Marita, em linha reta

Sidney Hall. Urania's Mirror – Gloria Frederici, Andromeda, and Triangula, 1825.

Chega o momento: a grande porta é aberta por dois homens com bigodes parecidos entre si. Arrastada no assoalho, permite a escuridão abafada de um sonho, mas ainda não é hora de entrar: o prefeito está a caminho, vai dizer umas palavras. A fila dá voltas ao redor de seu redondo; a tarde é morna; o algodão-doce esse dia é de graça mas se murcha no palito, crianças desapontam, queriam as nuvens coloridas sob o sol.

A cem metros da entrada está Marita, a única adulta desacompanhada, anda calada, o pé bambeia pra fora da sandália de plástico, branco surrado a fivela solta, o cabelo preso num elástico frouxo nas costas, os braços cruzados, os olhos muito claros e o casaquinho, a saia no joelho abaixo dele as veias, como funduras reversas de azul, cordilheira que avança, agora sabe como juntou tanta, passa muito tempo em seus pés. O primeiro planetário da cidade fica ao lado do lago onde navega o cisne negro, altivo o espaço-tempo no bico vermelho, silêncio de osso oco em cada pena uma bolsa primogênita de ar. Marita desce os olhos para as suas veias, talvez tenham se tornado navegueiras, volta a vista ao lago, arrasta a sandália e lembra do primo João do queixo quadrado a moldura dum sorriso de ator.

Foi amor de moço de rosto largo e moça sem varizes, amor de bomba atômica o deslize enquanto encanto o beijo do cinema era o beijo requerido, o moço arqueado a moça pendida, um braço que alcança um corpo inteiro de cintura fina, um cabelo de cachos controlados salto alto que bambeia quando vem a ideia desse mesmo beijo, mas se desiste ou afrouxa o braço a moça pode cair de costas machucar a vértebra, a cabeça pode bater numa gaveta aberta, a coluna na fivela de cinto ao chão e ao acaso e sem o osso estar oco é funda a gravidade ao centro da Terra, vermelha fogo vivo, o bico do cisne se abre e boceja, a tarde é morna, um mergulho ligeiro sacode a cabeça, o pescoço alonga, e se Marita pintasse pintaria esse lago, as pessoas do outro lado na margem ao fundo não se distinguem, são pequenas as mulheres de calça e as de salto, as árvores na terra úmida, arqueadas pelo vento como pernas que mergulham.

O prefeito chegou num carro preto a fanfarra avisa. Escoteiros cantam em roda ela não escuta, agradecem a satisfação do passeio, as boas-vindas à primavera o adeus ao inverno que castiga mas não alonga, a saudação ao sol e à vida, as roupas iguais, os lencinhos. Marita na fila não rói as unhas nem enrosca o cabelo no dedo, ela termina o esquadrinho do lago e escolhe outro ponto e olha fixo. O ponto é um menino de lenço mostarda no queixo, o pescoço muito curto, a idade pequena a bermuda pra baixo dos joelhos, nos joelhos o brilho de ferida fresca e a marcha macia de quem canta, Marita não escuta mas acompanha na boca e na cabeça pendente ao ritmo a letra que parece estava a velha em seu lugar e veio alguém lhe fazer mal, cada olho de Marita neles nos joelhos do menino, a ciranda agradecente à vida e ao planetário o primeiro do país obrigado ao prefeito que vamos ver o céu. A cúpula são cinco milhões de cruzeiros e cada centavo contou porque nós vamos ver o céu o prefeito diz entre microfonias aplaudido assoviado, vamos ver o céu os escoteiros soprando seus apitos sacudindo os bonezinhos e o joelho do menino é muito feio o machucado, Marita torce o olho pro oposto da boca, o primo João que desistiu.

A fila anda a perna pesa a fivela a sandália emite um ruído quando trisca só o pássaro ao lado escuta e torce o dorso. Um passo pra frente o menino a bermuda revela quando a perna dobra o que ela já sabia: um vermelhão de ferida fresca e funda. Marita comove o olho esgarça, onde foi que houve a ferida, que pressente na ausência de sangue na sua metade superior de corpo a sua própria metade ela pressente, todo menino cai da bicicleta o pega-pega trepa-trepa gangorra com alguém muito mais gordo ou do balanço quando solta a mão, do futebol, mas pressente muito dentro do seu próprio machucado que ali foi sangrado de maldade. Morde os olhos, não quer perder o lugar na fila, é quase lá a mão do homem que recebe a porta aberta é quase ali pra ver o céu é quase ali tanta hora de pé e as varizes o prefeito a tesoura na mão, um corte perfeito na fita azul de cetim, um silêncio sublime ao tec, ou tac, o laço rompido bailarino, a porta aberta, vamos ver o céu.

Entra; procura e encontra um lugar na primeira fileira a poltrona deita, solta os braços a mão roça na mão do moço ao lado e se retira dolorida, o braço quebrado que João brincou: derrubar a moça no beijo do cinema isso seria engraçado, um osso torto o corpo todo pregado ao chão e não foi ao pronto-socorro ele pegou gelo do freezer enrolou num paninho de prato florido um calendário que dizia mil novecentos e quarenta e seis, um sol bordado, um pato uma casinha de triângulo e chaminezinha. Com esse paninho ela passou a noite em claro o olho arregalado no sol que sorria ponto-cruz e nunca mais.

O apresentador se apresenta ao microfone muito boa tarde o meu nome é Luíz. É com muita alegria que é sempre com muita alegria que se abrem as coisas e a primeira sessão do Planetário Municipal vai mostrar a vocês a escala real de tamanho entre os planetas e o Sol. A luz apaga e a cúpula vai, ponto a ponto, se transformando no céu piscando pontinhos e outros e a Terra mais longe e mais longe as mãos agarradas aos braços das cadeiras e a alma em suspensão e também o pisco das pálpebras o Sol é estupidamente maior do que a Terra a imagem flutua não gravita, o coração levita do resto das carnes do dentro do corpo há que se encaixar o coração é astronauta.
A viagem do olho pra fora do corpo vai mais longe e mais longe a via láctea, as outras galáxias, o ponto mais distante e não se sabe do lado de lá o fim do elástico. E a volta acelerada ao ponto na Terra a luz acesa e algumas vidas dilaceradas: o menino escoteiro não se sabe se está triste ou feliz.

Ao fim e de pé o pequeno bambeia da fila e esbarra na Marita e a Marita esbarra nele e sorri. Ela está mais feliz do que infeliz. Qual é o motivo da ferida o menino não escuta e comenta como é que o anel de Saturno é feito de gelo? Nessa parte eu não prestei atenção diz Marita envergonhando um chumaço de cabelo embaraçado atrás da orelha, o casaquinho suado, retira com cuidado dolorido de braço entortado, e faz tanto tempo do João não se sabe e que tarde abafada ela diz ao menino que tira o bonezinho marrom a franja empapada o suor se derrama até o olho e o menino já caminha. O pé de Marita chupa a sola da sandália a bolsinha de couro ao esquerdo do corpo o passo apressado a fivela ainda solta ainda quer saber mais do menino: ergue a mão e pergunta mas ele vai longe entra no bosque junto a outros meninos de uniformes e lenços. São maiores esses outros desviam para o tronco mais grosso e se acomodam compartilham um exemplar do novo Camel que acaba de chegar. O menino dos joelhos não gosta do cheiro e segue sozinho pelas sombras nosferatas que as árvores fazem no chão na verdade quem faz é o sol, e o menino para e olha o sol, não acredita que ele possa ser maior se olhando assim de frente é tão menor.

Atrás vem Marita vê que ele quase para, será que há ou à espera e se apressa e não vê o galho erguido e preso ao chão que dribla a sandália e crava na curva suada do pé um grito de urso abatido. O menino se vira e se arrepia e dá exatos cinco passos e retira seu lencinho do pescoço e entrega à mulher que se debate tão sozinha no gramado. O sol das quatro e meia reflete no lago um clarão o último do dia. Depois da vista defendida com os braços inteiros a visão iluminada da mulher descabelada de olho transparente e boca aberta ele decide o menino ela parece bruxa louca. E corre para fora para longe para casa onde mais tarde se arrepende.

Marita na grama deitada os olhos mais claros que a pele a boca tremulenta a perna dobrada o pé ferido nas mãos um ralado no joelho a sandália mais ao longe; coloca o lencinho mostarda na sua própria boca entre os dentes apertados e retira o galho da sola um grito das guturas. O lencinho mostarda enfim enfaixa o pé furado e muito mancando, a sandália desafivelada as canelas pesadas as varizes e a Marita chega pontual ao próximo compromisso: um filme colorido de savana de bicho que já viu quatro vezes no cinema que é gratuito a fila é longa sempre a espera, sempre um novo ponto de olhar fixo uma nova ferida em outro corpo sempre tem alguém ferido, olha ali, a menina de amarelo tem hematomas no bracinho e aqui, mais perto, um senhor de boina tem o rosto arranhado até o nariz e a sua esposa, no pescoço, a cicatriz  furinho na traqueia e na entrada do cinema o cão manco de abajur na cabeça o rabo murcho, que olho fundo meus deus que olho triste que ele tem um soluço, um osso atravessado na garganta.

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Carol Rodrigues

CAROL RODRIGUES nasceu no Rio de Janeiro e hoje vive em São Paulo. É contista e roteirista. Tem dois livros publicados:
Sem vista para o mar (Edith, 2014), que venceu os prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional em 2015, na categoria Contos, e a novela experimental Ilhós (e-galáxia, 2017).

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