As mulheres em três contos de Ivana arruda leite

IZILDINHA

Quando Cristóvão me viu sentada no pátio do hospital, tomando sol, me achou linda e quis me tirar de lá, casar-se comigo, ser pai dos meus filhos. Se aproximou, puxou conversa. Eu abri meu coração e contei minha vida inteira naquela tarde, ali mesmo sentada no banco do jardim do hospital. Desde então estamos juntos.

Nunca tive pai nem mãe, fui criada em orfanato. Quando fiquei mocinha fui trabalhar em casa de família. Trabalhei numa porção delas, gente boa, gente ruim, gente de tudo que é jeito. Um dia o marido de uma patroa, um homem gordo, horroroso, grosseirão mesmo, foi ao meu quarto e me pegou à força. Eu pensei em ir embora, mas pra onde? A patroa era tão boa e o peste me dava dinheiro pra comprar batom, ingresso pro cinema, fotonovela.

As crises começaram naquela época. Umas demoravam mais, outras menos. A dona me disse que eu não podia continuar morando lá, acordando o prédio inteiro com meus gritos, pondo tudo em perigo. Me pagou o que devia e me aconselhou a procurar tratamento.

No hospital público me fizeram um monte de exames e me mandaram para um outro, psiquiátrico. Confesso que eu gostava de lá. A comida era boa, eles davam remédio direitinho, tinha água quente no chuveiro, tudo na hora certa.
Na época, Cristóvão era motorista do hospital. Quando ele foi pedir autorização pra me tirar de lá, os médicos disseram que problema grave eu não tinha. Na verdade, eles nem sabiam por que eu estava lá.

A casa dele era muito simples mas toda arrumadinha. Ele dizia que sua maior alegria era chegar do serviço e me ver de banho tomado, perfumada e arrumadinha como a casa. Nunca entendi como um homem bom e inteligente como o Cristóvão pode se apaixonar por mim, me tirar do hospital, casar-se comigo.

Um ano depois nosso filho nasceu. Um menino lindo e forte como o pai. Eu pegava ele no colo e custava a crer que fosse meu. Como tudo ao redor: essa casa linda, os empregados (Cristóvão progrediu muito na vida), a piscina, os jardins, a despensa lotada, as joias que ele me dá.

As crises desapareceram mas ficou essa sensação esquisita de não ser dona de nada por aqui. Se elas voltarem quero que Cristóvão me leve de volta ao hospital e me deixe lá, sentada no banco embaixo da amoreira onde passávamos as tardes conversando. Então eu dormirei e acordarei pensando que foi tudo um sonho. Porque foi mesmo.

TITILA

Titila andava ao redor do telefone sem conseguir se decidir. Ligo ou não ligo? Ia à cozinha, tomava café, bebia água. Outro café. Fumava, sentava, levantava, ligava o som, desligava o som, ligava a tevê, fazia exercícios de relaxamento. Relaxava mas não decidia. Tirava o fone do gancho. Ligo ou não ligo? Colocava o fone no gancho. Na tevê muda, a apresentadora lhe dizia: liga!, liga! Mas faltava coragem pra obedecer. Ao meio-dia chupou uma laranja tentando ler os pensamentos do cachorro. Esperava um sinal que decidisse por ela.

Levantou o fone do gancho e discou. Chamando. Coração disparado. Chamando. Chamando. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Desligou com o coração saindo pela boca e as mãos trêmulas. Mais um café, mais um cigarro. Passados cinco minutos, nova decisão. Vou ligar e deixar um recado. Chamando. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Desligou. Falar o quê? Oi, aqui é a Titila, estou com saudade, quando der me liga, um beijo. Ou será melhor um abraço?

Oi, Genaro, aqui é a Titila, por que você sumiu? Se você não me ligar hoje ainda, amanhã amanheço morta.

Recado dado. Correu à cozinha, tirou a vodca do freezer e serviu-se de uma dose generosa. Voltou pra sala e sentou ao lado do telefone. Foram muitas as idas à cozinha. A vodca estava pela metade quando ela resolveu ligar de novo. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.
Oi, Genaro, antes de me matar, resolvi enxugar a vodca que você deixou na geladeira. Te dou mais uma chance se você me ligar até meia-noite. Te adoro. Me liga, vai.

Desligou o telefone morta de arrependimento. O que será de mim, mãe santíssima?, perguntou à Virgem da correntinha. Depois ao Barão: por que fui fazer essa besteira? Mas o cachorro continuava mudo, lendo os lábios das pessoas na televisão muda. O mundo mudo esperando uma decisão.

Foi a vodca. Vodca me faz cometer loucuras. Resolveu fazer um café pra botar as ideias no lugar. O Genaro não pode ouvir esse recado de jeito nenhum. Bebeu o café de um gole só, calçou os sapatos e pegou a bolsa disposta a ir à casa dele. Peço pro porteiro abrir o apartamento (ou arrombo a porta) e arranco a maldita fita da secretária eletrônica. Mas quem disse que o porteiro vai me deixar entrar se ele nunca me viu! O Genaro nunca me levou à casa dele. Aliás, nem sei onde ele mora!!! Jogou a bolsa no chão e plantou-se ao lado do telefone. Decidiu deixar um segundo recado pedindo desculpas pelo primeiro. Chamando. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.

Genaro, aqui é a Titila, eu te deixei um recado há uns dez minutos, ou quinze, sei lá, e acabei falando o que não devia. Esquece, tá?

Mais sossegada, foi pro uísque. Agora sim, tenho munição pra noite inteira. No segundo copo bateu a dúvida. Como sou idiota. Agora é que ele não me liga nunca mais. É melhor falar a verdade. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.

Genaro, aqui é a Titila. Olha, eu te deixei um recado, um não, dois, mas acabei me embananando. Eu só queria te dizer que tô com muita saudade e gostaria de te ver. Um beijo.

Pronto! Agora ficou legal. Guardou o uísque e fez outro café. Respirando na janela, ela tentava ordenar os telefonemas. No primeiro eu falei que estava tudo bem, no segundo eu falei que estava tudo mal. Eu falei que amava ele? Afinal, quantos recados deixei? É melhor começar de novo, com calma.

Mais uma dose de uísque. Chamando. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.

Oi, Genaro, aqui é a Titila, desculpa a palhaçada mas é que foi tudo tão legal entre a gente… Por que você sumiu? Tenho pensado muito em você. Tô tão triste…

Desligou o telefone aos prantos. Que ridícula. Ele vai pensar que eu tô morrendo por causa dele. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.

Olha aqui, Genaro, se quiser ligar, liga, se não quiser vá pra puta que pariu. Eu não estou nem aí com você. Foda-se cara.

Bateu o telefone.

Como eu me odeio. Por que faço isso? O Genaro não merece isso, ele sempre foi tão bonzinho comigo. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado.

Genaro, tô em casa, me liga. Sem conseguir levantar do sofá, caiu em sono profundo com a perna esticada sobre a mesinha e a cabeça pendurada no vazio. Acordou com o telefone tocando.

Oi, Titila, aqui é o Genaro, acabei de chegar e ouvi seu recado. Que bom que você ligou, precisamos nos ver.

Com um gosto horrível na boca e a cara toda babada, ela olhou pro cachorro pra entender o que estava acontecendo.

Na sala escura, a televisão muda brilhava feito um abajur.

AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA

Ele não tinha esse direito. Não depois de tudo que vivemos juntos. Um dia namora, me leva ao cinema, jura eterno amor, no outro diz que não quer mais saber de mim? E as promessas, os beijos, as juras de amor? Não se brinca assim com uma mulher.

Na semana passada ele tocou a campainha, sentou-se a minha frente e disse que guardaria ternas recordações do nosso namoro mas que daqui pra frente estava tudo terminado. Fiquei furiosa:
_ Quem você pensa que eu sou pra ser deixada assim?
_ Assim como?
_ Assim, de repente, sem que nem porquê. Um belo dia você acorda, resolve terminar o namoro e fim?
Ele então se pôs a dar explicações.
_ Veja bem… tem isso… tem aquilo outro…
Fui ficando num tal estado de exasperação que peguei um vasinho de violetas que estava ao meu alcance e acertei-lhe em cheio na testa. Ele levou um baita susto. Achei que ele fosse voltar atrás, me pedir desculpas, mas só o que fez foi levantar, sacudir a roupa e sair batendo a porta.

Resolvi esperar um pouco. Dois dias depois fui à casa dele. Tempo suficiente pra esfriar a cabeça e botar as ideias no lugar. Comprei um maço de flores do campo e uma caixa de marzipãs para adoçar o nosso encontro.

Ao me ver na porta, ele me mandou entrar com certa frieza. Pegou os presentes e colocou-os na estante sem nem abrir. Em seguida, com a cara mais lavada do mundo, perguntou o que eu estava fazendo ali. Eu pirei. Esse cara me faz vir até aqui, gastar um dinheirão com flores e doces e não sabe o que estou fazendo aqui? Será que ele pensa que é só chegar, namorar, jantar fora, beijar na boca e se mandar?

Quando ele falou que “namoro é coisa que se termina todo dia” eu perdi a cabeça. Fui até à estante, joguei os marzipãs no chão e pisei neles feito cabrita. As peras e maçãs coloridinhas viraram uma pasta que deve estar grudada no carpete até hoje. Ele me apontou a porta da rua e me pediu pra sair, aos berros.

Quem esse cara pensa que é pra me expulsar dessa maneira da casa dele? Um dia namora, beija, me acorda com café da manhã, diz que me ama, no outro me enxota feito cachorro? Ou ele pede desculpas ou vai ter o troco que merece. Essa eu não vou deixar barato.

Esperei três dias e voltei à casa dele. 

Ele abriu a janelinha e de lá mesmo perguntou o que eu queria. Estranhei a falta de modos mas me controlei.

_ Precisamos conversar – disse educadamente.
Quando ele berrou lá de dentro pra que eu o esquecesse e sumisse da vida dele, comecei a chutar o portão desesperada. Quem ele pensa que eu sou pra falar comigo desse jeito? Seu estúpido, grosseirão. Ontem mesmo era meu namorado, ia comigo ao cinema, jurava eterno amor, hoje quer chamar a polícia pra me prender?

Pulei o portão e arranquei a primavera do jardim com raiz e tudo. Minha mão ficou toda ensanguentada. A vontade era jogar a primavera nele e matá-lo. Mas quem disse que primavera serve pra matar um homem? A coitada ficou lá, jogada no chão, torta e descabelada como eu.

Antes de ir embora, passei a mão suja de sangue na parede branca da casa pra que todo mundo soubesse que ali mora um homem capaz de fazer uma coisa dessas com uma mulher.
Dessa ele escapou, mas deixa estar. Aqui se faz, aqui se paga.

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Ivana arruda leite

Ivana arruda leite

Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba (SP); é mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo. Publicou três livros de contos, Histórias da mulher do fim do século, Falo de mulher e Ao homem que não me quis; uma novela, Eu te darei o céu - e outras promessas dos anos 60; e dois romances, Hotel novo mundo e Alameda Santos. Participou de inúmeras antologias. É autora de livros infantis e infantojuvenis.

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