O ganho do humor

Protagonista de nova montagem de A visita da velha senhora, texto fundamental do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt, a atriz Denise Fraga defende o riso como ferramenta poderosa para levar à reflexão. E é com um sorriso no rosto que ela e seus companheiros de elenco cumprimentam os espectadores e começam o espetáculo caminhando e cantando pelos corredores do teatro SESI-SP – todo o espaço se transforma em Güllen, a fictícia cidade natal de Claire Zachanassian, personagem de Denise e a tal velha senhora do título. Milionária, ela é ansiosamente aguardada por ser a única esperança de resgate financeiro do pequeno município, arrasado economicamente. Topa ajudar, mas impõe a condição de que matem Krank, o amor de juventude que a abandonou grávida, fez com que fosse expulsa de Güllen e se tornasse prostituta. O enredo articula na sequência uma crítica voraz à força do dinheiro e à dissolução de valores éticos e morais.

“O texto é uma aula de dramaturgia, não tem uma palavra ou gesto fora do lugar. E Dürrenmatt disse que nada atrapalharia mais este trabalho do que não ser levado como uma comédia”, conta Luiz Villaça, diretor da montagem. “O autor dizia que a tragédia do nosso tempo só pode ser representada através do humor”, completa Denise. Encontraram juntos o tom para a vilã, que é crua e impiedosa, mas também sedutora, engraçada, o que deixa o público sem saber se concorda ou crucifica suas ações. “O público gargalha assistindo à peça, mas não é qualquer risada. É aquele riso que eu chamo de ‘pior que é’, em que o espectador ri enquanto se dá conta da miséria humana, das nossas falências e eternos dilemas morais.”

No escritório de sua produtora, que fica no andar térreo do prédio em que vive em São Paulo, Denise me recebeu com um suéter verde-bandeira que realçou a nova cor de seus cabelos, pintados de ruivo para interpretar a vilã. Falou à revista Ponto sobre as complexas relações entre dinheiro e poder e a importância do humor para sua trajetória artística, que começou quando tinha dezoito anos. A seguir, os melhores momentos da conversa:

Denise, se há algo que parece costurar os seus trabalhos em diferentes fases e plataformas,  principalmente no teatro, é o humor. O que a fez escolher tantos trabalhos que pegam o público por esse viés?

O humor virou quase uma condição sine qua non para eu topar um projeto. Vai além do trabalho, é como uma filosofia – acredito que através do humor você faz ver, consegue chamar a pessoa pela cabeça, pela inteligência. Há diversos tipos de humor e sinto que cada vez mais me instiga o que se manifesta pela palavra, pela ironia. A coisa que mais adoro é pegar um texto que acho que tem essa força e fazê-lo acontecer. O Brecht é um autor que amo por conta disso, é dele uma máxima com a qual me identifico muito: “Divertir para comunicar”. Acho que ninguém precisa ir ao teatro para ter paciência; você tem que capturar o espectador, seduzi-lo. O humor é uma grande ferramenta para isso, mas não só, é uma via de grande potencial para provocar um grau profundo de contemplação. Meus olhos batem naquilo que tem humor, e minhas escolhas de teatro têm muito a ver com o que me faz brilhar o olho, com o que acredito que tenho que dizer.

E como você chegou a este texto do Dürrenmatt?

Há anos tenho a prática de fazer leituras na minha casa, assim surgiu a montagem de A alma boa de Setsuan, Galileu Galilei, e agora A visita da velha senhora.
É sempre com o mesmo grupo, e fazemos isso não só para conhecer novos autores, mas também para revisitar alguns que lemos na escola de teatro. Como nos conhecemos há muito tempo, não temos vergonha um do outro, já lemos o texto representando, então é muito divertido. O Zé Maria, que é nosso produtor, disse que precisávamos voltar ao texto do Dürrenmatt. Quando li, falei: “Caramba! A gente precisa montar!”. O projeto surgiu há quatro anos e até me assusto, porque parece que a peça foi encomendada no ano passado – e o autor escreveu o texto em 1956. O clássico sobrevive porque trata não dos problemas, mas dos dilemas humanos: os problemas têm solução, já os dilemas são eternos. E o Dürrenmatt aborda dilemas com muita habilidade, muita técnica. Ele escreveu uma comédia trágica ou uma tragédia cômica, porque ele imprime um timing cômico muito preciso, muito rico.

Com a montagem de A visita da velha senhora, você parece completar uma trilogia com dois trabalhos anteriores: A alma boa de Setsuan e Galileu Galilei (ambos baseados em textos de Brecht), que também abordam relações conflituosas entre dinheiro, poder e moral. Por que discutir esses temas a move especialmente?

Existe um grande tirano que é o sr. Mercado. Imagina um senhor gordo, suando, sentado numa poltrona, que coloca uma canga no nosso pescoço.
É muito importante discutir a questão econômica porque vivemos num país em que o básico não está garantido. Você pensa se vai ter filho ou não porque não sabe se vai poder pagar uma escola, mas se esquece que no quarteirão em que mora tem um colégio. O duro é que lá os professores estão sendo espancados, as professoras, estupradas. A educação pública entrou num descrédito tamanho… quando tive filhos, pensei em colocá-los em uma escola municipal ou estadual – estudei a vida toda na rede pública –, mas não tive confiança. Falo da educação porque é um tema que me toca e que tem muito a ver com o capital. Na alma boa…, a Chen Te, minha personagem, dizia: “Como é que posso ser boa tendo que pagar o aluguel?”. Galileu Galilei fala muito de resistência, de ética, de seguir os próprios ideais. A Güllen imaginada por Dürrenmatt está numa situação terrível, não sei até que ponto minha ética resistiria à miséria, se eu não roubaria um quilo de feijão se meu filho estivesse passando fome. O Brecht perguntava: “Que ética resiste à fome?”. E a Claire Zachanassian, minha personagem atual, é a encarnação mítica do dinheiro. O capitalismo é feito de dívida, da corda no nosso pescoço, e a Claire faz isso, coloca a corda no pescoço daquela cidade. A peça é uma grande crítica ao sistema em que vivemos. Agora a minha luta diária é para que as pessoas saiam do teatro questionando se precisa ser assim, pensando no que que podemos fazer para mudar, nem que sejam pequenas atitudes cotidianas. A ideia é que a pessoa veja a peça no sábado e na segunda-feira reveja sua postura no escritório, não aceite certas injustiças, consiga se posicionar com mais consciência.

Que reflexos do texto do Dürrenmatt você vê na realidade brasileira?

Diante dos festivais de malas de dinheiro, penso no quanto a corrupção tem raízes profundas aqui. Não são só nos que estão lá em Brasília nos abandonando, não cumprindo com as obrigações mínimas que têm com a população. Mas também no quanto é corrupto quem propõe favorecimentos em negociações que deveriam ser isentas, desde uma empresa de dedetização de um prédio que oferece o serviço de graça para o apartamento do zelador até em contratos de publicidade que escondem bonificações. A cultura do favorecimento é algo muito profundo e prejudicial por aqui, e está por todos os lados.

A montagem trata dessas questões densas, mas é permeada por muita música, você canta para pontuar momentos-chave da narrativa. Como tem sido a experiência de soltar a voz em cena?

Adoro cantar, mas sou cantora de chuveiro, nunca tinha cantado no palco. Tenho uma rodinha de samba, uma cantoria muito amadora, mas que é uma delícia. Para essa peça o Luiz pediu que eu usasse mais a voz e logo pensei em brincar com a coisa da ópera, porque a personagem é poderosa, tem um ar de diva. Fomos criando juntos e é um exercício muito bacana para mim.

As peças em que você atua costumam ficar longas temporadas em cartaz, vários meses, às vezes anos. Como são esses períodos de contato intenso com o palco para você?

Deixo as peças se esgotarem, temos isso como princípio de produção. Sempre vai ter mais um lugar que precisamos ir e claro que para isso é importante ter um patrocínio consistente. Com Galileu…, fizemos o Brasil de cabo a rabo, nos apresentamos em 28 cidades, se não me engano. Desde teatros burgueses, perfumados, até nos teatros dos CEUs, nas periferias, atingimos plateias de todas as idades, de todas as classes. O que eu quero é comunicar, propagar boas ideias. Quero que o teatro esteja cheio em todas as apresentações, a peça tem de estar boa todo dia, meu critério de qualidade é ferrenhíssimo. Se acho que não está bom, fico doente, sabe? Eu encho o saco do Luiz (Denise e Villaça são casados), volto para casa e falo: “Amor, então…”. Discutimos as cenas de novo e de novo. O teatro tem uma felicidade que é ser móvel, dá pra ir ajustando aos poucos, é muito bonito. O teatro é um ritual de comunhão de ideias, gosto de pensar que o espectador volta para casa diferente, o ator também volta diferente.

Você viaja com frequência pelo Brasil desde 2003, ano em que começou a rodar o país com os seus espetáculos. O que essas experiências de estrada trouxeram de mais precioso para você?

Esperança. O Galileu… me fez ter fé de que é balela essa história de que o público não quer pensar. E quando tem humor no meio, tem prazer no meio também. Talvez 60% das pessoas que assistiram a A alma boa de Setsuan ou Galileu Galilei não sabiam quem foi Brecht, e agora muitas que vão assistir a A visita da velha senhora não sabem que foi Dürrenmatt, mas entendem o que eles quiseram dizer, os textos falam com todo mundo. Acho que essa é a grande função do ator, dar de presente para o público algo que ele não conhece e precisa conhecer, não por imposição, mas por prazer. No meu caso, quero usar inclusive a comunicabilidade que a televisão me deu para chegar em mais gente. Sempre digo: “Não solta a mão da dona Maria!”. O espetáculo precisa comunicar para cumprir sua missão.

A dona Maria, a figura de qualquer pessoa comum parece te despertar muito interesse, tanto que por anos seguidos você fez o Retrato falado, no Fantástico, que dependia de uma interação com o público.

Lembro que, quando fazíamos o Retrato, sempre pensávamos que não podíamos rir da pessoa que tinha escrito uma carta para o programa, mas rir com a pessoa. Todas as peças que já montei e tenho vontade de montar surgiram do meu contato com o outro. Prezo muito pela minha urbanidade, vou ao sacolão, vou ao cinema sozinha, vou andar no Minhocão no final de semana, quero ouvir o que as pessoas estão dizendo, o que estão pensando. Gosto de sentir e perceber minha cidadania, prezo pela minha existência no mundo independentemente da minha bolha de amigos.

Neste ano, o Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP completa 30 anos, que é um programa de cursos não profissionalizantes de iniciação ao teatro e de vivência de processos criativos para crianças, adolescentes, adultos e idosos. Qual a importância de o teatro ser ensinado na escola? É que ele continue a ser uma fonte de aprendizado em diferentes momentos da vida?

Por meio do teatro você se amplia, mesmo que não seja sua profissão. Dizer que acredito que o teatro deva ser estudado nas escolas vai parecer que estou puxando a brasa para a minha sardinha, ainda mais diante de uma reforma do ensino que tira a arte da grade obrigatória, que considera a arte supérfluo. Vivemos num país em que consideram a arte como um acessório, uma coisa que se tiver está bom, mas as prioridades são outras, antes deve vir a economia, o dinheiro. Só que desde tempos imemoriais o homem precisa da arte, inclusive para se conectar ao sagrado. Então penso que é importante entrar em contato com a arte não só indo ao teatro, mas também fazendo teatro, porque a arte forma, nos ensina a aprender, e isso é muito potente.

Você começou a fazer teatro aos dezoito anos e agora, mais de 30 anos depois, parece sempre renovar seu interesse no ofício. O que de mais fundamental o teatro ensinou para você?

O respeito pelo humano. Tenho uma conexão com a plateia, faço questão de receber os espectadores na porta. As pessoas falam assim: “Eu vi a da chinesa” [em referência a A alma boa de Setsuan]. Essa frase me faz delirar, porque quem diz nem sabe o nome do Brecht, nem sabe o nome da peça, mas a pessoa me viu em cena e quis voltar a ver. Essa minha conexão com o público é um trabalho de formiga, mas tenho fé nesse trabalho. O teatro me ensinou a me responsabilizar pela minha comunicabilidade. Não escolho uma peça porque quero fazer tal personagem – claro que tem que ter uma personagem boa para mim, mas escolho uma peça porque acredito na força do que ela tem a dizer. Fiz uma hashtag que coloco sempre nas publicações dos meus espetáculos, que é #somostodosprofessores. Temos que nos responsabilizar pelo coletivo, mostrar coisas boas, romper o ciclo vil em que você suspeita que os cantores sertanejos são patrocinados pela Ambev, e por isso falam tanto de bebida nas músicas. É perverso, temos que abrir sempre o diálogo, desenvolver a consciência. E acho que o teatro é uma das melhores formas para ajudar o outro a pensar. Eu acredito muito nisso.

Você já disse que acreditava quando criança que os livros nasciam prontos. E você tem uma relação forte com a literatura, com a expressão escrita: escreveu livros infantis, colunas para a Folha de S.Paulo, tem ainda a da revista Crescer

Foi uma surpresa me chamarem para escrever na Crescer e depois na Folha, mas sempre digo que todo mundo tem seu ser falante e seu ser escrevente. Meu ser escrevente veio com uma volúpia e eu achava que eu não era uma escritora, imagina, nem acho ainda, mas eu sinto agora falta de escrever. Mas como sou muito mais atriz do que escritora, escrevia com uma arma na cabeça porque tinha um deadline. Não escrevo mais na Folha e estou sentindo necessidade de escrever. Então, sinto que existe uma onda, uma onda que vem e é uma onda do cérebro ligado às pontas dos dedos e flui. Quanto mais você escreve mais você quer escrever, e o que acontecia comigo e acontece ainda é que quando eu tenho que escrever um texto, eu fico louca, adiando, adiando, porque nada me parece suficientemente bom para ser escrito, mas aí quando sento lá e começo a formalizar, aí dou um caminhão para não sair de lá. É o prazer do pensamento. E eu acho que a escrita tem uma coisa que ela é música, ritmo. E quer coisa mais musical do que esse texto do Dürrenmatt? É incrível o que ele faz. Ele escreve frases curtas, não cita música clássica na peça à toa. Ele devia amar uma orquestra, a música. Ele sabia o quanto a música está ligada à literatura.

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Sheyla Miranda

Sheyla Miranda

Sheyla Miranda é jornalista e mestre em teoria da literatura pela Universidade de Barcelona. Trabalhou nas editoras Abril e Trip, na Folha Online e há três anos é repórter do Arte 1. Ela cuida da pauta de livros e teatro do canal.

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