Rosa de luxemburgo dos trêfegos trópicos – Parte 1

Ilustração de Aykut Aydogdu. (behance.net/ayknroses)

Ainda em casa, em seu eremitério de livre escolha. Havia ligado para parceiro-às-vezes-trimestral-às-vezes-semestral desfazendo a farsa, dizendo que não havia viajado, confessando que ficara aquele tempo todo refletindo sobre a vida, a própria vida, e que continuaria assim sem saber exatamente mais quanto tempo. Ele? Ouvindo voz dela e lembrando ao mesmo tempo de sua língua-pétala, não disfarçou súbita e envergonhada ereção – estoico, entendeu tudo inclusive diálogo conciso, elíptico de desfecho abrupto, rechaçando súplicas dele implorando língua dela. Rosa trêfega agora recostada no sofá olhando para o teto – sensação estranha: parecia ver lá no alto frase em neon, perguntando, luminosa: FAZER? O QUÊ? Capitalismo? Ela mesma perguntou ela mesma respondeu: Desmoronando; Socialismo? Água de barrela; Religião? Mercantilismo místico; nós? Seres beligerantes. Tempos sombrios: Rosa tivera a sensação de que haviam quebrado todas as suas setas indicativas; de que haviam implodido todas as suas encruzilhadas; de que haviam quebrado todos os ponteiros de suas bússolas. Pensou, reflexiva, à semelhança de seu parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista: se Deus existisse possivelmente afixaria placa publicitária sobre o globo terrestre: PASSA-SE O PONTO. Não conteve o riso-imobiliário-estratosférico. Delirium-tremens, talvez; seja como for, letreiro luminoso parecia ainda estar lá no teto, interrogativo: FAZER? O QUÊ? Enxame de dúvidas continuava volteando o cérebro dela, Rosa trêfega. Dias permaneciam atafulhados de estupores: haviam dizimado todas as suas perspectivas? Haviam trancado seu Sol no subsolo do Universo para atravancar futuros amanheceres? Aquele neon fantasmagórico estava fazendo Luxemburgo dos trópicos debater-se nas trevas da demência – sublevação dos tatibitates; manobras da surpreendência, do inesperado. Um dia, fugindo provisório de seu eremitério, andando aos emboléus, a trouxe-mouxe pelas calçadas do quarteirão vizinho, parou de repente diante de mendigo recostado no muro para perguntar de chofre: FAZER? O QUÊ? Resposta também viera abrupta: Voar! Ela? Indigente, à sua maneira, seguiu pensando em Ícaro. Apesar do vento forte, manhã não conseguia levar as inquietudes de Rosa trêfega – caminhava tendo nítida sensação de que haviam mudado a topografia da cidade transformando todos os caminhos em ruas-ribanceiras. Voar? Para onde, poeta? Rosa ainda presa nas malhas do enigmático; havia inventado para si mesma dilema circunscrito em duas palavras: ação audaz. Dias, semanas, meses às voltas com seus tatibitates canhestros; antecipando sinuosidades para os próximos próprios amanhãs; já estava quase se acostumando aos vertiginosos cambaleios interiores, aos ziguezagues da indecisão: Rosa-solilóquios-de-intermináveis-interrogações. Luxemburgo trêfega procurava inútil ser subterfúgio de si mesma – sim: Rosa-De-Sá-Carneiro: Onde estou, se não estou em mim? Apesar da ventania, teimava em caminhar pelas calçadas daquele quarteirão dos desafogos. Parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, reflexivo, possivelmente diria que somos nossas próprias ruas-sem-saída. Rosa dos trópicos sentia-se amiúde seu próprio obscurecimento. Passando agora ao lado de banca de revistas, pensou na possibilidade de publicar nos jornais dezenas de pequenos anúncios-teaser: FAZER? O QUÊ? Riu da própria estultice. Continuava caminhando procurando quem sabe hocus-pocus qualquer para suprimir dúvidas, arrefecer tatibitates – fórmula mágica que pudesse impedi-la de tiranizar a si própria, de transformar sua vida numa questão metafísica. Parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, reflexivo, possivelmente diria que vontade e ação não são uma só coisa. Ela, Rosa trêfega, cansada, sentou-se num banco de praça, ouviu canto dos pássaros, pensou nele, mendigo-alado-metafórico: Voar! Pensou também em nossa predisposição para vivermos guiados pelos deuses da imprudência; pensou tantas outras coisas, inclusive em sua língua-pétala roçando pênis de seus subservientes parceiros; e mais: que ela, Rosa, estava se tornando grande fardo para si mesma. Sensação de que precisava farejar lonjuras, se distanciar daquela Rosa-ela-mesma: reinventar-se. Agora? Caminhava outra vez e esgueirava-se nos seus tatibitates interiores e olhava os prédios e as árvores e as pessoas e aquele lufa-lufa metropolitano e sentia-se ela mesma um espantalho, o mais dubitativo de todos os espantalhos: FAZER? O QUÊ? Transfigurar-se, metamorfosear-se… Em quê? Em quem? Não, ela não queria repetir trajetória da Rosa-polonesa-ela-mesma noutra vida: história não se repete. Entanto, sabia que teorizar, palestrar, falar e não agir era ser subserviente ao lugar-comum. Sim: fazer algo transfigurador, louco e divino. Parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, reflexivo, possivelmente diria que Rosa trêfega estava sendo austera demais consigo mesma; que estava impondo a si própria, inconsciente, talvez, o incognoscível. Rosa caminhava, sensação de que caminhava pelas calçadas do quarteirão vizinho para seguir os próprios instintos, ou, quem sabe, subserviente ao acaso – Rosa vivendo-andando a trouxe-mouxe, aos emboléus; instigava, sem perceber, as arteirices do destino, como se, de repente, houvesse acabado todos os perigos, todos os percalços da existência humana. Rosa queria punir Rosa – ambas: a polonesa e a tropical. Punição retroativa. Luxemburgo caminhava como se seus passos preparassem grandes ousadias para ela mesma; passos de repente resolutos; animou-se; com mais entusiasmo quando, depois de olhar para prédios gigantescos, pomposos, de escritórios de grandes corporações, dizer para si mesma: Mundo prostituto. Aquele adjetivo chegara recheado de pressentimentos estranhos: prostituto, prostituição, prostituir… Fiat lux? Abre-te Sésamo? Pensamentos, perguntas-fogos-fátuos que ela fizera a si mesma. Voltou para casa, deitou-se no sofá, ainda carregando a tiracolo todos os seus tatibitates, todas as suas dúvidas. Releu Lucrécio; de repente, páginas tantas, grifou este trecho lembrando-se ao mesmo tempo de Rosa-polonesa-ela-mesma-noutra- vida: Não perece completamente tudo aquilo que parece morrer, porque a natureza forma de novo uma coisa a partir de outra, e não permite que nada seja gerado senão com a ajuda da morte de outra coisa. Fechou o livro. Refletiu sobre a própria (atual) existência. De repente, outro acontecimento fantasmagórico: olhou para o teto e viu desta vez neon piscando-mostrando a palavra PROSTITUIÇÃO. Rosa-vidente novamente às voltas com a perplexidez. Fez para si mesma uma pergunta que havia chamado outra pergunta que havia chamado outra pergunta: Prostituição? Fazer? O quê? Pensou em ligar perguntando ao parceiro-às-vezes-trimestral-às-vezes-semestral: Prostituir… Posso? Não ligou, mas riu da própria estultice. Rosa dos trêfegos trópicos continuou vivendo dias, semanas atafulhados de tatibitates, de insuportáveis hesitações, tibieza de ânimo, não se determinava por coisa alguma, prendia-se nas teias em que ela havia tecido para si mesma, apoquentava-se com repetida-dúplice pergunta: Incorrer-me no desagrado? De que jeito? Luxemburgo dos trópicos insistindo-se em criar, impulsiva, o inopinado para ela própria. Rosa dos trópicos queria ir além da Rosa polonesa, mesmo que para isso tivesse que se meter numa camisa de onze varas, precisasse sucumbir-se aos seus impulsos: Luxemburgo-ação-extremosa abolindo todas as Rosas – sim: saturada de si mesma precisava abandonar metáforas, pertencer a linhagem daqueles que entram nos escaninhos do insondável, do submundo, talvez, aproximando-se, por assim dizer, do imponderável, eliminando oscilações – Rosa de Luxemburgo dos trêfegos trópicos ameaçando sair de seu próprio íntimo esconderijo; Rosa-agora-predeterminada, ou quase: sabia, sim, que iria se prostituir, mas… Onde? De que jeito? Entrando no subsolo nos meandros do capitalismo? Pleiteando cargos numa multinacional? Num Banco? Na Bolsa de Valores? Numa indústria armamentista? No mundo da informática? Sim: os tatibitates agora se afunilavam. Parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, reflexivo, possivelmente diria que a prostituição é democrática: abarca os quatro pontos cardeais de todos os mundos, em acentuado relevo o mundo institucionalizado: político, religioso, empresarial, etecetera, etecetera, etecetera… Uma centena de eteceteras. Prostituir? De que jeito? Eis o novo mantra indagativo dela, Luxemburgo trêfega. Tarde dubitativa qualquer, viu, de repente, sombra-silhueta de mulher na parede. Assustou-se: mediúnica, havia percebido que se tratava de Rosa-ela-mesma-noutra-vida. Fantasma que desaparecera num átimo – não sem antes repreender sua, digamos, reencarnação: Decepcionante, decepcionante, você me decepciona. Luxemburgo dos trópicos não conseguiu conter seu ruborescer, envergonhando-se de si mesma. O que não a impediu de continuar dias seguidos se perguntando amiúde: Prostituir? De que jeito? Mas por que infligir tanto sofrimento, tanta tortura a mim mesma? Sim: qual o motivo daquela autopunição despropositada? Rosa agora desconhecia Rosa – in totum: não se excitava mais pensando na língua dela nos pênis deles, eventuais parceiros, mas na possibilidade de se prostituir… De que jeito? Rosa trêfega caía em êxtase com o próprio quase-destrambelho, com a quase-não-razão, com sua vontade de ultrapassar os próprios limites da imprudência, da destemidez. Rosa tornando-se estranha para Rosa; Luxemburgo fora da órbita de Luxemburgo; Rosa de Luxemburgo dos trópicos a poucos passos de corromper Rosa de Luxemburgo trêfega; Rosa exercendo nefasta influência sobre Rosa – sim, era questão de tempo: deuses do destino já haviam urdido uma trama, delineado-projetado nova vida para ela – ainda vivendo dias vertiginosos em seu eremitério de livre escolha; sim:

Ilustração de Aykut Aydogdu. (behance.net/ayknroses)

questionando a superficialidade da própria existência, dos próprios atos, de suas ações-quase-nada-audazes, acreditando que deveria soltar a linha da carretilha para sua, digamos, pandorga empreender voos mais arriscados. Quanto mais o tempo corria mais ela se afeiçoava ao irracional, aos tormentos íntimos, às desavenças íntimas, às reconciliações momentâneas consigo mesma – Rosa se digladiando com Rosa: Prostituir? De que jeito? Luxemburgo dos trópicos depois de longa-insistente autoanálise havia descoberto que precisaria se vingar de Luxemburgo-ela-mesma-noutra-vida – sim: livrar-se de vez daquele peso antroponímico, daquele estigma reencarnacionista transcendendo ambas: a Rosa dos trópicos, a Rosa polonesa; livrar-se daquela sombra duplicada. Desvario? Não: Rosa de Luxemburgo dos trêfegos trópicos precisava mudar, radical, sua rota abrindo mão de pretéritos-ineficientes-altruísmos-teóricos. Sim, ser hostil aos passos do passado, farejar agora outros caminhos, possivelmente cheios de encruzilhadas, cujas bifurcações espreitam acasos diferentes – diria o reflexivo parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista. Sim, Rosa precisava desaprender teorias, precisava agir – ação audaz, diria a outra-Rosa-ela-mesma-noutra-vida. Luxemburgo dos trópicos sentia que era preciso abolir precauções, ficar à mercê, ao arbítrio da ventura, das improcedências. Rosa-rio pressentindo que iria se desaguar num mar turbulento – mesmo assim afeiçoava-se às incertezas, à inquietante vontade de decifrar o enigma que era ela mesma; obstinando-se em fazer-criar alguma situação para contrariar ambas as Rosas tornando-se uma outra, transgredindo acasos, destinos, invertendo roteiros, cavando novas-próprias veredas – mesmo sabendo que poderia perder o poder sobre si mesma cultivando aturdimentos vindouros, lançando mão da impetuosidade antecipando presságios, infligindo penas para seu novo-futuro-eu – sim: vingança por assim dizer antroponímica. Rosa asfixiando Rosa com os próprios tatibitates: Prostituir? De que jeito? Parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, reflexivo, possivelmente diria para ela abandonar tudo, ir para as montanhas à semelhança de Zaratustra. Mas Luxemburgo dos trópicos estava próxima, muito próxima de outras ainda mais contundentes rupturas. Rosa insubordinando-se, armando revolta contra ambas as Rosas: ela-mesma-agora, ela-mesma-noutra-vida – metafísica da autovingança. Luxemburgo dos trópicos muitas vezes se entediava, melancolizava-se procurando incansável outra Rosa encafuada escondida nela mesma – preencher lacunas psicológicas, pensou, reflexiva, à semelhança dele parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista. Metamorfose angustiante, quase-inalcançável, aflitiva – sim: era enlouquecedor viver sob aquela atmosfera dubitativa; Rosa sussurrando nas profundezas de Rosa: Prostituir? De que jeito? Sim, poeta, o doce consolo da vingança; Luxemburgo trêfega não podia, não estava mais incapacitada de se livrar daquela predisposição mórbida: vingar-se de duas Rosas numa só cajadada; encarar agora de frente, não olhar de soslaio a fatalidade – Luxemburgo incitando abismo para Luxemburgo. Estaria querendo transformar seu próprio ser num leito de Procusto? – Perguntaria, reflexivo, parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista. Mas os deuses do destino continuavam inabaláveis, irredutíveis: já haviam traçado roteiro dela Rosa dos trêfegos trópicos; ela já ouvia seus coros báquicos, exuberantes, cheios de regozijos dionisíacos; sim: caminho dela já estava previamente determinado – embora, quando somos nosso próprio algoz, favorecemos ainda mais os projetos das divindades do acaso; sim: Rosa de Luxemburgo dos trópicos estava facilitando perspectivas perturbadoras. Eis o inesperado, a surpreendência acachapante: ativismo dela, Rosa de Luxemburgo dos trêfegos trópicos havia ido longe demais em seus empreendimentos deixando bilhete de despedida debaixo da porta dele, parceiro-às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista, cujo texto era incisivo, elíptico e (por que não dizer?) poético: Eu, puta, vou à luta. Quase três anos depois de incertezas, atarantações, notícia alguma, sumiço absoluto, ele, ex-parceiro-às-vezes-trimestral-às-semestral, viu foto dela numa revista. Foto-legenda? ROSALUX: NOVA LÍDER DO MOVIMENTO REINVIDICATÓRIO DE TODAS AS PROSTITUTAS DO PAÍS. Sim: havia deixado tudo-todos para se engajar numa causa substantiva, substanciosa, abandonando seu, por assim dizer, eu-ativista-socialista para lutar pelos direitos profissionais da mais antiga profissão do mundo. Rosa trêfega havia dado adeus às teorias atafulhando sua aljava com setas fidelíssimas ao próprio alvo. Três anos conhecendo-trepando-lutando com homens abrutalhados, muito pouco afeitos à língua-pétala dela: o buraco agora era mais em baixo – se é permitido a esta altura da narrativa lançar mão de inoportuna, espirituosa frase de indiscutível chulismo.

* A parte 2 sairá na próxima edição.

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Evandro Affonso Ferreira

Evandro Affonso Ferreira

Evandro Affonso Ferreira é autor de vários romances, entre os quais Minha mãe se matou sem dizer adeus, prêmio APCA de melhor romance; O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotherdam, Prêmio Jabuti de melhor romance do ano; Os piores dias de minha vida foram todos, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e terceiro lugar no Prêmio Jabuti.

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