Hilda Hilst: o nosso tempo é agora

A atriz Luciana Domschke em cena do filme "Hilda Hilst pede contato".

Vasta ventura! Muito festejada foi a escolha de Hilda Hilst como autora homenageada na 16a edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Não é segredo nenhum as reclamações da escritora por não ter recebido, em vida, o reconhecimento que sentia lhe ser devido. Após catorze anos de seu falecimento, a escritora recebe enfim homenagem de importância incontestável.

“A Flip vai abordar a Hilda total”, afirma Joselia Aguiar, jornalista, historiadora e curadora da Flip, referindo-se à diversidade de gêneros literários presente nos 28 livros de Hilst publicados em vida. “Ela fez poesia, teatro, prosa, da lírica à pornografia, tendo a questão entre o religioso e o erótico presente o tempo inteiro na obra”.

A homenagem da Flip gera interesse sem precedentes por sua obra – se nas décadas de 1990 a 2000, seus leitores eram mais amantes da poesia, da literatura de experimentação ou provenientes do meio acadêmicos, agora a obra de Hilst escancara barreiras rumo a um público mais amplo.

Muito do que contemplamos em 2018 se dá, sem dúvida, pelo trabalho incessante de amigos da escritora durante duas décadas. Maria Luiza ­Mendes Furia, jornalista especializada em literatura e escritora que conviveu com Hilst, enumera dois marcos:

Um marco seria a assinatura de contrato com a editora Globo, mediada pelo escritor José Luis Mora Fuentes. “A Globo, uma casa de grande porte, que publicou toda a sua obra nos anos 2000, tinha plena capacidade de distribuição dos livros pelas livrarias, assim como uma equipe para divulgá-la pelo país inteiro – o que as editoras anteriores, como Massao Ohno, Nankin e até a Siciliano não tinham”, explica Furia. O segundo marco para preservação de sua memória será a fundação do Instituto Hilda Hilst.

Diante de todas as iniciativas, coroadas com a homenagem na Flip, assistimos hoje não só à publicação de Da poesia e Da prosa pela Companhia das Letras, mas também da graphic novel de A obscena senhora D. Suas obras teatrais serão publicadas pela Coleção L&PM Pocket, em dois volumes, com apresentação de Leusa Araujo e comentário de Carlos Eduardo Zago.

No cinema, com estreia prevista para o dia 2 de agosto, “Hilda Hilst pede contato”, de Gabriela Greeb, um filme que mescla aspectos documentais com ficção (72 min., 2018), inspirado em pesquisa extensa sobre a Casa do Sol e as vivências da escritora. Greeb também lançará o livro, de nome homônimo, pela Editora SESI-SP.

“Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato.
Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, me vi.”

(trecho de “Da Noite, I”)

Hilda Hilst pede contato

A criação do filme e do livro de Gabriela Greeb deu-se por um achado: numa caixa de papelão, descobriram-se mais de cem horas de gravações da própria Hilda buscando as vozes de mortos. Segundo Greeb, um tema comum das obras é a escuta: “No filme, Hilda quer ouvir a voz dos mortos, quer ouvir palavras, e por isso se põe num intenso exercício de escuta. O livro também será um exercício de escuta, pois será estruturado como uma grande partitura, a transcrição do filme, de entrevistas.” O material poderá também ser ouvido por QR Code.

A Casa do Sol é elemento vital no filme e no livro: “É bonito porque o lugar tornou-se mágico por conta de sua própria história. A casa é ao mesmo tempo o container da obra e também uma de suas obras, mais uma de suas ficções, com as histórias fantásticas que ocorreram aí dentro: visitas de mortos, discos voadores, festas, incêndios. Tudo era possível acontecer na Casa do Sol.”

“(…) pois é sempre o isso meus queridos, cinco ou seis pensamenteando, folhetos folhetins afrescos, sussurro no casebre, na casinhola das ferramentas, no poço seco, e depois uma nítida vivosa sangueira, e em seguida o quê?”

(trecho de “Axelrod”)

Casa do Sol: rede de mel, ofício de magia

Um feito artístico de Hilda Hilst foi ter concebido a Casa do Sol. A casa não somente foi sua residência por 38 anos e de incontáveis cães, mas reuniu amigos em torno da literatura. Uma rede de mel para acolher o ofício da escrita. Habitando um polo inverso à reclusão, Hilda recebia visitas, como Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles, cartas, livros, assinaturas de revistas, jornais. Algumas visitas, inclusive, se converteram em moradores.

Leusa Araujo, escritora, jornalista e pesquisadora que conviveu com Hilda, sublinha um cotidiano apolíneo: “A disciplina era total: Hilda escrevia bem cedo, sozinha, no quarto. Depois vinha pra sala, almoçava. Descansava e voltava a escrever. Cuidava dos cães. E às 18h, tomava um uísque e gostava de ver novelas da Globo”.

Recorda-se ainda da época em que conviveu na Casa: “Hilda gostava de ouvir nossos sonhos, histórias ‘extraordinárias’ pessoais ou de família. Mas, em geral, os assuntos em relação ao que estava escrevendo eram preponderantes. Assim como o mercado editorial. Não gostava de andar e, então, sempre pegava um de nós pelo braço e íamos passear até a mangueira no quintal e sentar nos bancos de pedra”.

Maria Luiza Mendes Furia relembra “as estrelas vistas do pátio, a voz da poeta lendo seus textos, quando eu os datilografava ou quando alguém pedia, ou refletindo em voz alta sobre suas dúvidas filosóficas e espirituais numa sala em que a acústica sempre foi muito boa, o privilégio de privar de sua intimidade torna inesquecíveis os anos em que pude ser sua amiga”.

Construída em 1965, a Casa foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas com esforços de Daniel ­Fuentes. Sedia o Instituto Hilda Hilst e já recebeu mais de trezentos residentes. O espaço é aberto a visitações: www.hildahilst.com.br.

Storyboard de Bertrand Guillou para o longa “Hilda Hilst pede contato.”

Mulheres e Hilda Hilst: porque fui tudo isso, bruxa, duende

Sem dúvida, a crescente mobilização por mais mulheres representadas na literatura fortalece a obra de Hilst, dentro de um panorama social maior de conquistas de direitos das mulheres no Brasil. A estatística da professora Regina Dalcastagnè é alarmante: de todos os romances publicados pelas principais editoras brasileiras, em quinze anos, 72,7% dos autores são homens (período de 1990 a 2004).

Hilda Hilst surge, então, como um escudo, uma estrela. Traduzindo um sentimento comum sobre a obra de Hilst, a escritora Geruza Zelnys explica que “precisamos de escritoras ‘imortais’ para abrir caminho para nós, as escritoras vivas”. Não é à toa que duas antologias recentes de mulheres trazem Hilda como inspiração: Blasfêmeas – mulheres de palavra (org. Marilia Kubota e Rita Bittencourt) e Senhoras obcenas (org. Adriana Caló e Graziela Brum).

A obra de Hilst apresenta-se até como escolha apaziguadora para muitos lados, inclusive ao gosto de uma ótica conservadora, sublinhando-se que é paulista, filha de um fazendeiro de café. Hilda de Almeida Prado Hilst cursou direito no Largo São Francisco e sua escritura possui referências clássicas – europeus como Beckett, Camões, Donne, Lorca, Pessoa, Rilke e brasileiros como Drummond, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes.

Ainda pode-se dizer que não se sentia confortável com questões feministas. Em mais de uma entrevista, marca um distanciamento da produção de mulheres: “A literatura das mulheres é sempre aquela coisa diluída, congelada, distante, sem analogias fortes, sem resistência, ao contrário dos meus textos”, declara a Vilma Arêas e Berta Waldman em 1989. Das poucas mulheres que cita, Renata Pallottini, Simone Weil e Sylvia Plath, além das místicas religiosas como Sóror Juana e Teresa de Ávila. Em sua obra, a oscilação entre erotismo e santidade poderia ser interpretada, inclusive, em uma chave de aprofundamento de sentimentos católicos.

Entretanto, devagar com o andor, “o ser humano é complexo”, alerta a própria Hilda. Hilst é uma uma inspiração viva às gerações atuais de escritoras, pois corporifica uma antecessora literária das gerações de agora.

Decidida, esforçada, disciplinada, com clareza ímpar das forças que a cercavam. Uma mulher com escolhas vida absolutamente incomuns. “Nasceu em 1930, mas teve, ao contrário de muitos escritores da sua geração, um comportamento bem de contracultura”, afirma Leusa Araujo. Na literatura, inverteu arquétipos, escolheu cantar o amor, a morte. Com uma potência desejante, sem hesitações ante declinações. Utilizou o recurso de vozes poéticas de mulheres, escreveu sobre fisiologia, corpo, sexo, velhice.

“Ela era uma mulher livre”, define Joselia Aguiar, “uma mulher que não se encaixava no que era se esperado, um casamento com filhos”. Pondera que, por conta de tudo o que vivemos nos últimos cinco anos, processo de redescoberta e recuperação de escritoras, haverá “uma abertura para entender estas autoras em suas especificidades”. Mesmo então uma análise feminista poderá dar conta de compreender as particularidades de Hilda ao falar o que falava e escrever o que escrevia.

Assim, se por um lado Hilda não se identificava com escritos de mulheres de sua geração, por outro, sua literatura propõe outros papéis e possibilidades às mulheres, imaginações libertárias, uma poética do desejo. Não é de se admirar que não conseguisse se livrar de estereótipos que barravam o alcance de sua literatura. Leusa Araujo aponta: “Sem dúvida, Hilda foi tremendamente afetada pelo fato de ser mulher e por todo um anedotário em torno dela. Pude ouvir isso de editores.”

Esperta e irônica, Hilst toureou à unha preconceitos, publicando no final da vida obras pornográficas e satíricas, como se colocasse mais veneno para gerar um antídoto: a trilogia O caderno rosa de Lory Lamby, Contos d’escárnio e Cartas de um sedutor (1990-1991), completada por Bufólicas (1992), serviram de provocação, uma isca para se reparar na existência de sua obra.

“De que não cabe medida se se trata
Dessa coisa incontida que é o amor.

O coração amante se dilata. O preconceito?
Um punhado de sal num mar de águas.”

(trecho de “O poeta inventa viagem, retorno e morre de saudade, IX”)

Esplêndida altivez, a obra completa

“Na Casa do Sol, tem um relógio com os ponteiros caídos e a inscrição ‘É mais tarde do que supões’. Quando eu comecei o filme, em 2009, tinha a impressão de estar sempre atrasada ao olhar para este relógio, mas hoje, ao terminar o filme no mesmo ano da Flip, finalmente entendi a frase enigmática. Não era que eu estava atrasada, o filme ficou pronto na hora certa: eu estava adiantada, o que eu estava fazendo era algo que pertencia a um tempo futuro. Sinto o mesmo com relação à Hilda. Ela escreveu sua obra num momento em que as pessoas ainda não estavam prontas para entendê-la”.

Esta anedota de Gabriela Greeb explica com genialidade um aspecto da obra hilstiana: apenas seria compreendida muito mais à frente. Em seu tempo, Hilda Hilst sofreu por ser uma figura genial. Joselia Aguiar pondera: “a tendência é que mulheres sejam ainda mais vistas como loucas do que como geniais. As excentricidades de Hilda e sua devoção à literatura foram mal interpretadas, complementando o fato de a obra exigir uma leitura de entrega e atenção”.

Talvez agora seja a hora de emergir a escritora altiva, de bom humor, com voz bonita e empostada, cheia de paixões, anseios existenciais, descobridora de palavras fabulosas, rodeada de livros e amigos. Geruza Zelnys aconselha: “é uma mulher que nos obriga ao mergulho profundo para poder rasgar a superfície. Menos luz e mais escuros é o caminho para acessá-la.”

Hoje, às vésperas da Flip, é possível enxergar com mais clareza a obra integral de Hilda Hilst. Um legado de 28 livros, cartas, crônicas, entrevistas. Uma obra literária na qual árias e odes são invertidas rumo à expressão máxima do desejo pela linguagem, densa e clandestina. Um registro de liberdade absoluta de expressão, contrastando o divino, o pornográfico, a morte e o amor.

Uma literatura visionária, tão ao gosto dos tempos de agora. Gabriela Greeb sugere: “Hoje, acostumado à linguagem da internet, o leitor assimila com facilidade o fluxo de pensamento não linear de Hilda”. Seu encontro com leitores hoje é marcado por sua força e paixão, entregues em uma literatura performática. Segundo Zelnys, “na minha experiência, Hilda se lê em voz alta sempre”.

“É mais tarde do que supões”. Bem, parece que chegou a hora. Hilda Hilst descansa satisfeita com suas raízes e próprias proezas rumo ao futuro.

“Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.”

(trecho de “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, II”)

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Ana Rüsche

Ana Rüsche

Ana Rüsche é escritora e doutora em letras pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou cinco livros, entre eles o romance Acordados (Demônio Negro, 2007). Seu último livro é Furiosa (poesia, 2016). Fez a tradução do título Blacksad - Amarillo para o português para a SESI-SP Editora

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