Cidades e noites

Ilustração de Cadão Volpato.

No Porto, a uns 30 metros de altura, dependurados na ponte D. Luís à espera do salto no Rio Douro, conversando distraídos, despreocupados, era tudo uma questão de cair em pé no rio, porque ninguém se atira – abandona-se, cai-se com fria suavidade. Eles vestem apenas o calção de banho, o que, para nós que estamos à margem, aumenta a fragilidade dos corpos em queda livre. Uma ponte, isso é que é trampolim. Merecia uma roupa de mergulho, não era Acapulco, não era pular numa prova de salto ornamental, era o verão no Porto, e o Rio Douro cortado por barcos grandes e pequenos de silhuetas desenhadas pelo sol, singrando as águas profundas como se tudo na vida passasse com essa naturalidade, incluindo os abomináveis jet-skies que a gente gostaria de derrubar com um arpão ou um lança-mísseis, se bem que um arpão lembra mais um baleeiro, e tem mais a ver com a água em questão.

E os meninos continuavam a pular no rio, maiores e menores, dependurados na ponte e, sem que nos déssemos conta do momento preciso, despencavam em queda livre. E depois de alguns instantes aflitos de suspensão, as cabeças vinham à tona e eles chacoalhavam os cabelos e começavam a nadar na direção da margem, fora da nossa perspectiva. Em seguida, sem anúncio, vinha mais um corpo em pé, sem nada de ornamental. Eles me lembravam os meninos de Aniki Bobó, o filme de Manoel de Oliveira, o cineasta do Porto que não morre nunca, embora pareça ter morrido ultimamente.

Aniki Bobó está cheio desses meninos barulhentos e destemidos. Em geral, a perspectiva do filme era igual à minha, de baixo para cima, da margem para o alto da ponte, para o alto das colinas. Por isso eu queria conhecer o Porto, por causa de Aniki Bobó. E da margem de Aniki Bobó também se avistava a ponte d. Luís, de onde esses meninos saltavam. No Porto, agora, subitamente o filme em preto e branco ganha as cores da realidade. Mas os meninos continuam em preto e branco, em queda livre.

Aniki Bobó é uma canção infantil. É sobre um triângulo infantil. Um menino rouba uma boneca para a menina amada na Loja das Tentações, que fica logo ali.  “Quando não a vê, a espera ou a procura com pezinhos de lã em trajectos bem pensados, incluindo os telhados.” Parece um poema, mas é como aparece na Wikipédia. Lá se diz que Manoel de Oliveira era filho de um fabricante de lâmpadas. E lá alguém cravou a data da sua morte. A menina amada se transformou numa velha mulher simpática, que se lembra de detalhes  das filmagens. E então cai mais um menino em 2016. E parece que Manoel de Oliveira, um centenário que atravessava a nado o Rio Douro,  agora morreu de verdade.

Das seis pontes que ligam o Porto à Vila Nova de Gaia, a mais bonita é a d. Luís. Uma delas caiu sob o peso de 4 mil pessoas fugidas do exército de ­Napoleão. Há uma outra desenhada por Eiffel. Chama-se Maria Pia. Os engenheiros que ergueram essa ponte foram depois trabalhar na torre Eiffel.

Ponte da Arrábida, cimbre de ferro apoiado nas margens em macacos hidráulicos; sobre ele, dois arcos de betão armado. Percebes?  Ponte Infante dom Henrique. Ponte São João, o santo padroeiro da cidade. Ponte do Freixo. O motorista de táxi contou tudo sobre elas, incluindo a história de Napoleão. Também disse que chove muito no Porto. Que o clima se assemelha ao de Porto Alegre, onde ele viveu na juventude. Mas não vimos uma gota de chuva. Vimos, sim, uma grande lua amarela no céu escuro e vazio.

No Porto, viveu um blog chamado Dias Difíceis, de Cristina Martí e Rui Manuel Amaral. Eu o li diariamente por mais de cinco anos. Ela escrevia sobre cinema da mesma forma que uma cinéfila do tempo dos cineclubes. Ele tinha uma banda pesada e escrevia microcontos surrealistas. Agora tudo está morto. Catástrofe.

Foi assim que conheci o Porto. Da outra margem, do alto de Vila Nova de Gaia, observando o crepúsculo e a cidade que se acendia.  Dos telhados abaixo, saltava a silhueta negra do Sandman.

“Uma livraria ambulante a bordo de uma bicicleta e uma página no ­Facebook” (Público): a livraria Flâneur. E a Lello, mais bonita que os livros, com suas escadas em forma de arabesco.

Os rapazes cantores numa arcada da Faculdade de Ciências, de capa preta, a capa dos estudantes universitários. Imagino um mundo inteiro perdido nessa cidade, enquanto os meninos saltam da ponte para o rio. Manoel de Oliveira era quarenta anos mais velho do que eu e ainda estava vivo, nadando no Douro. Havia também o Museu das Marionetas, cujos atores já encenaram O Silêncio de Beckett. Porto é a cidade dos amantes, segundo o Diário de Notícias. “O ator recém-falecido Anton Yelchin é Jake, um jovem americano que vive no Porto e que se apaixona numa escavação arqueológica por uma estudante francesa, Matti, interpretada por Lucie Lucas. De volta ao Porto, os dois têm uma noite de sexo e uma ceia que lhes marcará para sempre a vida”. Da sinopse de um filme chamado Porto. “Há antes um efeito orgânico de uma alma urbana que chega a surtir uma espécie de efeito romântico-punk muito recomendável.
Os blues do Porto captados na zona velha da cidade, sem embelezamento, com aquela pura e soturna alma da Invicta. O restaurante Cunha, o café Ceuta, o mercado do Bolhão fazem sentido aqui. O realizador afirmou que Manoel de Oliveira foi uma influência e que ficou tocado pela incrível beleza da cidade mas o seu cinema é de uma outra família.”

Mais meninos pulam no rio. Trata-se de uma alegria feroz da qual são acometidos apenas no verão. Porque chove, e o Porto é como Londres no resto do ano. À noite, bem tarde da noite, desce uma neblina que ajuda no sono, como um lençol. E tudo em volta do Douro dorme. E também no fundo do rio, onde só há tainhas. Não sardinhas, que pertencem ao Tejo. O motorista de táxi diz que os peixes do rio Douro não servem para nada, a não ser para a distração da pesca, por isso, eu que nunca pesquei na vida mas sou perfeitamente distraído, devo ter andado pescando por ali em outras eras.

UM BLOG DA CIDADE DO PORTO, Dias Felizes, quando ainda havia esse tipo de coisa e eu era um leitor fiel, certo de que ninguém mais no Brasil o lia, a solidão no meio da multidão. Dias Felizes vem da peça de Samuel Beckett, em que a personagem central Winnie vive enterrada, primeiro até a cintura, depois até o pescoço. Seu companheiro quase invisível, silencioso e taciturno, se chama Willie. Winnie se vira como pode, apreciando o que tira da bolsinha. Seu refrão é:  “Ah, este é um dia feliz!”. O blog era feito por um casal que talvez nem fosse um casal. Ele era um escritor de microcontos. Ela gostava de cinema. Os textos dele eram surrealistas. Os dela misturavam personagens dos filmes de Robert Bresson, como o asno Balthazar, com um pêssego que estivesse comendo na hora do almoço ou uma cerejeira florida avistada na rua. Hoje você tenta abrir o blog e aparece uma página cinzenta de luto. No lugar do endereço, Catastrophe (desactivado). Ela se chamava Cristina; ele, Rui Manuel. Pessoas do Porto das quais não tivemos mais notícias.

EM ALGUM MOMENTO DE 2011, assombrado pela história  do polonês que passara 15 dias no aeroporto de Guarulhos depois de desembarcar de um voo de Londres sem ter para onde ir nem como voltar, escrevi a epígrafe de um livro falsificando um poema em nome dele.

Aconteceu em junho daquele ano. Wladyslao dormiu num banco de cimento, agarrado à mala, usando apenas um cobertor fino.  Era inverno, ele também se aqueceu com duas garrafas de vodka, achadas vazias no canteiro atrás do banco. Só sabia dizer “I’m Poland”. Os faxineiros do terminal cuidaram dele, conversando em português. “Vai que ele fica”, disse uma faxineira.  Levavam-lhe restos de comida. Pensavam que era alemão. Ele trazia um passaporte com uma foto de bigode stalinista. Não tinha passagem de volta. Era eletricista em Cracóvia, mas morava em Londres, onde estava desempregado. Tinha cinco filhos. Um amigo propôs que viesse ao Brasil. Ganhou uma passagem só de ida. Precisava esperar dois dias no aeroporto. Daria um passeio por São Paulo e depois voltaria a Londres. Bastava levar dois aparelhos telefônicos como encomenda. Para quê? Não soube responder ao ser interrogado por um funcionário do consulado polonês. O fato é que ninguém apareceu. Os repórteres que descrevaram o caso usaram o Google Tradutor para lhe dizer em polonês, assim que ele foi levado do aeroporto por um táxi a caminho do consulado: “Estamos aqui para ajudar”.  E ele voou de volta para Londres.

Em 13 de janeiro do ano seguinte, Wladyslao foi encontrado morto, estendido nos degraus de uma escada que levava a um porão, por limpadores de rua londrinos. Estava cercado de garrafas de vodka. Falência crônica do fígado. Aqui, segundo a notícia, ele não tinha filhos. Não tinha ninguém. Não tinha dinheiro, apenas um carregador de celular. Não tinha telefone. Era conhecido como O Homem do Aeroporto, nascido em 10 de março de 1967. Em Londres, eles o chamavam de “O Jogador de Xadrez”, porque ele tinha um olhar inteligente, de escritor ou coisa parecida. Tinha os olhos muito azuis, e Wladyslao Parzelski é um nome de poeta.

Ele, de fato, assina o seguinte poema, que usei como epígrafe de um livro que nunca existiu:

Essa noite de brinquedo
Terminará quebrada

Entre mil constelações
Desgovernadas

Wladislao Parzelski

Primeiro a epígrafe, depois, nenhum livro. Talvez por ele, pelo poema, não pelos telefones e as garrafas de vodka e o banco frio do aeroporto e os cinco filhos que em Londres viraram nada, nem pela eletricidade. Talvez por ele,  Wladislao Parzelski, cuja história pregressa desconhecemos, o poema seja lembrado. Não se trata de um bom poema que se sustente sozinho. Não se sabe a sua real extensão, se está escrito por inteiro, mas é um diabo de poema pessimista, com o olhar azul vítreo de Wladislao Parzelski em ­Cracóvia, São Paulo e Londres.

O PROGRAMA DE RÁDIO À MEIA-NOITE, num prédio vazio, a não ser pelo locutor. Ele ficará até as duas da manhã. Estamos falando de rock, eu e mais dois roqueiros que já têm uma carreira de 26 anos. Eles são de Santos. Seu som é pesado, mas as músicas que eles escolheram para o DJ tocar são mais leves. Os três fechamos na admiração pelo Husker Dü, e tudo que saiu do Husker Dü, Bob Mould, Sugar, eu ouvia direto numa fase barulhenta que não durou muito, é claro. De forma que hoje não escuto mais nada, e eles, por sua vez, viraram os ouvidos para outra direção. Por isso falamos do passado com nostalgia.

Conto a história de como Chico Science me ligou do Estúdio Nas Nuvens certa noite, pedindo a letra de uma canção que ele estava a ponto de gravar. Um telefonema do céu, lembro de ter pensado. Ditei a letra, ele gravou no seu último disco. Depois morreu num estúpido acidente de automóvel. Era domingo. A letra dizia: “Eu sábado vou rodar/Criança de domingo/Sem saber guiar/Criança de domingo”. Fui à missa de sétimo dia. Ainda não sabia guiar, estava começando a aprender.

Da nossa conversa à meia-noite: aos 15 anos os rapazes eram ratos de shows em um planeta distante chamado  São Paulo. Usavam um visual que misturava skate, grunge e punk para confundir os skinheads. Os skinheads portavam machadinhas. Os meninos tinham que correr deles feito loucos.

Demos adeus numa avenida Paulista quente e sonâmbula, sem saber se, por acaso neste mundo insone, alguém quem sabe nos teria ouvido.

VERÃO, “estate”em italiano: dizia que o odiava. A canção se chamava mesmo “Odio l’Estate”, mas um outro cantor confundiu-a na tevê, de propósito, com “Odio le statue”, “Odeio as estátuas”, o que nem parece tão desastroso assim, também odeio as estátuas, as estátuas equestre de todas as cidades. O título da canção ficou apenas “Estate”, e assim ela virou um standard do jazz. Quem a compôs foi Bruno Martino, um romano apelidado de “Principe del night”. Era uma canção de piano-bar, com letra de Bruno Brighetti, na qual diz odiar o verão porque ele traz recordações insuportáveis. E que fica esperando a neve cobrir todas as coisas. João Gilberto gravou a música em Amoroso,
cortando o ódio ao verão. Mas confesso que também sofro dessa doença rara de alguns cariocas, que passam anos sem pisar na areia, sem dormir ao sol. Que só passeiam à noite.

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Cadão Volpato

Cadão Volpato

Cadão Volpato escreveu oito livros de ficção e gravou sete discos com os grupos Fellini e Funziona Senza Vapore, e um disco solo, Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido. Seu romance Pessoas que passam pelos sonhos (Cosac Naify) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014.

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