Conversa com Christian Dunker

Nascido em São Paulo, em 1966, Dunker é psicanalista, filósofo e cientista social ligado à USP, onde é professor de psicologia, de orientação lacaniana. Ao lado de Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr. fundou o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Latesfip-USP). Entre seus principais livros estão Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo) e Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano (Ubu).

Você conhece algum estudo ou pesquisador que tenha relacionado escritores brasileiros com doenças psíquicas?

Há vários trabalhos nesta linha, por exemplo, Wilson Franco, nosso aluno do Instituto de Psicologia da USP, estudou as memórias de Lima Barreto. Recentemente publiquei um estudo (revista do SESC) sobre a psicopatologia de Brás Cubas. Temos o caso de Febrônio Índio do Brasil que esfaqueou mulheres no Rio de Janeiro dos anos 1920, tornando-se uma espécie de ícone dos modernistas brasileiros. Stella de Mello estudou a subjetividade esquizofrênica em Clarice Lispector. Confira também o estudo mais genérico da Marta D´Argot sobre literatura e psicopatologia.

Acha que a escrita solitária e seu consequente isolamento podem contribuir de algum modo para com o surgimento de alguma afecção psíquica?

A tese mais clássica é de que a escrita possui uma função estabilizadora ou organizativa para diferentes tipos de psicopatologia, o modelo principal aqui é Joyce, que teria evitado o enlouquecimento, que de fato incidiu sobre sua filha Lucia, em função do trabalho constante e pela função da escrita em sua vida. O caso mais clássico de paranoia foi estudado por Freud a partir do seu escrito autobiográfico, o Daniel Paul Schreber, Memórias de um doente dos nervos. Há uma pequena compilação de escritos sobre a loucura, que está disponível em português. Há um sintoma, que aparece às vezes na mania que é uma certa impulsividade para escrever, às vezes mais de cem páginas em uma semana e há certos tipos de subjetividade, como as personalidades esquizoides e no autismo, nas quais a escrita serve como elemento decisivo para o contato com o outro.

Um dos grandes mitos da arte conecta a criatividade a algum distúrbio mental. De que modo a psicanálise contemporânea lida com este mito?

Nise da ­Silveira

Este é um mito de extração romântica e que concorre para a conexão entre loucura e genialidade. Mas se vamos olhar de perto a vida de Hölderlin, que se suicidou no contexto da composição poética, ou de Van Gogh na pintura ou Artaud no teatro, vemos que isso é em parte uma tentativa de encobrir que a loucura em si mesma é uma experiência trágica de muito sofrimento e que algumas vezes pode ocorrer e impulsionar o trabalho de criação, como uma espécie de tentativa de cura, como trabalho de reinvestimento no mundo e de reconstrução da realidade. As experiências de Nise da ­Silveira no Hospital do Engenho de Dentro são um exemplo brasileiro desta tradição. A psicanálise contemporânea não desistiu da potência terapêutica da estética, algumas vezes apoiada no conceito lacaniano de suplência ou na noção de narrativa desenvolvida por ­Antonino Ferro. Mas podemos dizer que depois de uma relação mais intuitiva entre autor e obra, que tornou a psicanálise uma máquina hermenêutica explicativa, há um recuo da perspectiva psicobiográfica, com a valorização crescente da autonomia relativa entre vida e obra e maior preocupação com os aspectos formais, com relativo decréscimo da abordagem expressivista, na qual a obra servia apenas para falar da subjetividade de seu autor. Dois temas muito estudados são a literatura de testemunho e a literatura organizada em torno do trauma. Temos o mais recente bovarismo brasileiro, de Maria Rita Kehl, que retoma a sua bem-sucedida estratégia de estudar a feminilidade a partir de Madame Bovary. É sempre bom lembrar como os escritores serviram de referência para a diagnóstica: Sade e o sadismo, Sacher Masoch e o masoquismo, ­Flaubert e o bovarismo (sim, é um quadro clínico da psicopatologia francesa).

O alienista (Machado), Sorôco, sua mãe, sua filha (Rosa) e O louco do Cati (Dyonélio) são algumas obras que tematizam as doenças mentais. Existe algum trabalho ou autor que tenha se debruçado sobre o tratamento ficcional da loucura na literatura brasileira?

Existem trabalhos sobre isso, como o de Leandra Brasil da Cruz, estudando o imaginário social da loucura, mas em geral eles se concentram na recepção ou na interpretação social da loucura, nos temas do isolamento e segregação. Destaco o trabalho de Jaime ­Ginzburg sobre as estratégias de silenciamento e de repetição na literatura pós-ditadura, Caio ­Fernando Abreu e Ana Cristina César principalmente, mas de fato não conheço nenhum estudo que tenha enfrentado o problema longitudinal e comparativo das variações dos modos de representação da loucura, seus atravessamentos pelos conflitos sociais e pelos diferentes discursos psicopatológicos que são, em certa medida, covariantes com as formas literárias. Para isso há o texto fundamental de Freud sobre Os escritores criativos e devaneios, no qual ele mostra como os literatos encontram um destino social sublimado para suas fantasias, ali onde os neuróticos produziriam apenas sintomas derivados da negação dessas mesmas fantasias.

Como você, pessoalmente, percebe este tratamento ficcional?

Falta realmente uma formação mais sólida em teoria da literatura e mais especificamente sobre o que se tem feito em torno das estratégias ficcionais, no cinema, mas também por gente como Wolfgang Iser, que permitiria aos psicanalistas uma leitura menos ingênua e menos hermenêutica do campo ficcional. Esse estranhamento entre o real da contradição social e a ficcionalidade que coordena os diferentes regimes de verdade deveria ser examinado a partir da forma estética e de sua historicidades. A verdade tem estrutura de ficção, segundo a tese de Lacan. E o tema da verdade só recentemente tem encontrado uma retomada literária. Ao mesmo tempo existe a tese correspondente de Lacan: o real é o impossível que não cessa de não se escrever. Frequentemente a verdade e o real se apresentam excessivamente confundidos ou demasiadamente separado.

Sei que você gosta de relacionar a psicanálise com a filosofia e as ciências sociais. Na ficção brasileira, conhece alguma obra que tenha feito esta ponte?

Quem tem trabalhos mais expressivos e sistemáticos sobre isso é Jacques Fux, que estudou muita psicanálise e também literatura (e também matemática, a partir de Lacan). Tem o livro da Luciana Krissac Salum, Fragmentos, sobre literatura e escrita da experiência psicanalítica. O grupo de Lucia Castelo, da UFMG, e da Nina Leite, da Unicamp, são conhecidos por trabalhar nesta aproximação. Do lado da literatura tem o trabalho lindo do Moacyr Scliar: Saturno nos trópicos: a melancolia europeia chega aos trópicos; Roberto Schwarz e Antonio Candido têm intuições fundamentais sobre esta relação, assim como Mario e Oswald de Andrade, mas também Mario Pedrosa. Hélio Peregrino tinha algumas intuições boas com a literatura, assim como o clássico Rubem Alves, que era um psicanalista.

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Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane

Ronaldo Bressane é escritor e jornalista. Publicou, entre outros, Metafísica Prática (Oito e Meio) e Sandiliche (Cosac Naify).

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