Seja o que Deus quiser*

O dia começa com muito sol e uma preta de lenço vermelho na cabeça sentada no degrau do portão de uma casa antiga. Um homem atarracado desce do ônibus, atravessa a rua e para diante da mulher, que obstrui a sua passagem. Ela está com a cabeça encostada no portão, cochila. O homem pisa no pé descalço da mulher, o rosto negro se abre lentamente.

– Cai fora.

A mulher levanta-se devagar com dois olhos espessos.

– O que é que você está fazendo aí?

– Estou esperando Pedro – responde a mulher.

– Que Pedro?

– Meu homem.

– Ah, seu homem.

– É sim.

– Quedê seu homem?

– Taí dentro.

– Por quê?

– Por quê?

– É. Por quê?

– Sei não.

A porta lateral da velha casa se abre e aparece no alpendre um cabo mulato com cara de sono:

– Você, Bié.

– Tem um Pedro aí?

– Essa mulher dele passou a noite toda aí fora.

– Por que você não mandou ela embora?

– Não mandei como? Tirei até o cinturão.

– E então?

– Ela arredava um pouco, depois voltava e sentava aí.

– Onde é que você mora?

– Pedreira – informa o cabo.

– Seu nome?

– Raimunda – diz a mulher.

– Cabo Elói, qual é a bronca do Pedro dela?

– 155.

– Ela tá de fora?

– O cara é um operário de merda.

– Que merda?

– Fábrica de café.

– Então?

Cabo Elói ri.

– Qual é a graça?

– Ele amoitava um pacote de café na marmita.

Bié para Raimunda:

– O que é que vocês faziam com o café?

– Nada.

– Nada como?

– Não sei.

– Você tá querendo dizer que ele não levava o café pra casa, é?

– Levava não.

– Deixa de ser besta, mulher.

– Bié – diz cabo Elói – ele passava o café.

– Vendia pra quem?

– Sei não, senhor.

– O que é que você sabe, sua Raimunda?

A cara preta se encolhe, amarrotada.

– Responde.

– Nós não toma café não – ela ergue a voz.

– Fala baixo.

– Nós toma é chá. A marmita de Pedro sempre chegou limpinha.

– Quer dizer que a madame toma é chá?

– É sim.

– Olha que eu te enfio a mão na cara.

Cabo Elói: – Espera, Bié.

– Essa crioula tá gozando a gente, cabo Elói.

Bié olha dentro da cara da mulher – uma cara incômoda.

– Vai pra casa.

– Só vou com Pedro.

Bié puxa Raimunda pelo braço, ela se agarra no portão.

– Obedece logo, mulher.

– Então me dá o Pedro.

– Vou te mostrar uma coisa. Cabo, o cinturão.

– Deixa comigo.

Cabo Elói dá a volta no alpendre e desce a escada com o cinturão na mão. Para atrás da mulher, ergue o cinturão. Raimunda permanece imóvel, de costas para o cabo. Este fica um momento indeciso, abaixa o braço:

– Viu só, Bié.

– Filha da puta.

Bié retira a mulher do portão com um arranco, e em seguida sobe a escada acompanhado pelo cabo.

– Fizeram o flagrante?

– Não.

– Uai.

– Ordem do Silvestre.

– E o dr. Rocha?

– Ele já tinha saído.

Bié para no alpendre, olha para trás. A mulher está sentada novamente no degrau do portão.

– Deixa ela, Bié.

Entram numa sala alta. Mesa antiga e cadeira, dois bancos encostados na parede. Bié tira um livro gasto da gaveta e lê a queixa.

– Cabo, não fala quem comprava o café.

– Silvestre deve saber.

– Trabalharam o cara?

– Acho que o Charanga maciou ele de acordo. E o Silvestre deu uma bronca dos diabos.

– Não estou entendendo merda nenhuma.

– Nem eu.

– Ele tá em que cela?

– Na primeira.

– Por quê?

– Silvestre.

– Vou dar uma olhada.

– Vai, mas vai com calma.

– É?

– Acho melhor esperar o Silvestre.

Bié segue pelo corredor, desce uma escadinha, abre um portão de ferro. A cela fica logo à direita, separada das demais. Bié acende a luz e aproxima-se da grade. Pedro está sentado no fundo da cela, apenas de cueca.

– Você aí.

– Pronto, doutor – uma voz de banguelo.

– Vem cá, seu merda.

Pedro levanta-se com dificuldade, caminha segurando a barriga com as duas mãos.

– Solta as mãos.

– Sim senhor, doutor.

– Cala essa boca. Eu falo, você responde.

Pedro abana o pixaim grisalho.

– Agora abre o negócio todo.

– Eu falei tudo pro outro doutor.

– Repete o que você falou.

– Juro que não tem mais nada.

– Repete.

– Eu tirava o café sim.

– Todo dia?

– É sim.

– É sim o quê?

– É sim, sim senhor.

– Como é que você fazia?

– Eu fazia na hora do almoço, eu comia e depois enfiava um saquinho dentro da marmita.

– Só um saquinho, é, seu sem-vergonha?

– Juro, doutor.

– Quem mais furtava?

– Era só eu que tirava.

– E ninguém via?

– Via não, senhor. Só viu ontem.

– Quem?

– Seu Walter.

– Quem é seu Walter?

– É o gerente.

– E aí?

– Aí ele me apertou e chamou a polícia.

– Há quanto tempo você furtava o café?

– Ah, doutor.

– Para com esse negócio de doutor.

– Sim, senhor.

– Quanto tempo?

– Tem pra mais de ano.

– Dois anos?

– É sim, senhor.

– Três anos?

– Dois anos.

– Três.

– Dois.

– Olha lá.

– Dois, doutor.

– Você levava o café pra casa?

– Isso eu nunca fiz.

– Por quê?

– O senhor sabe, o café é caro. A mulher e os meninos toma é chá.

– Conversa.

– Se eu chego lá com o café, a mulher ia ver logo.

– Ver como?

– Raimunda sabe que o dinheiro não dá pra café.

– Quer dizer que sua mulher não sabia de nada?

– Deus me livre, doutor.

– Quem comprava o café?

Pedro abaixa a cabeça.

– Quem?

– Eu falei pro outro doutor que eu não podia falar.

– Não pode não, é?

– Desculpe, doutor.

– Eu vou te pendurar no pau, tá bom?

– O senhor é que sabe, doutor.

– Você fala, e fala rápido.

– Seja o que Deus quiser.

Cabo Elói surge na porta:

– Bié, Silvestre tá chamando.

Uma saleta, mesa com duas cadeiras, janela aberta para a rua, ruídos de trânsito. Silvestre, sentado, fuma um cigarro de palha. É um tipo seco, camisa social com abotoadura e um anel exagerado no dedo mindinho.

– Como é, mestre?

Silvestre põe o cigarro vagarosamente no cinzeiro.

– Você fez alguma coisa com ele?

– Papo furado.

– Ahn.

– O que que há, mestre?

– Não há.

Silvestre põe o cigarro na boca e demora a acendê-lo.

– Mestre, nós vamos engolir essa história do café?

– É só isso, Bié.

– Pra que você me chamou?

– É pra deixar o homem quieto lá embaixo.

– E o diabo dessa mulher aí fora?

– Chama o cabo Elói.

– Cabo Elói!

O cabo responde da outra sala.

Silvestre:

– Põe a mulher sentada aí no banco.

– O que você vai fazer, mestre?

Silvestre levanta-se e chega até a janela:

– Nós vamos esperar o dr. Rocha.

– Mas ele só vem de tarde.

– É por isso que mandei chamar a mulher.

– Que que tem ela?

– A cara, Bié.

– A filha da puta embrulha o estômago.

– É isso. Daqui a pouco você busca o homem, ela fala com ele e vai embora.

– Só se for no pau.

Silvestre volta para a mesa, senta-se, acende o cigarro de palha:

– Lembra do Tião Feio?

– Que tem o Tião?

– Tião está com um carteado no Fluminense.

– Eu sei.

– Tião é compadre do homem.

– Ah.

– Ele ficava com o café.

– Essa não, mestre.

– O filho da puta passava lá toda tarde depois do serviço, deixava o café na cantina, pegava uns trocados, filava uma cachacinha.

– E agora, mestre?

– Tião vem falar com o dr. Rocha.

– Vai ser chato, hein.

– É, mas o homem é compadre dele, um fodido com uma penca de filhos.

Silvestre torna a acender o cigarrinho:

– Agora vai lá, Bié, e traz ele. Vamos ver se ele manda essa mulher pirracenta embora.

Atravessando a sala, Bié dá uma olhada na mulher, o rosto murcho. Volta logo em seguida com Pedro. Sem camisa e descalço e segurando a cintura da calça e a barriga com as mãos, Pedro para assustado ao ver a mulher:

– Raimunda.

Ela se levanta com o rosto subitamente iluminado:

– Ocê, Pedro.

– O que você tá fazendo aqui, Raimunda?

– Tou te esperando.

– Vamos logo com isso – ordena Silvestre vindo da saleta. – Dá um papo e cai fora.

– Vai pra casa, Raimunda.

– Vou concê, Pedro.

– Que é isso, Raimunda?

Bié: – Ela passou a noite toda lá fora.

– Você tá ficando doida? Quem é que ficou com os meninos?

– Pedrinho.

– Onde é que você tá com a cabeça, Raimunda?

– Pronto – intervém Silvestre. – Já viu o seu Pedro, agora vai pra casa.

– Obedece, Raimunda.

– Só vou concê.

Bié: – Esta mulher tá é precisando de um pau.

– Pelo amor de Deus, doutor.

Silvestre: – Você tem um minuto.

– Tá ouvindo, Raimunda? Volta já pra casa.

– Vou te esperar, Pedro.

– Os meninos, Raimunda. – Pedro solta a calça, agitado, e torna a segurá-la. – Vai pra casa, pelo amor de Deus.

– Vãobora, Pedro.

– Você não entende? Você tem que ficar lá com os meninos.

Raimunda se cala, confusa.

– Mestre, quem sabe a gente recolhe ela também?

– Não, doutor.

Silvestre: – Ou vai embora de uma vez ou vai lá pra baixo.

– Vai ser bom ela ficar lá com os outros, hein, mestre?

– Espera, doutor.

Bié: – Eu vou levar ela de uma vez.

Silvestre: – É, tranca ela.

– Doutor, doutor – Pedro dá um passo na direção de Silvestre –, deixa eu ter um particular com ela.

– Ah, um particular.

– Pelo amor de Deus.

– Me fala o que você vai falar com ela.

– É uma palavrinha só, doutor.

Silvestre fixa por um momento a cara suada, tensa.

– Por favor, doutor.

– Vamos logo com isso.

Pedro chama Raimunda até a janela. E começa a falar com sua boca banguela. Raimunda apenas ouve, com os olhos estufados. Pedro fala depressa, exalta-se, tira uma das mãos da calça, sacode-a no ar, depois se cala. Raimunda morde os lábios seguidamente, diz algo rápido, vira as costas e sai atabalhoada pelo alpendre.

– Uai, mestre – Bié debruça-se na janela –, a mulher tá indo embora mesmo.

Silvestre para Pedro: – Vem cá.

Ele se aproxima com uma careta convulsiva.

– O que que houve?

– Nada não.

– O que é que vocês falaram?

– Deixa ficar, doutor.

– Responde.

– Não é nada não, doutor.

Bié: – O chefe tá perguntando.

– Doutor, deixa eu ir lá pra baixo.

Bié: – Olha só, o filho da mãe vai chorar.

– O que é que você disse pra ela?

Pedro abaixa a cabeça.

– Fala.

– Por favor.

Bié: – Abre logo.

– Falei que tava roubando pra sustentar outra mulher.

– Fala a verdade.

– Falei pra ela ir pro inferno (ergue o rosto molhado), pra puta que pariu (quase gritando), puta que pariu.

Bié prepara a mão para o tapa.

– Calma, calma – recomenda Silvestre.

Pedro esfrega a mão na cara. O peito magro arfa.

– E o que é que ela disse?

– Nada.

– Ela disse alguma coisa antes de sair.

– Deixa, doutor.

Bié: – É melhor falar.

– Fala.

– Ela falou se eu não chegar em casa até de tarde, ela dá formicida pra ela e pros meninos.

– Conversa, mestre.

– Você acha que ela é capaz de fazer isso?

Pedro entorna o olhar comprido pela janela, para os telhados e mangueiras além da janela.

– Você acha? Responde.

– É capaz sim.

(1977)


*Este conto faz parte do livro A máquina de fazer amor, que a SESI-SP Editora lança em breve. Outros títulos que já fazem parte do catálogo são: A mãe e o filho da mãe, Os rios morrem de sede, O menino e o pinto do menino, Três menos um é igual a sete, O matador, Os dois irmãos e Nem filho educa  pai.

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Wander Piroli

Wander Piroli nasceu na Lagoinha, bairro pobre e periférico de Belo Horizonte, reduto de italianos, boêmios e marginais. Formado em direito, trabalhou na defesa trabalhista de seus companheiros de jornada, mas logo desistiu da carreira. Jornalista, passou por muitas redações de Belo Horizonte entre as décadas de 1950 e 2000. Sua carreira de escritor tem início ao vencer um concurso literário promovido pela prefeitura de Belo Horizonte, em 1951, com o conto “O troco”. Foi apenas quinze anos depois que publicou o seu primeiro livro, A mãe e o filho da mãe. No entanto, foi com a literatura infantojuvenil, com a publicação de O menino e o pinto do menino (1975), que ganhou notoriedade nacional. Piroli faleceu em Belo Horizonte, aos 75 anos.

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