A vida dos outros

Wilhelm Bendz. A young artist (Ditlev Blunck looking a sketch through a mirror), 1826.

Em abril de 1719, Daniel Defoe lançava na Inglaterra Robinson Crusoé. No prefácio, Defoe anunciava-se o editor da autobiografia de um homem cuja vida fora extraordinária e assegurava não haver no relato qualquer indício de ficcionalidade.

Defoe foi um dos escritores mais prolíficos da Londres de sua época, assim como um homem de negócios atento ao mercado incipiente da comunicação de massas dos meios impressos. Tudo o que ele escreveu teria sido pensado para atender às demandas do público, segundo seus biógrafos.

Com Robinson Crusoé, Defoe acertou em cheio. Estima-se que no final do século xix a obra já havia sido editada, traduzida ou imitada pelo menos setecentas vezes. Mais do que fazer uma leitura de mercado, o autor parece ter sido capaz de captar temas e desejos sensíveis ao seu tempo, a saber: o interesse por histórias menos fantasiosas, como as da literatura romanesca, anterior a ele.

Para alguns historiadores, a obra é a primeira expressão em língua inglesa do que hoje conhecemos como “romance realista”. Sua linguagem, o artifício do escritor, levou os leitores a acreditarem que estavam diante de um personagem real.

Ao analisar algumas listas dos livros mais vendidos de 2015 e 2016, é possível confirmar facilmente uma impressão corrente da crítica literária e traçar um paralelo com o que acontecia no século xviii: de uns tempos para cá, o interesse por obras com histórias e personagens reais tem aumentado.

Entre os onipresentes títulos religiosos, fantásticos e de autoajuda, acumulam-se memórias, diários, livros históricos, jornalísticos, biografias e autobiografias de personalidades as mais diversas entre si (o empresário de sucesso, a nova sensação do YouTube, vítimas de guerras).

Autoficções

Fazendo um corte mais profundo, também é possível identificar essa tendência em outros segmentos literários. Entre as muitas expressões do realismo contemporâneo, percebe-se certa profusão do que tem sido classificado como autoficção.

O termo, cunhado em 1977 por Serge Doubrovsky, em seu livro Le fils (O filho), tentava delimitar um fenômeno que vinha ganhando força na França: a publicação de romances nos quais os personagens centrais eram os próprios autores. Nesses livros, os escritores expunham seus pensamentos, sentimentos, memórias, assim como suas intimidades, e, inevitavelmente, a de terceiros.

Escrever sobre si mesmo faz parte de uma tradição distante. Michel Foucault, em A escrita de si, resgata a função que a prática tinha para os antigos filósofos gregos, uma espécie de terapia da alma, vital para a formação de um bom cidadão. Montaigne, em seu Os ensaios, e Rousseau, em As confissões, se propõem a falar de si próprios, em nome da busca de uma verdade existencial. A autoficção, portanto, não é exatamente algo novo, mas traz novidades, como o retorno da questão do autor na análise da obra, o que costuma dividir críticos e escritores.

Para o escritor Luiz Ruffato, a figura do criador simplesmente não interessa, já que toda literatura acaba sendo autoficção. “Por trás do narrador tem um autor, portanto ele está narrando a partir das próprias memórias, das próprias experiências”, disse Ruffato à reportagem. “O livro é muito mais que isso, e a literatura deve ser muito mais do que isso. O que pereniza a literatura é sua transcendência.”

A obra de Ruffato é diversa. Cada livro contém uma forma diferente de narrar. Em Eles eram muitos cavalos, por exemplo, a cidade de São Paulo é apresentada em relatos fragmentados, por meio de diferentes pontos de vista. De mim já nem se lembra parece contar a história da família do escritor, cujo próprio nome é dado a um personagem. Quando perguntado sobre a coincidência, Ruffato questionou a relevância da informação: “Quem disse que aquelas memórias lá são verdadeiras? Quem disse que aquilo lá é autobiográfico? E, se for, o que que isso muda?”.

“O que importa quem fala, alguém disse, o que importa quem fala.” Com essa citação de Beckett, Foucault formulava o problema central de sua conferência O que é um autor?, de 1969. O que se apresentava ali era a noção de que o autor como indivíduo real é indiferente: o autor na literatura é uma função. O que ele faz é instaurar um espaço onde outras vozes, além da dele, são postas em jogo; nesse lugar, ele próprio desaparece.

Procura de uma forma

A lógica de que o texto é muito mais importante do que tudo o que o precede não parece estar sendo posta à prova. O que se vê, de diferentes maneiras, são tentativas de encontrar outras expressões do real, novas formas de narrar e de renovar um gênero.

Um exemplo recente é o romance A resistência (2015), do paulistano Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti 2016 na categoria livro de ficção do ano. Na obra, Sebastián, o narrador, reconstitui a história de sua família tendo como foco a vida de seu irmão mais velho, Emi. O primogênito foi adotado por seus pais, um casal argentino de militantes de esquerda que se exilaria no Brasil pouco tempo depois da adoção, fugindo da repressão da ditadura de seu país. Apesar do pseudônimo, o relato é declaradamente inspirado na experiência do autor.

Em boa parte de seus livros, Fuks reflete sobre os limites da ficção e busca, por meio de seus narradores, novas possibilidades de narrar. Procura do romance (2011), por exemplo, nasceu como uma espécie de resposta ao problema da crise do romance, tema da dissertação de mestrado do escritor, que também é crítico literário.

“Em alguma medida eu senti que reproduzi na minha própria trajetória algo da trajetória maior do romance, como eu fui aprendendo como se deu essa história, eu mesmo fui me tornando mais desconfiado do ato de inventar, do ato de fabular, de contar uma história simplesmente, do início ao fim, com uma intriga, com um enredo. Tudo isso nunca me foi muito fácil, pessoalmente eu fui me tornando cada vez mais desconfiado”, comenta Fuks.

Escrever sobre a própria vida e a história de seus familiares acabou sendo uma consequência natural desse processo. “Acho que é uma tendência contemporânea recente essa busca de uma precisão maior e de um contato mais

direto com o real. E acho que uma das maneiras desse contato mais direto é a busca de si, e a escrita muito próxima em que o narrador se assemelha muito ao próprio autor e compartilha de uma certa perspectiva, de um mesmo ponto de vista que guarda certa autenticidade, certa legitimidade”, diz.

Uma das autoficções mais bem-sucedidas da atualidade, a série Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård, tem como ponto de partida uma inquietação semelhante.

No primeiro e no segundo volumes da sequência de seis livros, o narrador/autor discorre, em diversos momentos, sobre a crise que ele enfrentava como romancista. Ele sentia que o mundo estava saturado de narrativas pouco convincentes. Até mesmo os relatos documentais e jornalísticos soavam inventados. A única solução vislumbrada por ele foi escrever sobre a própria vida, as pessoas com quem ele convivia, seu cotidiano, e tentar reconstituir alguma verdade e uma certa materialidade à sua literatura.

Os limites do real

Um dos efeitos da escrita autobiográfica sobre os leitores é despertar a curiosidade acerca da veracidade do que é narrado. É comum que os autores de autoficção sejam abordados com esse tipo de pergunta – muitas vezes envergonhada. “Quanto disso que eu escrevi é real e quanto é ficcional é uma pergunta muito difícil de se responder, difícil de se determinar e de precisar quanto. Eu sei que o ponto de partida é sempre o que está no real: é sempre a relação, é sempre a biografia, mas as coisas se distorcem sem que eu queira”, diz Fuks.

Trabalhar com a memória é lidar com fantasmas. Obras como a de Fuks reconstituem o passado por meio de fragmentos de discursos, de palavras que se distorcem, de imagens sujeitas à ressignificação a cada novo olhar. É nessa intangibilidade da realidade pelas lembranças e da linguagem que se imprime a marca ficcional da autoficção.

“A percepção de que o que eu consegui descrever ali nunca seria sequer próximo do real era evidente o tempo todo e me pareceu, de novo, que a forma mais honesta de lidar com isso era expondo, era dando na vista, fazendo o leitor compartilhar dessa desconfiança”, diz Fuks.

Para o escritor, a autoficção acaba trazendo uma outra concepção de ficção que já não se assemelha à invenção. O que a caracterizaria não seria mais o ato de inventar, mas o de construir algo a partir das ruínas e das sobras de memórias, sentimentos e impressões.

A vida dos outros

Uma das críticas mais recorrentes à autoficção é direcionada ao narcisismo inerente ao gênero. É verdade que muitas das escritas de si contemporâneas apontam para o respectivo umbigo – que o digam as redes sociais –, mas nem sempre.

Em seu livro mais recente, Mutações da literatura no século xxi, a crítica Leyla Perrone-Moisés contesta essa visão. Ela destaca o sentido que a prática teve no passado entre os gregos (mencionado anteriormente) de cuidado de si para então cuidar dos outros e da pólis. A autoficção pode não estar fechada em si e falar ao outro pela linguagem literária. É o que acontece em A resistência. Sebastián quer contar a história de seu irmão e de seus pais, mas só é capaz de fazê-lo através do próprio olhar. Para que a ponte com o outro seja possível, ele se problematiza, questiona o próprio relato e investiga sua identidade sem cessar.

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Camilo Gomide

Camilo Gomide

Camilo Gomide é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e mestrando em literatura e crítica literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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