Tudo o que me falta

Digito as últimas palavras. Salvo o arquivo, imprimo, leio, releio.

Uma bosta.

Os personagens não têm vida; o motivo do ciúme é tosco; o detetive, um completo idiota; a solução depois de duzentas páginas não convence.

Tenho raiva pelo tempo gasto. A vontade é de jogar tudo fora.

Abro o arquivo, releio frases desconexas. Falta ousadia, falta sentimento.

Ela nunca teria matado o cara só porque era traída. Não ela, Eva Green, ambiciosa e decidida. Mais fácil a outra, a sobrinha, uma imbecil.

Os personagens se misturam e carecem de sentido. São todos iguais, insossos, feitos na mesma forma de bolo.

Falta criatividade.

Preparo um chá, acendo um charuto, folheio o jornal. Preciso voltar ao texto, mostrar quem manda.

Falta incentivo. Falta autoestima.

Depois de cento e trinta e sete romances escritos… Depois de cento e trinta e sete romances publicados sob um pseudônimo gringo numa revistinha vagabunda de banca de jornal… Depois de cento e trinta e sete romances vendidos a cinco reais… Meu irmão, você pira. E também não consegue fazer mais nada que preste.

Você vira máquina. Vira meta, objetivo, prazo.

Falta humanidade.

Não interessa o que falta. O importante é ter, no mínimo, cento e cinquenta páginas prontas a cada bimestre. Cento e cinquenta páginas. Senão, o editor chama outra máquina pra fazer o serviço.

Falta competitividade.

Não estou nem aí pro editor. Não estou nem aí pra qualidade da história. Que interessa que Eva Green não tenha um bom motivo pra matar o marido milionário? As pessoas fazem mesmo coisas sem motivo! Matam por matar. Riem só por rir. Elogiam por elogiar. Escrevem cento e trinta e sete livros só por escrever.

Por que agora, no centésimo trigésimo oitavo livro, venho pensar em fazer bem-feito? A história é igual às outras: uma mulher estonteante – lábios ­vermelhos, peitões, voz sedutora – chegando ao escritório do detetive, um triângulo amoroso, um crime sanguinolento, umas cenas de luta, outras cenas de sexo e, pronto, fim. Mês que vem já tem outro livro de Bob ­Hamilton nas bancas de jornal de todo o Brasil.

Tenho vontade de rir quando penso em Bob Hamilton.

Nome tosco da porra.

Bob Hamilton sou eu. Eu e mais outra máquina que reveza comigo. Somos Bob Hamilton. Escritor de sucesso norte-americano que já foi pedreiro, vaqueiro, entregador de pizza, locutor, caixa de supermercado, assistente de farmácia, trompetista, sexólogo, livreiro e agente da CIA. Atualmente, vive com a esposa, três filhos, quatro cachorros e vinte papagaios numa fazenda em Ohio.

Falta personalidade.

Às vezes, fico imaginando o que pensariam se descobrissem a verdadeira biografia de Bob Hamilton: Rio de Janeiro, Copacabana numa quitinete herdada da mãe, escritor, alcoólatra periódico, faculdade de jornalismo incompleta, odeia crentes e políticos, não tem esposa, nem filhos, nem cachorros, nem papagaios. Prefere as universitárias de biblioteconomia e o sotaque do Sul.

Falta sexo.

Não sei bem o que me faz começar o livro seguinte. Falta ânimo, falta autocrítica, falta do que fazer. Isso sim. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer. E que presta – ou prestava.

Tocam a campainha. Atendo. É a outra máquina, a outra metade de Bob Hamilton. Diz olá e vai entrando. Senta-se na poltrona e pede um charuto, como se fosse o dono da casa, o filho da puta. Digo que fumei o último e ofereço água. Quer água?

Ele diz que não, que tem pressa e que só veio dar um recado. Diz que não é mais Bob Hamilton. Que agora eu terei que trabalhar mais. Que agora eu serei Bob Hamilton inteiro. Cento e cinquenta páginas todo mês. Dá teu jeito.

Pergunto se ele ganhou na Sena, se mudou de vida, se agora vai viver com esposa, três filhos, quatro cachorros e vinte papagaios numa fazenda em Ohio.

Falta humor.

Ele ri mesmo assim. Ri e diz que cansou dessa vida. Que cansou de não ter o próprio nome na capa do livro. Que cansou de escrever a mesma merda de sempre. Vai mudar de editora. Vai lançar um livro que preste. Vai ser rico, famoso, essas coisas todas. O novo Paulo Coelho. Maktub. Minha vez de rir.

Ele ergue o envelope. Aqui está o manuscrito. Digo que não acredito. Ele diz que não preciso acreditar. Diz que preciso escrever. Falta tempo. Cento e cinquenta páginas por mês. Diz que está com pressa, que vai se encontrar com o novo editor, que vai entregar o manuscrito, que vai assinar contrato, que essa vida de bosta é passado, que essa vida de bosta é só minha agora. Falta respeito.

Ofereço um uísque e uísque ele aceita. Vou à cozinha, trago o uísque e a faca. Sirvo o uísque. Enfio a faca no peito. Ele grita, regurgita, morre. O corpo no sofá, o copo espatifado no chão, cubinhos de gelo boiando no sangue. E o envelope pardo.

Pego. Leio. Capítulo um. Dois escritores fracassados. O nome dele. O meu nome. Duas metades de Bob Hamilton. Vida que segue, vida que afunda. Uma ideia genial. Um dos personagens – o que tem o nome dele – decide mudar de vida. Escreve um livro. Sabe que vai ser sucesso. Sabe que vai ser rico, famoso e essas coisas todas. O novo Paulo Coelho. Acho divertida a metalinguagem. Continuo lendo.

O personagem dele vem ao encontro do meu personagem. O personagem dele diz que cansou dessa vida, que cansou de não ter o próprio nome na capa do livro, que cansou de escrever a mesma merda de sempre. Mostra o envelope e diz que está com pressa, que vai se encontrar com o novo editor, que vai entregar o manuscrito, que vai assinar contrato, que essa vida de bosta é passado, que essa vida de bosta é só dele agora. Metalinguagem da porra.

Meu personagem mata o personagem dele. Faca no peito. Mata por raiva. Por inveja. Pra roubar a ideia. As pessoas não precisam de um motivo pra matar. Nem pra rir, nem pra elogiar, nem pra escrever cento e trinta e sete livros. Continuo a ler e, no final, vem a carta. A carta em que o personagem com o nome dele explica ao personagem com meu nome que sabia que seria assassinado. Que sabia que ele não resistiria à curiosidade e lhe enfiaria uma faca no peito. Que sabia que estava fadado ao insucesso. Que havia avisado à polícia do crime. E que ela chegaria a qualquer momento.

Solto uma gargalhada. Olho pra porta. Solto outra gargalhada. Que manuscrito é esse? Tocam a campainha. Que manuscrito é esse? Tocam a campainha de novo. Pego a faca no chão. Caminho na direção da porta.
Falta coragem.

Seguro a maçaneta. Seguro a faca. Sei que vou usá-la. Sei que a polícia me espera do outro lado.

Maldito, maldito, maldito!

Ergo a faca.

Abro a porta.

A vizinha se assusta. Diz que só queria um pouco de açúcar. Explica que o açúcar acabou. Que ela está muito velha pra ficar descendo escadas. Que é um absurdo que esses prédios de Copacabana não tenham elevador. Pede açúcar mais uma vez.

Dou açúcar pra velha. Volto pra dentro de casa. O sangue no chão, o corpo da outra metade de Bob Hamilton com um corte no peito. Releio o manuscrito. O desgraçado denunciou pra polícia que seria assassinado quando me visitasse. O desgraçado escreveu isso num livro. O desgraçado pretendia fazer sucesso em cima da própria morte (muitos escritores fazem). A polícia chegando e me flagrando com o livro nas mãos. Best-seller na certa.

Mas a polícia não veio. A polícia não deu crédito ao escritor neurótico que anunciou a própria morte. A polícia tem mais o que fazer.

Vai ver é por isso que romance policial não dá certo no Brasil.

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Raphael Montes

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro (RJ). Escreveu os romances Dias perfeitos, O vilarejo, Jantar secreto e Suicidas, todos pela Companhia das Letras, sucessos de público e de crítica, traduzidos em mais de vinte países e com os direitos de adaptação vendidos para o cinema. Além dos livros, Raphael apresenta um programa de literatura na TV Brasil, o Trilha de letras, e escreve roteiros para TV e cinema.

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