O que cada um disse

“Sei, sei, claro. Bom sujeito. Ele vem sempre aqui, à banca. Amanhã mesmo ele… Como?… Verdade?… Santo Deus!…”

“Caridoso, muito caridoso. Tanto ele quanto a mulher. Um casal de comunhão frequente. Eles vinham aqui, à capela da irmandade; eles preferiam vir aqui a ir à catedral. Ele era um sujeito humilde, apesar de rico. Os dois sempre mandavam roupas usadas para distribuirmos entre os mais necessitados; roupas deles, do casal, e também das crianças, do menino e da menina. A gente nunca poderia imaginar uma coisa dessas. Estamos muito chocadas.”

“A gente não conhece ninguém: essa é a conclusão que eu tiro. A gente não conhece ninguém. Às vezes nem a própria pessoa se conhece. Somos um bando de desconhecidos — uns para os outros e cada um para si mesmo.”

“Veja só: ele era a pessoa mais equilibrada aqui, na empresa; a mais equilibrada. A gente não dava um passo sem ouvir a opinião dele. Agora… Não dá pra acreditar, né?…”

“Eles sempre me trataram bem. Eles me tratavam como se eu fosse uma pessoa da família, e não uma empregada. Era um casal que vivia em harmonia. Nunca vi um casal combinar tão bem. Parecia que eles tinham nascido um para o outro. Não vou dizer que eles não tinham de vez em quando uma rusguinha. Tinham. Mas qual o casal que não tem? Você — eu estou vendo que você também é casado —, você vai me dizer: não é assim?”

“Quem? Como é? Você está brincando…”

“Eu li, eu li a notícia no jornal. Não, eu não sei dizer muita coisa. Ele não vinha tanto aqui, ao restaurante; uma vez ou outra só. Educado, isso eu posso dizer que ele era; uma pessoa educada. Mas não era de muita prosa; não, isso ele não era. Era um cara meio fechado, entendeu? Um cara…”

“Sabe, meu querido? Você é jovem ainda, mas aprenda uma coisa: o ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões… É assim, meu filho, o ser humano é assim. Por fora, uma coisa amável; por dentro, uma coisa temível. Ou, como dizia a cartilha na escola, nos meus tempos de menina: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento. De forma que esse acontecimento não me surpreende tanto. Pois eu sei que do ser humano tudo se pode esperar: das melhores às piores coisas. Grave isso. Você ainda vai se lembrar disso muitas vezes em sua atividade…”

“É, sim, nós fomos colegas de faculdade. Confesso que eu estou pasmo. Um sujeito como ele, um sujeito que tinha tudo na vida, tudo o que uma pessoa pode desejar: dinheiro, mansão, carro importado, uma linda mulher, dois filhinhos adoráveis. Isso, além das amizades, do prestígio, das honrarias…”

“Eu fiquei sabendo, me contaram. Limpei, eu limpei o jardim algumas vezes. É de admirar, né? Por que um cara desses faz uma coisa dessas?… Bom: não vou dizer que eu sei; quem sou eu pra dizer isso… Nem quero falar mal de ninguém. Mas… Deus que me perdoe, mas uma mulher como aquela, uma mulher… Eu vou te contar uma coisa, mas você não vai pôr isso no jornal, não, hein?… Um dia eu estava lá, arrumando o jardim, e aí eu cheguei perto da janela. Ela estava lá dentro, sozinha, de camisola, uma camisola transparente e sem sutiã: e aí deu pra ver tudo, os peitos. E vou te contar… Rapaz… Eu nunca vi nada tão bonito assim… Mas aí, nessa hora, ela me viu; e você acha que ela procurou sair ou virar para outro lado? Acha? É o que ela devia ter feito, né? Mas não foi isso o que ela fez: ela deu um sorriso, ela deu um sorriso para mim. Eu fiquei sem saber onde esconder a cara. Fiquei morrendo de vergonha. Aí eu fui cuidar do meu serviço. Mas à noite, em casa, eu fiquei pensando naquilo, na mulher, naquele sorriso… Fiquei pensando e… Cara, te juro: aquela mulher estava a fim de uma… Juro que estava… Com um jardineiro?, você pode dizer. Por que não? E essas madames aí que pagam os tubos para esses caras de programa, esses que vão em casa, esses dos classificados? Mas aí, droga, aí eu não voltei mais lá e aí eu não vi mais a mulher; nem ela, nem o marido, nem ninguém. E ontem eu fiquei sabendo do que aconteceu. É isso. Mas não vai pôr isso no jornal, não, hein? Só estou te contando. Pra mim… Não sei, não, mas pra mim o que há por trás disso, do que aconteceu, é isso aqui, olha: chifre, cara. Tá entendendo? Chifre. Daqueles bem grandes e tortos.”

“Eros e Tânatos: as pulsões da vida e da morte, que estão no âmago de nosso ser, em toda e qualquer pessoa. O assunto é muito complexo para eu desenvolver aqui agora, nesta entrevista, mas eu o abordo em profundidade no meu novo livro, que eu devo lançar no segundo semestre, provavelmente em agosto. Aliás, eu ficaria muito grato se o jornal pudesse dar, desde já, uma nota.”

“Por quê? Sei lá, meu chapa. Isso acontece todo dia lá no meu bairro e ninguém diz nada nem quer saber por quê. Nem nenhum repórter vai lá para fazer perguntas. Se vai, é repórter de polícia. Agora vem um bacana e faz o que fez e fica todo mundo aí: por quê? por quê? Ora, por quê… Foda-se, porra. Foda-se o cara e a família dele e tudo o mais. A gente tem mais é que comemorar. Esses caras só sabem explorar a gente. Eles lá no bem-bom e a gente aqui pastando, comendo capim.”

“Meu amigo, vou só te contar uma história: a história do Tidião, meu querido tio Esperidião, lá no interior, na roça. O tio morava numa fazenda, ele e a mulher. Depois que a minha tia morreu, ele continuou morando lá, morando sozinho. Isto é, ele e um empregado. A fazenda não era grande, poucos alqueires. Foi o empregado que testemunhou a cena e contou depois para os filhos do tio, dois rapazes, que moravam na cidade. Homem pacato, sujeito de boa paz, estava lá o tio uma tarde, na fazenda. Aí, de repente, o empregado, que se achava no quintal, ouviu uns estampidos, se assustou e foi correndo ver o que era. Escondido atrás de uma mangueira, ele pôde testemunhar, apavorado, a sequência da cena. Pra resumir: meu tio pegou a espingarda, a carregou e saiu dando tiro em tudo o que viu pela frente: vaca, porco, cavalo, cachorro. Nem o gato escapou. Nem o galo. Ele deu tiro até em passarinho na árvore. ‘Parecia que ele queria acabar com o mundo’, como disse o empregado. Foi um morticínio, uma coisa que ninguém na região nunca vira e que até hoje eles comentam. Por quê? Por que meu tio fez isso? Ninguém soube, nem ninguém até hoje sabe. Meu tio nunca deu nenhuma explicação. Aquele dia, no final da tarde, quando meus primos, avisados pelo empregado do que acontecera, chegaram à fazenda, encontraram o pai sentado no alpendre da casa, pitando tranquilamente seu cigarrinho de palha, como se nada, absolutamente nada tivesse acontecido. Está certo, você pode dizer que esse sujeito agora não matou bichos: ele matou a mulher e os dois filhos, e, ainda por cima, suicidou-se. Mas, pensando bem, eu não vejo muita diferença. Você vê?”

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Luiz Vilela

Luiz Vilela

Luiz Vilela nasceu em 1942, em Ituiutaba (MG), cidade onde atualmente reside. Publicou vários livros, todos de ficção, entre os quais Tremor de Terra, de contos, Prêmio Nacional de Ficção, O Fim de Tudo, também de contos, Prêmio Jabuti, e Perdição, romance, seu livro mais recente, que ganhou o Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2012. Vilela foi adaptado para o cinema, o teatro e a televisão, e traduzido para várias línguas.

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