Só fracassa quem tem muita coragem: as sete vidas do audacioso Blacksad

Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.
Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.

Se gatos têm sete vidas, John Blacksad faz questão de arriscar milimetricamente cada uma delas. Em meio a tiros, investigações e amores fracassados, o gato detetive traça jornadas perigosas, nem sempre frutíferas, para ganhar seus trocados, alguma justiça e saciar sua curiosidade. Em um mundo de moral dúbia e crimes de magnatas, tendo como pano de fundo fatos históricos do final do século XX, Blacksad mantém a tensão página a página dentro da melhor tradição das boas histórias de detetives.

Elaborado por Juan Díaz Canales, roteirista de quadrinhos, séries e animações, e por Juanjo Guarnido, dono de uma técnica impressionante no que se refere à coloração e estilização de movimentos, Blacksad é um deslumbre.

Juanjo, que trabalhou para a Marvel e para Walt Disney Studios, contribuiu com seu traço e sua paleta com os principais estúdios do mercado de animação internacional. Inclusive, foi responsável por desenvolver um leopardo fêmea Sabor no longa-metragem Tarzan (Walt Disney Pictures, 1999). Não é à toa que John Blacksad, nosso gato protagonista, possa emprestar de quando em quando a potência ágil dos grandes felinos e explodir uma página inteira com seus saltos e sua ousadia.

O primeiro número, Algum lugar em meio às sombras, foi um sucesso estrondoso na França, tendo vendido mais de 200 mil exemplares pela editora Dargaud. Embora voltado inicialmente ao público europeu, logo ganhou o mundo e destacou-se faturando os principais prêmios internacionais da área. Publicada de 2000 a 2013, a sequência será completada pelos títulos Artic Nation; Alma Vermelha; O inferno, o silêncio; e Amarillo, Texas – coleção que desembarca no Brasil em ótima hora, com o cuidado estético necessário para que os álbuns não percam nada para outras edições.

Cidades soturnas e perigos à luz do dia

Se nosso herói é um maravilhoso gato preto, certamente a cidade é uma grande personagem. Seja Las Vegas, New Orleans, Nova York ou a pequenina Amarillo no meio do Texas na Rota 66. Ora soturnas ora brilhantes, as metrópoles nostálgicas emergem nas páginas com seus letreiros arruinados, becos, arranha-céus impenetráveis, cemitérios. Os bares e botecos são incontáveis – com sorte, você poderá avistar um conjunto de músicos tocando clássicos do jazz ao fundo.

Bebendo de um tipo de estética que se convenciona chamar de estilo noir, Blacksad atualiza os tópicos ficcionais da literatura dos anos 1950 estadunidense que irá retratar a cidade como a senhora desconhecida e perigosa, disputada por gangues e habitada por uma justiça pouca, por mortes banais, copos de uísque, socos, fumaça espessa de cigarro e mulheres de batom vermelho. É conhecida por ser “uma literatura barata”, distribuída em livrinhos e comics vendidos em bancas, impressos em papel jornal, voltada a temas populares, a denominada pulp fiction. Entretanto, Blacksad vai além do noir: são retratados imigrantes nos Estados Unidos, guerra nuclear, ascensão de supremacistas brancos. Em um comentário histórico, o gato será testemunha ocular de manifestações políticas, palestras sobre energia nuclear no contexto da Guerra Fria, assuntos que se somam à atmosfera densa que envolvem suas aventuras.

O vermelho sangra a página e é utilizado para envelopar crimes violentos – as cores e o traço do trabalho são preciosos para definir a ambientação. Assim como amarelos vibrantes para sublinhar o nome da cor que, em espanhol, batiza a cidade “Amarillo” no Texas. A estrutura dos quadros também é torcida para conferir maior movimento e profundidade às personagens, quando, por exemplo, exprimem abalos de dor ou cólera ou mesmo o caos do escritório do detetive.

A linguagem é um relato das sete vidas preciosas do gato John Blacksad, narradas em primeira pessoa em tom confessional. Afinal de contas, quem irá acreditar em tantas aventuras funestas?

Quando o detetive nos permite entrar em seu escritório, entraremos em seu universo, em suas desilusões amorosas, em seus problemas financeiros: “às vezes, quando entro em meu escritório, tenho a impressão de estar caminhando entre as ruínas de uma civilização antiga. Não por causa da desordem e do caos, mas justamente porque aqueles escombros parecem os vestígios do ser civilizado que um dia eu fui”.

Um mundo animalesco, cheio de personagens históricos e arte

O mundo em Blacksad é visto com lentes animalescas: todas as pessoas são transformadas em animais humanoides. Focinhos, bicos, mandíbulas povoam as páginas coloridas. Muitas das características que humanos reputam a animais são preservadas nestas lentes. A começar pelo próprio herói, Blacksad, um gato preto, cuja tristeza escura vem acompanhada por uma insistente má sorte, principalmente o azar no amor, embora a agilidade das sete vidas o transforme em incrível detetive.

Exemplificando, em Algum lugar em meio às sombras logo vamos conhecer o leal e responsável pastor alemão Smirnov, comissário de polícia amigo de John Blacksad ou mesmo um rato maltrapilho que surge das trevas, a guiar o detetive até um cemitério. Chama a atenção a gangue de lagartos, que com seu sangue frio e olhos esbugalhados se mostram perigoso oponentes peçonhentos – os lagartos refugiam-se no bar La Iguana e logo declaram que “sujeitos peludos como você não são bem-vindos aqui” para uma lontra desavisada que surge na toca errada. Os livros dialogam entre si. Se você gostou do comissário de polícia Smirnov, que dá carta branca para Blacksad punir criminosos em Algum lugar em meio às sombras, ele irá reaparecer com mulher e dois filhos em exposição de arte. Ou mesmo Weekly, doninha otimista.

Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.

Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.

É interessante pescar personagens históricos e ver como foram transformados em animais. Há muitos! Apenas para citar alguns, Em Alma vermelha, você poderá ver o pintor norte-americano Mark Rothko como o urso Sergei Litvak, o poeta beatnik Allen Ginsberg como o bisão Greenberg uivando o seu “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus” (o tradutor Antonio Xerxenesky cita o poema “O Uivo” na conhecida tradução ao português de Claudio Willer). Você pode ainda encontrar Adolf Hitler como um gato branco – sugerem ser uma alusão a Maus de Art Spiegelman.

É um mundo brutal para mulheres. É como se ouvíssemos um sax, trompete e a voz de James Brown na rouquidão do It’s A Man’s Man’s Man’s World: as mulheres são principais vítimas dos crimes que nosso detetive irá solucionar (ou somente vingar, quando estão mortas) e são ainda alvos de piadinhas misóginas, como no episódio em que as comparam com a energia atômica. As mulheres atraentes são gatas nas lentes de John Blacksad, como a atriz famosa Natalia Wilford. O detetive tem pouca sorte com elas – embora se esforce para as conquistar, suas relações não duram o quanto ele gostaria, vive sofrendo decepções amorosas e desencontros. A vida também o castiga com suas ironias: um momento engraçado é quando está em uma mesa em Las Vegas e é obrigado a suportar e assistir a um concurso de imitadoras de sua ex-namorada, a bela atriz Natalia Wilford.

Como a vida é maior, nem somente de crimes e amores tristes vive nosso herói: nos livros, há um comentário quase constante a respeito da arte produzida na época, inclusive de diferentes segmentos.

O gato John Blacksad trava conhecimento com artistas que revolucionaram a arte e a indústria cultural dos Estados Unidos. Além do poeta Allen Ginsberg e Mark Rothko, já citados, que aparecem em Alma Vermelha, veremos a profícua cena do jazz em New Orleans em O inferno, o silêncio. Em Amarillo, Texas vamos ainda conhecer o cotidiano de uma companhia circense e suas dificuldades financeiras e artísticas. Grandes estúdios de filmes e fonográficos em funcionamento também são retratados – como na cena em que um leão-marinho quebra um lápis aos berros que tinha contratado um saxofonista e não um xilofonista em Algum lugar em meio às sombras.

A ficção mais humana: curiosidade, fracasso e coragem

Como a ficção de Blacksad pode aportar em nossas vidas? Uma das funções da ficção é nos inspirar, conceder possibilidades para que lidemos melhor com desafios e questões que nos atravessam. A ficção possui esta força mágica de nos devolver o mundo em que vivemos exatamente como se apresenta.

Blacksad, com seu protagonista corajoso e muitas vezes fracassado, nos devolve um lado muito humano, que oscila entre a audácia e o fracasso: “Vi e vivi tantas situações incríveis que os leitores vão pensar que são um monte de mentiras, que não cabe tanta maldade no mundo”. O gato detetive nos traz, uma vez mais, a noção de nossa pequena estatura frente à magnitude das injustiças, nos traz as maneiras possíveis de se habitar cidades e explorar seus tesouros, nos traz a urgência em perceber que somos cercados por arte e por acontecimentos históricos.

Talvez seja essa a maior inspiração desta leitura: a de seguirmos cheios de curiosidade, que alimenta um espírito investigativo e a sede por conhecimento. Saber que o fracasso só ocorre a quem tem muita coragem.

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Ana Rüsche

Ana Rüsche

Ana Rüsche é escritora e doutora em letras pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou cinco livros, entre eles o romance Acordados (Demônio Negro, 2007). Seu último livro é Furiosa (poesia, 2016). Fez a tradução do título Blacksad - Amarillo para o português para a SESI-SP Editora

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