concebido pelo imaginário poético, possível e naturalmente melhor. Mundo este, conhecido ou desconhecido, mas invariavelmente proposto como realidade mais humana e, não por acaso, mais feliz.  Portanto ler é devaneio, enseada da felicidade sobretudo quando centrada na matéria literária.

É dessa raiz profundamente humanizadora tão bem acentuada e iluminadora nos estudos e precisas considerações do professor Antonio Candido que a literatura, ainda que se sustente em uma visão dramática, trágica, cética, pessimista e mesmo fatídica do real, sempre se oferece, pelo seu traçado lúdico e recriador do universo de fato, como experiência imperdível, um modo de ser feliz.

Nesse universo que elege a felicidade enquanto condição imprescindível de ser e existir, como Borges insistiu não poucas vezes, na esfera e ação humanas, reduto, nas palavras do poeta/leitor, da  própria “obrigação de ser feliz”, que a arte literária se apresenta como material privilegiado no âmbito da motivação.

Assim, a leitura do que possa ser literatura – e ela é tanta coisa – é também um ato previsível, comum, tão trivial e, às vezes, até mesmo banal. Entretanto, é impressionante, ao menos para os leitores mais sensíveis, o seu poder de sugerir, de surpreender, de projetar na esfera do imaginário um mundo que se constrói, no trânsito de ficção e realidade, insistindo sempre numa vida mais feliz e melhor.

É isto: ler é uma experiência essencialmente subjetiva e, quando lemos Shakespeare, Clarice Lispector, Julio Cortázar e tantos outros, passamos a ser os livros lidos e, como leitores criativos, guardamos e recriamos as palavras dos escritores e dos personagens no nosso universo íntimo, na construção da nossa possível visão de mundo, naquela enseada da nossa necessidade vital de fantasias e revelações. Somos felizes, enfim.

A maioria dos escritores que, com paixão e entusiasmo, confessa a sua história de leitura, celebra a sua configuração mágica, não apenas como ato, mas como fonte de descoberta de mundos conhecidos e desconhecidos que, por vezes, não existiam e, pela força sugestiva das palavras, passam a existir no horizonte fictício e por natureza real da felicidade de imaginar e inventar. E também aquelas realidades, fantasias e aspirações que pairavam nas camadas mais subjetivas do ser e, pela força emotiva e reflexiva das palavras, acordaram e se tornaram vivências no lugar íntimo e existencial de cada um.

É justamente por isso, por essa peculiaridade da arte de casar a realidade com a fantasia, que, no universo da literatura que se oferece para o exercício de ler, que um conto de Guimarães Rosa, um romance de Graciliano Ramos, uma crônica de Caio Fernando Abreu, um poema de Carlos Drummond de Andrade, todos eles propõem uma busca da alegria, mesmo quando fazem do sofrimento o seu tema aparentemente maior. A dor, a solidão humana, a injustiça social, os amores impossíveis, as mazelas da existência representados na arte nunca aparecem como o atestado de uma ordem imutável, como simples registro de uma realidade fatídica, como consumação definitiva de que viver se reduz à experiência de sofrer. Não que a literatura modifique imediatamente o mundo em que vivemos, mas ao menos ela aprofunda e inquieta a sensibilidade do leitor para uma vida que pode sempre ser humanamente melhor.

E, por falar em Drummond, vejamos como o seu poema “Os Ombros Suportam o Mundo” – para mim o poema mais triste da Literatura Brasileira contemporânea – revela a carência, o estado de penúria, a falta de gestos mais humanos na sociedade dos nossos dias e, pela própria gravidade poética da denúncia, apela-clama-grita por uma existência menos atroz:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.” [2]

É muito relevante observar que a frustração, o lamento do Poeta e seu olhar esteticamente entristecido não ganham dimensão trágica apenas pela consciência poética de que a humanidade sofre – o que provoca empatia no leitor é o sentimento poético de que lamentavelmente o homem se habitou a sofrer. Entretanto o impacto da mensagem, os jogos de palavras, a sugestão dizem como o mundo é e propõem no mesmo tom como ele poderia idealmente ser, enfatizando que a literatura está sempre a favor da vida, sendo sua função mais humana, política e revolucionária revelar, por meio do imaginário, que a vida pode ser mais completa, solidária e comunitariamente mais feliz.

Na verdade, a arte – e muito especialmente a literatura – convida o indivíduo a prosseguir com sua promessa de felicidade, reordenando, reinventando e reinaugurando permanentemente o real.

Este elemento motivador da criação faz da arte talvez a expressão mais generosamente democrática da vida e confirma as palavras de Mário de Andrade que continuam a ressoar dentro de nós no sentido de viver a literatura, ler e ser feliz.

E aqui vale reforçar que este sentido de felicidade proporcionado pela arte, ainda que vivido e escavado do registro artístico da dor, e igualmente sua rede ou trama democrática de significações – já que sua relação intersubjetiva com as pessoas tem sempre componentes de ordem afetiva ou emocional – reiterando – ambos ocorrem muito especialmente na arte literária, que, veiculando temas os mais diversos pela exclusiva força sugestiva da palavra, motiva de forma exemplar os fluxos e labirintos da imaginação do leitor. Apenas a título de curiosidade, é relevante saber que, comprovadamente, quando lemos Dom Casmurro de Machado, A hora da Estrela de Clarice Lispector ou o poema VII de O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa, na voz do seu heterônimo Alberto Caeiro, cada leitor imagina de forma muito particular como é a sua Capitu, a sua Macabéa, o seu possível Jesus, enfim vive a felicidade de imaginar motivada por seu particular olhar de leitor que, com raro sentimento de alegria imediata, vive momentaneamente também a felicidade de ser criador.

Pois muito bem: a literatura é uma manifestação artística e uma forma de conhecimento – acentuando que conhecimento alcançado pelo privilégio de ler é felicidade – e tem nas palavras trabalhadas e potencialmente carregadas de significações  o seu instrumento de expressão do “homem que no fundo dele mesmo se pergunta em situações comuns ou extraordinárias: quem sou eu, de onde vim, para onde vou’, quem somos nós, afinal o que é viver? Em face da realidade transitória, passageira e até mesmo fugaz, a literatura é a possibilidade de representar simbolicamente, na dimensão de quem escreve e no ângulo de quem lê, as vidas que realmente vivemos ou os personagens que imaginariamente inventamos dentro de nós. Esta é a outra face da felicidade prometida pela literatura e é justamente o que a feliz entrada deste texto  que retoma a frase de Mário de Andrade diz, propondo igualmente o exercício de uma leitura aberta, livre e feliz em conivência com a própria natureza do seu objeto no sentido de identificar um dos traços mais marcantes do ato de ler a literatura: o seu modo livre  e tão bem-vindo de ser sendo feliz.

Por toda essa sua capacidade inventiva, a arte literária é sempre ficção no sentido de realidade imaginada e criada pela palavra, sem necessariamente precisar ser comprovada com o real. Entretanto, por mais alegórico, fantasioso, absurdo que seja um conto, um poema ou uma novela, o texto literário mantém estreitos vínculos com a realidade humana e só o homem na sua existência real é seu foco de interesse e atenção. Este talvez seja o traço mais generosamente humano da literatura e a sua própria razão de existir – expressar em profundidade a dor e a alegria, a luta e a desistência, o amor e o desencontro, a morte e o retorno, o misterioso e o prosaico, o desejo e a frustração, a liberdade e a descoberta, a fome e os excessos, a persistência e a fuga, a imobilidade e a peregrinação, contribuindo assim para a formação ética, estética e histórica do homem em permanente processo de descoberta e revelação.

Ele, o leitor que se quer feliz, imagina, acolhe e hospeda cada vez mais personagens dentro dele e igualmente se torna cada vez mais solidário com a vida, depois de cada livro que lê.

Ele interrompe a leitura, mesmo quando ela é inadiável, pelo prazer de fingir que o livro não existe por um momento e, de repente, poder lembrar que o livro é de verdade e voltar a ser feliz.

Assim e com destaque, a leitura literária é um modo de ser feliz e, pela sua força recriadora de sentidos e de palavras, ao menos uma promessa de felicidade. Vale a pena reiterar e celebrar sempre a observação de Mário de Andrade que inicia esse ensaio revelando o seu conceito de felicidade:

“(…) mas a felicidade não pertence a ninguém, é de todos.”

Nesse ponto exato, apenas como sugestão de leitura imperdível, é muito bom ler e reler o brilhante estudo “O direito à literatura”[3], de Antonio Candido, que destaca incisivamente a literatura na sua vertente fabuladora como direito de todos e, sendo assim, fica aqui um alerta nosso a propósito desse tema tão humanizador:

“Sendo a literatura um direito de todos enquanto necessidade de viver a ficção e o imaginário, ler é um direito à felicidade e um modo humanamente entusiasmado de ser.”

Por vezes e não poucas, os escritores dialogam distantes no tempo e no espaço, entre tantos Jorge Luís Borges e Davi Arrigucci Jr como um eco poético que aproxima as pessoas criando uma comunidade de vozes que parece ler a caligrafia coletiva de todos e de cada um.

Jorge Luís Borges diz: “Creio que uma forma de leitura é a felicidade.”

E Davi Arrigucci Jr sublinha a experiência imperdível que é ser feliz numa leitura livre e sem tempo de duração: “A leitura, para dizer o mínimo, é uma forma de felicidade”.

E mais: em Ética a Nicômaco, principal obra sobre ética de Aristóteles, o autor defende que a felicidade é o maior bem desejado pelos homens e fim das ações humanas[4].

No percurso desse texto e ampliando as informações sobre o tema aqui tratado, vale considerar as palavras de Ana Rüsche, colaboradora da Ponto 14 em seu sensível ensaio sobre o componente humano e o sentido de resistência na obra de John Blacksad, que, por vezes, oscila entre o fracasso e a ousadia, quando a autora enfatiza a dimensão utópica e humanizadora da literatura: “Uma das funções da ficção é nos inspirar, conceder possibilidades para que lidemos melhor com desafios e questões que nos atravessam. A ficção possui esta força mágica de nos devolver um mundo em que vivemos  exatamente como ele se apresenta”[5] .

A passagem em questão, que aponta para literatura como forma de resistência, tema que o professor Alfredo Bosi já abordou em seu brilhante estudo “O ser e o tempo na poesia” –, enfatiza o modo de ser da literatura como um modo de resistir, de lutar e também de ser feliz.

Dessa forma e por todas as atenções aqui colhidas, podemos compreender que o ato de ler, entendido como bem e felicidade para os seres humanos, não deve ser alcançado individualmente, mas sim enquanto ação coletiva, por toda vida. E é nesse exato sentido que bem e felicidade coincidem com o propósito da literatura enquanto arte de todos.  Tal propósito, o maior da literatura, clama ainda mais uma vez pela voz marcadamente humanitária de Mario de Andrade, na sua tão iluminadora concepção do seu próprio ser poético que nunca separou vida, arte e fabulação, com a frase que iniciou, percorreu e provisoriamente põe um ponto final nesse texto:

“A literatura, mesmo a mais pessimista, é sempre uma proposição de felicidade e a felicidade não pertence a ninguém, é de todos.”

Enfim, ler é um modo de ser feliz.

_______________

[1]    ANDRADE, Mário – A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário – São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 79.

[2]    ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1979, p. 131.

[3]    CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”, in: Vários escritos, São Paulo/Rio de Janeiro: Duas cidades, 2004,
p. 174-5.

[4]    ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco: poética Aristóteles; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha.
São Paulo: Nova Cultura, 1991, s/d.

[5]    RÜSCHE, Ana – “Só fracassa quem tem muita coragem: as sete vidas do audacioso Blacksad”,
IN: revista Ponto, no 14, São Paulo: SESI-SP Editora, 2017-8, p. 33.

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Jorge Miguel Marinho

Jorge Miguel Marinho

Jorge Miguel Marinho é professor de literatura brasileira, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor de vários livros, entre eles Te dou a lua amanhã (Prêmio Jabuti), Lis no peito - um livro que pede perdão (Prêmio Jabuti), Na curva das emoções (Prêmio APCA). Pela SESI-SP Editora publicou: Blue e outras cores do meu voo, Na gravidade das coisas miúdas (Prêmio FNLIJ) e Lá longe no chora menino.

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