Os quadrinhos e seus prêmios

Ilustração de Claudius, publicada em livro pela SESI-SP Editora.

Virou clichê dizer que as histórias em quadrinhos vivem bom momento no Brasil e que o cenário melhorou bastante, tanto pelo aumento de produção, quanto pelo aumento de qualidade. Mas, no início deste ano, o que chamou a atenção foi um movimento que reuniu autores, editores, jornalistas e fãs solicitando ao Prêmio Jabuti (o mais importante prêmio do livro do país, que data de 1958) a criação de uma categoria para histórias em quadrinhos.

Como já havia uma compreensão dentro da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Comissão do Jabuti a respeito da sua inclusão, essa mobilização foi essencial para a sedimentação dessa categoria, que passou a vigorar a partir deste ano. Agora,  o prêmio possui 29 categorias ao todo.

E não podemos esquecer o enorme papel dos quadrinhos como incentivador da leitura, instrumento educativo e parte fundamental da produção literária e artística do Brasil. Essa função foi lembrada pelo prêmio Jabuti de 2015, quando homenageou com um troféu especial Mauricio de Sousa em reconhecimento por sua obra e seu papel na formação de leitores. O desenhista é considerado um dos maiores formadores de leitores do país.

Prêmios literários

Recompensar e reconhecer os grandes artistas é uma tradição cuja origem pode voltar quase até o nascimento da literatura. No mundo grego, as honras eram concedidas a poetas. Na Idade Média, começaram os jogos florais europeus, os concursos literários, que sobreviveram ao século XX. Até o século passado, os prêmios literários tinham uma nova função: ajudar os jovens autores a dar-lhes o impulso necessário em seus primeiros passos para o difícil mundo das letras. Atualmente, um autor recebe não apenas prestígio e fama, mas também benefícios econômicos.

Para os quadrinhos, os prêmios ganharam relevância especial, porque deixaram de ser apenas ornamentais. Eles ajudaram a abrir portas de editoras e rendem espaço na mídia. No Brasil, eles passaram a estimular e incentivar os criadores. Hoje, encontramos trabalhos para a internet, para produção independente, de fanzines e direcionada para prêmios governamentais.

Atualmente, os quadrinhos contam com prêmios próprios por todo o mundo. No Jabuti, eles eram enquadrados em outras categorias, como didático e paradidático, adaptação ou ilustração. Pelo novo regulamento, eles concorrem com “livros compostos por histórias originais ou adaptadas, contadas por meio de desenhos sequenciais, definidas pela união de cor, mensagem e imagem”. A categoria adaptação continua existindo, mas sem incluir quadrinhos especificamente.

Ou seja, não foi criada uma categoria “quadrinhos”, mas uma categoria na qual os quadrinhos podem entrar. Não acredito que esse processo esteja encerrado. Mesmo porque se trata de uma inclusão experimental. Com certeza ainda surgirão muitas dúvidas e haverá mais discussões.

Os quadrinhos são um gênero literário?

Uma das discussões ainda está presente: os quadrinhos são um gênero literário? Querer que uma história em quadrinhos concorra em uma premiação literária é como inscrever um filme em um festival de teatro. Por mais que a elas se apliquem teorias literárias para a análise estrutural da narrativa, elas não são literatura, são histórias em quadrinhos. São artes diferentes, com sentidos estéticos distintos. São linguagens diferentes. Usam signos e técnicas narrativas diferentes. Sua leitura é diferente.

Essa discussão data de, pelo menos, fins de 1960 e início dos 1970, época em que iniciaram os estudos teóricos a respeito da linguagem. Neste começo de século, as pesquisas acadêmicas registraram um significativo aumento no volume de estudos. Esses novos trabalhos acadêmicos têm convergido para a leitura de que quadrinhos não são literatura. Trata-se de uma linguagem artística autônoma, assim como o teatro, o cinema, a dança e tantas outras formas de manifestação, a literatura uma delas.

Sem entrar em discussões teóricas, considero que os quadrinhos não são propriamente literatura. Eles são uma linguagem autônoma composta de palavras e elementos visuais. Por sua vez, o Jabuti não é um prêmio de literatura, mas um prêmio para incentivar o mercado do livro, do qual os quadrinhos fazem parte. Acredito que uma das funções do Jabuti é justamente estimular esta produção. Além de valorizar escritores, o Jabuti destaca a ­qualidade do trabalho de todas as áreas envolvidas na criação e produção de um livro. Como a própria organização afirma: o maior diferencial do Jabuti em relação a outros prêmios literários é a sua abrangência.

A cultura pop mudou o mercado editorial

Os quadrinhos fazem parte do chamado mercado geek, que tem impactado as vendas de livros entrando quase sempre nas listas dos mais vendidos e revolucionando a cadeia editorial, desde a aquisição de títulos, passando pela produção e pelas formas de publicação, chegando a como se vendem e se divulgam os livros no país.

Nos últimos anos temos acompanhado o crescimento de várias editoras focadas nesse nicho e selos editoriais de quadrinhos e literatura fantástica sendo criados  pelas grandes editoras para atender esse público. Trata-se de um segmento que movimenta uma boa fatia da verba do mercado editorial.

Para as consultorias internacionais o negócio do entretenimento no Brasil vai gerar US$ 70 bilhões até 2018. O apelo e a temática geek seguem conquistando espaço cada vez maior de mercado. Existe um alto poder de consumo (fidelidade aos temas de adoração) e, aparentemente, esse potencial não atingiu seu limite.

Financiamento coletivo

Um novo modelo alternativo de realização de quadrinhos no Brasil também tem crescido de forma significativa. Trata-se do financiamento coletivo. Atualmente, ele ocupa espaço de destaque dentro da produção nacional e tornou-se fundamental para os quadrinhos independentes.

Somente no Catarse, por exemplo – uma das várias plataformas disponíveis – publicações como Opala 76, de Eduardo Ferigato (vencedor do HQMIX, na categoria publicação independente de autor); The hype, de Marcel Ibaldo e Max Andrade (publicação independente edição única) e São Paulo dos mortos vol. 3, de Daniel Esteves (publicação independente de grupo) foram viabilizadas graças a ele.

Só em 2017, somados os projetos apoiados no segmento dos quadrinhos, o Catarse já arrecadou mais de R$ 190 mil reais, com mais de 39 mil pessoas apoiando. Para o pessoal que produz quadrinhos, ele tem feito a diferença. De 2011 para cá, diferentes projetos ajudaram a colocar quadrinhos no mercado via esta plataforma, que fez circular um montante superior a R$ 4 milhões e viabilizou mais de três mil projetos.

Editora SESI-SP apostando no mercado

Entre as editoras indicadas ao prêmio de melhor do ano do Troféu HQMIX, a SESI-SP Editora liderou desde o início a corrida com 20 indicações. E conseguiu chegar na reta final em primeiro lugar.

É bom lembrar que a SESI-SP Editora apostou pesado em 2016, publicando mais de 40 títulos. Lançado em setembro de 2015, o selo de quadrinhos SESI-HQ, desde então, tem aberto espaço para diversos artistas nacionais, entre quadrinistas, roteiristas e ilustradores, levando ao público brasileiro produções inéditas e de alta qualidade.

Segundo seu editor-chefe, Rodrigo de Faria e Silva, “o selo é um espaço aberto a gêneros e estéticas narrativas diferentes, e é direcionado ao público infantil e juvenil sem engessar as possibilidades desta linguagem ou limitar a criatividade dos talentosos quadrinistas brasileiros”.

Para ampliar a produção de quadrinhos no país, ajudando novos autores a publicar e colaborando para sua popularização, a SESI-SP Editora e a Quanta Academia de Artes firmaram uma parceria e criaram o selo ­SESI-Quanta Quadrinho. “Com este novo selo, a Editora tem a perspectiva de se fortalecer no mercado de quadrinhos, abrindo mais espaço para novos talentos e também para autores já conhecidos do público. A parceria com a Quanta foi apenas a primeira. Muitas novidades virão por aí”, completou Rodrigo.

Além de editora do ano, a SESI-SP levou o troféu publicação infantil com O roubo do Marsupilami, da série francesa Spirou e Fantasio, de enorme sucesso na Europa, mas que nunca foi publicada de forma continuada no Brasil. Mostrando que os quadrinhos europeus vieram para ficar.

Prêmio Ângelo Agostini

É uma das mais tradicionais premiações dos quadrinhos realizada no Brasil. Criado e organizado pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP), o prêmio tem como objetivo “o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional”. A escolha dos contemplados é feita por votação pela internet, e conta com a participação de profissionais da área, estudiosos, amadores, aficionados pelos quadrinhos nacionais e público em geral.

O nome do prêmio é em homenagem a Ângelo Agostini (1843-1910), criador da primeira história em quadrinhos brasileira: As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à corte, que começou a ser publicada em 30 de janeiro de 1869. Por isso, o dia 30 de janeiro foi escolhido “Dia do Quadrinho Nacional”.

Inicialmente, o prêmio visava destacar profissionais que estivessem ligados aos quadrinhos nacionais por, pelo menos, 25 anos (denominados “mestres do quadrinho nacional”). Depois, ampliou-se a premiação para os melhores trabalhos do ano anterior. Hoje em dia, ainda existe premiação para produção alternativa, por meio dos fanzines.

Troféu HQMIX

Prestes a completar 30 anos como a mais prestigiada premiação dos quadrinhos, o Troféu HQMIX é conhecido pelos entusiastas como o “Oscar das histórias em quadrinhos no Brasil”. O formato do troféu é escolhido a cada ano com um personagem de quadrinhos brasileiro para servir de modelo.

Foi criado em 1989, pela dupla JAL e Gualberto Costa, no programa TV Mix, da TV Gazeta, de São Paulo; e depois apadrinhado por um dos seus apresentadores, Serginho Groisman. Do programa de TV veio a ideia e o nome do troféu. O TV Mix foi um programa revolucionário e referência até hoje, exibido entre 1987 e 1990.

Idealizado por Marcelo Machado, era um programa de variedades, misturando jornalismo, videoclipes, comentaristas dos mais variados assuntos, como sexo, cinema, artes, teatro, culinária e quadrinhos, além de humor, dentro de um formato inovador para a época. Fernando Meirelles dirigiu a atração até 1988, sendo substituído por Tadeu Jungle.

Atualmente, para concorrer ao HQMIX, os autores, as editoras e produtores precisam fazer inscrição dos trabalhos. Eles são analisados por um júri de profissionais e pesquisadores que indicam até dez trabalhos em cada categoria, que entram em uma cédula de votação para seguir em uma votação nacional feita por profissionais da área, por meio da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB) e do Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil (IMAG).

Além disso, existe um grupo responsável pela análise de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), dissertação de mestrado e tese de doutorado concluídos no ano anterior, com votação fechada. Em 2017 foram contempladas 32 categorias, além das três outorgadas pela comissão organizadora.

Harvey Award

É um dos prêmios mais respeitados da indústria de quadrinhos e o segundo prêmio mais importante nos Estados Unidos. O Harvey reconhece realizações notáveis em mais de 20 categorias.

O seu nome é um tributo ao cartunista e editor Harvey Kurtzman (1924-1993). Foi criado em 1988, no Chicago Comic-Con, pelo editor e crítico Gary Groth, presidente da editora Fantagraphics, para ser o sucessor do Kirby Award, descontinuado em 1987. As edições do Kirby Awards eram organizadas por Dave Olbrich, um funcionário da editora. Em 1987, com a saída de Olbrich, a Fantagraphics decidiu encerrar o Kirby e instituiu o Harvey Awards.

É feito por voto aberto entre os profissionais dos quadrinhos. Os vencedores são selecionados a partir dos cinco melhores indicados em cada categoria para uma rodada final de votação.

Atualmente, o Harvey não está mais afiliado à Fantagraphics. O Comitê Executivo do prêmio é composto por voluntários não remunerados e estão bem financiados pelas generosas doações de seus patrocinadores.

Os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá foram premiados pelo Harvey Awards, em 2008, por The Umbrella Academy (Melhor Nova Série); e em 2011, por Daytripper (Melhor História em Edição Única). Em 2009, Gabriel Bá ganhou na categoria Melhor Desenhista, por The Umbrella Academy.

Eisner Award

O Will Eisner Comic Industry Award (abreviado para Eisner Award e traduzido como Prêmio Eisner) é um prêmio que distingue os feitos e a conquista criativa nos quadrinhos.

Seu nome é uma homenagem ao quadrinista e escritor Will Eisner (1917-2005), criador do herói Spirit e autor de várias graphic novels e de diversos livros didáticos sobre narrativas gráficas.

Para selecionar os concorrentes, um grupo de cinco membros se reúne e cria uma lista de indicados para cada uma das categorias, a partir de trabalhos realizados no ano anterior. Depois, é feita uma avaliação com profissionais dos quadrinhos e os vencedores são anunciados na Comic-Con International, uma convenção de quadrinhos que acontece anualmente em San Diego, na Califórnia.

O prêmio Eisner foi organizado pela primeira vez em 1987, por Dave Olbrich, um funcionário da editora Fantagraphics Books, depois da descontinuidade do Prêmio Kirby, dedicado à indústria dos quadrinhos que era promovido pela Fantagraphics. Por dois anos Olbrich organizou o Eisner até que, ao ver-se incapaz de reunir os fundos necessários para a edição de 1990 – que acabou não ocorrendo – passou a responsabilidade para a Comic-Com.

Os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá foram premiados pelo Eisner Awards, em 2008, por Sugarshock (melhor quadrinho digital) e 5 (melhor antologia). Em 2011, pela obra Daytripper (melhor série limitada). Em 2016, por Dois irmãos (melhor adaptação de outro meio).

Grand Prix de la ville d’Angoulême

O Festival de Angoulême, (Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême) é o mais importante evento de quadrinhos da Europa e um dos mais populares do mundo. Durante o evento, a pacata cidade francesa de Angoulême tem seus dias agitados e recebe fãs de diversos países.

Criado em 1974, é um evento anual que se divide em três frentes: exposição, premiação e a feira propriamente dita, composta de uma série de atrações como encontros, espetáculos, sessões de autógrafos com os principais autores presentes. O festival é aberto ao público.

As premiações do festival são atribuídas por um júri previamente selecionado, mas o público também pode votar no “Prix du Public Cultura”.
O prêmio mais conhecido do festival é o Grand Prix, que homenageia todo o conjunto da obra de um artista. Ou seja, não é uma premiação para o melhor do ano, mas um reconhecimento à obra do quadrinista agraciado.

Em 2016, o brasileiro Marcello Quintanilha, com o álbum Tungstênio, recebeu um dos prêmios de Angoulême, o Fauve Polar-SNCF, concedido ao trabalho no estilo romance policial, adaptado ou original.

Ignatz Award

Desde 1997, o prêmio Ignatz reconhece realizações que se destacam em quadrinhos e desenho animado, principalmente norte-americanos, produzidas por pequenos criadores de imprensa ou projetos publicados por editores maiores.

O prêmio recebeu seu nome em homenagem a George Herriman (1880-1944), e sua tira Krazy Kat, que apresenta o rato Ignatz – que costuma jogar tijolos na cabeça do gato Krazy, que, por sua vez, interpreta o ato como um sinal de carinho.

A premiação acontece durante a Small Press Expo (SPX), o primeiro festival independente de animação e artes de quadrinhos da América do Norte.
A SPX reúne anualmente mais de quatro mil artistas e fãs dos quadrinhos. Desde 2014, é realizada em Bethesda, North Bethesda ou Silver Spring, Maryland.

A votação é feita pelos participantes da edição anual da SPX, por meio de um painel de cinco membros composto por profissionais dos quadrinhos. As cédulas são oferecidas pela SPX e estão abertas para todas as pessoas presentes, expositores e público em geral. Depois que todas as cédulas foram coletadas no dia do prêmio, elas são contadas e divulgadas no SPX.

The Adamson Statue

O prêmio de quadrinhos mais prestigiado da Suécia é concedido todos os anos pela Svenska Serieakademien (Academia Sueca de Quadrinhos) para um criador de quadrinhos sueco e um internacional. A academia é uma organização sueca fundada em 1965 pelo jornalista Sture Hegerfors, que tem sido seu presidente desde o início, e é baseada na estrutura da Academia Sueca e tem 18 membros, mas é voltado para a arte dos quadrinhos.

A estatueta é nomeada em homenagem ao quadrinho Adamson (conhecido em inglês como Silent Sam ou Adamson’s Adventures), criado por Oscar Jacobsson (1889-1945), em 1920.

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Silvio Alexandre

Silvio Alexandre

Silvio Alexandre é editor e gestor cultural. Quando as estrelas assumiram a formação correta, ele escutou um sussurro nas trevas do povo de Cthulhu e colaborou na publicação mais ambiciosa já levada a cabo em língua portuguesa da obra de H.P. Lovecraft: Contos reunidos do mestre do horror cósmico (Ex Machina).

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