O pai perdido da Tropicália

Um biógrafo em busca de um escritor – e de uma editora

O jornalista Vinicius Galera, autor do romance Linha verde (Pasavento), escreveu a biografia O homem hibernado, A vida de José Agrippino de Paula como apoio à sua tese de mestrado Fora do lugar, orientada por Eliane Robert Moraes (ambos os livros ainda buscam editora). Ele conversou com a Ponto sobre a extenuante investigação que empreendeu em busca da vida e da obra do pai da Tropicália.

Na sua pesquisa sobre a vida de Agrippino, que descobertas foram as mais surpreendentes?

As lacunas do período em que viveu fora do Brasil, passando por lugares tão diversos quanto Europa, Nova York e pela África setentrional. Foi nesse período que ele escreveu um romance hoje perdido, Terracéu, e eu me surpreendi quando soube que fragmentos desse livro foram publicados em uma revista nos anos 1970. Outro momento importante e fecundo é o período em que ele estudou arquitetura no Rio de Janeiro, quando perambulava pelas ruas observando a cidade sozinho ou acompanhado. Por sorte, essas perambulações foram registradas e boa parte delas está em Lugar público.

Por que PanAmérica segue um livro tão subvalorizado?

Pela ruptura. PanAmérica é um livro desconcertante. Por um lado, ele pode ser associado a qualquer obra que tenha rompido com padrões, mas ele é muito radical no que parece ser um afastamento da própria literatura, ou seja, ele não tem precedentes e, de certo modo, ao seu modo tão original, acaba impedindo o estabelecimento de uma filiação. Acredito que a leitura desse livro exige uma escolha de leitores e até mesmo de escritores: queremos seguir com ele ou sem ele? Sem ele é mais fácil. Ao colocar em cena o cinema e o contexto histórico do período que vai do pós-guerra aos anos sessenta, quando é escrito, e ao adotar um narrador obsessivo e não fazer concessões à linguagem literária, PanAmérica acaba se colocando numa posição única e portanto marginal dentro da nossa literatura. Evelina Hoisel, que realizou um estudo pioneiro sobre esse livro e também sobre a peça Nações Unidas, observa que, em PanAmérica, a alta e a baixa literatura perdem suas fronteiras. Acredito que tudo isso, associado a questões como a postura quase descuidada do autor diante de seu trabalho, o período em que ele viveu – o da ditadura militar –  e o mercado editorial, que tradicionalmente não se volta para experimentações desse tipo, tenham tornado o livro mais do que subvalorizado, mas esquecido. Ainda em relação à postura do autor, é preciso compreender que Agrippino, como Jorge Mautner, de quem é contemporâneo e do qual foi amigo, não fazia nenhuma questão de integrar qualquer patota ou de assumir uma imagem tradicional de escritor. Basta observarmos que, enquanto a grande maioria usava ternos e camisas e os cabelos engomados, Agrippino usava batas e tinha cabelos e barbas compridos como um hippie.

Podemos encontrar algo razoável em Madame estereofônica?

Acho difícil. Há cerca de um ano recebi de seus herdeiros duas caixas com os originais de seus livros e com algum material inédito. Ainda não terminei a leitura desse material, mas, do que li, não vejo nada com a força de PanAmérica. Talvez as caixas com os cadernos escritos em seu último período, o de Embu, hoje em poder da Editora Papagaio, possam revelar algo. Ou então se fosse encontrado o manuscrito de Terracéu. Mas o que é fundamental para entendermos o trabalho literário de Agrippino é o seu método fragmentário. Ele escrevia trechos isolados para depois juntá-los formando os livros, ou seja, não ­trabalhava o material da composição a partir de uma sequência linear. Em uma entrevista bastante importante à Revista da Civilização Brasileira, concedida em 1966, ele expõe o que considero sua poética: “Não escrevo um livro ou romance, simplesmente escrevo uma ou duas páginas”. Foi assim que fez seus dois livros. Talvez, não fosse pela doença, ele pudesse ter organizado mais livros como esses em outros momentos.

Com quem você falou sobre Agrippino para sua biografia?

A biografia foi escrita como um projeto de conclusão de curso de jornalismo em 2010. Eu a escrevi em um curto período, que não considero satisfatório, durante cerca de quatro meses. Ainda assim, fico bastante contente com o resultado. Para fazê-la falei com cerca de cinquenta pessoas entre amigos como Carlos Henrique Escobar, José Roberto Aguillar, Jorge Mautner e Rogério Duarte, profissionais que trabalharam com ele em seu teatro e cinema, editores e familiares. Depois, entre 2012 e 2016, estudei apenas os romances de Agrippino em meu mestrado em literatura. Ainda assim, realizei outras entrevistas para tentar preencher lacunas deixadas pela biografia, tendo conversado com gente como ­Caetano Veloso e Sérgio Mamberti.

Agrippino se inscreve em algum cânone da literatura brasileira?

Creio que não, foi precisamente por isso que chamei minha tese de Fora do lugar. ­Agrippino produziu uma literatura deslocada. Talvez ele possa ser associado a autores de obras experimentais de vanguarda apenas, mas seu trabalho é muito peculiar. Nada, porém, impede isso. Longe de querer compará-los, é sempre bom lembrar que durante muito tempo ­Shakespeare não fazia parte do cânone da literatura inglesa.

Até que ponto a esquizofrenia pode ser uma chave para a leitura de sua obra?

Essa é a grande questão que envolve Agrippino. Ele fez uma obra tão peculiar porque foi diagnosticado como esquizofrênico? É muito difícil qualquer afirmação nesse sentido, ainda que a associação entre sua obra e sua doença pareça inevitável. Como biógrafo, lembro que ele teve um diagnóstico tardio, quando tinha mais de quarenta anos e quando já tinha feito suas principais obras. Além disso, alguns dos meus entrevistados na biografia que conviveram com Agrippino também disseram terem tido diagnósticos de esquizofrenia. É bom lembrarmos que estamos tratando de um período em que era comum tratar desvios comportamentais ou extravagâncias como casos psiquiátricos. De todo modo, acredito que a questão deve ser enfrentada. Durante meu mestrado, em diversos momentos quis tratar os romances de José Agrippino isoladamente, apenas como os fatos estéticos e literários que são, mas minha orientadora, Eliane Robert Moraes, sempre fazia questão de me lembrar que Agrippino é um autor cuja obra está intrinsecamente ligada à vida.
E essa vida tão intensa associada à força da literatura que produziu reforçam ainda mais sua peculiaridade.

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Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane é escritor e jornalista. Publicou, entre outros, Metafísica Prática (Oito e Meio) e Sandiliche (Cosac Naify).

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