Os contadores de histórias

Poderia ser só mais uma história de garotos tímidos que gastam as horas da infância e da adolescência, aparentemente muito mais elásticas que as da vida adulta, copiando imagens de gibis. Só que os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá atravessaram as fronteiras do ambiente doméstico e se tornaram os quadrinistas brasileiros mais premiados nos Estados Unidos – cinco vezes o Eisner, o Oscar dos quadrinhos, o mais recente deles em 2016; quatro vezes o troféu Harvey –, com obras traduzidas para doze idiomas e muitos leitores que acompanham com ansiedade cada novo trabalho. Tamanho sucesso não chegou de repente. O primeiro fanzine foi publicado em 1993, quando ainda estavam na escola. Em 2017, completaram vinte anos de carreira, contados a partir do primeiro número da série 10 pãezinhos, que começaram a produzir durante a faculdade de artes plásticas. Na mesma época, a dupla passou a frequentar festivais nacionais e internacionais de quadrinhos, procurando conhecer a obra de autores independentes e entender os meandros do mercado editorial de HQs.

Tanto em suas obras originais, como Daytripper, que em 2011 figurou por semanas na lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times, quanto nas adaptações de títulos literários, como O alienista, Dois irmãos e Como falar com garotas em festas, o que instiga Moon e Bá é a possibilidade de contar histórias cheias dos detalhes que povoam o cotidiano, de reflexões sobre as consequências de nossas escolhas. Não só: gostam de pensar as sutilezas dos relacionamentos, a morte e a vida, as angústias que afinal são comuns a todos nós. E, como são muitos os caminhos para contar uma boa história, os gêmeos assinam seu primeiro texto para o teatro, 3 mundos, em cartaz até dezembro no Centro Cultural Fiesp. Ambientada em futuro pós-apocalíptico, a peça trata da tentativa de controle pelo discurso e da necessidade de questionar verdades absolutas.

Os autores falaram da experiência na dramaturgia e de sua trajetória na conversa que tivemos em seu estúdio, no bairro da Vila Madalena, na manhã de uma sexta-feira bastante chuvosa em São Paulo. Depois de quase duas horas de papo e da visita intrépida de um roedor – fã de quadrinhos, quem sabe? –, eu os deixei trabalhar, e alguns raios de sol já atravessavam as portas de vidro de sua espaçosa área de trabalho.

Como foi o processo de escrever 3 mundos, a aproximação com a dramaturgia? Qual é a relação prévia de vocês com o teatro?

Gabriel Bá: Nós participamos do grupo de teatro da escola, escrevemos duas peças para a apresentação de final de ano do curso de inglês. Parecia até mais fácil do que os fanzines, os colegas ajudavam, não precisava desenhar tudo. Mas, quando a Paula Picarelli, que é a idealizadora do projeto, nos convidou para escrever a peça, nós tivemos que reavaliar o que entendíamos por teatro, pensar nas diferenças entre criar uma HQ e criar para o palco, no que seria escrever um texto para que outros artistas trabalhassem a partir dele. Isso é algo muito diferente do nosso processo, o teatro é essencialmente coletivo. A primeira versão do texto não tinha muitas descrições visuais, era mais focada nos diálogos. Depois a equipe pediu mais referências de imagens e nós fomos construindo juntos.

A encenação da peça joga o tempo todo com as projeções em 3D: os atores interagem com elas e o público assiste a uma alternância de planos. Esse recurso me fez pensar na dinâmica das HQs – é nesse ponto que as linguagens se cruzam?

Fábio Moon: Não foi um pedido nosso que a peça tivesse tanto a cara de uma história em quadrinhos, mas foi algo que a Paula Picarelli nos trouxe desde o princípio, uma vontade de que a peça tivesse uma grande carga visual.

Bá: Para nós é incrível observar o resultado visual da peça. É uma experiência muito diferente para o público, porque muitas camadas da história interagem simultaneamente, são diversas possibilidades narrativas que coexistem
em cena.

Moon: O espetáculo é muito coreografado, até porque há movimentos de ­kung fu na peça. A Paula pratica kung fu e queria que o tema entrasse de alguma forma, assim como a questão das seitas, do controle. Nós pegamos tudo de que mais gostamos desses elementos e criamos a história. Quando a gente era moleque, nós assistimos a muitos musicais da Broadway, neles os atores interagem bem com o cenário e têm movimentos muito precisos, e nós queríamos que neste trabalho o movimento dos personagens seduzisse o espectador, que as cenas de luta tivessem dramaticidade. E isso a equipe conseguiu construir.

Nos quadrinhos, os autores têm o controle de todo o processo: como o desenho e o texto interagem, o que fica em cada quadro. No teatro, vocês entregaram o texto para que outros profissionais criassem com base nele. Como foi abrir mão desse controle?

Moon: Nós esperávamos isso, acho que buscamos essa perda de controle. Queríamos ser uma faísca que inspirasse os outros artistas envolvidos e também queríamos nos surpreender com o resultado final.

Bá: Fazer quadrinhos é uma arte muito espacial, você trabalha dentro do espaço da página, tudo precisa ser muito medido, muito pensado. É como um poema. A construção acontece em várias etapas, para mexer um pouco no texto é preciso alterar vários desenhos. Na etapa do rascunho ainda dá para fazer mudanças, mas, depois que a dimensão visual está desenvolvida, fica complicado mexer. Então, nessa experiência no teatro, tinha certo medo dessa falta de controle, mas tinha também uma vontade de ser surpreendido. Foi bom ver que o trabalho recebeu camadas de significados propostas por outros artistas.

As HQs assinadas por vocês costumam retratar a vida interna dos personagens, ao contrário de uma tradição que tem enredos mais maniqueístas, com tramas que opõem super-heróis e vilões. Essa era a vontade desde o princípio? Como vocês desenharam esse caminho?

Moon: O relacionamento entre as pessoas é o que nos interessa, as escolhas que todos fazemos no dia a dia e as consequências na nossa vida e na de outras pessoas. Depois de um entusiasmo inicial para fazer histórias de super-heróis, porque é o que a gente lia, queríamos criar narrativas que pudessem estabelecer uma ligação íntima com os leitores. Essa relação de identificação é o que nos faz gostar de ler livros, de ver filmes, é o que tira a gente do lugar, dá uma chacoalhada. Nós percebemos que queríamos fazer justamente isso através dos quadrinhos. Tanto as histórias que a gente escreve quanto as histórias que a gente adapta têm que falar de relacionamentos, têm que tratar sobre como as relações moldam o mundo. Nós não vivemos isolados, sempre estamos em contato com o outro. Isso talvez seja porque somos gêmeos. Nunca existiu só “eu”, sempre foi “nós”.

Bá: Nós éramos tímidos quando crianças, tivemos certa dificuldade em quebrar a nossa bolha, e a comunicação entre a gente era muito fácil. Nem precisávamos conversar, ficávamos desenhando.

É comum começar a desenhar copiando as imagens preferidas. O que e quem vocês copiavam? Algum desses nomes permaneceu como uma referência fundamental?

Bá: Líamos e copiávamos todo tipo de gibi, de livro, o que nos deu uma bagagem muito variada. O nosso desenho é uma amálgama dos quadrinhos de super-heróis que lemos na infância, depois das HQs alternativas brasileiras e de quadrinhos europeus, do que aprendemos na faculdade de artes, tudo isso foi se colocando no nosso traço. Mas acho que o desenho por si só não tem tanta força. Muitos autores de quadrinhos são desenhistas compulsivos: para eles as histórias são só uma desculpa para encaixar um desenho atrás do outro. No nosso caso, os desenhos soltos eram só cópias, e cópias são cascas vazias. O estofo que a gente buscava veio mesmo com as histórias. Quanto mais apego à narrativa, ao desenvolvimento do enredo, melhor ficava nosso desenho, porque passava a ter uma função. A gente não desenha só para ser bonito. Nós percebemos que essa seria a nossa diferença, porque tem gente muito melhor em desenho propriamente dito. Mas, quando somados às narrativas, nossos desenhos crescem muito, têm algo de especial. Não somos os caras que têm um sketchbook cheio. Até já fomos, mas cada vez estamos mais interessados em ouvir o que as pessoas dizem, estabelecer ligações, pensar em conflitos de personagens. Até porque, quando desenha, você também se isola, é um processo que tira a atenção do entorno, o desenho é um escape. Quando saímos do nosso estúdio, da nossa bolha, nós queremos prestar atenção nas pessoas, porque é dessa observação que vão sair as melhores histórias.

Quem eram os ídolos, os quadrinistas mais admirados?

Bá: Ah, são muitos. Mas a Laerte é a nossa maior influência.

Moon: Mas é complicado dizer que a Laerte é a nossa maior influência hoje em dia, porque nós crescemos lendo suas histórias mais longas, que saíam na banca, na revista Circo, na Chiclete com Banana, na Piratas do Tietê. E isso é muito pouco conhecido atualmente, a Laerte ficou muito marcada pela tira de jornal, que é outro discurso, outro jeito de fazer quadrinhos.

Bá: É ótimo também, mas é diferente do que nós crescemos lendo, histórias extraordinárias num cenário claramente paulistano.

Moon: Nós reconhecíamos o cenário da Vila Madalena, as calçadas quebradas, as árvores misturadas com os fios, os predinhos. Então tínhamos a impressão de que mesmo histórias fantásticas com piratas nos rios, com fadas e bruxas, poderiam acontecer um dia. Essa coisa de criar uma fantasia e convencer o leitor foi algo muito presente para nós. Tanto nas histórias da Laerte quanto nas do Will Eisner, e mesmo em algumas narrativas de super-heróis, como Watchmen, do Alan Moore, e O cavaleiro das trevas, do Frank Miller. Eles tentaram mostrar o que aconteceria se você levasse algum aspecto desses mitos de super-heróis a sério, pensaram as consequências das decisões dos personagens, que envelhecem, morrem. E a morte é um tema que nos interessa, a morte faz pensar na vida. O Daytripper é sobre isso.

E que autores contemporâneos de HQ acompanham com mais interesse?

Moon: Tem um cara que se chama Jeff Smith, que fez um gibi chamado Bone durante uns 15 anos. Ele é uma grande influência para o meu traço, porque também desenha com pincel, e é o autor independente dos Estados Unidos que mais deu certo. A obra é uma espécie de O Senhor dos Anéis com Pato Donald, tem uns bichinhos fofos num mundo mágico, tem reis e rainhas, fadas e dragões, e uma trama de relações complexas entre todos esses personagens. Ele é um exemplo de que, se você quer fazer um trabalho que ninguém está fazendo, você pode fazer de modo independente. Existem histórias que valem a pena ser contadas, mesmo que elas não se encaixem em moldes editoriais. É profundamente inspirador ver alguém que faz e dá certo. Anos depois, Bone foi editado por uma grande editora.

Bá: Preciso citar um francês chamado Cyril Pedrosa. Nós conhecemos o trabalho dele em um gibi chamado Três sombras, que é em preto e branco e fala sobre a relação de um pai que tem medo de perder o filho. Depois ele publicou outros três livros, todos coloridos, são sempre histórias bem pessoais. Ele é muito bom tecnicamente e a cada trabalho se supera, cria algo novo. Tem também o Paul Pope, que começou a fazer quadrinhos independentes nos Estados Unidos um pouco antes de nós e depois foi morar no Japão, pegou um pouco a onda dos mangás. Ele trabalha com ficção científica, mas também fala muito sobre relacionamentos, não se encaixa nas fórmulas do mercado, segue se autopublicando.

Moon: Mas ao mesmo tempo ele tem uma coisa muito pop, um diálogo com histórias de super-heróis, ele fez um Batman futurista de muito sucesso. Ele atinge vários públicos e isso tem uma relação com o nosso trabalho, principalmente quando começamos a trabalhar com outros roteiristas, como em Umbrella Academy e no Casanova, e percebemos que é interessante e importante nos adaptarmos a outros gêneros.

Os trabalhos de vocês são sempre assinados em conjunto. Como é a dinâmica de criação?

Bá: Para a gente o que importa é o produto final. Às vezes um tem a ideia, discutimos e o outro desenha, cada trabalho é um caso. O desenho mesmo é sempre feito por um só, porque é importante que tenha uma unidade, que a técnica não se sobreponha à história. Eu uso caneta, ele usa pincel, mudar de registro no meio de uma obra daria um ruído. Quem conhece mais nosso trabalho sabe até identificar de quem é o desenho.

Vocês, há pouco, completaram vinte anos de carreira, de trânsito no mercado nacional e internacional de quadrinhos. Que mudanças mais significativas observaram?

Bá: A maior mudança, que é muito positiva, é o fato de que o autor de agora já entendeu que existe a possibilidade de ele contar a própria história, do jeito que quiser, com os personagens que quiser. Porque cresceu em meio a muita variedade. Nos anos 1980, os quadrinhos estavam na banca e você só via praticamente a Turma da Mônica e as HQs de super-heróis. E quem cresceu nessa época quis fazer super-herói porque achava que era esse o único caminho; então teve muita frustração, porque era muito difícil atingir esse modelo de fora aqui, ninguém estava interessado em um Capitão Brasil. A partir dos anos 2000, o mercado começou a se reinventar, as editoras começaram a publicar obras que não passavam pelas bancas e iam direto para as livrarias, livros como Estranhos no paraíso e Balas perdidas, e os autores nacionais também começaram a publicar histórias mais pessoais. A geração que vem a partir dos meados dos anos 2000 já se libertou desse molde. E quem começou a produzir quadrinhos agora lê muito mangá, vê muita tv a cabo, tem acesso aos artistas pela internet, segue os quadrinistas nos sites, nas redes sociais. Então as referências são muito mais variadas. Quem faz quadrinhos hoje não tem mais uma ideia preconcebida e isso é muito bom.

Moon: A distância entre o autor e o público diminuiu muito nos últimos anos, principalmente por conta dos festivais de quadrinhos. O público descobre os autores e os autores descobrem que têm um público interessado no que eles fazem, e isso estimula a autopublicação, faz a ponte para os financiamentos coletivos. Coisas muito diferentes e boas têm vindo daí. Ainda não dá para viver de quadrinhos no Brasil, mas dá para ser bastante lido, o que já é um grande passo.

Distopia Possível

Seitas, kung fu, controle, visual pop, narrativas cruzadas. A atriz Paula Picarelli tinha vontade de juntar todos esses elementos, à primeira vista dissonantes, em uma peça de teatro. “Pratico kung fu desde 1998, uma arte marcial muito poética, muito coreográfica. Fiz parte de uma espécie de culto por oito anos e também queria muito abordar esse tema em uma peça. Entreguei um dossiê sobre esses dois assuntos para o Gabriel Bá e o Fábio Moon e assim começou a história desse projeto”, conta Paula. Dirigida por Nelson Baskerville, com ilustrações de Guazzelli e projeções animadas pelo estúdio Bijari, 3 mundos discute fanatismo e manipulação em uma realidade devastada pelo consumo desenfreado. “Parece algo muito distante, mas são temas muito atuais, vejo como ameaças possíveis”, diz Nelson Baskerville. Para o diretor, o principal desafio foi alinhar todas as linguagens. “Os atores contracenaram o tempo todo com cromaqui, nós tínhamos que imaginar as ilustrações e projeções que chegaram com o processo já bem avançado. É uma experiência inédita no Brasil.” Paula Picarelli arremata: “É engraçado que a peça fala sobre controle e nós o perdermos no processo; a peça tomou caminhos inusitados. E isso é muito interessante para quem cria”.

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Sheyla Miranda

Sheyla Miranda

Sheyla Miranda é jornalista e mestre em teoria da literatura pela Universidade de Barcelona. Trabalhou nas editoras Abril e Trip, na Folha Online e há três anos é repórter do Arte 1. Ela cuida da pauta de livros e teatro do canal.

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