A literatura na lente de Daniel Mordzinski

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Autorretrato realizado em estúdio em Buenos Aires, em 2014.

Jorge Luis Borges foi o primeiro escritor a ser fotografado por Daniel Mordzinski. Nessa época, em 1978, ele era assistente de direção e fazia o registro para o documentário “Borges para milhões”. Passados 38 anos, centenas de escritores clicados e o reconhecimento como o fotógrafo dos escritores, Mordzinski lança seu primeiro livro no Brasil: A literatura na lente de Daniel Mordzinski, da SESI-SP Editora, que reúne cerca de 400 imagens de autores ao redor do mundo. E, não por acaso, o primeiro escritor a aparecer neste livro é Jorge Luis Borges. Nascido em Buenos Aires, em 1960, Mordzinksi morou 35 anos em Paris e agora reside em Barcelona. Confira a entrevista que ele concedeu para a revista Ponto:

Você já fotografou escritores de idades, estilos, nacionalidades e mesmo níveis de prestígio muito diferentes. Estipula algum tipo de pré-requisito para que alguém seja fotografado, escolhe-os por admiração ou é uma decisão meramente profissional?
Como retratista, o primeiro e mais importante fator deve sempre ser a pessoa, antes dos prêmios ou da fama do escritor. A minha paixão pelos livros me levou a empreender uma viagem infinita e imperfeita até as faces da literatura. Na minha visão, um escritor não se torna mais “retratável” por ter ganhado prêmios ou porque seus livros possuem mais edições. Fotografo um ganhador do Nobel com o mesmo respeito e entusiasmo com que fotografo um jovem escritor.
Em breve, cumprirei quatro décadas retratando escritores e me sinto muito feliz e orgulhoso de apresentar meu primeiro livro no Brasil. O livro, de capa dura e muito bem editado pela SESI-SP Editora, tem mais de 400 páginas e reúne minhas primeiras fotografias, além de muitos retratos inéditos e concebidos especialmente para a obra. Com um “foco” especial no Brasil e na língua portuguesa, nele também mostro pela primeira vez meus retratos de escritores de todo o mundo.

No geral, os escritores aceitam suas propostas ou há resistência? Algum escritor já se recusou a fotografar? Se sim, por qual motivo?
As Fotinskis (foto + Mordzinski) são travessuras visuais, sempre rápidas e respeitosas. Para que uma Fotinski ocorra, é preciso intimidade (emocional, e não necessariamente física!), um tipo de diálogo, ainda que inaudível, mas não invisível aos olhos do espectador da fotografia. Para mim, a única fronteira clara é o respeito. Os escritores sabem que nunca irei lhes trair e que não prego peças.

Desde quando os escritores passaram a ser seus principais fotografados?
Desde pequeno sempre amei a literatura, o ato secreto de viajar no tempo sem sair de casa ou da biblioteca. Cresci em uma Argentina dura e em uma Europa que começava a intuir o que hoje chamamos globalização. Sempre pensei que nos livros se escondem os verdadeiros segredos da vida, que não são nem o dinheiro, nem o poder e nem a fama. Comecei a retratar os autores que admiro aos 18 anos e, agora, com quase 15… (nasci em um 29 de fevereiro), já tenho alguns autores retratados (contá-los não me faria bem).

Muitas das suas fotos são bem inusitadas. Neste livro que você acaba de lançar com a SESI-SP Editora, por exemplo, o Mario Vargas Llosa está segurando um crânio, a Tatiana Salem está sentada em uma máquina de lavar roupa. Como surge o conceito dos seus retratos? Como se dá a escolha do local e do cenário?
Ainda muito jovem pensei que a melhor maneira de tirar um escritor de sua pose de escritor seria propondo-lhe uma nova pose que se afastasse das bibliotecas, dos livros e dos rostos com cara de pensador… A nova proposta está carregada de vida cotidiana, humor e, às vezes, referências à literatura do autor fotografado.

Julio Cortázar. Foto que compõe o livro A literatura na lente de Daniel Mordzinski.

Acha importante ler a obra de um escritor antes de fotografá-lo?
Nem sempre conheço os autores que fotografo, por vezes não conheço nem mesmo a sua obra, mas sempre procuro criar uma intimidade, uma conexão, uma piscadela, uma cumplicidade. Se o autor sabe, ou intui que esse retrato é “um trato” entre cúmplices, então me deixará fazer uma foto singular. Senão é muito difícil.

As imagens, neste seu último livro em particular, foram dispostas de uma forma planejada, a fim de dialogar umas com as outras? Se sim, quais os critérios utilizados para essa construção? Meramente fotográficos ou houve uma preocupação relacionada ao lugar que os escritores ocupam na literatura?
Trabalho muito a estrutura narrativa de um livro ou de uma exposição. Parto de uma ideia e desenvolvo um conceito. A forma é sempre importante, mas nunca renuncio à emoção e ao sentimento. Levo horas decidindo o lugar de cada foto. Os critérios são muitos, e todos eles subjetivos. Esse é o desafio e me dedico completamente a isso.

Parte de suas fotografias tem um diálogo perceptível com o universo dos seus fotografados (por exemplo: a de Quino, a de Robbe-Grillet…).

Mas mesmo aquelas mais inusitadas (como a de Umberto Eco ou a de Salman Rushdie) têm alguma relação, mesmo que indireta, com o estilo, temática ou biografia desses escritores. Até que ponto suas fotos procuram, de fato, traçar um paralelo com o mundo dos escritores? E até que ponto esses “paralelos” são mera construção mental por parte de quem vê as fotos?
Nem sempre existe essa relação. Os escritores são fabricantes de sonhos e eu, como leitor, me arrisco a interpretar esses sonhos e a traduzi-los em fotografias. Em minhas imagens busco as mil faces que se escondem atrás das palavras. Às vezes há paralelismos com a obra do autor, muitas outras vezes isso não acontece. Sempre busco evitar o lugar-comum.

O italiano Elio Vittorini, um dos primeiros escritores a incorporar imagens fotográficas a um romance, considerava a fotografia um elemento narrativo. Que história você está tentando narrar?
Uma história que é pura literatura misturada com fotografia, respeito e paixão. As protagonistas são as letras, a poesia, a beleza e a alma humana.

Rubem Fonseca.
Foto que compõe o livro A literatura na lente de Daniel Mordzinski.

Eduardo Galeano.
Foto que compõe o livro A literatura na lente de Daniel Mordzinski

Já pensou em publicar um livro em que cada foto venha acompanhada de um texto que aborde toda a sua concepção?
Ótima pergunta. Obrigado. As palavras, as velhas palavras, são muito tentadoras para um grande leitor. Estou trabalhando nesse livro e acabo de passar umas semanas em Buenos Aires, recuperando fragmentos dessa memória íntima que é a adolescência, da qual precisava para entretecer o relato dos meus primeiros anos. Espejos de Plata será uma “intra-história” das últimas décadas da literatura, contada por meio de pequenas e grandes histórias, nas quais os protagonistas serão os escritores.

Adriana Lisboa, no prefácio do seu livro, menciona que suas fotos são também livros. Com base nisso, você diria pertencer a que gênero literário?
Adriana Lisboa é uma grande amiga e uma enorme escritora e eu agradeço suas belas palavras. Se eu tivesse que escolher um único estilo, diria pertencer à crônica literária. Dito isso, a literatura que prefiro é aquela que mistura os gêneros.

Ainda no prefácio, ela pontua que “há fotógrafos que roubam almas; outros as devolvem”. Você se identifica com algum desses dois tipos?
Ficaria feliz em acreditar por um momento que posso devolver, ainda que seja apenas um pouquinho do muito que os escritores me dão.

Quem é o melhor fotografado: o anônimo ou o famoso?
Creio que, paradoxalmente, os autores que mais impressionam (por sua fama, suas lendas ou suas extravagâncias passadas) são os mais dóceis e menos barrocos na hora de fotografar. As situações mais difíceis são as de autores que admiro, talvez pelo fato de não querer decepcioná-los. Recordo a primeira vez que retratei Elsa Osorio. Tinha acabado de ler e chorar por A veinte años Luz; estava comovido, queria escutá-la, fazer perguntas e transmitir o quanto havia gostado de seu livro. Naquele momento, o menos importante eram as fotos.

Leonardo Padura.
Foto que compõe o livro A literatura na lente de Daniel Mordzinski.

O leitor passou por cima do fotógrafo. Terminamos em um café, não houve fotos, mas nasceu uma amizade. Ricardo Piglia afirma em Los diarios de Emilio Renzi que o valor da leitura não depende do livro em si mesmo, mas sim das emoções que sentimos no momento de ler. Comigo acontece a mesma coisa com relação às fotografias. Gosto das imagens que me fazem lembrar dos gratos momentos compartilhados com famosos ou anônimos.

Atualmente, existe uma grande preocupação com a construção da imagem pessoal. O diálogo por meio das redes, sem que saibamos como a outra pessoa se assemelha, parece desprovido de sentido. Você acredita que essa superexposição imagética também tenha atingido o mundo da literatura? Percebeu alguma mudança no seu trabalho ao longo dos últimos anos – seja na postura dos escritores ou mesmo no alcance geral de suas fotografias?
Não sou de frequentar as redes sociais e não faço disso uma postura social ou ética: simplesmente não me interesso e não tenho tempo. Prefiro mil vezes ler uma página de um livro ou escrever um desses velhos e-mails a alimentar uma polêmica na internet.

Qual seu projeto atual? O mais recente Nobel de Literatura, Bob Dylan, já está na sua mira?
Até fevereiro, estou com uma grande mostra antológica no CCK de Buenos Aires. Organizada pela Acción Cultural Española AC/E, a mostra reúne 347 fotografias, muitas delas inéditas ou de nova produção. A mostra tem cinco partes, uma delas, “Como olhar para o que já não existe. Espaços da memória”, é uma instalação composta por documentos, recortes de jornal, câmeras e objetos pessoais que evocam a destruição dos meus arquivos há quatro anos em Paris.
Não quero polemizar, mas penso que o prêmio ao grande Dylan é um soco na cara de milhares de escritores que poderiam ter saído da obscuridade e da ­difícil vida que – em sua imensa maioria – acabam levando por não renunciarem à escrita. Isso não elimina o fato de Dylan ser um grande poeta. Eu seguirei escutando suas canções e lendo livros de poetas esquecidos. Aceitaria feliz se Bob me chamasse para fotografá-lo e levaria de presente um exemplar autografado de A literatura na lente de Daniel Mordzinski.

Ian McEwan.
Foto que compõe o livro A literatura na lente de Daniel Mordzinski.

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