A ficção científica no brasil: um planeta a desbravar

Guilherme Garoa. CF: um planeta desconhecido, 2017. Instagram: @guigaroa.art

Não há apenas uma literatura brasileira, mas muitas. Esquecer, ignorar ou falsear seu caráter múltiplo promove o apagamento de diversas facetas de nossa cultura, veiculando a enganosa impressão de que a produção literária nacional pode ser compreendida por meio de perspectivas redutoras, generalizantes. Um exemplo: o excessivo apego à periodização da literatura faz esquecer que nem todos eram românticos na voga do Romantismo, ou realistas no Realismo, ou modernos no Modernismo, e assim por diante.
O que não se conforma às tentativas homogeneizantes de certa historiografia literária tem sido ignorado, privando o divergente de uma apreciação capaz de apreender o que o faz singular.

Chamar a atenção para a diversidade não equivale a condenar a literatura que, canônica, pôde se integrar plenamente ao sistema literário brasileiro. Tal sistema, na esteira do pensamento de Antonio Candido, é concretizado apenas quando dada obra alcança um impacto sociocultural expressivo o bastante para, em um único movimento, inovar uma tradição literária e dar a ela continuidade. Ora, realizar tal feito não é algo a ser desprezado. Dialogando produtivamente com o cânone pregresso e com o vindouro, a obra cumpre o grande potencial da palavra literária: revestir-se de novos sentidos a cada diferente época.

É preciso cultivar uma visada capaz de cuidar tanto do acolhido quanto do rejeitado. Dessa forma, a percepção de nossa cultura será ampla e aberta à diversidade – esta que é, também na literatura, tão própria do Brasil. Impõe-se a seguinte dificuldade ao observador: para refletir acerca de uma obra colocada às margens, os parâmetros avaliativos podem não ser os mesmos usados para as obras consagradas. Afinal, cada diferente manifestação artística impõe a sua própria lógica ao observador, que deve respeitá-la a fim de não cometer injustiças.

Sequer a diversidade dos baluartes de nossa literatura é respeitada quando o olhar tende a aparar as arestas e homogeneizar. Assim, embora considerado o romance fundador do Realismo brasileiro, Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, faz uso de um expediente marcadamente insólito, o defunto autor que rompe com os preceitos da verossimilhança realista. Também pode provocar surpresa verificar que Rachel de Queiroz, tão conhecida pelo “romance social nordestino”, escreveu um conto de ficção científica (FC) bastante significativo, “Ma-Hôre”.

O conto não é um caso isolado na literatura brasileira: embora tradicionalmente os estudos literários não tenham notado, os exemplos de ficção científica nacionais não são poucos. Em meados da década de 1970, o escritor e crítico Fausto Cunha publicou o texto “A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado” – trata-se da introdução ao volume No mundo da ficção científica, de L. David Allen. Nele, Cunha traça um breve histórico do gênero entre nós, assinalando sua pequena expressividade quantitativa em comparação com as variedades estrangeiras.

A constatação de fato encontra respaldo numérico, mas poderia ser diferente em um país onde o mercado livreiro sempre enfrentou dificuldades em diversificar a oferta e fugir de caminhos mais seguros? É mais seguro, claro, publicar a FC estrangeira, que traz consigo o agressivo aparato da indústria cultural, como merchandising, filmes, séries e quadrinhos. Além disso, o problema da FC brasileira (FCB) não é só dela: numericamente inexpressiva e muitas vezes incapaz de chegar ao leitor é boa parte de nossa produção literária, que acaba por circular majoritariamente entre críticos, pesquisadores e escritores. Infelizmente, as exceções muitas vezes levam à pavimentação de um novo caminho seguro que é, no final das contas, tão hostil à diversidade quanto a tentativa de estabelecer critérios únicos para tratar da produção nacional. Em suma, os efêmeros modismos não colaboram para o estabelecimento de uma tradição da FC – ou de quaisquer outros gêneros.

Conforme já foi reiteradamente indicado por ensaístas como Braulio Tavares e Roberto de Sousa Causo, há desde o século XIX exemplos de textos nacionais que podem ser chamados, em maior ou menor medida, de FC. Embora a produção tenha sido ininterrupta desde então, não o foi de maneira articulada: são manifestações isoladas, algo despidas dos caracteres necessários à continuidade e ao mutuamente enriquecedor diálogo intertextual. Há apenas um esboço de sistema literário, às margens daquele oficialmente endossado. Ler e divulgar a FC nacional contribui para que o esboço alcance um acabamento mais satisfatório.

Como o conjunto de obras possui contornos pouco nítidos, é necessário abdicar da pretensão de definir com rigor a natureza da FCB. É possível, evitando a violência da generalização, apenas indicar linhas gerais que se deixam entrever em meio a um todo algo indistinto. Parte da FCB anterior a 1960, por exemplo, pode ser abordada segundo duas chaves complementares: o diálogo com o britânico H. G. Wells e a apropriação do modelo narrativo utópico. A primeira chave diz respeito ao tema; a segunda, à forma.

Servem de exemplo os romances O presidente negro, de Monteiro Lobato, Viagem à aurora do mundo, de Érico Veríssimo, e 3 meses no século 81, de Jerônymo Monteiro. Estruturadas segundo o modelo utópico instituído por Thomas More, as narrativas são desprovidas de conflito, compostas pela estática apresentação de um mundo e um tempo outros. Nas três obras, o que o guia tem a relatar é fruto da ação de uma máquina do tempo, fazendo lembrar a clássica obra de Wells. Se a articulação entre Wells e More salta aos olhos em algumas obras do período, o mesmo não pode ser dito ao todo da produção, difuso e multiforme.

Um esboço um pouco melhor acabado de articulação entre autores, veículos e leitores vai se dar apenas na década de 1960, graças ao fomento dos editores Gumercindo Rocha Dórea (Edições GRD) e Álvaro Malheiros (EdArt). Embora as atividades do primeiro tenham se prolongado por um período maior, ambos foram responsáveis por promover no país a FC com estratégias editoriais similares, como o lançamento de antologias de contos brasileiros e a publicação concomitante de nomes estrangeiros e nacionais. Acerca das antologias, é significativo que os editores tenham convidado autores que produziam (ou passaram a produzir) FC extensivamente, como Jerônymo Monteiro e Fausto Cunha, ao lado de autores já consagrados e à primeira vista alheios ao gênero, como Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz e Domingos Carvalho da Silva. Dórea e Malheiros pareciam agir de forma a integrar a FC ao sistema literário brasileiro.

André Carneiro combinava em si ambos os mundos: conhecido poeta da Geração de 45, ao mesmo tempo produzia de maneira extensiva FC. Também por incorporar muito desse espírito da época, é o autor de maior destaque do período (e, talvez, também dos períodos seguintes), com uma obra sempre disposta a colocar em xeque nossos preceitos e preconceitos.

O alcance da iniciativa dos editores, contudo, não foi o esperado. Se artisticamente os dividendos foram positivos, o mesmo não pode ser dito do aspecto financeiro. Pouco a pouco as publicações foram rareando e tornaram-se insustentáveis segundo a lógica do mercado. Gumercindo Rocha Dórea continua a publicar esporadicamente, mas seu projeto editorial teve seu mais fértil momento nos anos 1960, período da nossa FC conhecido, não por acaso, como Geração GRD.

Michael J. Bowman. The Hyper-Psych Art, 2013. (bit.ly/2iW5CLj)

O segundo momento em que surge um eixo claramente definido de produção e recepção é a década de 1980. O fandom, comunidade atuante de fãs, é quem dessa vez vai fomentar a produção – o que não equivale a dizer que o movimento fosse homogêneo. Alguns dos agitadores responsáveis por organizar reuniões, publicar fanzines e realizar demais ações “de guerrilha”: Cesar Silva, José Carlos Neves, Marcello Simão Branco, Mario Mastrotti, Roberto Nascimento e Ruby Felisbino Medeiros, entre outros. Alguns dos autores a adquirir destaque a partir do momento: Braulio Tavares, Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Finisia Fideli, Ivan Carlos Regina, Ivanir Calado, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo.

A fim de inserir-se dentro de uma perspectiva historiográfica, e dar o devido crédito aos autores pregressos, tal eixo dos anos 1980 nomeou a Geração GRD de “Primeira Onda” e a si próprio de “Segunda Onda”. Dórea e Carneiro eram figuras que, ainda em atividade, representavam uma das pontes entre os dois períodos.

Ainda com um pé na água e outro na areia da margem, nossa FC mostra certo vigor. Contemporaneamente, estaríamos na “Terceira Onda”, com autores como Ademir Assunção, Ana Cristina Rodrigues, Cirilo Lemos, Cristina Lasaitis, Luiz Bras, Márcia Olivieri, Santiago Santos e o saudoso Mustafá Ali Kanso, que tão cedo nos deixou. A opção por “estaríamos na Terceira Onda” e não “estamos” sinaliza, aqui, que os autores mencionados não necessariamente aderem de pronto à divisão em “ondas”, ou à noção de que fazem parte da terceira. Pelo didatismo, contudo, não deixa de ser uma divisão válida para compreender historicamente a dinâmica da FCB – desde que não seja esquecida, nunca é demais lembrar, a diversidade.

Hoje é inadequado falar na produção nacional sem chamar atenção para Nelson de Oliveira. Autor consagrado, subdividiu-se há alguns anos em três heterônimos: Teo Adorno, Valério Oliveira e Luiz Bras. O último é um autor de FC acentuadamente interessado em questões contemporâneas, representando uma muito bem-vinda ponte entre a literatura brasileira respeitada como tal e a FC. Trata-se de uma figura agregadora: várias foram suas iniciativas em prol da articulação entre diferentes autores, como a organização de eventos e antologias de contos – a próxima, pela SESI-SP Editora, sai em 2018. À sua maneira, Oliveira representa uma ponte como Carneiro um dia representou, mais uma mostra de que a FCB não precisa e não deve se restringir a um gueto. O esboço de sistema literário talvez esteja a ganhar alguns traços a tinta.

Diante de tantos nomes elencados nesta breve conversa, cada um deles dono de particularidades dignas de atenção dos leitores, dos pesquisadores e das editoras, difícil ainda dizer que a ficção científica no Brasil é um planeta quase desabitado, como o fez Fausto Cunha. O astronauta que pousar os pés no planeta deve estar preparado para surpresas: encontrará espécies nunca antes descritas e descobrirá traços inusitados em seres que julgava conhecer bem. E os nativos certamente farão o astronauta ver com outros olhos seu próprio mundo.

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Ramiro Giroldo

RAMIRO GIROLDO é professor da UFMS, atua na graduação e na pós-graduação e ministra disciplinas ligadas à literatura brasileira. Doutor em Literatura Brasileira pela USP, dedica-se a investigar a utopia, a ficção científica nacional e as representações artísticas da violência e do horror. Autor de diversos ensaios, publicou em 2013 o livro Ditadura do Prazer: sobre ficção científica e utopia.

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