O Retorno

Todos estavam à espera de um sinal diante do morto. Ele continuava imóvel, dentro do caixão branco, sem flores, apenas envolto de tule, como era de costume por aquelas bandas. Seu rosto pálido, banhado da eternidade, ainda guardava traços da humanidade compartilhada, sem qualquer distinção, com os dali. Todos esperavam suas últimas palavras, num desejo íntimo de ter um pouco mais, junto deles, o amigo tão respeitado e querido.

Pode parecer estranho, caro leitor, mas naquela região os mortos, antes de definitivamente partirem, tinham permissão do Alto para retornar por algum tempo e se despedir dos seus. Não sabemos o motivo de tal regalia, mas aquelas terras eram inóspitas e os habitantes arredios. Desconfiados no trato com estranhos, mas muito unidos. Cuidavam da terra como se fosse a única coisa a ser feita na vida. Até o ar dali parecia mais leve, e a água, mais fresca e cristalina.

Na pequena saleta, ornada de vasos com flores, pendiam gravuras de navios antigos e de alguns rostos que pareciam de santos. Uma mulher chorava encostada à porta do quarto. Um menino agarrado a seus braços olhava desconfiado para os que ali estavam. Um rapaz segurava o chapéu sobre os joelhos. Uma moça de olhos serenos conservava-os fixos no chão de terra batida. As velas ardiam, sem bruxulear, apesar de o vento balançar as cortinas da janela. Um velho fumava num dos cantos da sala e outra mulher, sentada ao seu lado, murmurava orações. Uma jovem negra apareceu com uma bandeja de café fumegante. De vez em quando, seus olhos se esgueiravam procurando detectar algum movimento do corpo estirado.

Os homens permaneciam num silêncio reverente. Bandos de garças atravessavam o céu de volta para os seus ninhos. As mulheres iniciaram um cântico: “Vamos levar pro reino da glória / Este presente pra Nossa Senhora…”, assim entoavam.

Depois de algum tempo, algumas gotas de suor começaram a correr pela face do morto. Os olhares se cruzaram numa muda expectativa.

Eles eram poucos, mas nutriam a esperança de descobrir mais coisas sobre o “outro lado”. Até agora só haviam ouvido gritos, olhares assustados, sorrisos piedosos estampados nas faces encovadas dos defuntos e raramente palavras…

O Sol alaranjado coloria os morros, as grimpas das árvores. Um bando de pardais, em grande alarido, se aninhava entre os ramos de uma grande figueira próxima dali. As galinhas voltavam para os poleiros, mugidos vindos de longe enchiam de melancolia a estranha expectativa.

De repente, o corpo do defunto se moveu. Os seus olhos se abriram esbugalhados, como se engasgado com alguma coisa. Tossiu… Sentou-se, logo depois, ainda meio aturdido, embora sem se surpreender com as velas e com os rostos assustados, mas felizes, por vê-lo com vida novamente.

Suspirou, pigarreou, pediu um gole de café.

– Graças a Deus, você pôde voltar – gritou a mulher que chorava.

– Bem que não queria, pois, se falasse, não me entenderia.

– Fale, homem. Lá é bom? – indagou outra.

– Melhor do que aqui. Pelo menos, não carregamos esse peso nem sentimos cansaço.

– Você esteve com o Januário? – perguntou a moça de olhos serenos.

– Sim. Ele te espera, mas não precisa ter pressa. Tudo tem sua hora.

– Não leva mágoa de mim, não, não é Seu Camilo? – perguntou o velho que fumava.

– Não seja tolo, Homero. Aquela cerca nem deveria existir, bem que agora compreendo…

Os rostos ganharam vida, rodeavam o defunto com os seus medos e sua admiração. Perguntas de todo jeito eram feitas, umas mais descabidas que outras, quando não desprovidas de sentido. Parecia tranquilo, com a indiferença dos que já não mais pertenciam ao meio. Trazia no olhar um toque do desconhecido, mas satisfeito com o cumprir-se do ritual imposto pela crença dos dali. Eles, com suas forças psíquicas, traziam-no de volta para que o medo do momento de transição se dissipasse com o acúmulo de informações sobre o “atravessar da neblina”, o “apagar-se do fôlego vital”, do “entrar na escuridão de um túnel em busca da luz” – mitos que ganhavam novas formas a cada retorno, a cada titubear do abraço da morte.

– O que você viu, meu filho? – perguntou-lhe a mãe.

– Um mundo diferente, coisas desconhecidas. Algo parecido com o seu Amor. Lá é impossível fingir, facílimo perdoar. Dificuldade de esquecer os que nos foram queridos.

Viu-se uma lágrima correr de seu olho. Mas sorria como nunca havia sorrido.

– Você sentiu medo? – quis saber a negra. – Alguém o castigou? Existe lá alguma balança? Seus pecados foram lidos?

Ele meneou a cabeça. Pareciam absurdas todas aquelas questões.

– Vi muitas portas. Jardins com lindas cores. As preocupações daqui lá são ilógicas. Outras sensações nos transformam como se víssemos pela primeira vez a imensidão do mar.

Emudeceu-se. Olhou à sua volta, como se procurasse alguém. Até que viu um rapaz. Os olhares se cruzaram e ele se perturbou.

– Os seus olhos… nada me foi mais caro do que esse brilho – confessou ao rever o amigo, num balbucio.

O rapaz se levantou, chegou-se até ele e tocou-lhe os lábios com a ponta dos dedos, fazendo-o calar.

Ele, se sentindo fraco, suspirou. O grande esforço fez com que se deitasse novamente.

E os seus olhos não mais se abriram.

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Carlos Augusto Decúpero

Carlos Augusto Decúpero nasceu em Santo Antônio de Pádua (RJ), em 1950. Autodidata, participa, desde 1978, de concursos nacionais e internacionais de fotografia. Ilustrou as capas de dois livros sobre folclore editados pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). Foi selecionado pelo Banco de Talentos, nas categorias: Contos, em 1995, 1997, 1999 e 2001; Pintura, em 1998; e Fotografia, em 1996, 1998 e 2000.

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