Todos estão neste

“Desculpa. Não tenho nada.” Disse isso e forçou um sorriso amarelo. Seus olhos percorreram todas as minúcias daquele rosto na velocidade de uma troca de cor do semáforo, e ela podia jurar que nunca o vira antes. Na luz ofuscante do meio-dia bem no meio de um dia qualquer, ela desviou o olhar, dobrou a esquina e trocou de sorriso. Não podia ser.

Lembro-me ainda de Marcelo. Não, certamente não era ele. Marcelo tinha as mãos mais brancas que eu já havia visto, e com ela escrevia palavras intermináveis em folhas arrancadas de cadernos que deviam servir às matérias do colégio. Marcelo tinha uma paixão. Quanto mais tentava esconder, mais se denunciava. No lugar da Geografia, da Matemática e da Língua Portuguesa, os cadernos de Marcelo tinham história – não aquela com letra maiúscula, mas a história que ele contava todos os dias para aquelas folhas amassadas de arestas mal rasgadas, o garrancho de menino recém-alfabetizado preenchendo de ponta a ponta as linhas azuis de nossa infância.

A paixão que Marcelo tinha, todos sabiam, era pela menina mais bonita da classe, ainda que diferissem as opiniões sobre quem ela era, afinal. A professora Dalva, complacente, deixava o menino absorto em seus escritos, desde que terminasse a lição, copiasse a matéria do quadro-negro, estivesse em dia com as respostas dos problemas (ao menos, os de Matemática) e nunca botasse os pés sujos de terra em cima da cadeira da frente, como o faziam, sem pudores, Jorginho e Heitor. Diziam que Marcelo era o protegido. Diziam que tinha um segredo. Diziam muitas coisas.

Marcelo tinha olhos claros – as pupilas meio rosadas – e os mantinha constantemente arregalados, de modo que pareciam sempre dispostos a renovar a curiosidade pelo mundo. Marcelo tinha olhos iluminados. O que tinha de aceso nos olhos, tinha de apagado no corpo, que mantinha o mais longe quanto fosse possível de rodas de moleques trocando figurinhas. Além das mãos brancas, tinha o corpo todo também branco, de uma brancura que não se vê sempre. Mal ele chegava à escola, e aprofessorajá o cobria de cuidados excessivos. Marcelo, não anda pelo sol. Leva o casaco, Marcelo. Marcelo, as luvas. E havia os remédios, os tubos de pomada, umas listas de restrições esquisitas. Marcelo sempre sorrindo, os dentes amarelados em contraste com a pele muito branca. Não, definitivamente, não era ele.

Quando batia o sinal do recreio, o doce som de nossas pequenas alforrias, os moleques todos saíam correndo. Heitor invariavelmente tropeçava porque Jorginho estirava o pé antes de ele passar. E riam. As gêmeas Talita e Tati faziam questão de rumar sentidos opostos para demonstrar personalidade. Mariana, antes de ganhar o pátio com suas risadas altas e graves, tirava o moletom que, todos apostavam, um dia chegaria sozinho à escola. Manoel, o filho do zelador, calçava os sapatos escondido embaixo da mesa, para que nem a professora nem ninguém percebesse sequer que um dia os havia tirado, embora todos sentissem, diariamente, um cheiro indecifrável que habitava impunemente a nossa sala. Já Pedro mirava a lousa com precisão cirúrgica e atirava um aviaozinho de papel, certo de que a algazarra do recreio anunciado garantiria o anonimato de sua infração.

E assim a sala esvaziava de gente, de barulhos, de cheiros indecifráveis e de moletons semiemancipados. Esvaziava até mim, mas não esvaziava de Marcelo. Ele ficava sentado à mesa, na companhia de seus cadernos e lápis, mudando apenas de posição, que ganhava, na ausência dos meninos, um jeito de importância. Marcelo tinha medo de parecer importante no meio dos outros, e por isso o víamos sempre afundado em seu lugar, revelado apenas pela chamada oral e pelos risos abafados que deixava escapar quando a professora Dalva fazia alguma piada que mencionasse, não necessariamente nessa ordem, animais falantes, portugueses, bigodes. Que bobagem, não era o Marcelo.

Ele tinha uns jeitos esquisitos de se fazer presente. Mais do que isso: ele tinha um jeito diferente de se fazer notar – pra mim. Os outros meninos cochichavam constantemente coisas no meu ouvido. Uns mexiam no meu cabelo e desfaziam meu penteado meticulosamente articulado – coisa que eu odiava por motivo de: orelha de abano. Outros me mandavam bilhetes – que eu nunca entendia por motivo de: garrancho. Marcelo só me sorria e lotava folhas e folhas do caderno. E sorria de novo. Era sempre sorridente comigo, ainda que de longe, do seu jeito. Alternava episódios de isolamento extremo com a única forma de ternura que ele sabia ser. Ele se isolava de todo mundo, mas de mim não. Às vezes, dava até para fingir que era eu a menina mais bonita da sala. Digo: quando ele me olhava. Eu me lembro ainda. Eu não esqueceria Marcelo. Não, não podia ser ele.

Um dia, lembro como se fosse agora mesmo, a professora chamou Marcelo num canto, no meio de uma prova de Ciências. Disse algumas palavras e esperou a resposta do menino, como se quisesse que a informação percorresse cada poro e saísse em forma entendimento limpo e puro. Mas Marcelo se calou e voltou à sua cadeira meio cambaleante, como se tateasse no escuro, e se sentou, ainda mais isolado em si do que antes. Mais tarde, fomos saber que a notícia cochichada pela professora era de que a mãe de Marcelo o esperava do lado de fora da escola para levá-lo para casa. Mais tarde ainda, fomos saber que a mãe viera buscá-lo mais cedo porque, naquela tarde, o pai fora embora de casa.

Pouco ficamos sabendo além disso. E isso não era muito: que Marcelo tinha um pai que fora embora, uma mãe que passou a ser só confusão depois do abandono e que sua família era a mistura de três coisas que não deveriam viver sob o mesmo teto: a sombra do pai que já não estava, a presença da mãe que estava, embora já não estivesse, e Marcelo, o saldo inevitável dos dois elementos anteriores. Diziam que a mãe era negra. Que o pai era negro também. Diziam que a mãe vivia chorando, quando chegava no portão da escola. Que o pai já ameaçava ir embora há muito tempo. Diziam que o pai e a mãe brigavam, que houve um dia uma discussão barulhenta, choro, grito; que o pai acusou a mãe de traição. Diziam muita coisa.

Contávamos pouco mais de oito anos quando os meninos se ocupavam apenas de criar armadilhas para o tropeço alheio ou esconder os pés debaixo da carteira. Era fácil se perder na banalidade de ser criança. O mundo era todo feito para ser descoberto por nossos olhos curiosos, e tudo era notícia. Dona Fátima ganhou bebê depois de velha. Seu Nélio, da banca de jornal, trocou de mulher. Atílio Gama, o menino mais rico da escola, foi despachado pra Suíça porque o pai se cansou dele. Não bastasse tudo isso, ainda havia todos aqueles que não conhecíamos e que poderiam esconder segredos de que adoraríamos ser os guardiões.

Lembro-me ainda de Marcelo e eu, atravessando a rua, os olhos tentando eleger o melhor canto para mirar; viver era apenas moldar os dias de acordo com nossos passatempos desimportantes. A eterna novidade do mundo se descortinava aos nossos sentidos no tempo exato do medo de que um dia deixasse de ser assim. E um dia deixou.

Eu nunca mais vi Marcelo. Diziam que a mãe se mudou para a cidade grande, que queria tentar a vida. Vieram as férias, um novo verão, um Ano-Novo, uma nova escola. Pelo bairro, diziam que já não se ouvia uma palavra sobre os dois. Diziam que a cidade já os esquecera, e de todas as brigas, das discussões, do menino sendo levado pela mão urgente da mãe, dos braços brancos entrelaçados com violência aos braços negros dessa mãe que também era pai. Diziam muita coisa. Mas eu me lembro ainda de Marcelo. Não, não, não era ele.

Com o espírito já sossegado pela certeza, ela continuou guiando seu carro pelo asfalto quase derretido de sol naquele meio-dia de um dia qualquer. Convenceu-se a voltar, só para dar cabo nos fiapos de dúvida que ainda enchiam de nebulosidade o seu dia claro, mas sabia: não era ele.

Os faróis mais lentos do que nunca, posicionando-se vermelhos, um a um, como guardas que impedem a chegada de intrusos a um lugar de acesso proibido. Ela sentia cada poro prestes a deixar escapar uma gota de suor. Tamborila com as unhas compridas a borracha quente do volante, e esbarra quase sem querer na buzina. Uma rua longa, três viadutos, duas rotatórias. E finalmente a ruela estreita, agora ainda mais tomada pelo cheiro de lixo. Bobagem, não era Marcelo, pensou ela, enquanto dobrava a esquina de volta, ainda em tempo de cruzar o olhar com uns olhos rosados em um rosto branco, estranhamente familiar. Mas já não eram os mesmos olhos, já não era a mesma disposição a renovar curiosidades. Faltava-lhe a eterna novidade do mundo: um estranho. “Não, não tenho nada.” Aliviada, desceu o vidro do carro e seguiu, lembrando uns versos de Paul Éluard: “Há muitos mundos, mas todos estão neste”.

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Renata Penzani

tem 26 anos, é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista e, apesar de trabalhar como repórter e assessora de imprensa, escreve ficção sempre que bate uma certeza de que a ficção existe pra gente não morrer de realidade. Seus trabalhos estão em www.renatapenzani.com
e www.furtacores.tumblr.com

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