Mãos vazias

1.
Encontramos o pai estirado no chão de terra. De boca para baixo. A poeira aspirada com sofreguidão. O corpo não aguentou o repuxo da subida. Patinou e estatelou-se. “O pai de vocês está caído lá na rua.” Fomos eu e o irmão. O pai bufava, sem forças para rastejar até em casa. A derrota a poucos metros da linha de chegada. Um leão-marinho encalhado na aridez de C. — esta cidade para onde o pai nos arrastou. Os olhos injetados de pavor nada diziam. Ou talvez pedissem um socorro envergonhado. Um de cada lado — gruas desajeitadas —, carregamos o pai. Sopesava o corpo que me gerara. Pesava muito para meus braços de criança. O irmão era mais forte. Parecia não se importar com a incômoda carga. Empreguei muita força para sustentar mais aquela vergonha. É muito difícil desencalhar um leão-marinho doméstico.

2.
Os operários chegaram logo cedo. Aos trancos, o caminhão alcançou a encosta lateral a nossa casa. A notícia nos inquietara durante meses. Um zunzum percorria as ruas. A igreja evangélica estampou uma faixa “Cristo está chegando”. Quase uma ironia. Iriam colocá-lo no alto do morro. Ideia do novo prefeito. Seria algo grandioso, ao alcance de todos os fiéis. Um Cristo a nos proteger dia e noite dos males do mundo. Isolaram o local. Ninguém podia chegar perto. Acompanhamos à distância a construção do nosso protetor. A mãe parecia aliviada, até um pouco feliz. O pai apenas amaldiçoava com seu bafo azedo: “Estátua de merda”.

3.
Lembro-me do gosto adocicado. Homens e mulheres sempre se reuniam aos domingos para beber e conversar. O pai enchia de vinho amargo o copo. A mãe colocava açúcar e mexia com rapidez. Não desconfiava da maldição que a acompanharia. Em redemoinho, as partículas brancas cambaleavam a carregar uma Alice inexistente. O líquido viscoso era bebido com alegria. Baco festejado na miséria. As crianças ficávamos à volta, correndo, brincando, perturbando a diversão adulta. Eu tinha quatro anos. Sorrateiro, entre os pés da mesa e das cadeiras, emborquei os restos abandonados pelos adultos nos copos. A gosma de açúcar e álcool descia pegajosa goela abaixo. Poucos tragos surrupiados e conheci o primeiro porre. A mãe cuidou de mim — uma criança bêbada num domingo à tarde.

4.
Encontraram o avô paterno morto. Estatelado na rua. Não deu tempo de arrastá-lo para baixo do chuveiro. Na roça, o chuveiro era uma lata furada com prego. A água despejada com balde ou chaleira. Dar banho no pai é sempre mais complicado às margens do fim do mundo. O avô foi levado direto pro cemitério. Acho que o banharam antes do enterro. Trabalho desnecessário. Carne limpa também apodrece no caixão.

5.
Estou sobre o cavalo de madeira. Meu corpo projeta uma esquálida sombra de apenas cinco anos — um Dom Quixote infantil. Carrego a única fotografia da infância entre os livros escolares. Ela conhece todos os meus segredos. Cuido para que não se desintegre. É o único exemplar capaz de comprovar nossa extinção. O inerte cavalo de pelo ralo ampara uma carrocinha cujas rodas são de bicicleta. Minha irmã ocupa o assento de ripas. Tem quatro anos. Meu irmão está em pé ao seu lado — guardião de um tesouro inexistente. Com eles, a sombra se avoluma sobre o chão de terra ressecada. No canto da foto, ramos de guanxuma despontam. Era difícil acabar com as guanxumas que tentavam invadir a casa de madeira. Nossas mãos de criança não davam conta de arrancá-las. Às vezes, uma enxada faz falta. Na foto ainda não tínhamos aprendido a sorrir.

Suponho que trajamos nossas melhores roupas. Eu e meu irmão de calças iguais de tergal azul. A barra é extremamente larga. Quando a mãe sentava à velha máquina — hoje abandonada nesta casa de madeira cujo fim é alimentar cupins —, tinha o cálculo da necessidade bem definido: bastava ir desfazendo a barra conforme os filhos deixavam a infância para trás. Ela sabia que não engordaríamos. Crescíamos feito esquálidos pés de bambu. Nossas calças ostentavam a passagem do tempo nas canelas. As camisetas não com binavam com as calças vincadas e os sapatos sem cadarço. Éramos homens estropiados da cintura para baixo; crianças malvestidas da cintura para cima. A minha camiseta é azul e branca. A gola está laceada. A do meu irmão é branca. No peito há um surfista. O que faz um surfista perdido a centenas de quilômetros do mar? Desliza por uma onda em direção à barriga magra do meu irmão. O desenho é de um traço bisonho — um espantalho salgando os pés sobre a prancha de mentira. Logo acima do inacreditável surfista, a irônica frase: “As feras radicais”. Não sabíamos ler. Nossos pais muito pouco. Não conhecíamos o mar. Não tínhamos a menor ideia de que existia algo chamado surfe.

De onde vieram aquelas camisetas? Ganhamos? Compramos? Não somos feras radicais. Somos crianças assustadas, tímidas e sérias. As calças são obra da genialidade da mãe. Mas e os sapatos velhos, desbotados no bico, sem cadarços? As meias do meu irmão são vermelhas. Não combinam com o sapato preto e a calça azul. As minhas são azuis. Perfeitas, não fossem os sapatos deformados. O conjunto: sapato velho, calça nova, camiseta velha. Em sua monstruosidade, o quadro é harmonioso, de uma harmonia risível, em contraste à seriedade das três crianças na fotografia.

Tudo exala solidão. Somos apenas nós três e o pangaré imóvel a puxar uma carrocinha. Sobre ela uma futura morta. A menininha de quatro anos não suportou o mundo e morreu pouco tempo depois. Sua lápide não tem nenhuma palavra escrita. Esta fotografia é seu túmulo. Além do chão de terra batida e a intrusa guanxuma, surgem ao fundo uma lasca da casa de madeira, a cerca de frestas obscenas e o portão desbenguelado. Não há mais ninguém no retrato. Nem um cachorro enxerido. Onde está a mãe? Onde está o pai? Não tínhamos animais de estimação. Somente pais.

Hoje, a foto está no papel. O lambe-lambe entregou-a à mãe aprisionada num pequeno binóculo azul. Ao projetá-lo contra a luz, os filhos presos ao negativo não sorriam. Eu galopava um cavalo imóvel. Desbravava uma terra estéril onde somente a guanxuma sobrevivia. Minha irmã aguardava a morte. Meu irmão não nos protegia de nada. É fácil aprisionar a infância num invólucro vagabundo de plástico. Basta não ter nenhuma outra alternativa.

6.
Não gosto de praia. O movimento constante das ondas parece desequilibrar o mundo. Conheci o mar quando o pai nos trouxe para C. Na foto, o pai, sem camiseta, sustenta um cigarro entre os lábios e uma cerveja na mão direita. A toalha branca sobre o ombro esquerdo. É a única fotografia que restou daquela viagem ao litoral. Engraçado, não estamos em lugar algum. Talvez as demais imagens tenham se perdido em cima do guarda-roupa. Protegemos nossa história das traças em caixas vazias de sapato. Da viagem à praia, lembro de que escalamos um barco de pesca. Almoçamos pedaços de frango frito, embalados em pacotes plásticos. A viagem os esfriara. Não havia farofa. Lavamos os dedos sujos de gordura na água de sal. O máximo contato que tivemos. Ninguém se aventurou a entrar naquela imensidão. Molhamos apenas os pés sem sapatos. Ficamos boa parte do tempo sobre o barco imóvel — os três irmãos olhando o mar, a quantidade absurda de areia. Era-nos impossível saber como chegamos até ali, como abandonamos o terreiro de guanxumas, o paradeiro do cavalinho de madeira. Onde estariam as calças de tergal, os sapatos furados e a camiseta do surfista?

7.
Seremos sempre a lembrança de um leão-marinho encalhado.

8.
Depois da morte da irmã, abandonei o colchão espremido no chão do quarto. Ganhei a parte debaixo do beliche. Com o tempo, o colchão perdeu o molde do corpo franzino da menina morta. Noite após noite, meus ossos tomaram conta da espuma insignificante. O irmão seguia no estrado de cima, sem qualquer intenção de dividi-lo comigo. No quarto ao lado, a mãe suportava o cheiro podre do pai. A cozinha e o banheiro completavam a casa.

O grito nos acordou num susto na madrugada fria. Encontramos a mãe caída ao lado do fogão. A mão no rosto não conseguia deter o riacho de sangue a brotar no lado direito. À porta, o pai escorado com os olhos acesos de demônio.

9.
Nunca odiei tanto o pai. Eu o esperava na porta de casa. Ele descia a rua de pedregulhos. Havia pouco tempo deixáramos a roça. Agora, tínhamos de cavar um chão de concreto e asfalto. Trocamos a companhia de bois vagarosos pela insana voracidade de carros e ônibus. Atrás da casa de madeira, construímos nosso estádio — um estropiado Maracanã ladeado por cedros e uma tímida valeta. Nossa rede, as ancas do paiol em cujas vísceras dormiam ratos pançudos.

O pai carrega o pacote. E vem em minha direção. Eu o espero. A ansiedade a pulsar nas vértebras do pescoço. Um nó prestes a estourar no urro do animal ancestral. Ele caminha devagar, como se ambicionasse congelar o tempo, paralisar o momento de entregar ao filho o pão que jamais saciaria a fome a arranhar as costelas delicadas. Te odiei tanto, pai, na tarde sem fim. A mãe ali por perto. Eu já havia anunciado aos amigos. A minha espera era a espera deles. Éramos uma horda de gnus à beira de um rico seco, sem crocodilos. Correríamos em disparada ao nosso estádio de mentira. Seríamos, enfim, pequenos deuses capazes de milagres indecentes. Bastava o pai me estender as mãos grossas, calosas, herança de uma roça arcaica e indesejada. O pai estendeu-me as mãos. Sobre elas, o pacote. Um simulacro de Papai Noel, cujas vestes tornavam risível a triste silhueta. Toma, filho. Agarrei com todas as minhas forças de nove anos. Davi e Golias trocando carícias e gentilezas. Rasguei o papel esverdeado feito o esfomeado a estraçalhar o vestido da amante.

À minha volta, pares de olhos em febre. Enfim, abandonaríamos a bola de plástico emprestada. Teríamos nossa bola: grande, branca, de capotão. Do papel amassado, a desilusão. Uma bola pequena, de cor escura, de borracha, fincava espinhos na palma da minha mão. Gostou, filho? A pergunta do pai se perdeu no silêncio indestrutível. Quietos e resignados, rumamos ao nosso estádio. Eu carregava o ódio debaixo do braço.

10.
— Nós vamos subir de joelhos.
A decisão da mãe nos atormentou durante dias.

11.
A mãe separou duas velas brancas. Vocês levarão elas acesas. Eu levarei o rosário. O dia surgia entre as árvores. Vestimos o calção puído do futebol. A mãe vestiu uma calça azul de agasalho. Todos os três de camiseta. Nenhum surfista estampado. O calor da manhã ainda não nos incomodava. Chegamos cedo ao pé da escadaria. Uma placa de bronze com o nome do prefeito nos informava o tamanho da fé da mãe: 127 degraus. Acendemos as velas e nos ajoelhamos. Ladeada por nós — dois insignificantes apóstolos —, a mãe iniciou a reza. Puxou um Pai-Nosso, seguido da Ave-Maria. Repetimos quase em silêncio o pedido de socorro da mãe. Começamos a subir. Deus nunca me pareceu tão distante. Ao pé do Cristo, os joelhos esfolados, em brasa, o corpo úmido de suor, rezamos com uma força inexistente. Uma novena inteira. O rosário preso aos dedos da mãe feito a corda do suicida diante do abismo. À nossa frente, o Cristo de concreto, recém-construído, a exalar o cheiro do cimento, dos tijolos, do ferro que o sustenta. Um gigante a proteger todos nós. Os braços abertos, as mãos espalmadas, vazias, sem as marcas dos pregos na cruz de madeira. No rosto da mãe, a cicatriz, o corte impreciso da faca banguela. O pai acertou meio de lado, um risco entre a orelha e a beirada da boca. Um trajeto sem métrica, sem sincronia. Trabalho de quem já perdeu o rumo do próprio corpo.

12.
Um dia, o pai caiu diante da porta. Alcançou o portão e trambalhou. Por pouco, não arrebentou a boca no degrau da escada. Ficou ali bufando. Os vizinhos olhavam sem espanto. Havia tempo, deixaram de se preocupar com o pai. Tinham pena da mãe e de nós. Mas já não nos ajudavam. O pai correra atrás de quase toda a vizinhança. Faca na mão, o diabo nos olhos. Ninguém mais se aproximava. Quando chegamos perto, o barulho da boca era assustador. Logo, a golfada de vômito lambuzou nossos pés descalços. O corpo também tentava expulsar o pai. Não o suportava mais. O vômito veio numa erupção constante, com força, a balançar a cabeça do pai para os lados. Em seguida, a urina escorreu pela virilha. Lavamos tudo com muito cuidado. Naquele tempo, o Cristo ainda não tinha chegado para nos proteger.

13.
— Mãe, estamos rezando pelo pai? É pelo pai que estamos aqui?
— Não, filho. É por nós.

14.
Colocamos o pai debaixo do chuveiro. Tivemos de encostá-lo à parede sem azulejo. Ficou sentado no chão frio, recostado a um canto. O equilíbrio era delicado. O irmão cuidava para que não caísse de cara no piso. Eu lavava o pai. Jogava água fria na cabeça. Ele cabeceava — boi insatisfeito com o matadouro —, tentando negar a ajuda inevitável. Enchia as mãos em concha e atirava contra o rosto e o peito. De cueca, o pai parecia ainda mais desprotegido. Na cozinha, a mãe fazia café bem forte. Eu temia que o pai vomitasse. Daria ainda mais trabalho. Eu e o irmão não falávamos, resignados com a maldição. A água escorria pelo corpo do pai. Eu evitava olhar para o sexo flácido, escapando pela cueca molhada. Sempre soube como o pai havia me colocado dentro da mãe. Vi numa revista. O homem e a mulher pareciam sofrer para fazer um filho. Até achava que o ditado “ser mãe é padecer no paraíso” fazia algum sentido. Sou parecido com a mãe. O irmão, com o pai. A irmã está morta.

Pelo vitrô entreaberto, vejo parte do Cristo, iluminado na noite silenciosa. O facho de luz jorra sobre a mão espalmada. É a esquerda. Os dedos pontiagudos são bem acabados. O artista caprichara no entalhe. A retidão das linhas tira-lhe um pouco da humanidade. Continuo a lavar o pai. Ele já se entregou aos nossos cuidados. Na cozinha, a mãe agora está em silêncio. O cheiro do café preenche a casa. O irmão segue ali, aparentemente sem se importar com a companhia dos fantasmas. De repente, o pai cabeceia. Olha-nos espantado. Uma golfada de vômito esquenta minhas mãos. O irmão me olha e sorri resignado. Pelo vitrô, o Cristo nos observa.

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Rogério Pereira

Rogério Pereira

Rogério Pereira é escritor, jornalista e editor. Autor do romance Na escuridão, amanhã (Cosac Naify). Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha e na França. É editor e escreve crônicas semanais para o site Vida Breve (www.vidabreve.com.br) e há 15 anos edita o jornal Rascunho (www.rascunho.com.br) - uma das raras publicações literárias do Brasil. Desde 2011, é diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Vive em Campo Largo (Paraná).

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