Mauricio de Sousa: o mais bem-sucedido projeto editorial de HQ do país

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O tempo nas histórias em quadrinhos avança num ritmo todo peculiar, bem diferente daquele que parece voar no mundo real. Assim, crianças de papel criadas há mais de meio século, como a Mônica e o Cebolinha, mantêm o semblante, a anatomia e o comportamento pueris sem provocar espanto ou estranheza nos leitores. Mas há quem diga que a mesma lógica transcende as páginas impressas e se aplica ao cartunista e empresário Mauricio Araújo de Sousa, pai da turminha do Bairro do Limoeiro, que completou 81 anos no último dia 27 de outubro com fôlego e espírito de um garotão.

Adepto da malhação e sempre sorridente diante das câmeras, o maior vendedor de gibis do Brasil cumpre uma agitada rotina de trabalho que inclui viagens de negócios, longas sessões de autógrafos em eventos literários e, claro, o cotidiano de sua editora, localizada na Lapa de Baixo, zona oeste da capital paulista. Dali Mauricio capitaneia um time de cerca de 400 funcionários. E suas decisões influenciam, indiretamente, outros 30 mil trabalhadores de empresas que licenciam seus personagens. Membro da Academia Paulista de Letras e detentor do cobiçado troféu Yellow Kid, conquistado em 1971 no Congresso Internacional de HQs de Lucca, na Itália, ele ainda faz questão de avaliar os roteiros dos gibis que levam sua logomarca, incumbência que divide com a filha Marina. Nada chega às bancas sem a aprovação do big boss e de seu braço direito, a esposa Alice Takeda, que atua como diretora-executiva dos Estúdios Mauricio de Sousa e examina os desenhos de cada página. Tamanha dedicação ajuda a explicar por que a Turma da Mônica detém mais de 80% do mercado nacional de gibis, ultrapassando a marca de um bilhão de exemplares vendidos. O expediente de suas revistas estampa também os nomes de outros familiares, como a diretora comercial Mônica, filha que inspira a dentucinha dona da rua, e o diretor de teatro Mauro, rebento que, no mundo da fantasia, responde por Nimbus, um garoto aficionado por meteorologia. Ao todo, são dez filhos gerados em quatro casamentos.

Empreendedorismo precoce

Não foi de mão beijada que Mauricio chegou onde está. Nascido em Santa Isabel, cidadezinha próxima a São Paulo, ele arregaçou as mangas desde a tenra idade, engraxando sapatos na barbearia do pai, vendendo na rua os doces caseiros elaborados pela mãe e entregando marmitas feitas por uma prima. Morador de Mogi das Cruzes por um bom tempo, acumulou prêmios cantando no rádio e, aos 14 anos, improvisou um cineminha no quintal de casa para exibir sua versão animada de As Aventuras de Pedro Malazarte, tipo folclórico de grande apelo cômico. Ao mudar-se para a Pauliceia, com 19 anos, o então postulante (autodidata) a quadrinista profissional reuniu amostras de seus desenhos e saiu pedindo emprego em cada redação de jornal que encontrou pelo caminho. Obteve uma vaga de repórter policial na Folha da Manhã, atividade que o ajudou a manter-se enquanto aprimorava o traço ainda incipiente. Foi apenas em julho de 1959 que ele viu publicada a primeira tira, estrelada pelo Franjinha e sua mascote, Bidu, no mesmo diário em que batia ponto. No ano seguinte, o cachorrinho azul ganhou revista própria pela Editora Continental.

A primeira iniciativa revolucionária do autor ocorreu em 1964, quando já reunia Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Piteco, Horácio, Chico Bento, Jotalhão, Penadinho, Astronauta, Anjinho e a riponga Tina em seu portfólio:

ele organizou um sistema de distribuição de tiras, como os dos syndicates americanos, visando atingir o maior número possível de jornais num perímetro de 100 quilômetros que tinha Mogi como epicentro. Funcionava assim: para um diário, ele oferecia gratuitamente o direito de publicação de suas gags – e ficava, em troca, com a matriz tipográfica que lhe permitia vender as mesmas tiras a baixo preço para outros informativos. Assim, por meio do “milagre da multiplicação dos clichês”, Mauricio formou uma clientela sólida e sempre crescente. A produção emergente possibilitou a contratação de auxiliares, aliviando sua carga de trabalho. Em termos.

Uma vez provocado, Mauricio nunca fugiu da raia. Tamanha impetuosidade o levou a cometer sandices no começo da carreira. Em 1965, por exemplo, ofereceu-se à Editora FTD para criar livros infantis ilustrados. A empresa bancou a proposta, apresentando porém um desafio praticamente inexequível: a produção de três títulos de 64 páginas, mais as capas, em cinco dias úteis. À base de madrugadas em claro regadas por muito café, ele e a equipe diminuta entregaram A Caixa da Bondade, O Astronauta no Planeta dos Homens-Sorvete e Piteco a tempo de serem comercializados numa feira de livros. Esses conteúdos, esgotados durante décadas, foram relançados em 2015 pela Martins Fontes na antologia de capa dura Mauricio, o Início.

O mais amado

O segundo pulo do gato deu ainda mais visibilidade às criações do artista. Nos últimos anos da década de 1960, pouco antes de lançar a revista Mônica  pela Editora Abril, Mauricio firmou um contrato para colocar sua turminha na TV, por meio de animações que anunciariam as goiabadas, geleias e outros enlatados da fabricante de alimentos Cica. Foi assim que o Jotalhão, associado a um extrato de tomate, tornou-se “o elefante mais amado do Brasil”. E que uma menina simpática, desenhada no estilo dos gibis, passou a ilustrar a embalagem das Ervilhas Jurema. Em 1976, um curta-metragem exibido à exaustão pela Rede Globo mostrou o Natal da garotada (na trama, todos unem esforços a fim de construir uma chaminé para o Papai Noel trazer presentes seguindo a velha tradição). A experiência, bem-sucedida, incentivou Mauricio a arriscar-se no cinema em 1981 com o longa As aventuras da Turma da Mônica, que obteve ótima receptividade de público. Hoje, é possível assistir regularmente aos episódios animados dos personagens de Mauricio no canal por assinatura Cartoon Network. E a parceria será renovada em 2018 com a série Bairro do Limoeiro, que aposta num visual retrô para embalar planos infalíveis e coelhadas em ritmo de videoclipe.

A publicidade na telinha, somada aos sucessos em acetato e o licenciamento de produtos dos mais variados gêneros − desde brinquedos até peças de vestuário, passando por materiais escolares e itens de decoração de festas − só fizeram expandir o pequeno império (hoje, mais de 150 empresas comercializam cerca de três mil itens licenciados). Distribuídos pela agência Comic Art do italiano Rinaldo Traini, os quadrinhos de Mauricio invadi

FALTA IMAGEM

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ram parte da Europa nos anos 1970; na mesma época, com uma pequena ajuda de Ozamu Tezuka, então uma lenda viva dos mangás, com quem o autor brasileiro partilhava amizade e admiração, o dinossaurinho Horácio chegou ao disputadíssimo mercado editorial japonês. Mônica e companhia também se espalharam pela América Latina. Por aqui, as tiragens dos gibis escalaram patamares inéditos até que, no início da década de 1990, o Instituto de Verificação de Circulação (IVC) constatou que os dez best sellers das HQs impressas no país eram todos do autor, na época publicando pela Editora Globo. Seus gibis agora saem pela multinacional Panini, que acrescentou ao catálogo periódicos como Turma da Mônica Jovem e Chico Bento Moço, impressos em preto e branco, com formato diferenciado e dirigidos a leitores adolescentes, além de graphic novels luxuosas em que quadrinistas da novíssima geração revisitam personagens como Astronauta, Chico Bento e Coelho Caolho, dando a eles uma interpretação pessoal. E os roteiristas e desenhistas dos estúdios, que costumavam ter seus trabalhos editados de forma anônima, vêm finalmente recebendo os devidos créditos.

Embora possa dar a impressão de que tem o toque de Midas, transformando em ouro tudo aquilo em que encosta mesmo em tempos de crise, Mauricio de Sousa também coleciona revezes em sua trajetória. Prova disso são os cancelamentos dos selos As Tiras Clássicas da Turma da Mônica, que pretendia coletar em livretos todas as gags publicadas originalmente em jornais (a interrupção se deu no volume 7, que trouxe material de meados dos anos 1970) e Turma da Mônica – Coleção Histórica, cujas caixas reuniam edições fac-similares dos primeiros gibis da galerinha (a procura aquém do esperado decretou o fim da série no número 50), além da revista periódica do Ronaldinho Gaúcho, que parou na 100a edição. Mais grave que isso tudo, no entanto, foi a dívida acumulada de R$ 40 milhões, em 2010, como consequência da má gestão do Parque da Mônica, complexo temático então instalado no Shopping Eldorado, próximo à Marginal Pinheiros. Débito renegociado em 2013, o centro de diversões foi reaberto dois anos depois no Shopping SP Market.

Arte em quadrões

O cartunista e empresário cultiva o hobby de pintar e esculpir seus personagens parodiando obras-primas da arte universal − esses trabalhos, que hoje decoram as instalações da sede de seus estúdios, já compuseram a mostra Mauricio 50 Anos, alusiva ao meio século de carreira do autor, no Museu Brasileiro de Escultura, e foram reproduzidos nos livros História em Quadrões, volumes 1 e 2. Outra celebração marcante originou a intervenção urbana Mônica Parade, no cinquentenário da personagem, dois anos atrás: nos mesmos moldes da Cow Parade, diversos artistas plásticos foram convidados a colorir e customizar meia centena de esculturas de 1,6 m da garotinha de força descomunal e pavio curto. A exposição itinerou por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Mônica nas telas

Mauricio não para. Durante a terceira edição da Comic Con Experience (CCXP), megaconvenção de quadrinhos realizada em dezembro de 2016 em São Paulo, ele anunciou, entre várias novidades, duas empreitadas cinematográficas estreladas por atores de carne e osso. Turma da Mônica Jovem − O Filme, com viés mais engajado e apelo ambientalista, vai apresentar a antenada youtuber Ramona e o garoto Geek, cujo nome fala por si. E Turma da Mônica − Laços, dirigido por Daniel Rezende e inspirado nos quadrinhos homônimos dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, colocará em xeque a amizade da criançada ao longo de uma batalha contra uma poderosa corporação.

Vale lembrar que, desde 1997, Mauricio mantém um instituto que leva seu nome e desenvolve campanhas de cunho social, educativo e institucional. Esse caráter de sua obra rendeu à Mônica o título de Embaixadora da Unicef em 2007. A baixinha gorducha e seus coleguinhas estão em todas as mídias − inclusive teatro e internet − e, se depender dos planos e da capacidade realizadora de seu criador, continuarão nos corações e mentes de muitas gerações de fãs. Certamente, com a mesma carinha alegre e despreocupada de quem dispõe de todo o tempo do mundo.

Um amor de família

Nem todas as criações de Mauricio de Sousa se mantêm em pauta. Não há, pelo menos por enquanto, nenhum lançamento que contemple a tira Os Sousa. Desconhecida pelos novos leitores, a série de gags diárias circulou em jornais como a Folha da Tarde entre 1968 e 1989 e, de início, inspirou-se na realidade do próprio artista. Repletas de referências à boêmia e à infidelidade conjugal, as piadas miravam o público adulto. No atual contexto em que prevalecem as posturas politicamente corretas, muitas delas seriam classificadas como machistas e, por vezes, misóginas. Quem rouba a cena em Os Sousa é o bon-vivant Mano, caricatura de Márcio, irmão caçula de Mauricio falecido em 2011. Márcio, que trabalhou como argumentista de HQs, criou tipos como Rolo e o Louco. E teve como amigos, na infância passada em Mogi, os meninos que originaram Cebolinha e Cascão.

No fim de 2016, Mauricio de Souza visitou a SESI-SP Editora e foi recebido pelo editor-chefe, Rodrigo de Faria e Silva, que mostrou a crescente coleção de HQs.

minientrevista

Com a palavra, o pai da turminha

O senhor não aparenta, de jeito nenhum, a idade que tem. As histórias em quadrinhos são sua fonte de juventude?
Com certeza. Acho que sou um dos personagens de 7 anos de idade da turminha clássica. Todo ano eles fazem 7 anos novamente. Bem, fazer o que gosta nos rejuvenesce a cada dia.

O senhor tem muitos herdeiros de carne e osso e também uma vasta galeria de tipos de papel. Com base nessas experiências, dá para avaliar o que é mais complicado: criar filhos ou personagens de HQs?
Todos são filhos que queremos que cresçam e tenham sucesso na vida. Os de carne e osso são mais autônomos e cada qual com a riqueza de suas características pessoais. Os de papel até que dão pra controlar mais, só que os leitores são pais também e fazem o sucesso de cada um.

Existe uma lenda segundo a qual o dinossauro Horácio é a sua criação favorita e que somente o senhor o desenha. Há alguma verdade aí? Nesse caso, os leitores não devem esperar que haja uma graphic novel estrelada por ele e assinada por outro autor?
O Horácio é mais um dos meus filhos de papel que amo como os outros cerca de 300. Mas tem uma linha filosófica parecida com a minha e por isso é mais difícil de passar para outro autor fazer. Alguns acertam uma parte e eu dou uma mexida para arredondar o roteiro. Mas no caso das graphics é outra formatação que passa pelo estilo e ideia do autor que irá produzi-la. Aguardem pra ver.

 

A Turma da Mônica Jovem vai envelhecer um dia? O senhor vê, a longo prazo, a baixinha dentuça cercada de filhos e netos?
Esse é um dos nossos projetos mais ambiciosos. Está sendo formatada a Turma da Mônica Adulta para daqui a uns três a quatro anos. Os personagens começarão com cerca de 25 anos e a cada ano farão aniversário, envelhecendo, ou evoluindo, ao mesmo tempo que seus leitores. Será um folhetim ao estilo novela que fala o que está acontecendo no mundo em tempo real.

O sucesso de seus personagens inspirados em jogadores de futebol depende, de algum modo, do desempenho em campo desses atletas? Que futuro o senhor projeta para o gibi do Neymar?
Temos uma história com personagens reais do esporte que é inédita no mundo. Veja que não acontece dessa forma em outras produções adaptadas pelo planeta. Para que isso dê certo como o Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar, de início, é claro que está bem atrelado ao personagem real. Mas como falamos de uma época da infância de cada um, o personagem virtual vai criando seu mundo na imaginação do leitor e vai descolando do real que está adulto. Depois de um tempo a revista se sustenta, como a do Neymar. Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho são publicadas agora em edições especiais.

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Marcelo Alencar

Marcelo Alencar é jornalista. Foi editor no Grupo Abril, colaborou em O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, chefiou a reportagem da Gazeta Esportiva e editou conteúdos educativos na Fundação Padre Anchieta. Atualmente, traduz quadrinhos Disney para a Editora Abril. No biênio 2011-2012, presidiu a comissão organizadora do Troféu HQ Mix.

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