Luis Fernando Verissimo: “aforismo é um ‘insight’ que faz sucesso”.

Dá para notar pelo livro Verissimas que você é um cultor do gênero aforismo. Eles saem de um planejamento, isoladamente, ou você os retira de frases de textos seus mais longos? Em outras palavras, onde o seu trabalho como escritor conflui com o de aforista?

As frases do livro Verissimas foram quase todas garimpadas de textos longos pelo Marcelo Dunlop, que é quem teve a ideia de fazer o livro. Poucos são aforismos de propósito.

Você possui algum aforista, pensador ou filósofo do peito?

O Millôr e o Oscar Wilde.

Dizem que Nietzsche tinha uma ambição: dizer em dez sentenças o que qualquer outro diz (ou não diz) num livro. Você também crê que as frases curtas são infinitas?

É, o bom aforismo é o que diz muito com poucas palavras. Quando as palavras são muitas o efeito não é o mesmo. Aliás, não é nem aforismo.

O poeta e estudioso dos aforismos, Adolfo Montejo Navas, descreveu-os assim: “entremeados de rasgos de humor, são belos, secos e misteriosos: pedras pensadas”. Quais são as suas pedras pensadas favoritas – suas ou de outros autores?

Tem uma frase, “Viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta” que eu pensava que fosse minha, mas está no último filme do Woody Allen. De qualquer maneira, gosto dela.

A linhagem de escritores que usam o aforismo para zombar e criticar nossos piores costumes é cada dia menor. Por que um gênero literário, cultuado por Schopenhauer, Wittgenstein e W. H. Auden, está cada vez menos evidente no século XXI?

Hoje existe o Twitter que, pelo menos no tamanho, é um aforismo. Portanto, não penso que se esteja fazendo menos aforismos no mundo. Bons aforismos, sim, estão em falta. Acho que é porque o pessoal ficou mais burro.

O que diferencia um ótimo aforismo de uma frase feita de salão?

Um bom aforismo é sempre uma sacada, um “insight” que faz sucesso. É isso, uma frase de sucesso.

Qual seria uma máxima para o Brasil de 2017?

“Aguenta, que só pode melhorar”.

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Carlos Castelo

Carlos Castelo

Carlos Castelo é escritor e letrista. Lançou onze livros, entre eles o romance policial Damas turcas (Global), a coletânea de crônicas Clássicos de mim mesmo (Matrix) e o volume de máximas e aforismos Orações insubordinadas (Ateliê Editorial). Também é colunista do jornal O Estado de São Paulo (Crônica por quilo) e escreve crônicas e resenhas sobre livros na revista Bravo!

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