O salto mortal

Foto: Think Stock

Estou longe. Não tenho, não quero ter mais nada a ver com aquilo. Com aqueles. Estou só. Quero estar só. Eu sei quando a coisa saiu dos trilhos. Faz tempo. Tanto tempo que só posso culpar a mim mesma pelo que aconteceu, pelo que não aconteceu e, a partir de agora, pelo que irá acontecer. São manchas, vozes – tão conhecidas, tão previsíveis, tão massacrantes, são olhares – tão opressivos, a começar pelo meu próprio, tão triste, no espelho gasto deste pequeno apartamento suburbano.

O que faço aqui? Por que estou aqui? Engulo em seco. Eu sei por que estou aqui. Há muitos motivos, e o primeiro que me vem à cabeça é este: não suporto mais a mim mesma, não me suporto mais. Estou só. Saio e não conheço ninguém, não cumprimento ninguém. A solidão é este poço aqui, forrado de espelhos, com uma ínfima e renitente luz vinda lá de cima. Uma luminária. Um caleidoscópio.

Balanceie suas refeições. Entenda a diferença que existe entre os alimentos – a gordura, o cereal, as carnes, as frutas e as fibras. Ele era mestre em nutrição, sem dúvida. E ao mesmo tempo me nutria, não fisicamente, digo, mas filosófica, ideológica, moralmente.

Eu tinha quinze, ele vinte e quatro. Vinte e sete, ele trinta e seis. Quando fiz trinta, ele completou cinquenta, talvez cinquenta e dois. Como explicar? Pois eu sei o que aconteceu. Eu sei o motivo, os motivos, daquele salto, e sei, mais ainda, os motivos pelos quais eu não saltei com ele.

Não saltei com ele porque tive medo. Pavor. Terror.

Saiba, ele me dizia, que os povos e etnias de maior longevidade são assim por levarem uma vida muito simples, despojada, uma alimentação também bem simples e uma vida rica em termos espirituais. Ligam-se à natureza e, em geral, vivem em comunidade, compartilhando experiências, ajudando-se uns aos outros. Ele sempre me dizia isso antes de dar o salto.

O salto dele foi desastroso, no fim das contas. Mas devo dizer que tão desastrosa quanto, ou mais, foi a minha inércia no momento em que ele, corajosamente, deu aquele salto no escuro. No meu escuro.

O salto dele foi para dentro do meu escuro, por isso, acredito, tenha sido tão profundo, e tanto tempo tenha ele levado para (talvez) perceber onde estava (até hoje, creio, não percebeu). Entre os meus seios, com certeza, mas isso, saber disso, basta? Não basta.

Meu sonho arrancou a pele dele, descascou-o, deixou-o em carne viva dentro de mim. Poderia colocá-lo para fora, vomitá-lo, expeli-lo. Poderia? Como se faz com uma espinha amarelada, com um cravo, com uma pelota de gordura, com um furúnculo, uma farpa…

Pessoas que passam dos cem anos de idade, ensinou-me ele, têm como ponto comum a frugalidade das refeições e lanches. Comem pouco, com baixa caloria e de forma saudável e equilibrado em termos nutricionais. Ele me dava aulas nas mesas de bar.

Qual a dimensão do meu sonho? Pois ele, não o sonho — sempre foi grandalhão… Como poderia penetrar entre os meus seios? Como conseguiria se mover dentro de mim sem me matar, ainda que respeitosamente?
Venha comigo. Vamos tentar responder essas perguntas. Você faz parte delas; e das respostas. Pode acreditar. Vai me ajudar a responder essas perguntas, e é por isso que as dirijo a você.

Impiedosamente.

Venha comigo.

Perca, querida, dizia ele, esse hábito de comer demais à noite. Priorize as frutas e os legumes. Os antioxidantes naturais têm a capacidade de prevenir o envelhecimento. Você não quer envelhecer como eu, certo, querida? Preserve suas células ao máximo, dizia.

Pois ele virou um monstro dentro de mim, entre os meus seios. Poderia estrebuchar, provocar horrores e empunhar bandeiras. Mas isso não o tiraria de dentro de mim, concorda? Por quê? — você pergunta. Pois tento responder da seguinte forma: meus seios eram puro aconchego; foram úteros para ele, tão mais velho e, no entanto, tão mais verde, frágil. Covarde.

Mas, quem é você? Você tem seios? Isso talvez não seja muito importante, aqui, mas não posso deixar de perguntar, embora jamais venha a conhecer a resposta. Preciso perguntar isso por uma questão de honestidade, para mostrar que não tenho nada contra você tenha você seios, pinto, vagina, o que for. Você me entende…

Pois ele fora um jovem brilhante, uma promessa.

Estou perto de ser o que se costuma classificar como megera, mas o fosso entre a sensação e a classificação, em mim, é muito profundo, como este poço de paredes espelhadas.

Vamos por partes, que é sempre melhor. E assim ele foi. E se foi.

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Bernardo Ajzenberg

Bernardo Ajzenberg

Bernardo Ajzenberg nasceu e vive em São Paulo. Escritor, tradutor e jornalista, é autor dos romances Minha vida sem banho (2014), Duas novelas (2011), Olhos secos (2009) e Variações Goldman (1998), além do livro de contos Homens com mulheres (2005), todos publicados pela editora Rocco, entre outras obras.

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