A maior invenção da história

O brasileiro está lendo menos. É isso que revelou a última pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência. De acordo com o levantamento nacional, o número de brasileiros considerados leitores – aqueles que haviam lido ao menos uma obra nos três meses que antecederam a pesquisa – caiu de 95,6 milhões (55% da população estimada), em 2007, para 88,2 milhões (50%), em 2011. Foram ouvidas 5.012 pessoas, com idade superior a 5 anos de idade, em 315 municípios. A margem de erro é de 1,4 ponto percentual.

O levantamento reforça um traço já conhecido entre os brasileiros: o vínculo entre leitura e escolaridade. Entre os entrevistados que estudam, o percentual de leitores é três vezes superior ao de não leitores. Já entre aqueles que não estão na escola, a parcela de não leitores é cerca de 50% superior ao de leitores.

Uma das razões que podemos apontar para a queda no hábito de leitura entre o público infantojuvenil é a falta de estímulos vindos da família. Se em casa as crianças não encontram pais leitores, reforça-se a ideia de que ler é uma obrigação escolar. Se existe uma queda no número de leitores adultos, isso se refletirá no público infantil. As crianças precisam estar expostas aos livros antes mesmo de aprender a ler. Assim, elas criam uma relação afetuosa com as publicações e encontram uma atividade que lhes dá prazer.

Outro indicador revela a queda do apreço do brasileiro pela leitura como hobby. Em 2007, ler era a quarta atividade mais apreciada no tempo livre; quatro anos depois, o hábito caiu para sétimo lugar. Antes, 36% declaravam enxergar a leitura como forma de lazer, parcela reduzida a 28%.

À frente dos livros, apareceram na sondagem assistir à TV, escutar música ou rádio, descansar, reunir-se com amigos e família, assistir a vídeos/filmes em DVD e sair com amigos. No século XXI, o livro disputa o interesse dos cidadãos com uma série de entretenimentos que podem parecer mais sedutores. Ou despertamos o interesse pela leitura, ou perderemos a batalha.

Uma das razões que podemos apontar para a queda no hábito de leitura entre o público infantojuvenil é a falta de estímulos vindos da família. Se em casa as crianças não encontram pais leitores, reforça-se a ideia de que ler é uma obrigação escolar.

O papel da escola agiganta-se diante da importância da leitura para a educação, como espaço formal de trabalho. É preciso colocá-la em posição privilegiada e há muito que ser renovada no conteúdo e na prática.

Quanto ao professor, o que esperamos é que seja, antes de tudo, um leitor. É necessário que ele avalie os conceitos e a natureza desse trabalho, com seriedade e segurança – que ele saiba escolher bons textos de várias naturezas e saiba explorá-los, incentivando a criatividade, a liberação do imaginário em seus alunos. A poesia, por exemplo, o caminho literário do sonho, é muitas vezes esquecida, quando deveria estar presente no espírito de cada estudante, especialmente dos jovens, como elemento transformador de ideias, unindo a beleza do lirismo à compreensão da vida. Poemas como os de Carlos Drummond de Andrade ou Vinícius de Moraes poderiam levar entusiasmo e polêmica às aulas de leitura. A liberdade de decifrá-los transportaria o ato de ler a novas dimensões antes não calculadas.

O exercício da leitura representa um papel essencial, da máxima importância para a formação de um povo. Desconheço um país desenvolvido que não seja um país de leitores, de pessoas que desde os primeiros anos da infância adquiriram o gosto de ler. Vale repetir a afirmação de Darcy Ribeiro que o livro foi a maior invenção da História e a base de todas as outras conquistas da civilização.

Por isso, se queremos um ensino realmente democrático, é preciso, no mínimo, facilitar o acesso ao livro e motivar o aluno nesse sentido mais amplo que é o refletir, pois, afinal, a verdadeira função da escola é fazer pensar.

Um programa de alfabetização continuada, incluindo a formação imediata do hábito de ler, projetos de incentivo à leitura como concursos, maratonas, oficinas literárias e a edição de livros de literatura de baixo-custo em larga escala para distribuição em nossas escolas seriam estratégias louváveis, representariam uma centelha de esperança.

O escritor italiano Italo Calvino dizia que clássicos são os livros que propagam valores universais e despertam emoções que, a despeito do tempo decorrido desde a leitura, jamais são esquecidos. Constituem uma riqueza para quem os tenha lido. Cientes dessa riqueza, geração após geração, muitos pais se preocupam em reunir esse tesouro em uma estante, presenteando os filhos com uma seleção dos melhores livros.

A tecnologia vem adicionar, de maneira crescente, uma questão a essa tarefa: franquear aos filhos uma coleção de livros ou um tablet, aos quais clássicos e outras tantas obras podem ser adicionados. A ideia de tirar o tradicional livro impresso das mãos das crianças e trocá-lo por um iPad ou similar pode assustar os pais. Mas não causa a mesma reação nos estudiosos. Para estes, não existem restrições para leitura na nova plataforma. O meio não é a mensagem. A forma como o conhecimento chega ao ser humano é irrelevante. O que importa é a excelência do conteúdo e não o seu intermediário. O universo digital exerce fascínio nos jovens e, com ajuda dos tablets, pode apresentar a leitura para esse público de forma surpreendente.

Vivemos um tempo de transição, quando é necessário considerar a existência de novos valores e a presença de crianças que são nativas digitais. As escolas, até aqui, foram praticamente as únicas provedoras de conteúdo. Isso hoje foi superado pela existência de uma sofisticada parafernália tecnológica, que veio para ficar.

Além de passar valores aos nossos alunos, os estabelecimentos de ensino devem se orientar no sentido de colaborar para a solução de problemas do cotidiano. É uma visão comportamental que se ajusta à educação moderna.

Temos possibilidades incríveis de expansão do conhecimento, mas isso não começa nas universidades e sim nos primeiros anos de escolaridade. Inovação é um conceito muito amplo, que não pode ser introjetado na cabeça dos estudantes de repente, numa determinada série. Isso vem desde cedo, com professores bem preparados e estimulados a valorizar as conquistas científicas e tecnológicas.

Temos é que formar de modo competente os nossos jovens, com uma educação de primeira classe. Imaginar que a importação de cérebros estranhos à nos sa realidade seja uma boa solução é tentar resolver o problema pelo facilitário. Educando os jovens, certamente, eles irão influenciar os pais – e assim se forma a equação do nosso progresso. Cérebro e computador não podem caminhar dissociados.

Melhorar a educação brasileira, de um modo geral, pode ser uma utopia? Depende, naturalmente, da existência de uma política séria, no setor, conduzida por pessoas competentes e desinteressadas de proveito pessoal ou político. A boa escola deixará de ser uma utopia quando esse quadro se modificar.

Fala-se muito em gastos com a educação, expressão que deve ser condenada. Gasto é sinônimo de desperdício. Entendemos a educação como investimento. Assim ela deve ser compreendida.

Refletir é o que nos permite abrir as portas da percepção e da compreensão crítica. Quando movido por curiosidade, pelo desejo de crescer, o homem se renova constantemente, tornando-se mais apto a estar no mundo, capaz de compreender as entrelinhas daquilo que ouve e vê, do sistema em que está inserido. Assim, temos ampliada nossa visão de mundo e seu horizonte de expectativas.

Ler é, acima de tudo, compreender. Precisamos manter um posicionamento crítico sobre o que é lido. Quando o leitor se projeta no texto, leva para dentro dele sua vivência pessoal, conseguindo ser tocado pela leitura. Isso é o que afirma Roland Barthes, comparando o leitor a uma aranha: “O texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.”

O único limite para a amplidão da leitura é a imaginação. Ao conhecermos mais do mundo em que vivemos, experimentamos novas experiências, o que nos permite afirmar que a leitura se configura como um poderoso e essencial instrumento libertário para a sobrevivência do homem.

Ler e pensar são atos homólogos e, quando lemos, estamos nos envolvendo com a expressão de outrem, ao mesmo tempo em que nos revelamos, partilhando ideias e sentimentos. A literatura exige a mudança, o posicionamento instaurado pela emoção do leitor. Na realidade, não importa tanto o que o autor diz, mas como é interpretado no seu universo linguístico. O encanto das palavras remete o leitor para além de si mesmo, enriquecendo o seu mundo e as suas expectativas. É esse o sentido pedagógico da leitura. Formar leitores, especialmente entre os mais jovens é oferecer uma ferramenta fundamental para ampliar a sua concepção do mundo e até alterá-la, transferindo-a para situações do seu interesse.

SESI-SP Editora é a nova parceria na revista Leitura, da ALB

No ano de celebração dos 30 anos da Associação de Leitura do Brasil (ALB), a SESI-SP Editora é sua nova parceira na revista semestral Leitura: Teoria & Prática (LTP). As contribuições começaram na edição vigente, número 60, de junho de 2013, que já saiu com novo layout e diagramação.

Para o presidente da ALB, Antonio Carlos Amorim, a parceria tem um significado especial. “A diretoria da ALB agrega um valor inestimável ao novo projeto editorial da LTP, desenhado pela edição com a SESI-SP Editora, pelo fato de a revista ser doada aos professores da área de língua e literatura e às bibliotecas do Sistema SESI-SP de Ensino. Essa ação resultante da parceria endossa a nossa proposta de fazer circular, entre os professores da educação básica, material de qualidade reflexiva e crítica.”

Única publicação brasileira específica da área da leitura, a LTP é composta de textos inéditos, em português ou espanhol, escritos por pesquisadores, professores de diferentes universidades brasileiras e estrangeiras, e profissionais da educação básica.

A revista Leitura: Teoria & Prática representa um avanço na proposta que visa compor a vertente teórica da coleção Quem lê sabe por quê.

Site da ALB: www.alb.com.br

Livro Nanoarte, de Anna Barros — Coleção Exposições, SESI-SP Editora, 2013.

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Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier é acadêmico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e ocupa a cadeira 18 da Academia Brasileira de Letras. Atualmente, é Presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro – CIEE Rio. Foi apresentador do programa Frente a Frente na Rede Vida de Televisão.

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